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abril 20, 2005

Sem a ternura precisar morrer... arranque a etiqueta de sua roupa por Marcos Hill

Sem a ternura precisar morrer... arranque a etiqueta de sua roupa

MARCOS HILL

O convite para escrever sobre a atividade artística do grupo PORO veio matizar a suspeita de não existir mais tempo para se viver com alegria.

Tais estados de desesperança têm sido, muitas vezes, inevitáveis na medida em que, imersos na massa globalizada de informações circulantes, mesmo involuntariamente compartilhamos as experiências menos felizes de outros humanos espalhados pelo planeta.

A natureza das propostas do PORO me aproximou de realidades outras, ainda pouco conhecidas. Apesar de procurar me manter atento a essa contemporaneidade, alguns detalhes me escapavam sobre o ressurgimento de uma arte política e de articulação à margem do sistema das artes.

A partir da generosidade intrínseca ao grupo, pude me atualizar com relação à existência de um universo paralelo muito interessante, definido por vários coletivos que, contando com a agilidade de trocas favorecidas pelo cyberespaço, têm revitalizado com vigor perspectivas utópicas no combate ao egoísmo sistêmico, característico do capitalismo atual.

Entre os exemplos notáveis está o PIA - Projeto de Interferência Ambiental (pia55@yahoogrupos.com.br) criado por estudantes de arte para aglutinar estudantes e outros interessados em arte em torno de ações urbanas, sites specifics e outros tipos de informação, motivados pelo objetivo da troca.

Com a presente exposição, PORO completa três anos de existência. Trata-se de uma associação de afetos e empatias que hoje conta com a participação de Marcelo Terça-Nada, Brígida Campbell e, a nova integrante, Silvia Amelia.

As motivações principais do grupo giram em torno de intervenções urbanas, questionamentos sobre autoria e produção coletiva, visando ações que desejam relativizar o peso legitimador de interfaces institucionais da cultura e da arte. Autonomia e liberdade para a reinvenção de novos sentidos de mundo são pontos focais importantes.

Os conteúdos de suas discussões comprovam a seriedade do engajamento reconhecidamente beneficiado pela acessibilidade aos meios de comunicação globalizados e não-corporativos. Em seu site www.poro.redezero.org, PORO busca veicular imagens e conteúdos de suas atuações.

Nesse contexto, o espírito a ser destacado é o da alegria. Estado consciente que vem transmutando a memória revolucionária de décadas como a dos anos 1960 e 1970, fazendo vigorar o tão conhecido conselho de, sobre tudo, não perder a ternura.

A consciência propiciada pela aproximação com o grupo PORO estimulou-me especulações sobre o compromisso ético com o presente, espaço e tempo reais da vida ordinária. Às vezes, minha maturidade já um pouco carrancuda não me deixa esquecer de que vivemos diluídos em ambientes delicados cujas fragilidades são causa e efeito de brutalidades praticadas através de idéias, vontades ou atos. Me preocupo com a submissão inevitável às formas de controle cada vez mais eficientes que determinam socialmente nossos ambientes informatizados.

Sabemos sobre o controle perpetuado artificialmente por sistemas de dominação. Estendendo-se sobre a superfície do planeta, eles operam estratégias espetacularizantes geridas por senhores que desaparecem por trás do véu tecnológico do aparelho ambiguamente produtivo do progresso científico. Por uma questão de sobrevivência, não podemos esquecer que tais senhores controlam o mundo, escondendo o preço humano e material dos benefícios e do conforto concedidos a quem colabora.

Basta evocar a responsabilidade da mega multinacional Monsanto na disseminação dos transgênicos pelo mundo; multinacional que, já em 2005, controla 70% do mercado internacional de sementes. A respeito disto, PORO criou, em 2004, o trabalho Imagine...um mundo onde as sementes já nascem mortas...Este mundo é patrocinado pela Mon$anto. O texto foi impresso em português e inglês sobre camisetas distribuídas no Fórum Mundial desse mesmo ano.

Outro exemplo do controle quase invisível é a sub-reptícia participação da corporação multinacional Bechtel Group na invasão do Iraque. É importante lembrar que as "autoridades" raramente são forçadas a justificar seu domínio.

Enquanto isso, homens, mulheres e crianças lutam com os mais primitivos instrumentos contra a máquina mais brutal e destruidora de todos os tempos. Humilhações impostas por soldados norte-americanos e ingleses a prisioneiros iraquianos não conseguirão justificar o discurso de defesa da democracia e da liberdade proferidos por seus líderes!

Sem perder a ternura, PORO espalhou, entre 2003 e 2004, Imagem e Cor, afixando adesivos fluorescentes em paisagens urbanas abandonadas, descoloridas. Bem no centro dos adesivos aparecem as palavras COR e IMAGEM. Na deriva pelo abandono de inúmeros espaços cegos da cidade, o grupo apropria-se do ordinário e, anonimamente o transforma.

