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março 26, 2018

A magia visual dos balangandãs de Carolina Ponte, por Shannon Botelho

A magia visual dos balangandãs de Carolina Ponte

SHANNON BOTELHO

Balangandã é, antes de tudo, uma palavra sonora. Dotado de uma magia capaz de proteger o indivíduo que o possui, este objeto é sedutor. O signo mágico que, por ora, Carolina Ponte elege como foco de interesse povoa suas colagens e se inscreve como novidade nos trabalhos em crochê. Exerce um fascínio sobre o observador, atuando em um misto de sensualização e festa. Proteção e atração.

Neste último ano, com a experiência de explorar ornamentos e o interesse pelo fazer manual, Carolina passou a trilhar novos caminhos conduzida pela vocação mística dos balangandãs. Amuleto ancestral, o balangandã possui uma força capaz de atrair energias semelhantes e repelir qualquer negatividade. No fluxo de sua produção, a artista seguiu adiante com sua pesquisa e se deixou envolver por esta novidade, produzindo seus próprios amuletos.

As peças que Carolina Ponte apresenta em Balangandã são fruto de duas residências artísticas realizadas em 2017– uma na França, onde pesquisou a ornamentação da joalheria vitoriana; e outra na Dinamarca, onde desenvolveu padronagens que definiriam suas gravuras. No atual momento de sua pesquisa, a artista passa a explorar outros caminhos nos quais seus crochês são mais afetados pela gravidade e as colagens revelam novas experiências com transparências, sobreposições de padronagens e cores.

Estes objetos populares, originalmente produzidos em prata, ganham maleabilidade e leveza nas esculturas em crochês. A trama da lã assume uma nova função: a de ser uma corrente para os balangandãs. Amarrações e pendimentos surgem mais opulentos nestes trabalhos, possibilitando que os amuletos fiquem fixados em pencas sem perder o seu gingado.

Assim como os balangandãs que ganham significação ímpar quando incorporam os elementos de nossa cultura, as obras desta exposição carregam traços do repertório de Carolina Ponte formado por suas memórias, vivências e saberes.

Mais sintéticas, as colagens constroem uma ambiência mais leve. Suas cores nos atraem por seu apelo sensorial e pela relação íntima que estabelecem com as formas opulentas em profusão e movimento. Os elementos pendentes, presos às correntes multicoloridas, bailam no espaço emitindo uma sonoridade festiva, tal qual o tilintar dos balangandãs nas ladeiras do Bonfim. Sem uma atmosfera realista, os balangandãs de Carolina reverberam som e movimento, enquanto pendem para baixo numa dança sensual e calma.

Como amuletos, as colagens de menores dimensões concretizam uma ideia de mobilidade. As formas pendulares estão potencializadas nelas. Emergem das padronagens que compõem o fundo e se oferecem num apelo tátil. Herdeiros das tradições populares, estes trabalhos possuem um traço identitário capaz de atualizar uma discussão que busca valorizar os elementos culturais brasileiros. Assim como Djanira celebrou as festividades e objetos votivos, Carolina Ponte valoriza seus signos mágicos. Nas festas de Djanira, a cor que fulgura sem ofuscar projeta-se para fora do trabalho, contagiando o entorno com um clima de celebração. O cenário emite um som festeiro. O retinir dos balangandãs de Carolina Ponte também é assim: festivo, mágico, contagiante.

Pelo esforço demandado para sua realização, cada obra segue uma lógica peculiar de fazer para refazer. Construir para reconstruir. Ao escolher produzir seus trabalhos a partir de gravuras meticulosamente acabadas e posteriormente aquareladas, a artista afirma uma escolha de cumprir obrigatoriamente as etapas de construção, produção, reconstrução e pós-produção. Para cada colagem ou crochê, o processo é duplicado. Todas as obras foram tocadas em dois momentos por Carolina. No primeiro para sua confecção. No segundo, para seu reordenamento e conformação final.

Poderíamos, por fim, afirmar que hoje Carolina Ponte atua como uma operária de sua própria criação. Ela parece atender ao chamado de William Morris, líder do movimento Arts and Crafts, quando nega delegar sua criação à lógica industrial e reafirmar a ‘insubstituibilidade da arte enquanto processo de experiência’ [1]. Portanto, gravar, pintar, cortar e colar tornam-se, para ela, os únicos meios de transformar suas ideias em formas e objetos múltiplos, capazes de carregar consigo, assim como os balangandãs, um sentido mágico.

Shannon Botelho [2]

NOTAS
1 Argan, G. Carlo. Arte Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. pg 182
2 Shannon Botelho é crítico de arte, curador e professor. Doutorando em História e Crítica da Arte pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Escola de Belas Artes/UFRJ. Mestre em Artes Visuais, na linha de História e Crítica da Arte, pelo PPGAV - EBA/UFRJ, possui Bacharelado em História da Arte (EBA/UFRJ) e Licenciatura Plena em Artes Visuais (Centro Universitário Metodista Bennett). Pesquisa a Arte Brasileira e suas instituições. É Professor efetivo no Departamento de Desenho e Artes Visuais do Colégio Pedro II.

Posted by Patricia Canetti at 9:57 AM