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novembro 24, 2004

171

171_a.jpg
Antipostal, foto tirada em 2002, por Daniela Mattos: humor contra o estelionato cultural.

171

Rubens Pileggi Sá

"AMOR: humor"
Oswald de Andrade

171 é um artigo do código penal, sobre estelionato, mas que se transformou em gíria para designar alguém malandro, sempre tentando dar um golpe, vendendo o que não possui, entregando documentos falsos em lugar dos verdadeiros, enganando, mentindo, levando prejuízos dessa espécie a quem lhe aparecer pela frente.

171 é aquele político que não tem nada a perder em uma eleição e promete até trazer as próximas olimpíadas para a cidade, motel de graça para todos, acabar com os impostos, arranjar até namorado(a) para quem não tem. É aquele tipo de político que sempre coloca o verbo na primeira pessoa, repetindo o bordão do fez e vai fazer mais. Que sempre tem um Álib (sic) contra quem o denuncia como desonesto e corrupto. Por sorte, não temos deles por aqui!

171 é aquele sujeito que tira "um sarro" em todo mundo e muita gente ainda acredita em suas palavras como se fossem sérias e verdadeiras. O 171 sabe que não adianta levar a vida tão à sério, afinal, dela ninguém sairá vivo, como já disse o compositor Belchior. O 171, por fim, garante-nos a diversão e o entretenimento, com sua "lábia". 171 é o palhaço da ocasião, aquele que nos obriga à risada constrangida. É o enganado que aprendeu com o enganador o exercício da sobrevivência. É o anti-herói por excelência. É o nosso Macunaíma. É o que há de mais profundamente verdadeiro em cada um. Em cada um de nós, brasileiros.

Transformar esse método em piada é a única chance de não se deixar contaminar por algo que poderia nos tirar o humor. Devolver ao 171 - sob forma de chiste, blague, blefe - a mentira que, de tanto repeti-la, ele próprio acaba acreditando, é a melhor arma. Responder-lhe com argumentos sérios ou indignados seria como que validar sua posição. Seria dar corpo a um engano.

No fundo, no fundo, é isso que se espera, também, da arte. Da verdadeira Arte. A arte como engano, como "vontade de ilusão" , como já disse o filósofo. E nada melhor para aceitar o engano do que o humor.

Marcel Duchamp foi, talvez, o primeiro artista a se dar conta desse "jogo de enganos", ao deslocar do objeto para a idéia, a "aura" que até então cobria a arte. Ao eleger um banquinho com uma roda de bicicleta como peça de arte, todo o entendimento que se tinha, até então, de arte como "ciência do belo", caiu por água abaixo. Ao retirar um objeto industrial de sua função e colocá-lo dentro de um museu de arte, chamou à responsabilidade os artistas para o mundo em que estão inseridos. Não dava mais para o artista ficar de costas para a realidade, mudando cores para lá e para cá. Era preciso mais. Era preciso se posicionar. Arte passava a ser sinônimo de atitude. Aos que lhe perguntavam se sua atitude era uma ironia, respondia que não, que sua atitude tinha era "humor". O que podia ser uma ironia, mas não deixava, de qualquer modo, de ser, também, humor.

Humor é uma estratégia da qual muitos artistas e movimentos têm lançado mão, desde então. O movimento "Força Jovem" é um deles. Inspirado em slogans de campanhas eleitorais e na eterna relação entre a juventude e o novo (símbolo antigo do modernismo), brinca com símbolos e mitos revolucionários, vendendo carteirinhas de anarquista, atestado de herói, passe de líder, etc e utiliza-se da mais deslavada cara de pau para anunciar a redenção pelo futuro, com frases vazias, mas cheias de efeitos. Seu assumido cinismo o torna politicamente incorreto, e, ao mesmo tempo, crítico feroz da cooptação de quem usa a ingenuidade alheia para dela tirar partido.

O Stressionismo é outro movimento - movimento, não, surto! - cuja poética "está fundamentada na falta de poética", segundo seu criador Wilson Inácio (www.stressionismo.hpg.ig.com.br) . O manifesto Stressionista prega que "todo artista é um crítico, mas nem todo crítico é um artista". O vídeo que apresenta trabalhos stressionistas começa com a gravação de uma fita cassete, parada, enquanto uma voz feminina diz coisas como: "o stressionismo quer defender a culinária enquanto arte. Comer é privilégio de poucos. A Arte, também".

Outro "movimento surgido recentemente é o "Miguelismo". Miguelismo, vem de "Migué". Dar uma de "Migué". De "João-sem-braço". De conversar, tentando convencer. Ou de fingir que não é consigo a questão. Seu "fundador", João Fábio, inventou até uma exposição relâmpago de suas pinturas, cujo evento recebeu o sugestivo nome de C.I.P.Á. (Circuito Independente Paralelo de Artes), mostrando que até na falta do que dizer, "si pá, joga um migué que cola". Essa a lei do 171. Pode parecer ridículo, e o é, mas é incomparavelmente mais corrosivo e inteligente do que querer se passar por sério, fingindo-se estar acima do sarro e da gozação.

