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maio 22, 2018

Só nos resta girar. A vertigem pode nos dar a direção por Ricardo Resende

Só nos resta girar. A vertigem pode nos dar a direção.

RICARDO RESENDE

A fala da fala da fala: Marinaldo Santos, artista paraense de alma cigana, um dia disse a outro artista: “o caboclo só quer duas coisas na vida: uma porta para entrar e uma janela para enxergar”. “Como suportar tanto rigor em tanta simplicidade”, pensou o outro artista. [1]

A exposição de André Parente na Galeria Jaqueline Martins é essa janela aberta na fala do caboclo. Janela de dentro de um lugar seguro. É também um desatar do nó na garganta daqueles que hoje se sentem amordaçados. Desate que pode ajudar a liberar toda a angústia causada pelo atual momento político brasileiro. Através dessa janela Parente nos faz pensar, e pensar hoje pode ser tanto solução como problema. Só nos resta sair da fossa xingando e girando em Nagô. Um tremendo de um desabafo. Vai pra songa da mironga do kabuletê!. [2]

Pensar – ainda mais quando se expõem os pensamentos, que é o caso de André Parente – pode ser considerado uma forma de manifestar-se e se posicionar politicamente contra a normatividade brasileira. A arte pode ser até inútil, sem sentido algum. Algo atemporal e incompreensível, pois pode não caber na vida cotidiana. No entanto, há também a arte que toca, transforma, retira do lugar comum, provoca, que é subjetiva, que mexe com os sentidos e, portanto, é subversiva. Os vídeos de André Parente não perdem a relação da linguagem com o homem ao estenderem-se para a política. Não perdem na poética. Ele sabe arriscar-se na política sem perder a poesia da imagem, do gestual e da fala dentro de um trabalho de arte engajado.

É aqui que se coloca a pergunta: pode um artista se dizer apolítico? Pode um artista não se interessar por política e criar uma bolha na forma de um paraíso irreal, onde cria sem nenhuma repercussão na vida cotidiana? Arte inofensiva? Pois bem, diante do quadro social e político que se agrava dia após dia no mundo, um descalabro que parece não ter fim, é comum ouvir de artistas em posição confortável um retumbante “não sou político”! Por lidar com o humano, com a criação, por ter – o mais das vezes – percepção aguçada, por ser criativo e com isso ver mais claramente as coisas, o artista teria por obrigação simplesmente fechar os olhos e continuar a criar sem consequências.

Pois bem, não é esse o caso de André Parente. O artista é ousado ao trazer tal mostra para a Galeria Jaqueline Martins em momento tão complexo do ponto de vista social-político quanto este. Em alguns trabalhos que trouxe para a exposição Kabuletê: na tonga da mironga, as mensagens são tão pouco sutis quanto título da canção que inspira o nome dessa exposição. Os compositores Vinicius de Morais e Toquinho usaram a língua Nagô para dizer, xingar e extravasar a raiva que sentiam no período de nossa última ditadura imposta pelos militares. Já o atual sistema de repressão se dá por diferentes “braços” institucionais de forma “branda”, branca e sufocante. Não se tem a quem recorrer em instâncias superiores.

Parente impôs um vácuo no meio do que expõe, intencionalmente. Desta maneira nos dá mostras de uma coerência investigativa que norteia uma trajetória que beira quatro décadas. Tanto em seu começo como nos trabalhos mais recentes, Parente está olhando para as questões do visível, aquilo que se vê e o que não se vê, o que está por detrás da planaridade da imagem cinematográfica.

O artista explora em sua obra a poética da imagem e os limites da linguagem cinematográfica transitando pelo desenho, fotografia, performance, vídeo, filme e instalações interativas.

Historicamente, mostras são lugares onde artistas expressam e denunciam, segundo suas poéticas, a conjuntura das coisas nos campos artístico, social e político. A presente exposição – também uma apresentação da trajetória do artista – é arriscada na medida em que mostra trabalhos em que a mensagem é clara, direta e inadjetivável, caso de Bandalha, de 2017-2018.

São quatro versões da bandeira do Brasil, nas cores amarela, verde, azul, e mais uma na cor preta. Essa última, de contumaz engajamento político, simboliza no negro o luto.

