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outubro 3, 2007

Arte à capela, por Juliana Monachesi

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Arte à capela

JULIANA MONACHESI

Tem lugares escondidos da cidade onde acontecem importantes experiências de arte das quais a gente por pouco não fica sabendo. Fui hoje visitar o 38º Chapel Art Show, na Chácara Flora, uma exposição com 80 artistas e uma artista homenageada da maior envergadura possível em se tratando de homenagem por serviços prestados à constante reinvenção da arte contemporânea: Regina Silveira. A mostra tem curadoria de Katia Canton e acontece por iniciativa da Chapel School, que há 38 anos realiza uma semana de artes na escola para que os alunos tomem contato com a produção contemporânea brasileira e que assume como missão educar o olhar dos alunos, das famílias, e da comunidade americana e latina que freqüenta a escola. Todas as obras ficam à venda durante a semana em que acontece o Chapel Art Show e a comissão de 25% sobre a venda dos trabalhos é revertida para obras assistenciais que a escola mantém com orfanatos e lares de idosos.

Nada mau, hein? Quando eu fiz colegial, o máximo que chegou a ser apresentado em sala de aula -e ainda como um adendo das aulas de literatura brasileira- foram os artistas da Semana de 22; a depender do ensino formal, minha visão de arte brasileria se resumiria a Portinari, Di Cavalcanti, Tarsila do Amaral e olhe lá. A situação não parece ter melhorado muito em 15 anos porque uma artista recentemente me contou que foi obrigada a tirar os filhos da escola -não vou sitar nomes, mas trata-se de uma das maiores referências de ensino aqui em São Paulo- quando soube que, nas aulas de arte, os professores estavam ensinando arte contemporânea brasileira apresentando como exemplos fundamentais nomes como Gustavo Rosa e Aldemir Martins... Nada contra Aldemir Martins -jamais houve artista que soubesse retratar humores felinos tão bem quanto ele (quem tem gato há de concordar comigo)-, mas utilizar esses artistas como referências máximas da arte contemporânea é no mínimo constrangedor. Daí a minha empolgação em ver uma sala inteira dedicada à obra de Regina Silveira no 38º Chapel Art Show e tantos outros exemplos de produção inquieta e densa exibidos na exposição.

O trabalho reproduzido no início deste texto, por exemplo, é uma fotografia da artista Marcela Tiboni, que tem discutido em sua produção a herança da história da pintura sem nunca utilizar o suporte pictórico; são trabalhos em vídeo ou fotografia, alguns deles com forte elemento performático. Nas obras apresentadas na Chapel Art, Para Mondrian (acima) e duas imagens da série Pintura de paisagem (logo aí abaixo), a artista segue em sua pesquisa e demonstra um crescente e coerente amadurecimento. Mondrian se torna, nas mãos de Marcela Tiboni, pura organicidade, o exato oposto do purismo presente nas telas de estilo neoplástico do artista holandês. Ao se voltar ao gênero da paisagem, a artista subverte a "pintura de paisagem" substituindo a representação pela ação direta de colorir os próprios elementos paisagísticos (Marcela, querida, uma pergunta ecológica: você lavou as plantinhas para elas poderem voltar a respirar depois de fazer as fotos, né?).

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Muitos dos trabalhos exibidos na mostra ou são inéditos ou são daqueles pertencentes a uma família de obras -ou a uma faceta do artista- menos conhecida, a começar pela própria sala de Regina Silveira, a primeira com que se depara o visitante. Acostumados que estamos, em anos recentes, a ver as intervenções públicas ou projetos de grande escala da artista, trata-se de uma bela oportunidade para conferir seus trabalhos mais intimistas -se é que se pode chamá-los assim-, projetos em menor escala e de tom rebaixado, no sentido musical mesmo da expressão. Esse conjunto de obras agrupadas no Chapel Art Show nos dão a sensação de que mergulhamos em uma apresentação "à capela" de Regina Silveira. As canções, quando cantadas à capela, são como a alma da música; e o artista, ao fazer essa espécie de "solo vocal", não apenas apresenta uma faceta mais intimista de seu processo de criação, como oferece também uma amostra da força e da eventual fragilidade que servem de base ou mesmo constituem a essência daquilo que, na apresentação acompanhada por instrumentos, sintetizadores e recursos técnicos de todo tipo, fica camuflado, compartilhado com os sons de guitarra, baixo, bateria e contaminado pela estrutura geral do espetáculo.

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Mesa com cadeiras 2 (1990), carpete sobre eucatex; Escova - série "Dilatáveis" (1999), serigrafia sobre recorte de madeira pintada; Vestígio (2003), serigrafia sobre alumínio; Desenho preparatório para "Escada curva" (1999); Escada curva (1999), acrílica sobre poliestireno

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A partir do alto, à esquerda, em sentido horário: Brasil (2005), impressão digital sobre vinil adesivo sobre EVA; Nightmare (2000), madeira, acrílico, vinil adesivo e ovo de avestruz; Fio (2005), gravura do álbum "Série Eclipse"; Mesa com cadeiras 1 (1990), carpete sobre eucatex; Botão - série "Armarinhos" (2003), porcelana com sobrevidrado

Adorei, na exposição, ver novos trabalhos da Adriana Guivo, por exemplo, sobretudo por serem colagens/reciclagens culturais, essa área de pesquisa que me é especialmente cara há alguns anos. Parece um caminho "natural", ou uma investigação "coerente", este de partir dos retalhos de tecido com os quais a artista construía suas pinturas, passar por uma espécie de "impasse" com o trabalho apresentado na Anual da FAAP do ano passado (se não me falha a memória) -uma grelha atravessada no espaço com flores artificiais encaixadas e um recipiente com mais flores de papel para que as pessoas interferissem na composição-, e chegar a uma solução mais "econômica", em suporte fotográfico, que de certa maneira sintetiza os dois momentos anteriores: a padronagem floral está presente, assim como a artificialidade das flores -um tanto quanto "estrangeiras" ao ambiente-, em estado de suspensão sob um "plano de fundo" que remete à estrutura da grelha.

