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abril 5, 2019

Philippe Decrauzat - Circulation por Matthieu Poirier

Philippe Decrauzat - Circulation

MATTHIEU POIRIER

Desde o início dos anos 2000, a prática proteiforme de Decrauzat distingue-se pela sua abstração geométrica vibrante e dinamogênica, apresentada por meio de shaped canvases [telas moldadas], pinturas murais, instalações, filmes e esculturas. Aborda criticamente várias correntes históricas: arte concreta, neoconcretismo, arte perceptiva, cinetismo, arte ótica e arte minimalista, que são revisitadas à luz de vários campos culturais, como o cinema, a física ondulatória, a arquitetura modernista, a música drone ou ainda as ciências cognitivas. A atual exposição na Galeria Nara Roesler, que acontece simultaneamente nos espaços de São Paulo e do Rio de Janeiro, reúne cerca de trinta obras sobre o princípio comum da circulação. Essa circulação diz respeito ao olhar – como se guiado por trilhos óticos –, ao corpo do espectador, evoluindo no espaço e, finalmente, às fontes históricas que entram em ressonância. Isso porque a aparência gráfica imediata das obras é, acima de tudo, uma armadilha para o olho, que conduz o percurso incessante dos arcanos comuns da percepção e da memória. Esculturas, pinturas, ambientes ou filmes revelam-se, assim, menos objetos materiais que gatilhos de uma experiência do olhar, como ferramentas de uma especulação estética e semântica.

A parte de São Paulo abre com três esculturas chamadas Les Perspecteurs. A obra faz referência direta a uma gravura de Abraham Bosse publicada em 1648 em um tratado sobre a perspectiva e na qual pirâmides descentradas e delgadas, formadas exclusivamente por suas arestas, materializavam a visão humana ao projetar-se no chão em vários pontos de vista (sentado, de pé e de cima). Na transposição escultural e imaculada de Decrauzat, elas lembram as estruturas cristalinas de Sol LeWitt ou Robert Smithson e destacam-se, no espaço da exposição, sobre dois conjuntos de pinturas: o das Black Paintings, em que a figura pintada determina a forma do suporte, e da série Slow Motion, com seu motivo ortogonal. Variam de uma pintura para a outra o número exato de linhas e a altura da transição de vermelho para branco, o que leva a um "aumento do branco no espaço", ou à aparição de uma névoa que se elevaria do solo corroendo a figura da grade e fazendo com que se confundam as pinturas e o trilho das molduras. Essa modalidade, focada agora na degradação cromática de uma única linha sobre a parede imaculada, encontra-se desta vez sob a forma de uma pintura mural, Cut!, no espaço expositivo do Rio de Janeiro, e evoca os tondi fugazes de Robert Irwin ou, ainda, os Zips de Barnett Newman.

A relação espacial com a parede e o white-cube também é crucial para o tríptico Black Paintings, cujo formato varia de uma pintura para outra, o que nos faz pensar por um momento, de acordo com um princípio elementar de perspectiva, que se situam em distâncias diferentes. Como em X Wave, as curvas correspondem ao corte das molduras e fazem dos quadros objetos ambíguos, entre pintura e escultura. Sua figura faz o eco dos patterns de motivos florais e geométricos em Giacomo Balla, mas também do estilo gótico flamboyant [flamejante]. Isso porque a maioria das pinturas de Decrauzat derivam de um simples módulo gráfico desdobrado segundo uma simetria central. Aqui uma cruz, uma rosa dos ventos ou uma ferramenta sinalética levam o olhar à periferia, igualmente convidando-o a mergulhar em seu fosso central, em um duplo movimento centrífugo e centrípeto que caracteriza da mesma forma a série de grandes pinturas em forma triangular Black Should Bleed to Edge apresentada no espaço do Rio de Janeiro.

Quanto à escultura Anisotropy, ela pode ser apresentada em uma base plana, como um jogo de xadrez, ou em uma parede, como uma pintura ou um baixo-relevo. O artista escolheu o nome por causa de propriedades físicas próprias, por exemplo, do cristal, que variam de acordo com o ângulo de observação. Sua forma serrilhada regular e concêntrica é inspirada em uma ferramenta científica recente, projetada para o estudo da circulação da água, mas em Decrauzat é o olhar – e não um fluído – que a escultura irradia. Essa ideia de um labirinto circular e vertiginoso é acentuada no filme Double Exposure, no qual ressurgem de forma ainda mais explícita as figuras do zoetrope [zootropo] – esse cilindro perfurado ancestral do cinema – e da arquitetura panóptica.

Decrauzat reconduz alguns sistemas de permutas de valores iniciados por Max Bill ou Richard Paul Lohse. No entanto, essas modulações excluem em Decrauzat a policromia para privilegiar os valores opostos no espectro, tais como preto/branco ou vermelho/azul, ou ainda para explorar os tons de cinza. Se elas recordam por estas razões os quadros "op" de Bridget Riley, ou ainda os Portraits minimalistas de Frank Stella, as composições da série Delay Exa perseguem uma lógica dedutiva, iniciada por Decrauzat em 2003, relacionada à propagação, ao eco e ao esgotamento de uma onda e seu sinal. Nessa série de shaped canvases em grandes dimensões que ocupa o salão principal do espaço de São Paulo, as permutações mencionadas dão origem a uma estrela de seis pontas. Como um circuito, ela tem trinta linhas concêntricas em torno de um centro oco. Em uma série, tais pinturas permanecem únicas em detalhes e distinguem-se entre si pelo número de suas linhas, a escala de seu motivo ou mesmo, como é o caso em Delay Exa, pelo significado de sua disposição. Ao reduzir a paleta para somente preto, branco e cinza (as "não cores" de Mondrian), vários elementos variam de um quadro para outro: o formato, a orientação, a progressão de um valor para o próximo.

Ludwig Wittgenstein, em seu Tractatus (1921), denunciou a confusão de duas linguagens com gramática e sintaxe próprias: por um lado, a do espaço visual ou fenomenal – "o parecer" – e, por outro, a do espaço físico ou geométrico – "o ser". Assim, a mesma tensão existe em Decrauzat entre intensificação dos efeitos e redução da forma. E quando o artista deixa fluir suas referências, não é, de forma alguma, com o propósito de mostrar de modo ostentatório, com transparência ou com erudição: o objetivo, didático, é enfatizar, além da simples influência, a importância das substituições, de sua constante circulação dentro do complexo processo de compor cada obra de arte digna de interesse.

Philippe Decrauzat - Circulation
Galeria Nara Roesler, São Paulo - 02/04/2019 a 01/06/2019
Galeria Nara Roesler, Rio de Janeiro - 17/04/2019 a 01/06/2019

Posted by Patricia Canetti at 2:53 PM