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setembro 1, 2009

Games alteram corpo e mente por Helena Katz, Estado de S.Paulo

Materia de Helena Katz originalmente publicada no Caderno 2 do Estado de S. Paulo em 1 de setembro de 2009.

O belga Derrick de Kerckhove fala hoje sobre mudanças culturais causadas por novas mídias

O ciclo Era Digital, idealizado pelo Centro de Pesquisa Atopos (www.atopos.usp.br), vinculado
à Eca-USP, apresenta hoje, às14h, no Sesc Consolação,o belga Derrick de Kerckhove, estudioso das mudanças culturais promovidas pelas novas mídias - uma versão mais otimista de Marshal McLuhan (1911-1980), aquele que se celebrizou com a formulação de “o meio é a mensagem”, e que, em 1964, definiu as mídias como extensões do corpo. Na década de 1970, Kerckhove foi seu assistente, tradutor, co-autor, e conta que foi com ele que aprendeu a trabalhar como presente e a pensar em tempo real. Entusiasta da sociedade conectiva, Derrick de Kerkhove dirigiu por mais de 20 anos o Programa McLuhan em Cultura e Tecnologia da Universidade de Toronto, onde continua dando aula, e hoje, é também professor na Faculdade de Sociologia da Universidade Federico II, em Nápoles, e na Universidade Aberta, da Catalunha.

A metáfora que dá título ao seu livro A Pele da Cultura (editora Annablume) ainda se sustenta?
Sim, ela está mais viva do que antes, mais forte e é ainda mais necessária do que no tempo em que a formulei. Não promove o dualismo, porque essa pele é um sistema sensório entre corpo e informações que estão no ambiente e nos faz entender que o nosso sistema nervoso
funciona como a eletricidade. Afinal, a cultura digital corresponde à fase cognitiva da eletricidade. Já tivemos outra fase, na qual a cognição vinha das ações musculares, porque dependíamos do calor, da luz e da energia. Há uma transformação do corpo, mas nem todos a
acompanham com atenção.

É nos mais jovens que essa mudança está mais presente?
Um dos meus interesses centrais é acompanhar como os mais jovens se adaptam aos novos sistemas tecnológicos e como interpretam as novas mídias. Nós aprendemos a amar porque lemos romances que nos ensinaram. Quem vem se educando por videogames está modificando seu sistema nervoso com certos padrões cognitivos. Aprender a se tornar hipertextual significa aprender a pensar e a viver de outra maneira, ou seja, com outra capacidade cognitiva.

Para estudar as mudanças que as novas mídias promovem no mundo deve-se aproximar da neurociência, acompanhar as pesquisas dos cientistas do cérebro?
É fundamental compreender que as conexões sinápticas mudam de acordo com as práticas
sociais. E essas não são mudanças temporárias. Tornam-se estratégias neurológicas para
viver em um mundo novo. O corpo muda.

Com que corpo se enfrentará esse próximo mundo, que o sr. vêm indentificando como sendo o tempo da comunicação quântica? Esse outro corpo poderia ser descrito como um estado e não mais como um objeto pronto a ser dissecado?
É exatamente isso: o corpo sendo um estado. Quando começamos a ler, aceleramos a velocidade da informação, e isso fez o corpo mudar. Em breve, os computadores quânticos promoverão uma radical transformação na velocidade, porque trabalharão todos os parâmetros juntos, resolvendo tudo de forma simultânea e não-linear. Hoje, no tempo digital, somos treinados no instantâneo e no linear e nosso corpo responde a essa condição. Porém, a implantação desse outro mundo, o quântico, não acontecerá agora. Em termos de fabricação de computadores quânticos, vivemos hoje mais ou menos o que acontecia nos anos 50 em relação à tecnologia digital.

O que vai trazer de bom esse mundo
quântico?
Vai propor um modo de vida que podemos associar com espiritualidade e misticismo. Mas,
cuidado para não entender equivocadamente o que estou chamando de espiritualidade, pois
falo de uma espiritualidade desdramatizada, algo que ainda não resolvemos com os computadores de que dispomos. Aliás, o que importa é entender que a tecnologia não vai resolver os problemas do mundo. Só a nossa atitude é capaz disso. Pertencer ao planeta é mais importante do que pertencer à sua cidade, mas quando pergunto às minhas platéias quem se sente globalizado, não encontro ninguém respondendo positivamente. Parece que a globalização ainda continua existindo como possibilidade.

Disseminar as tecnologias ajuda a construir um mundo melhor?
Devemos continuar a convidar a todos para a era eletrônica. Veja como as redes sociais
Já mudaram a formação dos jovens. Hoje, as identidades fazem parte do entretenimento.
Quem já nasceu funcionando dentro das redes sociais não se inquieta, por exemplo, em ter
Seus emails pessoais gerenciados por uma companhia privada como o Facebook. Quem é
jovem parece depender dessas formas coletivas de comunicação e não se importa que
companhias e governos usem perfis postados nas redes sociais como formas de controle
e identificação. Parecem não ligar para o uso que qualquer um possa fazer dessas informações. É, portanto, outro entendimento da separação entre público e privado,
que modifica o conceito de identidade.

Posted by Ana Elisa Carramaschi at 2:44 PM