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setembro 17, 2004

Entrevista com Arthur Omar, por Joanne Martins

O Transfigural (ou 3 perguntas para Arthur Omar)

Entrevista por e-mail a Joanne Martins.

Joanne Martins (NYU): As imagens dos seus filmes e vídeos trabalharam com uma desconstrução radical e chegam a materialidade mesma do filme ou a fluidez absoluta, nos vídeos mais recentes. Na fotografia e artes plásticas você tem se dedicado a gêneros como o retrato, a paisagem, num trabalho de reconstrução e investigação na direção de uma nova iconografia brasileira. Nos dois casos explodindo os clichês da "identidade nacional", como seu trabalho é percebido no Brasil?

Arthur Omar: Seria melhor perguntar para os críticos. Mas uma coisa curiosa é como a arte brasileira ainda funciona no regime das capitanias hereditárias. Por ter vindo do cinema e do vídeo levei um tempo para ser aceito no meio das artes plásticas. Os fotógrafos dizendo sempre que bom mesmo é meu trabalho no cinema e na videoarte, o gueto do cinema (o mais conservador) achando ótimo eu ter "ido" para as artes plásticas, onde posso ser aceito como artista experimental, o pessoal da "arte contemporânea" querendo me enquadrar como moderno e clássico, o que pra mim é um grande elogio, apesar de entender contemporaneidade como justamente uma hipermodernidade, onde tudo se acumula e várias temporalidades se cruzam. Se juntar tudo isso, não deixa de ser uma boa definição do meu trabalho: são imagens em trânsito.O que existe de "moderno" no meu trabalho é o fato de eu dominar, no sentido de uma intimidade, corpo a corpo, sintonia fina, as técnicas que trabalho. Como domino, posso descostruir de dentro, não aplico borrões, desfocagens, tremidos nas minhas imagens, como "aparência" de contemporâneo. Desconstruo, quando quero, no ato mesmo de capturar, de conceber e trabalhar as imagens, num corpo a corpo, no risco de perder tudo. Isso é minha radicalidade. Mas fico muito (mal) impressionado com esse corporativismo dos grupos, acho que é briga por mercado mesmo, pois não têm uma discussão mais consistente, nem uma compreensão da trajetória de um artista, na sua singularidade. Vivo no Rio de Janeiro e me sinto exilado. Em São Paulo a mobilidade é muito maior, encontro uma real atenção à singularidade de cada artista.

Sobre os trabalhos recentes estou investigando a presença do outro na própria figura e o simbolismo na paisagem. Não trabalho apenas sobre a desconstrução da linguagem, seja qual for, isso é muito "contemporâneo" e acho que estamos entrando num momento, alguns teóricos chamam de hipermoderno e eu, gosto de dizer, pós-contemporâneo (que não tem nada a ver com cronologia, não uso relógio, gosto de camadas geológicas), que é a possibilidade de viver intensamente, simultaneamente, numa só vida, toda a história da arte, como um aleph, um instante mágico, hipersaturado. Isso me perturba e me interessa. Pode ser a ilusão da simultaneidade, criada pelas novas tecnologias do tempo real, do on-line. O contemporâneo está muito ligado a uma desconstrução, negação, ausência. Eu levei isso as últimas consequências em alguns dos meus filmes e vídeos, agora, vivo um outro momento da tecnologia e das comunicações. e o meu trabalho é uma tentativa de contribuir para a reconstrução do objeto e das significações, disputando o sentido com mídia..

O figurativismo, o retrato, a paisagem, podem adquirir hoje um sentido radicalmente outro, principalmente quando certa estética contemporânea se torna um novo clichê. Quando o Nokia Trends, esse mega evento em São Paulo, prova que a "vanguarda" é um rótulo de marketing e de mercado que ajuda a vender celulares e serviços não me interessa me apresentar dessa forma. Não sou purista, uma imagem minha pode circular em qualquer midia ou meio. A Globo resolveu acompanhar minha viagem ao Afeganistão na última Bienal de São Paulo e me colocar no Fantástico. Por conta disso alguns criticos e artistas acharam que as imagens que apresentei - estruturas precárias, quase-esculturas, espaços vazios, carros retorcidos, muros crivados, marcas visuais da guerra que destruiu o Afeganistão percebidas como zonas de catástrofre, espaços ao mesmo tempo reais, hiper-realistas, e fantasmagóricos - eram meramente "representativos". Os próprios artistas olham a obra de um outro e só vêm os seus clichês psiquicos. Me interesso pela política do simbólico e do simbolismo. Sentidos do real, efeitos do real, tornados imagem. Quero disputar sentidos e criar realidades que a arte, como contra-discurso, como impensado, poderia fazer.


Joanne Martins: E sobre o mercado de arte?

Arthur Omar: Minha obra é o processo em que minha vida se expressa. Nos anos 80 publiquei nos jornais um anúncio que dizia "Arthur Omar profissão Arthur Omar". Eu não sabia ao certo o que queria dizer, estava angustiado e inquieto, agora acho que sei: um dia todos serão artistas, produtores e maquinadores de processos singulares, não precisarei mais vender obras, pois todos terão um salário para existir. Se chegamos no auge da massificação, a vida ainda pode ser um processo singular. Ou seja, se existir um "mercado" para minha singularidade, existirá um mercado para minha arte.


Joanne Martins: Bem, eu sou apenas uma estudante brasileira de arte contemporânea, atualmente em Nova Yorque, e não tenho nada, digo dinheiro, mas se eu pudesse eu comprava a tua vida, não pra mim, mas para deixá-la num banco de dados público de processos e singularidades para uso coletivo, e para, depois de você, ou junto com você, alguém poder vivê-la de novo. Mas faltou falar do Transfigural...

Arthur Omar: Ainda estou pensando sobre isso. Nesse exato momento estou com um livro aberto na imagem de Malevich morto. Ele foi velado e depois enterrado numa tumba suprematista, com um quadrado negro como epitáfio. Que imagem incrível para expressar uma parte da arte do século XX! Na próxima conversa tento explicar melhor. Para a exposição de Belo Horizonte enviei uma série de imagens de quase-figuras, branco sobre o branco, que eu chamei de "Indio suprematista". Brancas, brancas, brancas. Transfigural?

Setembro de 2004

Joanne Martins é estudante do curso de Artes da New York University.

Arthur Omar apresenta-se na exposição Santissima Trindade, juntamente com Mário Cravo Neto e Miguel Rio Branco, na Murilo Castro Escritório de Arte.

Mais informações da exposição:
Murilo Castro Escritório de Arte
R. Paraíba 1323
Savassi Belo Horizonte MG
31-3287-0110

Posted by João Domingues at 2:06 PM