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novembro 26, 2006

"Conte sua história", de Alevi Ferreira, Daniel Silva, Felipe Silva e Hugo Borges

Conte sua história, projeto de Alevi Ferreira, Daniel Silva, Felipe Silva e Hugo Borges

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Clique sobre a imagem para assistir ao vídeo no Youtube.

RESUMO
Nesse texto, explicitaremos o quadro teórico que baseou a produção do documentário "Conte sua história", em que, sem promessas de prêmios ou de sucesso, pessoas comuns experimentam um dispositivo simples onde lhes é permitido contar qualquer fragmento de suas vidas. Longe da verdade ou de qualquer julgamento, elas jogam um pouco de cor sobre o cinza da cidade.

O QUE É UM DISPOSITIVO?

Duas famílias trocam de mães durante duas semanas. Catorze pessoas ficam trancadas em uma casa durante meses em busca de um prêmio milionário. Vários estilistas disputam semanalmente qual deles é o melhor. Nerds recorrem a especialistas para se tornarem jovens descolados. Casais trocam desaforos (ou confidências) ao vivo, em um programa de auditório. Gordinhas, sardentas e baixinhas estrelam campanhas publicitárias. Artistas e pessoas comuns têm o cotidiano acompanhado por câmeras atentas. Durante um mês, um sujeito testa, no próprio organismo, os resultados de refeições diárias no McDonald's.

Estes são apenas alguns exemplos de produtos audiovisuais que habitam a televisão e o cinema e que têm o real como matéria-prima. Em todos os casos, foi utilizado algum tipo de dispositivo que, ao invés de permitir a criação fabuladora das pessoas comuns, as transformou em personagens de roteiros previamente concebidos. A criação de um dispositivo já presume controle. Seja na descrição feita por Michel Foucault do Panóptico de Bentham1 e das sociedades disciplinares, seja na descrição feita por Gilles Deleuze das sociedades de controle2, o que está em jogo são formas de se exercer o poder da forma mais natural possível. Giorgio Agamben generaliza essa concepção3 e afirma que "dir-se-ia que hoje não haveria um só instante na vida dos indivíduos que não seja modelado, contaminado ou controlado por algum dispositivo". (AGAMBEN, 2005, p.13). Demonstraremos, a seguir, como um dispositivo pode permitir a criação ao invés da coerção.


DISPOSITIVO E DOCUMENTÁRIO: A FABULAÇÃO COMO POSSIBILIDADE

Como a produção audiovisual pode se valer, então, dessa noção, que presume o controle, a coerção; para produzir obras que, ao contrário, permitam a criação? "Ora, é uma sorte (para nós) que o mundo tomado na tela dos cálculos esperneia, permanece impalpável, além do perfeito e do imperfeito" (COMOLLI, 2001b, p.101). César Migliorin afirma que o dispositivo é a introdução de linhas ativadoras em um universo escolhido, onde o criador recorta um espaço, um tempo, um tipo e/ou uma quantidade de atores e a esse universo acrescenta uma camada que forçará movimentos e conexões entre atores (MIGLIORIN, 2005). "O dispositivo é uma ativação do real" (MIGLIORIN, 2005).

Diferentemente dos dispositivos que habitam o cotidiano, a utilização do dispositivo, no caso do documentário, implica na ativação de uma realidade que só existe no instante que o dispositivo acontece, ao mesmo tempo em que permite ao diretor certo controle da situação, possibilita que o contato entre os atores cause eventuais acontecimentos que ao próprio diretor serão inesperados. Ao impor um controle "frouxo" aos personagens, o documentário clama pelo aparecimento do outro, fazendo com que a criação seja partilhada entre diretor e personagens: "filmar torna-se assim uma conjugação, uma relação, onde se deve enlaçar-se ao outro" (COMOLLI, 2001a, p.115). Para Migliorin, o dispositivo cria uma situação onde os personagens são colocados a agir e nessa ação são efetivadas todas as potencialidades do real ou, como acrescente Consuelo Lins, "não se trata de contar uma história já vivida, mas de viver uma história para contá-la" (LINS, 2005, p.12).

