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novembro 26, 2014

Um mergulho no deserto por Juliana Monachesi

Um mergulho no deserto

JULIANA MONACHESI

Galeria Rabieh, São Paulo, SP - 28/11/2014 a 17/01/2015:
Eduardo Srur - Trampolim
Helen Faganello - Projeto: abrigos para o deserto

Muito antes do previsto, mesmo nas mais catastróficas versões, a água doce se tornou o ouro branco da civilização humana. Dois artistas brasileiros – reunidos pela marchande Lourdina Jean Rabieh em individuais simultâneas em sua galeria a partir deste mês – são movidos pela inquietação comum com o destino da água. E desde muito antes de os paulistanos começarem a estocar água da chuva, economizar no número de descargas ou pararem de lavar os seus carros semanalmente por causa da maior estiagem em 45 anos que assola São Paulo e adjacências desde o início do ano.

São famosas as intervenções urbanas de Eduardo Srur que têm como foco o Rio Pinheiros. Em 2006, por exemplo, o artista espalhou pelo rio dezenas de caiaques tripulados por manequins de plásticos – ação que vocalizava uma dura crítica à navegabilidade perdida do Pinheiros. Este ano, Srur surpreendeu aos que circulam pelos arredores do Rio ao instalar 5 trampolins “tripulados” em pontes estratégicas.

Parte de um projeto que estivera em gestação desde 2012, o conjunto de banhistas prestes a mergulhar, posicionados bem na ponta da longa prancha azul, tinha por objetivoprincipal aludir à impossibilidade de nadar no Pinheiros por causa da irrefreável poluição do rio. Porém, tanto quanto acontecera na ocasião do trabalho dos caiaques – que ficaram presos num mar de lixo e foram, por isso, parar nas capas dos jornais – a obra dos trampolins, novamente à revelia do artista (ou de suas intenções iniciais), foi investida de novos significados em decorrência da seca.

São estes objetos que agora habitam a Galeria Rabieh, na exposição Trampolim. A outra artista que faz individual no espaço é Helen Faganello, mostrando uma série que tematiza um futuro distópico em que a Terra se transformou num deserto, onde abrigos inteligentes permitem que a civilização continue. Também Helen tem sua trajetória marcada por inquietações acerca do embate entre cultura e natureza. Na série Invasões (2012), por exemplo, a artista mesclava colagem e desenho para retratar antigas construções sendo invadidas ou já tomadas pelas plantas do entorno. Ali, pode-se aventar, começava a se delinear o cenário pós-apocalíptico que vamos encontrar nos recentes Projetos para Abrigos no Deserto.

Srur e Helen foram os artistas do novo time da Galeria Rabieh escolhidos para inaugurar o programa de exposições individuais no novo espaço. A reunião dos dois está longe de ter sido obra do acaso. A dupla abertura anuncia algumas das características do projeto que Lourdina está desenhando para a sua galeria. Em primeiro lugar, a sintonia fina com os eventos mais prementes do seu tempo. Depois, o compromisso de conceituar o programa do espaço – que envolve exposições, residências artísticas, aulas e encontros – de forma coerente e crítica. E, finalmente, a atuação muito próxima dos artistas, sem pudores de interferir propositivamente no rumo de seus processos individuais. Em outra palavras, foi a galerista quem provocou Srur a pensar um desdobramento indoors para seu projeto de intervenção urbana com os trampolins. Assim como partiu de Lourdina a sugestão de repensar uma mostra individual que Helen acabara de encerrar em Ribeirão Preto para o espaço em São Paulo.

Nas duas operações, percebo um papel crítico da galerista. Durante as 6 semanas em que as esculturas de Srur ocuparam espaços de grande visibilidade em pontes ao longo do Rio Pinheiros (como Cidade Universitária, Eusébio Matoso e Cidade Jardim), aconteceu de tudo um pouco: ligações para o corpo de bombeiros de motoristas que acharam que se tratava de um suicida; “atentados” contra os manequins (que foram vítima de banho de tinta, tiro, decapitação e também suporte para propaganda eleitoral...); grande número de fotos postadas no Instagram de todos os ângulos possíveis; selfies com os banhistas; elogios à iniciativa de lutar por um rio despoluído e indignação com o perigo a que estiveram submetidos os desavisados etc. O que significa, depois deste longo histórico de interações com a obra, levá-la para dentro de uma galeria?

Existe o risco de apaziguamento. Protegida dos ataques e das intempéries, protegida da repercussão entre pessoas não especializadas em arte, a obra perde força? Há, de outro lado, a possibilidade de adensamento conceitual. Na galeria, os “suicidas” ou “bonecos engraçadinhos de alguma campanha de conscientização” tornam-se única e exclusivamente esculturas. Terão a potência de um Ron Mueck, que, por coincidência, está sendo exibido em São Paulo no mesmo período?

Antes mesmo deste corpo a corpo com a obra no espaço, elenco algumas intuições sobre o que irá se passar. Sem o rio abaixo delas ou a paisagem urbana da Marginal Pinheiros ao seu redor, as esculturas não estarão “mais protegidas”. Pelo contrário. Seu poder de sugestão de um mergulho irá, muito provavelmente, evocar um Yves Klein ou um Bas Jan Ader em seus saltos para o vazio e o desconhecido. Envoltas nesse contexto poético, poderão também trazer à mente uma narrativa deliciosa de banhistas que percorre a história da arte: Rembrandt, Ingres, Renoir, Picasso, Matisse, Katz, Sasnal... Também haverão de provocar um efeito oposto àquele que propiciavam na rua, onde eram um entre milhões de estímulos: distribuídos no cubo branco, poucas peças em meio à vastidão do local, creio que produzirão um silêncio cortante.

Do silêncio à meditação: saindo da exposição de Srur, vamos deparar com as obras de Helen Faganello. Em sua maioria, são aquarelas – que já principiam a tratar da água na própria técnica escolhida pela artista. Em tons rebaixados, meditativos, vemos os abrigos para sobreviver no deserto. Eles são verdadeiras cidades suspensas em um clima desértico, mas dotadas de plantações de cactos e suculentas, protegidas por invólucros coloridos feitos de vidro e tijolos. Os periscópios nos projetos sugerem que parte das cidades está abaixo do solo, podendo estes ter por objetivo vigiar – caso as civilizações sobreviventes estejam em guerra – ou observar a paisagem exterior – suposição mais poética, a sugerir uma nostalgia contemplativa. Nenhuma respostaé dada.

Espécie de cruzamento entre Buckminster Fuller e Atelier Van Lieshout, a arquitetura de Helen Faganello convida a pensar no futuro, flerta com visões futuristas do passado e, sobretudo, põe em xeque nossa presente estiagem e descuido com a água. Pinturas que não estavam na mostra em Ribeiraõ Preto foram acrescidas na montagem paulistana, e aquarelas botânicas, além de alguns objetos, integram também a mostra. Operação crítica, mais uma vez, da galerista, que põe em questão uma ecologia expositiva, tanto ao proporcionar a um público mais amplo o acesso à bela exposição da artista, quanto ao demonstrar que uma exposição, quando remontada, nunca é a mesma exposição, pois o contexto a transforma.

Posted by Patricia Canetti at 5:58 PM