Página inicial

Arte em Circulação

 


setembro 2019
Dom Seg Ter Qua Qui Sex Sab
1 2 3 4 5 6 7
8 9 10 11 12 13 14
15 16 17 18 19 20 21
22 23 24 25 26 27 28
29 30          
Pesquise em
arte em circulação:

Arquivos:
setembro 2019
agosto 2019
julho 2019
junho 2019
maio 2019
abril 2019
março 2019
fevereiro 2019
janeiro 2019
dezembro 2018
novembro 2018
outubro 2018
setembro 2018
agosto 2018
julho 2018
junho 2018
maio 2018
abril 2018
março 2018
fevereiro 2018
janeiro 2018
dezembro 2017
novembro 2017
outubro 2017
setembro 2017
agosto 2017
julho 2017
junho 2017
maio 2017
abril 2017
março 2017
fevereiro 2017
janeiro 2017
dezembro 2016
novembro 2016
outubro 2016
setembro 2016
agosto 2016
julho 2016
junho 2016
maio 2016
abril 2016
março 2016
fevereiro 2016
janeiro 2016
novembro 2015
outubro 2015
setembro 2015
agosto 2015
julho 2015
junho 2015
maio 2015
abril 2015
março 2015
fevereiro 2015
janeiro 2015
novembro 2014
outubro 2014
setembro 2014
agosto 2014
julho 2014
junho 2014
maio 2014
abril 2014
março 2014
fevereiro 2014
janeiro 2014
novembro 2013
outubro 2013
setembro 2013
agosto 2013
julho 2013
junho 2013
maio 2013
abril 2013
março 2013
fevereiro 2013
janeiro 2013
dezembro 2012
novembro 2012
outubro 2012
setembro 2012
agosto 2012
julho 2012
junho 2012
maio 2012
março 2012
fevereiro 2012
dezembro 2011
outubro 2011
setembro 2011
agosto 2011
julho 2011
junho 2011
maio 2011
abril 2011
janeiro 2011
dezembro 2010
novembro 2010
outubro 2010
setembro 2010
julho 2010
maio 2010
abril 2010
março 2010
dezembro 2009
novembro 2009
outubro 2009
setembro 2009
agosto 2009
julho 2009
junho 2009
maio 2009
abril 2009
março 2009
janeiro 2009
dezembro 2008
novembro 2008
setembro 2008
maio 2008
abril 2008
dezembro 2007
novembro 2007
outubro 2007
setembro 2007
agosto 2007
julho 2007
junho 2007
maio 2007
abril 2007
março 2007
fevereiro 2007
janeiro 2007
dezembro 2006
novembro 2006
setembro 2006
agosto 2006
julho 2006
maio 2006
abril 2006
março 2006
fevereiro 2006
janeiro 2006
dezembro 2005
novembro 2005
outubro 2005
setembro 2005
agosto 2005
julho 2005
junho 2005
maio 2005
abril 2005
março 2005
fevereiro 2005
novembro 2004
junho 2004
abril 2004
março 2004
fevereiro 2004
janeiro 2004
dezembro 2003
novembro 2003
outubro 2003
setembro 2003
agosto 2003
As últimas:
 

setembro 5, 2019

Bispo do Rosário: as coisas do mundo por Ricardo Resende

Bispo do Rosário: as coisas do mundo

RICARDO RESENDE

Dizem que Arthur Bispo do Rosário ouvia vozes que o ordenava a organizar o mundo. E, nessa tarefa de dar conta das coisas terrenas, preparou também uma obra para o Juízo Final que carregou ao longo da vida, como se fosse uma condenação. Um trabalho autoral, único, que serviu de testemunho da sua experiência pessoal, religiosa, filosófica e, claro, manicomial (não foi pouco tempo: passou 50 anos entre idas e vindas de manicômios, depois de ter sido diagnosticado como esquizofrênico).

Seria sua obra um testemunho dessa passagem pela Terra, um luto diante da finitude do corpo e da impossibilidade de uma vida plena fora dos muros do hospício? Foi uma condição que lhe foi imposta pela sociedade, claro, descrente de suas visões religiosas alucinadas.

