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outubro 24, 2007

O corpo erótico contemporâneo, por Rubens Pileggi Sá

EROTIComia.jpg

O corpo erótico contemporâneo

RUBENS PILEGGI SÁ

O termo erótico, ou, as manifestações do desejo do corpo, ou descoberta do prazer através das percepções sensoriais, que um dia teve enorme potência transformadora de costumes, nada mais celebra, agora, do que a consagração vitoriosa da mídia e do comércio de corpos prontos para o abate, como se tratasse de um corredor de matadouro, onde somos obrigados a ter prazer.

Esse "erotismo" se manifesta, por um lado, na venda de corpos prontos para o sexo. E passa por crianças dançando "na boquinha da garrafa" em programas infantilóides, dando uma sensualidade e potência ao corpo quando ele ainda não está pronto para isso. Passa, também, pela insistência de associar mulher "sarada" com cerveja gelada e, em outdoor, nas ruas, escancarando a miséria do fetiche: por exemplo, quando uma revista masculina anuncia uma mulher de "18, mas com corpinho de 15".

Os homens não podem reclamar. Cada vez mais se tornam corpos-objetos. Cada vez mais são vendidos como produto para consumo, ainda que isso não signifique a mínima mudança nos padrões machistas e patriarcais de nossa sociedade. Capitaliza-se em cima dos gays, capitaliza-se em cima das minorias, enfim, o importante é criar nichos de mercado para se fazer negócios. O corpo erótico se tornou um negócio.

Estamos tão inseridos nas formas de exercício de poder, quanto no nosso próprio corpo enquanto lugar de luta, que precisa ser reinventado o tempo todo para existir além da ostentação da eterna jovialidade viril congelada na foto da parede.

Se há uma potencialidade que possa colocar em movimento o desenvolvimento de uma política do corpo, ainda hoje, essa política deve mirar, em primeiro lugar, a idéia de um corpo coletivo, de um lugar de trocas, de confianças mútuas, de compartilhamentos identitários, de criação participativa.

Mas, para o corpo erótico, para a saciedade do prazer, não interessa a solidariedade, o coletivo, o outro, porque "as possibilidades de felicidades são egoístas", como já definiu Cazuza, tempos atrás. E mais, violência e agressividade não são descartadas desse corpo-fissura, onde Eros e Thanatos se olham com desejo.

De todo modo, tal força vem da consciência de se saber que a idéia de corpo é, sobretudo, transformadora, portanto, subversiva. E, neste ponto, voltamos à questão das lutas sociais, culturais e econômicas. Subversão é a palavra chave diante da transformação do corpo em produto comercial, em carne para o abate. Não é nenhuma recusa, exatamente, à venda do corpo. Precisamos pagar nossas despesas diárias e dependemos de uma rede de produtos e serviços que, inclusive, possibilitam tal subversão. A questão é, então, como usar dessa força de subversão?

No caso do erotismo e do intrincado jogo onde o corpo é máquina criada que cria, a subversão está em, ao mesmo tempo, colocar e retirar da condição desejante o foco único que o capital tenta impor à sua manifestação. Ou seja, erótico pelo erótico, apenas. A autonomia do erótico. A compartimentalização das pulsões desejantes, sem sua potencialidade transbordante.

A matéria nos ensina a aceitar tal imposição, as de sujeito-carne, além e aquém da situação carne-objeto, seja homem, mulher, criança, velho, boi, eletricidade, o que for. Mas nem por isso precisamos nos colocar como representantes de papéis sociais definidos previamente segundo um padrão dominante de gosto. Podemos afirmar estados de diferenciações que levem, além da catarse e do choque, a formas de mobilização onde consciência e desejo, tesão e atenção, escolha e acaso possam pertencer ao nosso estado de realidade e presença. Sem esquecer da virtualidade, que é, também, parte da realidade. Os fótons da tela do computador, onde escrevo isso, queimam na minha retina. Erótico, presencial, ânima, animal.

A única maneira de enfrentar a concretude do indisível é deslocar para a criatividade nosso exercício do sensível. Nossa mais profunda forma de expressão. Nossa mais potente arma subversiva. Porque as trocas, aqui, não são feitas levando em consideração a mais-valia, mas sim em como mantermos as relações de troca, mais e mais. O gozo é o gozo. É a possibilidade de rir de si diante do espetáculo da banalização do erótico. Mas ele só pode ser gozado se for levado à sério: com a alegria de ser e estar no espaço-tempo do aqui-agora. O aqui/agora contrário à falta de perspectiva de futuro negado pelo capital às pessoas desse país. E que devoram a boa intenção do padre extorquido pelos que ele quer salvar.

A violência além das fronteiras do filme Tropa de Elite que, como o nome já diz, é uma tropa para a elite. Entrar no morro e humilhar as pessoas é a senha. Shibari é uma técnica de prender o/a parceira com cordas. Fetiche. Começou com a guerra, no Japão. Começou pela violência. Hoje, uma arte realizada em clubes.

O gozo eterno no aqui agora. Será que essas palavras te tocam? Será que eu consigo te prender com as cordas da imaginação?

Gotejo. Oxido. Exalo. Assim como o vinho, o sangue. Escorro, deslizo, morro de (dos) prazeres.

Santa Teresa, Rio de Janeiro, 23/10/2007

Posted by Rubens Pileggi Sá at 9:48 AM | Comentários(8)
Comments

...delicia!

Posted by: jose at outubro 29, 2007 10:47 AM

Oi, Rubens,

gostei muito do seu texto. Concordo com o que diz.
Dá uma olhada em meu sítio e conheça meu trabalho.

