Página inicial

Arte em Circulação

 


junho 2018
Dom Seg Ter Qua Qui Sex Sab
          1 2
3 4 5 6 7 8 9
10 11 12 13 14 15 16
17 18 19 20 21 22 23
24 25 26 27 28 29 30
Pesquise em
arte em circulação:

Arquivos:
junho 2018
maio 2018
abril 2018
março 2018
fevereiro 2018
janeiro 2018
dezembro 2017
novembro 2017
outubro 2017
setembro 2017
agosto 2017
julho 2017
junho 2017
maio 2017
abril 2017
março 2017
fevereiro 2017
janeiro 2017
dezembro 2016
novembro 2016
outubro 2016
setembro 2016
agosto 2016
julho 2016
junho 2016
maio 2016
abril 2016
março 2016
fevereiro 2016
janeiro 2016
novembro 2015
outubro 2015
setembro 2015
agosto 2015
julho 2015
junho 2015
maio 2015
abril 2015
março 2015
fevereiro 2015
janeiro 2015
novembro 2014
outubro 2014
setembro 2014
agosto 2014
julho 2014
junho 2014
maio 2014
abril 2014
março 2014
fevereiro 2014
janeiro 2014
novembro 2013
outubro 2013
setembro 2013
agosto 2013
julho 2013
junho 2013
maio 2013
abril 2013
março 2013
fevereiro 2013
janeiro 2013
dezembro 2012
novembro 2012
outubro 2012
setembro 2012
agosto 2012
julho 2012
junho 2012
maio 2012
março 2012
fevereiro 2012
dezembro 2011
outubro 2011
setembro 2011
agosto 2011
julho 2011
junho 2011
maio 2011
abril 2011
janeiro 2011
dezembro 2010
novembro 2010
outubro 2010
setembro 2010
julho 2010
maio 2010
abril 2010
março 2010
dezembro 2009
novembro 2009
outubro 2009
setembro 2009
agosto 2009
julho 2009
junho 2009
maio 2009
abril 2009
março 2009
janeiro 2009
dezembro 2008
novembro 2008
setembro 2008
maio 2008
abril 2008
dezembro 2007
novembro 2007
outubro 2007
setembro 2007
agosto 2007
julho 2007
junho 2007
maio 2007
abril 2007
março 2007
fevereiro 2007
janeiro 2007
dezembro 2006
novembro 2006
setembro 2006
agosto 2006
julho 2006
maio 2006
abril 2006
março 2006
fevereiro 2006
janeiro 2006
dezembro 2005
novembro 2005
outubro 2005
setembro 2005
agosto 2005
julho 2005
junho 2005
maio 2005
abril 2005
março 2005
fevereiro 2005
novembro 2004
junho 2004
abril 2004
março 2004
fevereiro 2004
janeiro 2004
dezembro 2003
novembro 2003
outubro 2003
setembro 2003
agosto 2003
As últimas:
 

junho 6, 2018

Daniel Lannes: Dentição por Moacir dos Anjos

As pinturas de Daniel Lannes são onívoras. Nutrem-se de fontes diversas de imagens e técnicas para ganhar corpo original e denso. Cenas documentais ou imaginadas são tragadas para o interior das superfícies amplas onde as reinventa: algumas, vindas de décadas ou séculos atrás; outras, de quase ontem. Imagens históricas ou banais podem lhe interessar igualmente, desmanchando hierarquias convencionais que dão pouca atenção às segundas. E se é com tinta acrílica que esboça a arquitetura de linhas que evoca referências tão distintas, é com tinta à óleo que, sobrepondo-a à outra, põe suas pinturas à beira do abismo sensual que leva ao que não se conhece ainda. Dessa fome de muita coisa diferente, produz trabalhos diante dos quais o olho e a mente dançam em busca de significados possíveis, movimento que captura ou produz alguns deles sem conseguir traduzir totalmente o que é pintado em discurso ordenado e inequívoco. Faz todo o sentido, portanto, que sua produção recente referencie, de modo menos ou mais direto, o imaginário de deglutição do outro que informa o Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, escrito em 1928 e marco crucial do modernismo brasileiro. Daquele que come com fome, diria Glauber Rocha quatro décadas mais tarde, não se esperam modos contidos, mas a violência que marca, material e simbolicamente, a vida nos trópicos do sul do mundo.

Afastando-se de uma arte “digestiva”, própria de quem se acomoda com dietas regradas e suficientes, Daniel Lannes deixa à vista, em seus trabalhos, marcas de mistura e incerteza, em flerte aberto com um porvir diferente, feito mais de experimento do que de repetições do que já foi acerto. Essa disposição ao excesso do invento está presente no arco forte que ata, entre as décadas de 1920 e 1960, modernismo antropófago, cinema novo, tropicalismo e arte experimental brasileira. E também mais para atrás ou mais para adiante, em antecipações e reverberações que adensam a necessidade de fuga da fome e que dão forma incomum à vontade de comer. É nessa tradição que o artista mergulha em suas novas pinturas, em mostra que se chama, apropriadamente, Dentição – nome dado a cada uma das duas edições da Revista de Antropofagia, onde o manifesto acima citado foi publicado pela primeira vez.

Em “O filho pródigo”, a imagem de uma mulher que dá à luz um homem feito remete, no imaginário da produção simbólica do Brasil, à chegada ao mundo de Macunaíma, invenção modernista literária da década de 1920 que reaparece, muitos anos depois, como ação performática no cinema e no teatro brasileiros. Na proximidade da cor clara da mãe e da cor escura do filho que chega à vida há menos sugestão de convívio pacífico, contudo, do que reafirmação das desigualdades e conflitos que marcam o país desde seu início. “Guesa errante”, por sua vez, tem título emprestado de poema homônimo de Sousândrade que, escrito no final do século 19, foi admirado por modernistas e, já na década de 1960, por tropicalistas de vários campos. Mas se o texto original narra a trajetória de acuação e fuga de um adolescente indígena destinado a um ritual que o levaria à morte, a pintura de Daniel Lannes mostra uma mulher quase nua que, tendo atrás de si um homem envolto em sombras, parece se debater contra uma violência iminente. Nada, porém, é muito certo na produção pictórica do artista, que mais sugere do que afirma narrativas, convocando aquele que vê suas pinturas a devorá-las e reinventá-las desde o lugar que ocupa no mundo.

“Carrossel Napolitano” talvez seja a pintura que mais flerta com o espírito tropicalista de deglutição de tudo que está no entorno, quebrando barreiras entre alta e baixa cultura e valorando, dessa maneira, não somente o tido como popular, mas também o considerado “mau gosto”. O estilhaçamento da imagem pintada que cerca a mulher que ocupa o centro da tela parece reverberar um mundo onde não há mais referências certas, situação que confunde insegurança sobre o que existe e liberdade para inventar formas de vida novas. Não à toa, a pintura “A herança Asmat” retrata o autor do Manifesto Antropófago envolto em referências a um povo indígena supostamente canibal portando, ao mesmo tempo, espécie de escudo que talvez o queira proteger – inutilmente – não somente do que é novo e é espanto, mas do desejo infinito pelo que é do outro.

Posted by Patricia Canetti at 10:07 AM