O contorno das formas nessas bandeiras – que desempenham esteticamente um papel político – é desenhado com a escrita, remetendo à potência de outros trabalhos emblemáticos realizados nos anos 1960 como os de Claudio Tozzi, Gilberto Salvador, Anna Maria Maiolino, Antônio Dias, Rubens Gerchman e Anna Bella Geiger. As bandeiras de Parente parecem datar daquela época, ou, posto melhor, atualizar aquele mesmo contexto político.

Parente desenha com o formato da bandeira brasileira os diálogos telefônicos ao longo dos quais, em linguajar vulgar, são dadas todas as estratégias que estavam por detrás do afastamento da presidente do Brasil. Em maio de 2016, um mês depois do impedimento no Congresso, os jornais divulgavam os áudios dos diálogos entre políticos e empresários.

Irreal – trabalho de 2016 que consiste numa moeda de metal dourada e prateada de diminutos 3,6 cm de diâmetro – expressa a irrealidade da política brasileira ao trazer cunhada a imagem de dois dos principais conspiradores que promoveram a ação perpetrada contra a presidenta: Eduardo Cunha, presidente do Congresso Nacional e o vice-presidente da República Michel Temer, ambos do (agora antigo) Partido do Movimento Democrático Brasileiro. Os dois lados de uma mesma moeda, “farinha do mesmo saco”. O 1 irreal de André Parente pode também ser pensado em relação com o Zero Cruzeiro de Cildo Meireles, originado, como no caso dos artistas citados acima, nos anos 1960. Enquanto Meireles substituiu os valores da cédula de CR$ 1 pela imagem de um índio e de um interno de uma instituição psiquiátrica, retratados como os heróis brasileiros sem valor na sociedade, Parente substitui as imagens oficiais da moeda de R$ 1 pela dos anti-heróis nacionais.

“Foi criada uma moeda que não é deste mundo”, nas palavras da artista Katia Maciel, fruto da irrealidade que vivemos.

Resvalamos nos últimos anos para o poço sem fundo do kabuletê. Na tonga da mironga, você é o outro que não ouve e não fala, você é o que olha e não vê. Aí só lhe resta tomar uma pala e aí sim você vai ter que aprender. Na marra. Mas se você não fuma, não traga e não paga para ver, só resta lhe rogar uma praga pra te mandar pra tonga da mironga do kabuletê. Foi o que disseram os dois músicos ao criarem esse clássico da música popular brasileira diante da depressão sem fim, diante de um país que se esvaía pelo ralo de uma história mal contada, que não começa nem propriamente termina. É a lógica do tempo. É circular como a história nesse tempo que vai e vem. Como na fita de Möbius. Rodamos e rodamos, damos voltas, nos contorcemos, trespassamos, mas não chegamos a lugar nenhum fisicamente. Porém, dançar ou girar sobre si mesmo pode ser uma forma de alcançar o conhecimento intuitivo.

Conta-nos certa passagem histórica que São Francisco de Assis atravessava a pé a Toscana em companhia de um discípulo, o frei Masseo, quando chegaram a uma encruzilhada que apontava para três lugares: Florença, Arezzo e Siena. Masseo perguntou que caminho tomariam. São Francisco respondeu, “o caminho que Deus quiser”. Surpreendido, Masseo perguntou que caminho seria esse. “Saberemos através de um sinal enviado por ele”, respondeu Francisco. E ordenou que o frade, que lhe tinha prometido obediência, desse voltas sobre si mesmo, como fazem as crianças, até que o mandasse parar. O homem girou, girou, girou sobre si mesmo até cair no chão. Ainda tonto levantou-se e, diante do silêncio do santo, voltou a rodopiar. Com a vertigem caiu novamente, mas agora com a sensação de ter rodado a vida toda. De improviso, escutou as palavras: “Pare! E diga qual é a direção para a qual tem o rosto voltado?”. “Para Siena!”, disse, ainda sentindo a terra girando ao seu redor e sem o chão debaixo dos seus pés. “Pois então para Siena seguimos!” E assim, para Siena foram. [3]

Era uma vez e o agora. O presente já é passado. O agora também é o futuro que nunca chega, pois vivemos sempre no era uma vez. Como uma fábula contada por fadas. Fica a sensação de que os problemas que nos assolam nada têm que ver com a gente. Estamos sempre em processo regressivo. O agora é sempre o mesmo, o que insiste, o insistente, a repetição, a insistência. É como andar em círculos. É a circularidade, é rodar no mesmo lugar, como um pião. É rodopiar sobre si mesmo. É não ter saída para ir adiante. A vertigem pode nos dar a direção.