Posted by Rubens Pileggi Sá at 12:04 PM

novembro 19, 2004

Arte? É, arte!

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Trabalho de Vito Aconcci, realizado em São Paulo: abrigo para sem-tetos

Arte? É, arte!

RUBENS PILEGGI SÁ

Considerar arte ou não algum evento ou situação, ou mesmo um quadro, um mural, qualquer coisa, simples ou sofisticada, feita, inclusive, para ser arte, é uma tarefa quase impossível, ou, no mínimo paradoxal. O que determina que algo venha a ser ou não arte, não é nem pode ser um carimbo de algum especialista ou instituição garantindo a qualidade do produto, como se isso fosse o fim das discussões.

Objetos considerados arte no passado, podem ser vistos, hoje, muito menos valorosos do que eram em sua época. O mesmo valendo para muito do que hoje não se dá valor, mas que amanhã pode se tornar obra-prima. Por exemplo, um quadro de Van Gogh.

Obviamente não precisamos nos encher de entulho, esperando ficar ricos mais tarde. Ainda mais porque depois da década de 1950, muito da arte, ou do que passou a ser considerado arte, não tem mais a ver nem com objetos, quadros pintados ou esculturas. E foram surgindo movimentos como a arte conceitual, arte desmaterializada, poéticas processuais, arte que só se sabe dela por registros fotográficos e, muitas vezes, só por ouvir falar. Mais, o próprio artista começou a falar do seu trabalho, sem esperar que um crítico o fizesse por ele (isso quando a autoria era assumida!).

Arte, vida e experimentação se tornaram quase uma fórmula para ações que, muitas vezes, tinham (e continuam tendo) mais a ver com protesto político, ação social, deslumbramento com a tecnologia, do que, propriamente, pelo que era até então considerado Arte (no sentido de "ciência do belo").

Exemplos é que não faltam, como a ação "4 dias e quatro noites", de Artur Barrio, feita em 1970, em que o artista saiu pelas ruas do Rio de Janeiro, andando, até perder toda a sua resistência. Sem registros de fotos ou vídeo, Barrio só foi começar a falar dela a partir de 1978.

Outro exemplo foi no evento Artecidade, há dois anos atrás, quando o artista Vito Aconcci criou um abrigo para sem-tetos debaixo de um viaduto, em São Paulo. Outro exemplo, ainda: dias atrás houve uma manifestação em São Paulo, em que vários manifestantes trocaram as placas da Av. jornalista Roberto Marinho, por Av. jornalista Wladimir Herzog - uma vítima da repressão da ditadura militar no país, que se tornou símbolo de resistência democrática. É possível chamar esses exemplos de arte?

A Bienal Internacional de São Paulo deste ano apresenta dois casos, no mínimo curiosos, dentro desse debate. Um é o próprio Barrio, que utiliza um barco cuja cor da vela remete a uma pintura do suprematista Mondrian, um dos principais expoentes da pintura da primeira metade do século passado. O curioso, no caso, é que depois de reconhecido como um artista radical e contestador, Barrio passe a mostrar referências da história da arte no que vem fazendo ultimamente, como uma reverência que parecia negar no início. Sinais dos tempos?

O outro caso fica por conta de uma dupla de artistas da Noruega, cujo trabalho consiste em ajudar a implementar em comunidades urbanas e rurais carentes, ações como: criação de áreas verdes, plantação de hortas orgânicas, plantas medicinais, recuperação de áreas ambientais degradas, projeto de plantação hidropônica, consciência ambiental, etc. Na sala reservada a esses artistas, quem quiser pode pegar um jornal que é mais parecido com um manual de manuseio da terra do que, propriamente, um "objeto artístico". É um trabalho, enfim, de conscientização. E, de qualquer forma, arte tem a ver com isso, também.

Há pessoas que dizem que o trabalho dos noruegueses não passa de prestação de serviço social, usando a arte como pretexto. Outras não vêem nada de negativo em se usar a arte como pretexto para realizar qualquer tipo de tarefa. Afinal, entre a reverência à história da arte e rompimento com as formas tradicionais já realizadas, a arte não vai deixar de ser o que é, ao mesmo tempo o que representa ser, independente do debate conceitual que se fizer em torno dela.

Porque, ao se apropriar de certos acontecimentos, reais ou não, banais ou raros, tudo pode estar investido, magicamente, de potencialidade artística, de invenção, de fantasia, de matéria lúdica. Mesmo um texto aparentemente objetivo ou científico. Mesmo uma foto jornalística. A descrição de um fenômeno. Uma manifestação de rua. Ficando livre, cada um, para interpretar como quiser e puder aquilo que lhe é dado aos sentidos.

Posted by Rubens Pileggi Sá at 3:44 PM | Comentários (6)