Quem terá visto essa intervenção quase silenciosa? O que terá pensado sobre cor e imagem em meio ao stress cotidiano das dívidas e da sobrevivência? O importante é perceber como o grupo realimenta-se destas inúmeras possibilidades improváveis, ampliando sua capacidade poética de desviar o enfadonho ritmo do dia-a-dia anonimamente. Através da natureza desviante de estímulos inusitados, PORO inventa oportunidades aleatórias que ampliam a sensorialidade.

O corpo contra "a máquina" - não contra o mecanismo construído para tornar a vida mais segura e benigna, para atenuar a crueldade da natureza; contra a máquina que sobrepujou o mecanismo: a máquina política, a máquina dos grandes negócios, a máquina cultural e educacional que fundiu benesses e maldições num todo racional. 1

Este "contra" assume outras dimensões no contexto mediatizado em que o grupo PORO atua. Seu posicionamento crítico diferenciado me remete, mais uma vez, à revolucionária década de 1960, quando o filósofo alemão Herbert Marcuse já afirmava não haver razão "para que a ciência, a tecnologia e o dinheiro não repitam a tarefa de destruição e, depois, executem a tarefa de reconstrução à sua própria imagem e semelhança" 2.

Com surpreendente clarividência, Marcuse foi, em seu tempo, um digno representante daqueles que se recusam a fazer o jogo. A Palestina, o Vietnam, a Nicarágua e, mais recentemente, a Bósnia, o Afeganistão e o Iraque são provas históricas de um futuro programado imposto à força.

Enquanto massa organizada e manipulada que somos, lidamos com sutis estratagemas de especulação financeira e política, definidos por presenças imperceptíveis. E as adjetivações se sucedem: são microfísicas, operações tipo micróbio, produções ocultas garantidas por tecnologias silenciosas, proliferando nas estruturas tecnocratas; desviando seu funcionamento através de uma multiplicidade de táticas articuladas nos detalhes da vida cotidiana.

Apropriando-se da mesma sutileza, PORO revisitou Cildo Meireles, carimbando as iniciais FMI em notas de um real. Com as palavras FOME E MISÉRIA INTERNACIONAL circundando estas iniciais, a inserção em circuitos ideológicos se completa.

Ao olhar mais de perto o que PORO está fazendo, reconheço a atividade de andarilhos urbanos cujas propostas visuais vêm de encontro à defesa da vida. Em outra obra de 2004, Uma cidade sustentável é uma cidade...diversa, justa, ecológica, policêntrica, criativa, isso fica claro. Ou no Jardim, onde flores de papel-celofane vermelho são plantadas em canteiros abandonados e depois, fotografadas.

A intenção de conectar fluxos urbanos amorfos com textos colados aleatoriamente sobre as paredes das ruas ou com flores de papel que modificam a paisagem provoca novas compreensões sobre a necessidade de se confrontar com a produção e consumo do supérfluo, dos novos inventos, do obsoletismo planejado e dos meios de destruição, estabelecendo pontos de contato com pessoas que não têm nada a ver com arte.

Percebo que tanto a ligação com circuitos alternativos quanto o trabalho na rua desde 2001, propiciaram maturidade aos artistas do grupo. Na ação Setas (2002), anterior à formação de PORO, a busca de novas interfaces expressivas já indicava uma necessidade "biológica" de liberdade. Setas grafitadas em vermelho apontam para plantinhas que nascem em meio ao concreto urbano.

Segundo o filósofo Marcuse, "Por natureza, a juventude está na primeira linha dos que vivem e lutam por Eros contra a Morte e contra uma civilização que se esforça para encurtar o 'atalho para a morte', embora controlando os meios capazes de alongar esse percurso." 3

Ressonâncias de Setas foram encontradas na África do Sul, através do pensamento urbanista defendido pelo arquiteto Doung Jahangeer que, ao me mostrar recentemente a cidade de Durban, indicou os mesmos pequenos espaços explicitados por Setas, afirmando que "a beleza começa a se desenvolver a partir de imperceptíveis espaços entre as coisas".

Desde a experiência sulafricana, pude constatar que pairam sobre o mundo necessidades libertárias de solidariedade com todos os infelizes da Terra; uma solidariedade quase instintiva, impulsiva ativação de necessidades "orgânicas", que normalmente se encontram reprimidas ou suspensas; necessidades de fazer do corpo humano um instrumento de prazer e não de labuta.

Engendrar formas clandestinas assumidas pela criatividade dispersa, tática e alterada dos grupos e indivíduos que já reconhecem sua inevitável inserção nas redes disciplinares do aparato produtivo 4 me parece ser uma das mais importantes estratégias compartilhadas entre PORO e as redes de coletivos com as quais o grupo se comunica.

Desde Seatle e Gênova, uma nova dinâmica de politização se disseminou pelas gerações mais jovens. Em poucos anos, começaram a pipocar coletivos de artistas pelas principais capitais brasileiras, problematizando a realidade social e cultural da região onde estão sediados. PORO se inclui nesta lista.

