|
|
dezembro 18, 2009
Arte Digital: Definições
O que é arte digital tem sido uma
das mais difíceis e polêmicas perguntas dos últimos anos. Frank Popper, famoso
teórico da arte e tecnologia, defendia o papel da interatividade como o grande
diferencial das obras em suportes eletrônicos. Para Popper a arte tecnológica
“faz referência a uma relação entre o espectador e uma obra de arte aberta já
existente na qual o termo “interação” implica um jogo de duas vias entre um
indivíduo e um sistema de inteligência artificial” Atualmente, após mais de
40 anos de experimentos artísticos com essa ênfase, muitas outras perspectivas
foram adotadas. Um dos fatos alteraram a experiência ligada à interatividade
foi a forma com a qual a sociedade da informação, após o surgimento de
tecnologias como a Internet, começou a lidar com as tecnologias e também a
ubiqüidade que os aparatos tecnológicos alcançaram na contemporaneidade. Um
outro fato importante na definição do que vem a ser arte digital tem a ver com
a própria definição de arte, que até hoje ainda causa polêmica, mas que pode
ser pensada em suas relações com essas configurações sociais que estamos todos
vivenciando. Um dos principais pilares dessa transformação no campo da arte e
que, por mais estranho que pareça, ficaram esquecidos durante um bom tempo na
teorização da arte digital, é o computador. Segundo alguns teóricos, como Lev
Manovich, muitos teóricos/artistas, principalmente europeus, por não terem
acesso muito rápido às inovações tecnológicas, teriam mais tempo para refletir
sobre os seus usos e suas implicações. Por outro lado em países produtores de
inovação e tecnologia, como Estados Unidos, uma nova tecnologia é assimilada em
questão de meses e se torna parte normal do cotidiano de milhares de pessoas,
não tendo o mesmo efeito ou impacto que nos outros locais³. Se observarmos que
conseqüências isso tem na arte digita, pode-se afirmar que talvez seja por esse
fato que nos Estados Unidos existam tão poucos festivais, exibições ou mesmo
mostras de arte digital como existem na Espanha, Alemanha, Áustria, Brasil,
Austrália, entre outros.
A arte digital poderia então ser definida como uma representação, um objeto
artístico, um processo-procedimento-intervenção-produto artístico criado de
forma desinteressada, através da utilização de aparatos tecnológico-digitais, como
computadores, processos computacionais, sistemas digitais, com a intenção de
seu criador de que aquela obra criada venha a dialogar com o campo da arte, de
forma direta ou de maneira a questionar os próprios procedimentos utilizados
pelos artistas e pensadores do campo artístico.
2 Frank
Popper, Art of Electronic Age. Nova Iorque, Harry N. Abrams, 1983), p. 18.
3 “Existem poucas formas de explicar este fenômeno.
Primeiramente, a velocidade com que as novas tecnologias são assimiladas nos
Estados Unidos as tornam “invisíveis” quase que do dia para a noite: elas se
tornam parte da existência do dia-a-dia, algo que parece não requerer muita
reflexão. A lentidão na assimilação e o alto custo envolvido dão aos outros
países mais tempo para refletir sobre as novas tecnologias, como foi o caso com
as novas mídias e a Internet nos anos 1990. No caso da Internet, no final dos
anos 1990 ela se tornou um lugar comum nos Estados Unidos, como o telefone,
enquanto que na Europa a Internet ainda era considerada um fenômeno para se
pensar sobre, por razões econômicas (os pagantes norte-americanos pagariam uma
assinatura mensal muito baixa; na Europa a Internet era por minuto) e por
razões culturais (uma atitude mais cética em relação às novas tecnologias em
vários países Europeus tornaram a sua assimilação mais lenta). (Lev Manovich,
New Media From Borges to HTML em New Media Reader, organização de Noah
Wardrip-Fruin e Nick Montfort, Cambridge, MIT Press, 2003, p. 13, minha
tradução).
Texto retirado do Relatório da Curadoria de Arte Digital - Cícero Inácio da Silva
Cultura Digital - http://culturadigital.br