Vivemos em um país surreal, que não sai do lugar, roda há séculos no berço colonial em que nasceu, berço de ganância, ignorância e mesquinhez. Os adjetivos seriam sem conta. Um país que se autodestrói diariamente, para orgulho de seu povo.

É esta a tônica de outro trabalho, o livro-objeto escola sem partido, de 2018. Um livro aberto sobre uma mesa, livro em que a pauta, as linhas que dividem as páginas para suportar a escrita, vão se multiplicando até que a folha inteira se cubra de negro. Aqui temos novamente o preto simbolizando luto abissal, um buraco sem fundo para o qual estamos nos dirigindo com essa proposta que tramita no Congresso Nacional e que não visa outra coisa senão censurar o desenvolvimento crítico do aluno e do jovem em formação ao eliminar disciplinas humanistas da grade curricular escolar. É o obscurantismo como proposta.

André Parente abre esse caderno sobre uma mesa feita de cavaletes. De certo modo precária na sua sustentação, como o que é proposto pelos políticos para essa nova categoria da sociedade, a dos alienados que viverão na escuridão.

Diante do quadro sombrio “pintado” por Parente nesses três trabalhos – Bandalha, Irreal e Escola sem partido –, que alternativa nos resta afora sair xingando em Nagô? Agora, mais uma vez, diante de todo este sem-sentido, nos resta rodar e rodar e rodar, para levar o corpo a um transe que nos tire do lugar-comum.

Levar o mundo ao transe. Transe por rodopio. Sair xingando em Nagô.

O vídeo Circuladô, de 2007, nada mais é que esse rodopiar sem fim. Circular é, no limite, e girar e girar e girar. São os homens que rodam, rodopiam ou que circundam. É o circular na imagem que se repete. Que recomeça, começa, termina e recomeça no mesmo lugar, no mesmo eixo. É insistir no mesmo movimento. Na repetição do giro, o deslocamento circular que conduz ao transe. É fazer a cabeça e os pensamentos entrarem em transe como uma forma de adquirir conhecimento em outra dimensão. O transe é a repetição circular do pensamento. Um mesmo pensamento que não sai da cabeça. Mesmo querendo, não sai, não te deixa. É esse pensamento insistente que leva à loucura.

É o que se pode apreender dessa instalação videográfica, feita com imagens de arquivo, que retrata o movimento de rodopiar, bem como de outros trabalhos de Parente nos quais a repetição do gesto, da fala e da imagem parecem conduzir a um estado hipnótico: trata-se de uma imagem do desejo de fincar-se no tempo. Ficar no mesmo lugar. Não sair do lugar. Como um parafuso a observar-se no desenho resultante do rodopio dos dervixes, religiosos turcos que, para meditarem e orarem, giram por horas num movimento contínuo, harmoniosamente coreografado no espaço. Também no rodopiar de Édipo, de Corisco, do músico Thelonious Monk e dos franciscanos de Pasolini. Giram e giram em situação-limite com destino à morte, ao transe na busca da leveza do espirito e do conhecimento.

É o estágio elevado da loucura: circular, circular e circular. No vídeo, tem ao fundo ao fundo uma música continua, uma sonoridade que se repete, transcendência pela audição, sons guturais, ocos, estridentes e apocalípticos. É quando surge Corisco, baleado e enfurecido, dando rodopios diante de seu inimigo com arma em punho, como um animal que com gestos bruscos tenta confundir seu predador. Rodopia como que para exorcizar o demônio que nos habita no instante mesmo em que enfrenta a morte iminente. Não chega a tombar, fica rodopiando infinitamente no filme sem fim.

Para a exposição na Galeria Jaqueline Martins, Parente veio xingar também, como fizeram os poetas Kabuletê. na tonga da mironga! É o desejo de “chutar o pau da barraca”.