Segundo o artista plástico Edson Barrus, um dos principais catalizadores dessa geração, há um desejo de "práticas que liberem nosso poder e que transformem nossas vidas através do que criamos espontaneamente e sem nenhuma idéia do resultado...", permitindo "...algo que possa ser discutido, mas nunca entendido pelo olho treinado e controlador; algo sem potencial comercial, mas de valor além de seu preço, que dependa da situação e não do estilo ou conteúdo." 5

Relativizo a opinião de um curador famoso que, ao ser entrevistado sobre esse novo momento do contexto artístico brasileiro, afirmou que "dificilmente essas alternativas substituirão a objetividade do mercado e do circuito de arte, mas os melhores artistas desses grupos têm por destino um lugar certo nas instituições, que agora, tanto criticam." 6

Penso que essa afirmação desvia de modo um pouco oportunista o foco de questões mais necessárias para a constatação da importância de tais atuações. Não me parece que em algum momento, as alternativas desacreditadas tenham pretendido substituir a objetividade do circuito e do mercado de arte. Pelo contrário, reconhecendo sua rigidez peculiar e usando-a como referência, as novas estratégias artísticas se estabeleceram.

Do mesmo modo, não consta que os jovens artistas envolvidos nesse processo sejam tão ingênuos a ponto de não perceberem sua involuntária inserção nas redes disciplinares do aparato produtivo, mesmo que este os exclua. Por isso, me parece um pouco cínico afirmar como destino dos melhores artistas um lugar certos nas instituições criticadas. Certamente, atuar junto às instituições não caracteriza nenhum conflito para esses jovens.

E, confrontar não significa negar ou destruir, nem se eximir. Ao contrário, os resultados que depreendo das múltiplas iniciativas, demonstrando vontade de inserção na vida e de transformação do vigente, indicam uma necessidade de compreensão da natureza do mundo ao redor.

Trata-se da tomada de consciência sobre o desejo e a responsabilidade de fornecer novos modelos de significação produzidos ativamente e não passivamente (institucionalmente).

Possivelmente, a conseqüente problematização dos valores e dos critérios de qualidade cristalizados pelo circuito pareça uma ameaça aos olhos treinados de quem, hoje, o controla. Humana demasiadamente humana é a pulsão reacionária de qualquer poder estabelecido.

Reconhecendo como vitais as provocações propostas pela recente sociabilidade possível entre subjetividades convergentes, prefiro finalizar esse texto sobre a produção artística do grupo PORO, com uma passagem do comentário crítico que Jonathan Rée faz sobre o pensamento de Heidegger, referência que supera qualquer miopia inerente a conflitos entre classes e gerações:

"Heidegger irá agora discorrer longamente sobre como o autêntico ser-com-outros degenera em mero 'ser-entre-outros' (Untereinandersein), e, assim, em inautenticidade (Uneigentlichkeit). Inautenticidade é o que sucede quando não 'possuímos' a nós mesmos - quando negligenciamos a peculiaridade de nossa existência como intérpretes do mundo, isto é, como Daseins, e tratamo-nos como se fôssemos apenas mais uma das entidades à-mão ou simples-existências com que deparamos no curso de nossa experiência. A inautenticidade surge, em particular, quando nos entendemos como eus cartesianos e vivemos nossas vidas quanto ao que Jean-Jacques Rousseau denominou amour-propre, olhando constantemente por sobre nossos ombros e comparando nossos 'eus' com os dos outros. Ficamos tomados pela idéia de estarmos à frente ou atrás, de sermos mais imponentes ou mais insignificantes, de sermos ou não mais elegantes que os outros, ou tão hábeis e experientes, ou tão jovens e belos. Em nossa ansiedade de nos distinguir dos demais tornamo-nos, porém, dependentes deles - não de alguém em particular, mas do outro em geral..." 7

Viva a convivialidade buscada por PORO e por outros grupos que desejam substituir a lógica da identidade (individual) pela lógica da identificação (coletiva) na vivência de um fazer artístico que procura por um modo mais interessante de existência!

Belo Horizonte, Abril de 2005.

Marcos Hill é professor de História da Arte nos cursos de graduação e pós-graduação da Escola de Belas Artes da UFMG. Vive e trabalha em Belo Horizonte.

1 MARCUSE, Herbert. Prefácio político. IN: ______. Eros e civilização. Uma interpretação filosófica do pensamento de Freud. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1999. P. 17.

2 Idem, ibdem, p.19.

3 Idem, ibdem, p.22.

4 CERTEAU, Michel de. General Introduction to the Practice of Everyday Life [1980]. IN: HIGHMORE, Ben (ed.). The Everyday Life Reader. London: Routeledge, 2002. pp. 63-75.

5 MONACHESI, Juliana. A explosão do a(r)tivismo.IN: Caderno MAIS, Folha de São Paulo, 6 de abril de 2003.

6 Idem, ibdem.

7 RÉE, Jonathan. Heidegger.História e Verdade em Ser e Tempo. São Paulo: UNESP, 2000. Pp.31.

Posted by Patricia Canetti at 1:00 PM | Comentários(1)
Comments

Ola!

Fiquei feliz em ler em palavras as realizacoes internas, as observacoes silenciosas de um mundo tao estranho.
Por favor me mandem um canal para que eu possa estar em contato, lendo suas publicacoes, trocando ideias.
Parabens.

Posted by: Luciane Briotto at julho 10, 2005 9:20 PM
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