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outubro 1, 2007

Grand Tour 2007: Cobertura a várias mãos: Que texto cabeça, por Rafael Campos Rocha

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Foto de Pedro Torres

Grand Tour 2007: Cobertura a várias mãos
Que texto cabeça, por Rafael Campos Rocha

"(...) Que texto cabeça (...) confesso que li por alto (...) Porém um pouco prolixo.
Seja mais sintético, meu amigo, escreva menos para as pessoas lerem mais. Quanto à Bienal, veja o que escrevi no comentário do texto do (...).
ab
A Malta"

Devo ter sido mesmo pouco claro quando citei a célebre passagem do 18 Brumário em que Marx alerta sobre a estetização do ideário do passado para tratar da tessitura do presente. Afinal, eles repetiram o mesmo erro em Kassel. Mas foi importante por ter-me aberto os olhos para outras intenções escondidas no slogan de Barthes para a nossa última bienal que por sua vez explicam aspectos (mas não as intenções) dessa última versão da Documenta de Kassel, mesmo que as deformações dessa sejam mais gritantes e tenham feito mais danos, tanto as obras quanto as intenções dos próprios curadores. Na verdade eu gostei da Bienal, assim como da Documenta, apesar delas mesmas. O evento brasileiro tinha vários trabalhos de alto nível técnico em contraste à subserviencia colonizada (inconsciente ou não) da temática curatorial, sempre pronta a sugerir que a roda sangrenta da história pode parar de girar quando descobrirmos que tudo não passa de um mal-entendido de linguagem ou de caráter existencial. Sei. Devolver o Texas, a faixa de Gaza e o solo iraquiano ninguém quer, garanto. Enfim, a cobiça e a resistencia à ela (as engrenagens da roda) podem ser substituidas por um diálogo franco entre culturas, nós (os outros) não queremos tomar tudo Deles (europeus e americanos) mas somente viver juntos, em total harmonia para toda a eternidade do Espírito, esquecendo as mazelas do passado e tocando nosso tamborzinho na selva transformada em parque temático. Infelizmente, queridos, é mentira. Não seremos mais bonzinhos com eles do que eles foram conosco. Um dia Bagdá abrigou 2 milhões de pessoas enquanto Paris continha 80 mil aldeões, e hoje os iraquianos tem que abaixar a cabeça para o consenso internacional pró-americano de como eles devem ser. Algo impensável para um árabe do século X. E acontecerá de novo, com outros personagens, enquanto a existência do Tempo não for aniquilada, com toda a vida terrena com ele. É lógico que essa é uma simplificação, contando somente com os aspectos materialistas dessa representação, mas esquecer por completo esses aspectos nos faz correr um risco incomensurável. Em segundo lugar, a propria criação de uma cultura autonoma, como frisou Jameson em seu ensaio sobre os estudos culturais, já é, em si, um ato de violência, ou pelo menos um ato com a violência necessária para a diferenciação do Outro, diferenciação essa que dá acesso à própria existência ou noção de si.

Pois bem, o fracasso da arquitetura expositiva de Kassel 2007 nasce justamente de uma retomada intencional dos paradigmas de montagem da primeira Documenta, em 55, em que uma contaminação entre cultura técnica e cultura artística (cortina fazendo as vezes de fundo para pintura e pintura fazendo as vezes de fundo para a legenda explicativa da mostra) parecia purgar a logística assassina do nazismo. Bom, não imagino como o público tenha percebido isso na época, mas sei o que isso causou em mim, hoje. Primeiro, o 11 de setembro não é o Holocausto, e a invasão do Iraque não é a segunda guerra mundial, a não ser pelo puxa-saquismo covarde das potências européias. Em segundo lugar, a narrativa auto-purificante da arte modernista (como pensava Greenberg, o cachorro-morto predileto da crítica pós-moderna) sempre apontou na direção da Unidade (entre arte e vida, sujeito e objeto) e a montagem naquela documenta de 55 tentava uma reconstituição filológica do modernismo para separá-lo do racionalismo tosco e deturpado do nazismo. Certo, os caras da documenta XII não são trouxas, como se pode comprovar pelo artigo excelente e esclarecedor sobre essa mesma Documenta de 55, escrito por Roger M.Buerden, mas a própria idéia de uma origem histórica de uma proposta curatorial pode ser lida de forma enviesada, já que uma origem é sempre narrada de um ponto do presente. Raizes flutuando no ar. E é nisso que a documenta parece não se resolver: entre uma retomada do caráter utópico do modernismo, com sua busca da unidade do humano por sobre as barreiras da contingência e uma mera retomada estética (fashion mesmo) dessa utopia. Daí o aspecto juvenil, e até pueril dessa retomada. E, convenhamos, pintar uma sala de pêssego ou verde bandeira não vai resolver o problema da liberdade do indivíduo dentro da multiplicidade do Ser mais do que um branquinho básico de museu. Eu, realmente, sou cada vez mais incrédulo com relação a essas alternativas a institucionalização da atividade artística. Fazer o que com a Mona Lisa? Deixar no relento? Enfim, prefiro direcionar minha indignação contra a Tortura e poupar, por hora, o "cubo branco".