Em Curto-circuito, de 1979, filme em 35 mm, a circularidade se dá de outro modo. Não há diálogos nem enredo, portanto, não há começo nem fim. É apenas cinema, imagem em movimento que narra uma suposta perseguição infinita. As situações se repetem, têm semelhança, a fuga continua nas cenas pelas ruas da cidade do Rio de Janeiro de um homem correndo. Apenas no final ele dá as pistas de que tem um perseguidor que nunca se aproxima, dá a pista ao olhar para trás e para os lados como que à procura de quem o persegue, até entrar por uma porta e desaparecer em um bairro residencial carioca. Da mesma maneira que surgiu em uma rua nas docas da região portuária, aparece, desaparece, por detrás da imagem. Fuga contínua, fuga sem que se saiba quem é que o persegue pelas ruas da cidade. A imagem da fuga se repete no filme todo, em cenas contendo ruas, carros, ônibus, galpões, portões, muros, portas, calçadas, asfalto. Em determinado momento, retoma-se a cena inicial; o homem deixa de correr e passa a dirigir um carro, no mesmo sentido da fuga. O que se vê é pela janela do fundo do carro. Depois volta a correr nas ruas, cruza com pessoas que estranham o homem correndo a esmo, sem saber do que foge. É também uma forma circular. O fim pode ser também o começo. As imagens em preto e branco mostram o tempo que passou. É o tempo o que parece perseguir o homem.

Outro trabalho, A Cachaça Decisão, de 2018, que é feita e engarrafada na sua cidade de nascença, Sabinópolis, no interior do estado de Minas Gerais, tem nome sugestivo para se dar a um rótulo de bebida alcoólica. Segundo o próprio artista, as garrafas dispostas circularmente também funcionam como um despacho onde se oferece aguardente para os santos do Candomblé e da Umbanda. São 12 garrafas de cachaça que formam um despacho – novamente – em círculo. Parente conta que tinha como costume uma brincadeira: beber um gole da bebida toda vez que tinha que tomar uma grande decisão. Nada mais simbólico.

Kabuletês é uma roda de homens e mulheres em trajes típicos portugueses [4] sobre uma bandeja de bolo de mesa. Todos olham para o mesmo lugar, para o centro, sem expressão alguma no semblante. O único exercício retratado nessas pequenas esculturas de louça, arranjadas nessa bandeja de cristal, é o ajeitar das roupas em gesto de arriá-las para defecar. E cagam coletivamente. Sendo miniaturas, exigem que o espectador se aproxime para que apreenda toda a cena montada. Os “troços” são enormes e desproporcionais às figurinhas. Uma tremenda cagada coletiva. É defecar para aliviar. É defecar para purificar. Com o ato, vão todas as impurezas. Expelidas, deixam um vazio bom no corpo. Não à toa o gesto é também conhecido como purgar.

A pequena instalação de homenzinhos e mulherezinhas é uma rede de mentalização. Como um suicídio coletivo às avessas. Não se morre, se purifica. São cagões portugueses em suas vestimentas típicas. Múltiplas leituras: pode ser também uma reunião para um despacho. O espaço se faz em círculo novamente. O mesmo que se viu na disposição das garrafas da aguardente Decisão.

Dona Raimunda, de 1977 – 2015, era uma grande contadora de histórias, que se transformou em uma narrativa alegórica de si própria. No final dos anos 70, em Canoa Quebrada, Dona Raimunda, que contava então por volta de 82 anos, já estava cega de tanto sol refletido na areia enquanto cavava lutando contra a duna que invadia e cobria sua casa. Repetia o mesmo gesto diário, infinitamente, tentando retirar a areia movente do entorno da sua casa, que insistia dia após dia, em cobri-la. Vinha para cima com a força do vento Aracati que varre as dunas de areia tornando sua vida circular no tempo à beira de um estado de demência, dos pequenos gestos repetidos centenas, milhares e milhares de vezes ao longo do dia, sob o sol inclemente do Ceará.
Matapu – zunidor, de 2018, são os zunidores da tribo Mehinako, utilizados em performances e desenhos em pastel que exploram a forma da onda sonora gerada pelo som desses instrumentos e a gestualidade do giro. Quando girado, o pequeno instrumento produz um som grave e profundo de baixa frequência. A sonoridade percorre distâncias extremamente longas pelas florestas e campos, claramente audível como os sons estridentes e ritmados das cigarras. Os giros podem ser feitos na horizontal, sobre a cabeça ou na vertical, ao lado do corpo e são utilizados em atividades as mais primordiais para os indígenas, tais como a comunicação, a caça e a colheita ou em rituais religiosos, mágicos e orgiásticos.

A bela e a fera ou a ferida grande demais..., de 2014 (em parceria com Lucas Parente), é a documentação da vídeoinstalação em que um jovem negro maltrapilho dorme sobre um colchão com motivos estampados de imagens e cenas do artista alemão Rugendas, que veio retratar o Brasil Colônia no século 19.