Entretanto, a criação de um dispositivo não garante por si só a qualidade de uma obra, uma vez que os meios de comunicação e vários documentários utilizam dispositivos para oferecer narrativas fechadas sobre o mundo, fazendo nos acreditar que o real é aquele que nos é apresentado por eles. Utilizando essa abertura que um dispositivo de filmagem permite, o documentário deve procurar o real que surge desorganizado, que emerge por meio do homem ordinário e sua vida comum. "Filmar os homens reais no mundo real representa estar tomado pela desordem dos modos de vida, pelo indizível das vicissitudes do mundo, aquilo que do real se obstina a enganar as previsões" (COMOLLI, 2001b, p.105-106). Ao reconhecer a sua incapacidade de explicar e reduzir o mundo por meio das imagens, o documentário, em contato com o mundo, não deve resumir a obra ao dispositivo. "Melhor: ele não pode se impedir de desejar, para ir ao fim desta lógica de aprendizagem, ver seu dispositivo chacoalhado pela irrupção de dados inéditos" (COMOLLI, 2001b, p. 107). Assim como Comolli (2001b), acreditamos que os dispositivos podem permitir a exploração do que ainda não é de todo conhecido e, assim, abrir espaço para que o personagem seja o guia por esse novo mundo que se abre. "O enfoque da cultura começa quando o homem ordinário se torna o narrador, quando define o lugar (comum) do seu discurso e o espaço (anônimo) de seu desenvolvimento" (CERTEAU, 2002, p.63). Dessa forma, concordamos com o que aponta Deleuze (1990), ao sugerir a quebra de qualquer modelo de verdade e de julgamento. "O que se opõe à ficção não é o real, não é a verdade que é sempre a dos dominantes ou dos colonizadores, é a função fabuladora dos pobres, na medida em que dá ao falso a potência que faz deste uma memória, uma lenda, um monstro (DELEUZE, 1990, p.183). Para Deleuze, o cinema precisa apreender "o devir da personagem real quando ela própria se põe a 'ficcionar', quando entra em 'flagrante delito de criar lendas'" (DELEUZE, 1990, p.183). E o momento da fabulação é esse, quando a diferença entre aquilo que é real e aquilo que é imaginado se torna indiscernível, quando realidade e imaginário caminham juntos. Não é a pura e simples imaginação, que é facilmente repelida para o domínio do engano, como nos lembra Guimarães (2000). "A verdade não tem de ser alcançada, encontrada nem reproduzida, ela deve ser criada" (DELEUZE, 1990, p.178). Quando lembrança, realidade e imaginação vão se misturando durante a narração de uma história, "a personagem está sempre se tornando outra, e não é mais separável desse devir" (DELEUZE, 1990, p.185). Fabulando, ela se constitui como um sujeito da cena e não como um mero objeto que é observado. Cria um mundo, nele crê e se projeta. Reconstitui o seu lugar de fala.

VOCÊ LIGOU PARA...

Para a produção do documentário, estabelecemos a noção de dispositivo como uma maneira de se apreender o outro; além de permitir a manifestação da alteridade através da fabulação, pela qual o homem ordinário constitui o seu lugar de fala e oferece, ele próprio, maneiras de entendermos o local onde vive, sua história de vida ou de seu povo. Um dispositivo permite a formação de um mundo circunstancial, a partir do encontro entre realizador e personagens. O documentário-dispositivo capta o que acontece nesse encontro (ou seus vestígios), o momento em que a personagem se coloca a fabular e, assim, se torna também sujeito da obra.

A partir dessas premissas, estruturamos um dispositivo para ser experimentado. A idéia era oferecer um "serviço", no qual as pessoas ligariam para um determinado número para contarem uma história, ou que falassem qualquer coisa para a secretária eletrônica. Para publicarmos o serviço, fizemos milhares de panfletos, que foram distribuídos a várias pessoas em diversos pontos da cidade. Fizemos, ainda, um spam, que foi enviado a mais de 5000 e-mails. Contamos, também, com a colaboração de amigos e familiares na divulgação do serviço.

Caso alguém ligasse, as histórias narradas comporiam o filme com imagens feitas pelo grupo durante todo o processo de produção. Caso ninguém ligasse, o silêncio tomaria conta da experimentação, deixando claro o risco próprio a todo dispositivo. E onde estaria a fabulação? Ao oferecer um espaço onde as pessoas poderiam narrar qualquer fragmento de suas vidas, estaríamos oferecendo a elas a oportunidade de fabularem sobre elas mesmas. Os recados gravados na secretária abririam espaço para a fabulação do grupo. Inspirados pelas histórias contadas pelas pessoas que se dispuseram a ligar, criaríamos nossas próprias narrativas pessoais.

Durante a produção do vídeo, pudemos comprovar que o real está sempre atento, à espera da primeira fissura para surgir com toda a sua potência. Também experimentamos a fragilidade do dispositivo, que só é capaz de se tornar um documentário em contato com o outro. Em nossa experimentação, a boa receptividade que o panfleto teve nas ruas não se transformou em enxurrada de ligações: precariedade do dispositivo? Apatia do outro? Insubmissão do real aos roteiros e expectativas? Poderíamos optar por uma pequena fraude: nós mesmos ligaríamos para o número ou ofereceríamos no panfleto algum possível prêmio, etc. Mas essa opção não seria justa com o dispositivo e nem com o real que resolvemos provocar. Optamos e recomendamos o risco que o real pode oferecer.