Um artista: é assim que devemos identificá-lo, mesmo não considerando ele próprio que o que fazia seria arte. É certo, Bispo organizou a seu modo um mundo, como uma necessidade para se apegar à vida, e deu a isso, sem querer, forma de arte. Desfiava os uniformes azulados usados no hospício e, com os fios, delicadamente mumificava seus “pertences”. Assim, criou cerca de 900 peças; todas partes de um imenso “xadrez”, em que retratou a poética do cotidiano humano, da vida fora e dentro de um dos maiores polos manicomiais do país, a Colônia Juliano Moreira, no que era, à época, os cafundós do Rio de Janeiro, atual Jacarepaguá.

Organizava essas coisas, serializando-as, como se estivesse na linha de produção de uma fábrica – de tecidos, quiçá. Refiava, costurava, bordava e recobria com linha azul. Catalogou insistentemente os objetos, nomeou-os minuciosamente, em clara intenção de museificá-los, preservá-los para gerações do futuro.

Esse mesmo arquivo de objetos que organizou foi recatalogado no grande Manto da Apresentação (s.d.). Toda a obra está ali bordada, adornando luxuosamente a roupa requintada que, como rei, iria vestir para o encontro com Deus. Também como o profeta Noé, Bispo construiu seu Grande Veleiro (s.d.), onde guardaria tudo aquilo que queria preservar do mundo material dos homens, no fim dos tempos, no outro grande dilúvio que se abateria sobre as terras e oceanos.

Esta exposição pretende criar um diálogo de Bispo do Rosário com o espaço expositivo da Fábrica de Arte Marcos Amaro (FAMA). Este em que, antigamente, funcionava a Fábrica São Pedro de tecidos, fundada em Itu, em 1910. E cuja produção se destacou em pouco tempo – já em 1912, operava com mais de 150 teares; em 1944, contava com 2 mil operários e foi a que mais empregou na cidade nesse setor.

Cresceu para os lados: são hoje mais de 20 mil metros de área construída. E, apesar de esse palco do trabalho operário ter tido suas atividades encerradas em 1990, prenunciando novos tempos e em meio à abertura do mercado têxtil para os chineses, a história da fábrica não se apagou. Em 2017, a FAMA inaugurou uma nova era de ocupação para os velhos galpões em estado ruinoso. Agora, os prédios guardam não só a memória do lugar, mas também abrigam arte. Um acervo que vem se avolumando a cada dia.

Em Bispo do Rosário: as coisas do mundo, a seleção de trabalhos de Bispo observou o gesto de serializar, organizar e multiplicar como prática artística, tal qual se via na indústria têxtil, quando os operários é que “produziam” as coisas que seriam usadas no cotidiano. Canecas, pentes, gravatas, sapatos, sandálias, chapéus e roupas; são essas as coisas organizadas por Bispo em suportes que lembram as vitrines dos camelôs de ruas, vendedores ambulantes que se espalham pelas ruas das cidades do país com seus mostruários de mercadorias a serem vendidas.

Vitrines que fazem um paralelo entre o expediente controlado do operário braçal, conduzido a repetir gestos e ações serializadas por horas a fio, e o dia a dia dos pacientes dos manicômios. Como a história que Bispo viveu na Colônia Juliano Moreira, refazendo gestos diária, insistente e compulsivamente por décadas, até sua morte na cidade do Rio de Janeiro. Foi diante dessa condição asilar que Bispo inventou seu próprio espaço de viver, uma fuga da normatividade que rege a vida humana nesses lugares, a fábrica, o hospício e fora deles.

É esse universo que se pretende apresentar ao público do interior paulista Bispo do Rosário, o artista não artista, aquele que nega sua condição de criador. Uma mostra de 50 trabalhos que indicam a sua insistência de pertencer ao mundo da produção, criando coisas da vida cotidiana. Também a sua maneira de nos contar da sua passagem pela vida terrena.

Bispo do Rosário: as coisas do mundo também cria um diálogo de Bispo do Rosário com quatro artistas da coleção da FAMA. São elas: Louise Bourgeois, Carmela Gross, Nazareth Pacheco e Sonia Gomes. Em comum, têm o gesto de costurar e construir coisas da mesma maneira como fazia o sergipano. Mulheres que se acostumaram a tecer o mundo.

Ricardo Resende
Curador
Fábrica de Arte Marcos Amaro - Itu

Posted by Patricia Canetti at 8:33 PM