março 2012
Dom Seg Ter Qua Qui Sex Sab
        1 2 3
4 5 6 7 8 9 10
11 12 13 14 15 16 17
18 19 20 21 22 23 24
25 26 27 28 29 30 31
Pesquise no blog:
Arquivos:
As últimas:









patrocínio_

    





apoio_











Powered by
Movable Type 4.01

 

março 13, 2007

"Bússola", de Renato Rezende

De vez em quando, é bom andar na corda bamba.

Viver é passar por um intestino.

As luzes douradas.
Fogaréu azul.


Não dá para fazer mais nada.

Tenho certeza que algo existe em mim. Só não sei se esse algo sou eu.

Sou em essência alguém ou sou apenas um lugar, um ponto de confluência de palavras e corpos?

Meu carro parado no acostamento da estrada movimentada me provoca uma angustiante sensação de movimento.

Passo pelas coisas ou são as coisas que passam por mim, me atravessam? Atravesso?

O que em mim é?

Imagine a Mariana, por exemplo. Ela está lá, agora, sendo a Mariana. Para mim, ela só existe de vez em quando, quando por alguma razão me lembro dela. Para ela, ela existe o tempo todo. Para mim, eu existo o tempo todo. Mas e se eu conseguir existir para mim como a Mariana existe para mim, ou como eu existo para a Mariana: de vez em quando? Então, quando sair da sala, por exemplo, onde sou eu para os outros, e for ao banheiro, no banheiro serei apenas nada, um ser mijante. E se eu fizer desses intervalos minha vida? E se eu alternar sempre sendo e não-sendo? E se eu carregasse o rosto no bolso?


O desejo é minha bússola
Nosso único norte. O desejo:

Lá onde menos temos controle
é que somos mais o que somos.

O que em mim prefere
na cama uma mulher a um homem
Quando fica com fome, come
coisas cozidas, digere. O que em mim
quando corre sente tremer o corpo?


O maior problema da minha vida é que eu desenvolvi o hábito de abrir janelas à tarde.

Sempre de olho no extraordinário, sempre caindo pelas brechas do calendário, sempre olhando para longe

Eu pareço um balão que está sempre querendo se soltar do chão

Pensei em ir à praia

pensei seriamente em ir à praia

capaz ainda de ir á praia no final da tarde

(não por prazer,
mas por amor):

O mar eternamente batendo na praia

—isso sim é liberdade!:


Na areia, parecia um animal morto,

uma carcaça
mas era uma jaca podre.

O coração aberto como uma concha.


Renato Rezende abandonou seus estudos na USP no início da década de 1980 para aventurar-se pelo mundo, tendo percorrido toda a Europa e parte da América. Formado em Estudos Hispânicos pela Universidade de Massachusetts, estudou também na Espanha e na Índia. Como poeta publicou, entre outros, Aura (2AB, 1997), Asa (Velocípede, 1999), Passeio (Record, 2001), com o qual recebeu a Bolsa da Fundação Biblioteca Nacional para obra em formação e Ímpar (Lamparina, 2005), ganhador do Prêmio Alphonsus de Guimaraens, melhor livro de poesia, 2005. Tradutor de dezenas de livros e artigos de filosofia, história e arte contemporânea, além de poetas de língua inglesa e espanhola. Vive e trabalha no Rio de Janeiro.

Posted by Leandro de Paula at 5:42 PM