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abril 18, 2005

Quando a informação não chega por Renato Cruz

Quando a informação não chega

Sistemas anti-spam, criados para bloquear o lixo eletrônico, acabam impedindo internautas de receber boletins de notícia

Matéria de Renato Cruz publicada originalmente no jornal Estado de São Paulo em 4 de abril de 2005.

Com a revolução digital, a informação quer ser livre, certo? Pode até ser, mas nem sempre deixam. Sistemas anti-spam, criados para combater uma grande ameaça da internet, o lixo eletrônico que chega por e-mail, estão impedindo a difusão de mensagens úteis. São boletins de notícias e listas de discussão assinadas pelos internautas, que acabam por não chegar à caixa postal, confundidas pelos provedores de acesso com mensagens indesejadas. Um problema que não foi previsto, e para o qual os provedores ainda não conseguiram dar uma resposta satisfatória.

"É bastante sério", diz Cecy Oliveira, editora da revista digital Águaonline, especializada em saneamento e meio ambiente, que existe há cinco anos. Semanalmente, a empresa envia um boletim de notícias, com os principais destaques, para cerca de 10 mil pessoas que se inscreveram no site para recebê-lo. Mais de mil voltam. Algumas porque o endereço foi cadastrado errado.

Outras porque o e-mail não existe mais. Existem aquelas em que a caixa postal do destinatário estava cheia. Mas a maioria é barrada pelos sistemas anti-spam."Isso pode acabar inviabilizando o jornalismo pela internet", alerta Cecy, que gasta pelo menos uma hora por dia verificando os e-mails que voltam. "Existem provedores que resolveram bloquear as mensagens enviadas por sistemas automáticos."

A jornalista enfrenta agora um problema ainda mais sério: sua prestadora de serviços de internet, chamada Reweb e hospedada pelo Terra, informou que não poderá mais enviar o boletim de notícias, pois o provedor a proibiu o envio, por considerar a mensagem spam. Apesar de a Águaonline garantir que manda os e-mails somente para quem se cadastra.

Existem estatísticas que apontam que cerca de 100 mil toneladas de lixo domiciliar vão parar nos rios brasileiros. Diariamente. "Existe uma poluição terrível no mundo real", ressalta Cecy. "Será que vamos sucumbir também à poluição na internet?" Perto de 80% das mensagens que trafegam na rede mundial são spam. Além de entupirem as caixas postais, serem veículo de golpes e vírus, também ameaçam o jornalismo digital.

ROQUEIRO

Os leitores do boletim de notícias da Águaonline reclamam quando as mensagens não chegam, já os da newsletter da Rock Brigade, revista especializada em rock pesado, xingam. "Roqueiro é meio exaltado", explica Fernando Souza Filho, editor de Arte e Web Master da Rock Brigade. "E mais de 50% dos leitores são adolescentes."

No site, Souza colocou um aviso para quem está interessado em assinar o boletim: "Se o seu provedor de internet tem algum sistema anti-spam (como o do UOL), procure colocar o e-mail de nossa newsletter (newsletter@rockbrigade.com.br) na lista do que não é considerado spam, senão, você nunca receberá nenhuma mensagem nossa."

Mesmo assim, das mensagens mandadas aos 12 mil inscritos no boletim da Rock Brigade, cerca de 15% voltam todas as semanas. É de fazer headbanger bater a cabeça na parede. "Quase metade é do UOL", afirma Souza. O provedor tem um sistema anti-spam em que o remetente tem que confirmar a identidade.

Ele recebe uma mensagem com uma imagem de letras e números distorcidos, que precisa digitar para confirmar que é uma pessoa, e não uma máquina disparadora de e-mails. Enquanto isso, a mensagem fica numa espécie de local de quarentena. Acontece que quem envia os boletins são máquinas disparadoras de e-mails, que não conseguem confirmar a identidade.

A alternativa ao internauta é colocar o endereço do boletim em uma chamada lista branca, como recomenda a Rock Brigade. Mas nem todo mundo sabe fazer isso. "Recebo mensagens de pessoas perguntando o que é sistema anti-spam", diz o editor da revista.

BARREIRAS

O UOL tem um dos sistemas mais completos para evitar spams. Mas daí surgem problemas. O provedor tem uma lista negra geral, na qual as mensagens ruins batem e nem chegam ao endereço do internauta. A empresa também tem endereços-ratoeira, que nunca são divulgados.
Quando recebem mensagem, ou o remetente digitou errado, ou está combinando letras aleatoriamente, para atingir o máximo de pessoas possível. Cada internauta também tem uma lista branca (de endereços permitidos) e uma lista negra (de endereços proibidos). Isso além do sistema de desafio e resposta, para ver se a pessoa sabe ler e não é um robô.

"Sessenta por cento das mensagens que chegam já são barradas no primeiro filtro", conta o diretor de Tecnologia do Grupo Folha e do UOL, Victor Ribeiro. Sobre as reclamações, ele ressalta: "O antispam não é obrigatório. O usuário o ativa voluntariamente."

O problema é que, mesmo não sendo máquinas de disparar e-mails, existem pessoas que não conseguem ler as letras e números distorcidos para confirmarem a procedência das mensagens. É o caso de Gabriel Vicalvi, de 19 anos, administrador de redes da Rede Saci, um projeto para divulgar informações sobre acesso à tecnologia por pessoas deficientes. Estudante de Ciência da Computação, ele é cego desde que nasceu e usa um software que transforma texto em voz para navegar na internet e ler e-mails.

"É um desrespeito", afirmou Vicalvi, que criou no Orkut a comunidade "Eu odeio o anti-spam do UOL". O provedor de acesso informou que planeja lançar, ainda este semestre, uma versão audível da confirmação de mensagens de seu sistema anti-spam. No lugar de ler, o usuário poderá ouvir uma seqüência de letras e números, para então digitá-las.

A Rede Saci tem 8,5 mil cadastrados, distribui boletins e tem listas de discussão. "Dez por cento das mensagens voltam por causa de sistemas anti-spam."

Posted by Patricia Canetti at 12:31 PM