Colagens, desenhos e gravuras foram as obras que mais me encantaram nessa exposição (talvez porque no trabalho sobre papel se condense algo dessa "essência" que estou denominando aqui "arte à capela"): Georgia Patricia Vilela e Thais Albuquerque com o acúmulo caótico de elementos gráficos, desenho e colagem, tudo muito colorido e muito rock'n'roll; gravuras em grande escala de Azeite de Leos e Fabrício Lopez; um trabalho de gravação sobre mármore de Alzira Fragoso, uma artista que vim a conhecer no Chapel Art Show (ela assim como outros tantos, mérito da prática investigativa que marca o trabalho curatorial de Katia Canton); desenhos super delicados da Ana Teixeira e do Fabio Tremonte; uma série poderosíssima da Renata Pedrosa -conjunto de doze desenhos acompanhado de uma animação à William Kentridge-; e até -para surpresa geral, imagino- obras feitas com folhas de ouro e prata e nanquim por Gal Oppido. Ele mesmo, o fotógrafo, de quem vimos recentemente imagens da série Alegorias bíblicas na galeria Oeste.

Foi nesse ponto que eu me convenci de que a tal "arte à capela" -chamemo-la assim- da Regina Silveira poderia ser uma "conceito" aplicável, por diferentes vieses, a vários outros trabalhos apresentados na coletiva. Será que o fato de estarem expondo em um espaço "protegido" onde a crítica não chega (a escola fica na Chácara Flora, bem longe do circuito de arte paulistano, e não "passa", afinal de contas, de uma escola...), um espaço mais informal, teria determinado, ou ao menos possibilitado, que os artistas também se soltassem e se dessem uma certa liberdade de exibir essa faceta mais escondida de sua obra e de si? Digam lá o que for, o fato é que expor em uma galeria conceituada ou em um museu de grande visibilidade costuma predispor o artista a (tentar) não cometer "erros", seja isso consciente ou não. Onde é que eles se arriscam mais? Onde, afinal, fazem suas experiências, seus balões de ensaio? Onde é que eles expõem "a alma", a faceta intimista de seu processo de criação, aquela pequena amostra de força e de fragilidade que constituem a "gênese" do que teima em ficar camuflado sob a estrutura geral do espetáculo?

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(...) Ainda sobre os desenhos, tive boas surpresas ao tomar contato pela primeira vez com trabalhos de artistas como Antonio Melloneto -que exibe uma série de obras (imagem do alto) que mais parecem fotogramas obtidos com pin-hole, mas na verdade são desenhos feitos com lápis aquarelável sobre papel- e Gabriela Piernikaz, cujo trabalho (imagem acima), bastante delicado e quase "invisível", são perfurações feitas diretamente no papel que resultam em composições semelhantes a imagens de satélite mostrando solos acidentados ou de constelações caóticas. As obras da Josely Carvalho foram também uma grata surpresa: duas imagens -gravuras, provavelmente- representando corpos fragilizados, em estado de suspensão ou então em plena queda livre em um abismo existencialista; os corpos surgem sempre nas beiradas do papel, fragmentados, e desenhados (ou gravados) em tons de preto e cinza; por cima deles, frases em vermelho com pouquíssima legibilidade; e esses papéis que a artista utiliza são (ou estão -infelizmente as etiquetas de identificação destes trabalhos não trazem as respectivas datas em que foram realizados-, ou foram deliberadamente) envelhecidos, de modo a sugerir que estamos diante de registros antigos, arcaicos, de alguma época de guerra e dor...

Boa parte dos objetos e esculturas expostos no Chapel Art Show comungavam desse "quê" arcaico ou arcaizante -penso que isso pode ter a ver com um estado de coisas na produção contemporânea, algo como se, em um mundo simbólico ao extremo e habitado mais por imagens do que por objetos (ou, para soar menos catastrofista, um mundo envolto numa profusão imagética da qual é difícil escapar), artistas trabalhando com objetos e/ou matéria resistente, sejam estes novos ou apropriados, esculpidos a partir de uma massa bruta ou simplesmente encontrados, fossem mais do que artistas, ou antes que artistas, arqueólogos de uma cultura material em franco e acelerado processo de extinção. Esses arqueólogos, como não poderia deixar de ser, são muito poucos -tomando aqui a exposição como parâmetro, mas nada que não possa ser rebatido e comprovável na arte contemporânea em geral. Além da própria Regina Silveira, de certo modo, são eles (na exposição): Aline van Langendonck, Arnaldo Battaglini, Cristina Mutarelli, Dan Fialdini, Florian Raiss, Iza Figueiredo, Olga Nardi e Sandra Romano (há também três "pintores objetuais" que talvez pudessem ser incluídos nesse rol: Marcus Vinícius, Mendes Faria e Nina Moraes).

(continua...)

Posted by Juliana Monachesi at 11:43 PM