(...) Desde o ano 2000 meu trabalho trata do ser humano, sua relação com os outros e o que seria necessário para se atingir o equilíbrio nesta vida. Para isso utilizo o corpo nu masculino como uma representação da humanidade. É um homem universal e desprovido de qualquer traje e pêlos que possam desviar a interpretação, situando-o em um tempo ou local. A linha é digital, o que torna o desenho mais uniforme, suave e agradável, além de sinalizar uma simplicidade que me parece coerente e necessária à nossa atualidade. (...)

Abraço,

Osvaldoº

http://br.geocities.com/osvaldopiva/index.html

Posted by: Osvaldo Piva at outubro 30, 2007 9:38 AM

Olá Rubens...
Você está parecendo minha avó falando da primeira vez em que ela mostrou o joelho para um bando de rapazes tarados e indecentes...
Acredito que trocamos figurinha com a mídia e não só engolimos suas vontades, pois tudo sempre acaba andando junto, vontades, desejos, estética, sexualidade....Sempre teremos a tendência de estranhar a nossa própria época... e futuramente acharemos ela a melhor época...

Posted by: Tais at outubro 30, 2007 3:48 PM

O corpo tanto é objeto que se transforma em obra de arte. Tal ato é então uma tirania do desejo ter. Logo, possuir e também, ser. Uma representação atemporal e bela. O retrato é o estático e o intocável, a obra de arte é intocável, porém, comercialisável. Acho eu, que a unica coisa que podemos salvar do capital é a imaginação. Ninguém compra algo que não-tátil, invisível, imaginação. A Arte comercialisada vende não só o belo, mas o imaginário tambem.
O meu corpo é só onde está, neste mundo sensível, a minha mente. O modo como ele se apresenta para esse mundo é o como eu o imagino. Desse poder que se diz subversivo, nos resta a criação.
Mas como existir somente neste mundo imaginário?
Como ensinar que existe na criação um mundo tátil?
Quem que cresce e não esquece que brincar é o essencial?

Gostei muito do seu texto, Rubens.
Londrina, 31/10/2007

Posted by: Tiemy at outubro 30, 2007 6:20 PM

Rubens: gostei muito de seu artigo. Vou relê-lo e, possivelmente, vou citá-lo numa Jornada de Psicanálise no final do mês de novembro. Tenho coisas escritas sobre o tema. Qualquer coisa (interesse), faça contacto. Abraços, B eth

Posted by: Beth Müller at outubro 31, 2007 12:03 AM

Olá Rubens Pilleggi Sá,
Apreciei seu texto! Obrigada.
Nossa libido é uma energia indiferencida, nossa riqueza e poder, que a consciencia direciona pelo livre arbítrio. Mas o capitalismo está sempre aproveitando e roubando nosso combutível, pela sugestão mediática insistente, como forma de domínio para tirar nossas forças, forçando a barra e até mesmo invadindo a área infantil. Mulheres-objeto, crianças já "se preparando" para a soberana(aparentemente) e impositiva satisfação do machismo incontinente, e sua expressão mais análoga: o capitalismo selvagem. No Brasil, mais que em qualquer outro lugar do mundo vive-se da cintura para baixo. Isso dá lucro. Mas por outro lado limita e embrutece. E passa a predominar, o que significa igualmente, na dialética dos opostos, a mais pura violéncia com todas as suas expressões, pois quanto mais Eros, mais Tânatos. Eros é vida, fertilidade e Tânatos é o instinto de morte. Qiuanto mais nasce, mais morre, isso é da Natureza. Mas não há consciência. Basicamente falando, a sociedade brasileira não consegue lidar, talvez por ser coagida e não ter educação, não sabe direcionar sua libido. Os adolescentes são abandonados, não aprendem, o sistema educacioinal não está habilitado, as mães não sabem. A deseducação é proposital porque leva ao subdesenvolvimento e isso é intencional, é repressão, é parte de um esquema repressivo e embrutecedor, é a verdadeira pobreza, que atinge até mesmo as crianças, erotizando... Resumindo, quanto mais Eros, mais droga, mais consumo de griffes, mais shopping centers, mais dívidas, mais escoliosas posturais nas mulheres idiotas. --Quanto mais Eros, mais armas vendidas, e isso é um grande negócio...É só refletir...

Posted by: evany at novembro 1, 2007 7:51 PM

Olá, Rubens.
O seu texto, muito interessante. Concordo quando diz que se capitaliza em cima dos gays e da minoria. Afirmam que é válido todas as formas de amar, mas o que se põe em primeiro plano são os lucros que poderão advir desse nicho tão rentoso. Os corpos ali expostos são instrumentos, objetos. Pouquíssimos pensam que junto aquele corpo está um ser humano que sensível, capaz de sonhar e frustar-se também, tal qual os demais. As crianças, quem se importa? são manipuláveis, convincentes. Esqueçam as "etapas" queimadas! A vida é breve, ligeira nesse corpo precoce que insiste em desenvolver-se tão apressadamente.
Somos perseguidos a todo instante pela erotização a qualquer hora do dia e da noite: na tv, nas bancas de revistas e jornais (sempre em destaque!, nas roupas e nos corpos que se movimentam aqui e acolá; impossibilatados estamos de pensar em qualquer outra coisa em que o erotismo não se apresente, nem que se seja como um toque sutil... e acabamos por perder o tesão.

Posted by: Lenir Maria at novembro 4, 2007 1:23 AM

Oi Rubens,

Que venha a revolução! Viva o extracorpo.
Corpo em excesso, transbordante.

Posted by: Cris Maricato at novembro 22, 2007 1:10 PM
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