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dezembro 18, 2020

Escrito no Corpo por Keyna Eleison e Victor Gorgulho

Escrito no Corpo elege parte do acervo fotográfico do Teatro Experimental do Negro (TEN) como ponto de partida e inflexão para discutir questões ligadas à raça, identidade e corpo. Seria possível, portanto, pensar o teatro fundamentado em dinâmicas e práticas tradicionais pretas? E a arte? Fazer junto, em coletividade, é de caráter preto. Este pagode proposto – união epistemológica de saberes do corpo para fruição em conjunto – traz a conversa a partir das imagens e das ideias de Abdias Nascimento e do TEN e nos dá suporte para pensarmos a arte e os artistas de hoje.

[scroll down for English version]

Fundado no Rio de Janeiro em 1944, o Teatro Experimental do Negro, idealizado por Abdias Nascimento, tinha como propósito central a reivindicação de espaço para pessoas negras no teatro da época. No entanto, se a estratégia inicial do TEN consistia em uma apropriação do teatro como espaço de poder, sua ação se revelaria um tanto mais tentacular, costurando uma complexa teia de eventos e agentes em diferentes frentes de articulação. A companhia foi pioneira em organizar, por exemplo, cursos de alfabetização, frentes trabalhistas e até concursos de beleza que reivindicavam e enalteciam a cultura negra em uma sociedade profundamente racista, pautada ainda pelo mito da “democracia racial”. Apesar das atividades do TEN terem se encerrado em 1961, por conta do exílio de Nascimento, os ecos de sua existência continuariam a se dar nas décadas seguintes e – por que não? – ainda hoje.

A reflexão acerca de uma dimensão narrativa do corpo perpassa diversos dos trabalhos da mostra, especialmente as foto-performances de Ana Beatriz Almeida, Antonio Tarsis, Ayrson Heráclito, Castiel Vitorino Brasileiro e Carla Santana. Através de diferentes abordagens, tratam-se de obras que partilham a ideia de uma escrita de si através do ato performativo, aqui apresentado em suas diversas possibilidades de documentação. Melissa de Oliveira caminha em via oposta ao arquitetar um olhar sobre o outro, entendendo a fotografia como um poderoso exercício de alteridade e construção de subjetividade.

O vídeo aparece como meio para gestos performáticos de natureza similar, seja na busca por seu próprio reflexo empreendida por Rodrigo Cass em Narciso no mijo, ou na documentação da ação Devolta, de Diambe, em que a artista coreografa um círculo de fogo ao redor da estátua de D. Pedro I, na Praça Tiradentes, Rio de Janeiro.

A imaginação em torno de outras possíveis narrativas históricas também aparece na obra Mapa de Lopo Homem II, de Adriana Varejão, que nos recorda das feridas legadas pela violência do processo colonial e na escultura em gesso de Armando Andrade Tudela, que evoca a imagem de um busto desfigurado, uma "cabeça" branca em processo de desconstrução. A problematização em torno do imaginário colonial está também na obra de Herbert de Paz, que preenche uma silhueta humana com imagens retiradas da revista História do Brasil, editada pela Biblioteca Nacional.

O interesse pela fricção entre corpo e escultura também se manifesta na obra de Iagor Peres. Através da mistura de matérias orgânicas e sintéticas, o artista cria uma pele-material que se esgarça pelo espaço, repousando sobre blocos de concreto. Esta ausência da figura humana – sugerida pela presença de outros artifícios – também está no Vestido enredado de espinhos de Efrain Almeida e nos painéis de LED de Agrippina R. Manhattan, cuja serpente de Ficção e fantasia forja uma narrativa autobiográfica.

A narratividade do corpo reaparece nas pinturas de Panmela Castro e de Moisés Patrício. Ao passo em que as obras de Castro, da série Vigília, são retratos íntimos de pessoas próximas a artista que se dispuseram a acompanhá-la durante uma noite do período da pandemia, os personagens das telas de Patrício fazem referência a ancestralidade do candomblé.