1 "O princípio é conhecido: na periferia uma construção em anel; no centro, uma torre; esta é vazada de largas janelas que se abrem sobre a face interna do anel; a construção periférica é dividida em celas, cada uma atravessando toda a espessura da construção, elas têm duas janelas, uma para o interior, correspondendo às janelas da torre, outra, que dá para o exterior, permite que a luz atravesse a cela de lado a lado. Basta então colocar um vigia na torre central, e em cada cela trancar um louco, um doente, um condenado, um operário ou um escolar." (Foucault, 1987: 165 - 166) volta ao texto

2 Segundo Deleuze, "são as sociedades de controle que estão substituindo as sociedades disciplinares. 'Controle' é o nome que Burroughs propõe para designar o novo monstro, e que Foucault reconhece como nosso futuro próximo. Paul Virillo também analisa sem parar as formas ultra-rápidas de controle ao ar livre, que substituem as antigas disciplinas que operavam na duração de um sistema fechado". (DELEUZE, 1992b, p.220) A passagem da disciplina para o controle "se trata menos de uma ruptura entre um e outro - da disciplina ao controle, categórica e abruptamente - e mais de passagem, uma mudança de qualidade a partir de uma intensificação" (BRASIL, 2005). volta ao texto

3 "Generalizando posteriormente a já amplíssima classe dos dispositivos foucaultianos, chamarei literalmente de dispositivo qualquer coisa que tenha de algum modo a capacidade de capturar, orientar, determinar, interceptar, modelar, controlar e assegurar os gestos, as condutas, as opiniões e os discursos dos seres viventes. Não somente, portanto, as prisões, os manicômios, o panóptico, as escolas, as confissões, as fábricas [...] , cuja conexão com o poder é em certo modo evidente, mas também a caneta, a escritura, a literatura, a filosofia, a agricultura, o cigarro, a navegação, os computadores, os telefones celulares e - porque não - a linguagem mesma, que é talvez o mais antigo dos dispositivos". (AGAMBEN, 2005, p.13) volta ao texto


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGAMBEN, Giorgio. O que é um dispositivo? In: Outra travessia, nº 5. Florianópolis, 2005
CERTAU, Michel de. A invenção do cotidiano: 1. Artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 1994
COMOLLI, Jean-Louis. Carta de Marselha sobre a auto-mise en scène. In: Catálogo do Forumdoc.bh.2001. Belo Horizonte, 2001a.
COMOLLI, Jean-Louis. Sob o risco do real. In: Catálogo do Forumdoc.bh.2001. Belo Horizonte, 2001b.
DELEUZE, Gilles. A imagem-tempo. São Paulo: Brasiliense, 1990. 339p.
DELEUZE, Gilles. Foucault. São Paulo: Brasiliense, 1988
DELEUZE, Gilles. O que é um dispositivo?. In: DELEUZE, Gilles. O mistério de Ariana. Lisboa: Vega, 1996.
DELEUZE, Gilles. Carta a Serge Daney: Otimismo, pessimismo e viagem. In: DELEUZE, Gilles. Conversações: 1972-1990. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992a.
DELEUZE, Gilles. Post-scriptum sobre as sociedades de controle. In: DELEUZE, Gilles. Conversações: 1972-1990. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992b.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: história da violência nas prisões. Petrópolis: Vozes, 1987.
GUIMARÃES, César. O retorno do homem ordinário do cinema. In. Contemporânea. Revista de Comunicação e Cultura, vol. 3, n.2, dez. 2005 .p. 71-88. Disponível em . Acesso em 24.ago. 2006.
GIMARÃES, César. O Rosto do Outro. In: Catálogo do Forumdoc.bh.2000. Belo Horizonte, 2000. p.30-33
LINS, Consuelo. Rua de Mão Dupla: documentário e arte contemporânea. 2005. Disponível em < http://www.videobrasil.org.br/ffdossier/Ruademaodupla_ConsueloLins.pdf>. Acesso em 24 ago. 2006.
MIGLIORIN, Cezar. O dispositivo como estratégia narrativa. 2005. Disponível em Acesso em 24 ago. 2006.


O documentário Conte sua história é resultado da pesquisa "O dispositivo e a fabulação no documentário contemporâneo", realizada na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, sob orientação do professor André Brasil. Os autores desenvolvem atividades individuais no campo do audiovisual e da pesquisa acadêmica.

Posted by Leandro de Paula at 10:06 PM