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Tanaka Atsuko

Por outro lado, um evento de arte desse tamanho SEMPRE vai contribuir de alguma forma. Tanaka Atsuko, a integrante do arrojadíssimo grupo Gutai, de Tokio (algo como concreto, em português) é realmente muito mais do que uma simples curiosidade antropológica, e suas experiências precedem e muitas superam a abordagem fenomenológica que Oiticica desenvolveu mais de vinte anos depois. A própria transdiciplinaridade do grupo, com seus integrantes exercendo múltiplas profissões desligadas do metier de arte, contribui, no nosso entender, para o arrojo de suas intervenções. Afinal, nada menos interessante do que arte que trata de arte.

Paradoxalmente, a documenta contribui quando se atém à sua proposta anti-propositiva, ou seja, quando podemos notar uma unidade nas intenções curadoriais, mesmo que sua proposta seja a multiplicidade descentralizada. Enfim, essas coisas são mesmo complicadas. E nem mesmo esse fuá pode estragar os exepcionais desenhos, exercícios e pequenas meditações de Friedl, Schendel, Guogu e Kanwar, além do evidente interesse em uma abordagem artística um pouco diferente do espetáculo tecnológico do panorama artístico institucional (o que não impediu que Iñigo Manglano-Ovalle fizesse uma das melhores obras da mostra em estilo altamente tecnológico-cenográfico-monumental). A opção pela atividade artística "paralela" ou descentrada e modesta (esbocos, reflexões inacabadas) não deveria, entretanto, nos aproximar das obras de Klee, por exemplo, cuja busca do Invisível acaba sendo diamentralmente oposta ao tatear existencial das outras escolhas da curadoria. Ou seja, ambos os tipos de artistas estão certos (quando acertam), e a curadoria está errada (mesmo quando acerta na escolha dos artistas).

Que fique claro, entretanto, que isso não é uma declaração de guerra à curadoria da Documenta ou curadorias em geral, mas é, isso sim, uma posição contrária ao princípio curatorial em geral mais ou menos como Rosalind Krauss quando escreveu um livro inteiro contra o fotográfico em geral. Ou seja, contra o próprio norte dessas generalizações para a futura sobrevivência dessas mesmas generalizações, que continuo considerando fundamentais para a atividade artística. Ou seja, uma complicação infernal que me recuso a simplificar somente para usar um botton "estive na Documenta" ou praguejar no boteco contra os curadores que não nos chamam para tal e tal exposição.

Por último, cabe destacar a excelente publicação das discussões em torno dessa mesma curadoria. Um catatau ilustrado com a participação de diversas revistas de arte ao redor do mundo, inclusive desse Canal Contemporâneo. Na verdade, toda a exposição foi pensada um pouco em torno dessa discussão interdisciplinar de arte no qual essas revistas não-comerciais do assunto são tão ricas. O poeta estava certo. No final das contas, tudo é feito para terminar em um bom catálogo.

Rafael Campos Rocha é artista plástico.

Posted by João Domingues at 12:32 PM