Então é melhor falar
Tendo em mente que
Não esperavam que sobrevivêssemos

Audre Lorde

Se a construção racista rasgou o mundo em dois capítulos, busquemos suturas possíveis para a escrita da história e de estórias. Narrativas outras, habitadas por vencedores insuspeitados, por imperadores destituídos e bustos desfigurados. Trazendo ao texto Audre Lorde, evocamos o corpo e o pensamento de cada pessoa aqui presente com seu trabalho, pensamento e fazer. Esta exposição fala de uma arte possível, que só foi possível por linguagens, éticas e estéticas que caminham na linha da abundância. Vejam que estamos aqui. Fazendo e sendo arte.


Engraved into the Body takes part of Teatro Experimental do Negro (TEN) photographic collection as a starting point and a point of diversion to discuss issues related to race, identity and the body. Would it be possible, therefore, to think of the theater based on traditional Black dynamics and practices? And art? Doing it together, collectively, has a Black character. This proposed "pagode" — an epistemological union of body knowledge for communal enjoyment — brings the conversation from the images and ideas of Abdias Nascimento and TEN and gives us support for thinking about today's art and artists.

Founded in Rio de Janeiro in 1944, the Teatro Experimental do Negro, conceived by Abdias Nascimento, had as its central purpose to claim space for Black people in the theater of the time. However, if the initial strategy of TEN consisted in the appropriation of the theater as a space of power, its activities would prove to be manifold, sewing a complex web of events and agents in different fronts of action. The company was a pioneer in organizing, for example, literacy courses, labor fronts and even beauty contests that claimed and praised Black culture in a deeply racist society, guided by the myth of “racial democracy”. Although TEN's activities came to halt in 1961 — due to Nascimento's exile —, its existence would continue to resound in the following decades and - why not? — even today.

The idea of a narrative dimension to the body permeates several works in the exhibition, particularly the photoperformances by Ana Beatriz Almeida, Antonio Tarsis, Ayrson Heráclito, Castiel Vitorino Brasileiro and Carla Santana. Through different approaches, these images share the notion of self-writing made possible by the performative act and its multiple forms of documentation. Melissa Oliveira's photography, in turn, goes in the opposite direction and attempts to direct the gaze at the Other, understanding this support as a powerful exercise in alterity and the construction of subjectivity.

Video appears as a medium for recording other performative gestures of a similar nature, whether in the search for one's own reflection as undertaken by Rodrigo Cass in Narciso no mijo, or in the documentation of Diambe's Devolta action, in which the artist choreographs a circle of fire around of the statue of D. Pedro II, at Tiradentes Square, Rio de Janeiro.

The desire to forge other possible historical narratives also surfaces in the painting Map of Lopo Homem II by Adriana Varejão, which reminds us of the wounds left by the violence of the Brazilian colonial process, and in the plaster sculpture by Armando Andrade Tudela, evoking the image of a disfigured head in the process of deconstruction. Issues around colonialism is further manifested in the work of Herbert de Paz, who fills the silhouette of a human figure with images of iconographic origin, today widely debated and dissected for their controversies.

The interest in the friction between body and sculpture is also manifested in the work of artist Iagor Peres. He creates a skin-material from a mixture of organic and synthetic matter that stretches through space, resting on concrete blocks. Such absence of the human figure - hinted at by the presence of other devices - is also to be found in Efrain Almeida's Vestido, enshrined in a crown of thorns, and in the sculpture by Agrippina R. Manhattan, whose Serpente forges an autobiographical tale.

The narrative of the body reappears in paintings by Panmela Castro and Moisés Patrício. While Castro's works (from the Vigília series) are intimate portraits of people close to the artist, who accompanied her during a pandemic night, the characters in Patrício's paintings reference the candomblé rituals.

So it is better to speak
remembering
we were never meant to survive.

Audre Lorde

If the racist construction has torn the world into two chapters, let us look for possible stitches for writing history and stories. Other narratives, inhabited by unsuspected winners, destitute emperors and disfigured busts. By bringing Audre Lorde into the fold, we evoke the body and thought of each person present here with their work, thinking and doing. This exhibition speaks of a possible art, which was only made possible by languages, ethics and aesthetics that walk the line of abundance. To see that we are here. Making and being art.

Posted by Patricia Canetti at 12:01 PM