Deslumbrado com o calor e a exuberância de sua paisagem, o alemão retratou um lugar fantástico e fantasioso misturando sonho e realidade. Vozes se misturam às imagens. Desconexas, surgem cenas de um filme pornográfico onde um homem é penetrado por um consolo eletrônico. Sonhos de um sonhador aturdido e jogado no meio de uma cidade que não cabe dentro da miríade de montanhas que a circundam, são como gigantescas sombras inertes dormindo na paisagem. Urubus voam nos sonhos do jovem. A fala vai e volta, as imagens se repetem. Somos um só. Intestino e esgoto são a mesma coisa. Dados, relatos históricos, gritos, gemidos, militares, multidão sinistra, homens com armas nas mãos, manifestações, bandeiras rasgadas, mortos, presos e deportados que vão para o Acre. História desconexa de um desastre que mistura a colônia portuguesa com o país atual. É como a roleta; roda e roda e o tempo – que não termina –, parece ficar no mesmo lugar. A instalação é composta de projeção e televisão. O som da respiração e do caos urbano. Juntos, eles produzem um clima de terror e de ironia, de erotismo e hipnose. É todo um caráter híbrido na multiplicação de sentidos. Daí surge o diálogo entre estes três suportes, os elementos a compor a instalação.

Em Reflexo, de 2018, a fotografia é o site specific. Uma imagem fotográfica do reflexo do espaço se funde com a imagem especular do espectador na galeria, em um jogo sem fim. A imagem em movimento do espectador funde-se à fotografia espelhada.

No vídeo Mulher Maravilha, de 2015, uma mulher gira, gira e gira. Como num passe de mágica, muda também de roupa. O gesto de rodar se repete inúmeras vezes até se transformar na mulher maravilha, o ícone da mulher idealizada da cultura de massas. A representação da pátria na mulher vestida com as cores, linhas e estrelas da bandeira norte-americana. A heroína boazinha é defensora da moral e ética daquele país.

Parente é desses artistas com histórico. Vem de uma linhagem de artistas e intelectuais. Por sua vez, desenvolveu-se como artista inicialmente em Fortaleza, depois veio para o Rio de Janeiro onde começou a estudar e a experimentar o cinema. Vai para a Paris, onde pesquisa e desenvolve um trabalho experimental e aprofundado da imagem fílmica ao desconstrui-la nas suas convenções cinematográficas.

Acompanho de longa data o trabalho de André Parente, embora à distância. Temos o Ceará em comum e lá, muitos amigos com quem dividimos histórias e experiências de arte. Mas nunca tivemos a oportunidade desse encontro que o texto e exposição permitem. Uma leitura poética do trabalho de Parente – modo de aproximação que me tem guiado até o presente momento no texto –, permite caminhos múltiplos e contraditórios, pois o próprio artista transita, deslizando, pelos limites da relação entre a compreensão poética com os da erudição.”

Uma leitura poética do trabalho de Parente – modo de aproximação que me tem guiado até o presente momento no texto – permite caminhos múltiplos e contraditórios, pois o próprio artista transita, deslizando, pelos limites da fotografia, do cinema e do vídeo com suas narrativas muito simples. É a imaginação além do que se vê. Sem a intenção de dissecar, mas de questionar os dispositivos do cinema e do vídeo e da imagem em movimento.

É circular e rodopiar sobre si mesmo. Repetir sem fim, na tonga da mironga. É com esses valores e na janela de André Parente que pensei esse texto para refletir o momento atual, visto nessa exposição.

Só nos resta girar.


Ricardo Resende
Curador

NOTAS

1 Armando Queiroz, artista de Belém do Pará.
2 Uma mistura dos dialetos Nagô e do Candomblé que traduzido é o xingamento “no pelo do cu da sua mãe!” ou na sua tradução literal que soaria algo como “na força do feitiço do vagabundo”. Título de canção criada por Vinícius de Morais e Toquinho, em 1971.
3 SHAH, Idries. The World Of the Sufi. Londres: ISF Publishing, 1979. Pag. 227.
4 Os Cagões são os nomes dos personagens tradicionais, masculinos e femininos, dos presépios das festas de São João em Portugal.

Posted by Patricia Canetti at 11:10 AM