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setembro 20, 2007

Grand Tour 2007: Cobertura a várias mãos: Passos e espaços no Skulptur Projekte Münster 2007, texto e fotos de Hugo Fortes

Grand Tour 2007: Cobertura a várias mãos
Passos e espaços no Skulptur Projekte Münster 2007, texto e fotos de Hugo Fortes

Possibilidades e impossibilidades da arte no espaço público

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Era uma manhã fria e chuvosa do fajuto verão alemão. Os nativos já haviam me advertido da necessidade de se alugar uma bicicleta para percorrer o Skulptur Projekte Münster, já que as obras, distribuídas por toda a cidade nesta grande exposição ao ar livre, encontravam-se distantes umas das outras. Porém minha teimosia e minha preguiça paulistana decidiram seguir a pé.

Poder visitar o Skulptur Projekte Münster é realmente uma experiência rara, já que a exposição acontece apenas a cada 10 anos. Criado em 1977 com o intuito de dotar a cidade de um grande número de esculturas públicas, que assim se tornariam um chamariz turístico, o Skulptur Projekte vem trazendo, a cada uma de suas edições, artistas do porte de Donald Judd, Richard Serra, Claes Oldenburg e Rebecca Horn, entre outros, para desenvolver projetos específicos para a pequena cidade de Münster. Embora também haja obras efêmeras, muitas das esculturas perenes permanecem instaladas na cidade e podem ser visitadas nas edições seguintes. O oneroso levantamento de verbas para o financiamento do projeto justifica a periodicidade do evento a cada década. Aos olhos de um brasileiro, é de se admirar o tempo de antecedência com que os alemães conseguem planejar seus eventos, sem deixá-los "morrer na praia" no meio do caminho.

Entretanto, para um tempo de planejamento tão longo, creio que a organização da exposição poderia estar um pouco mais clara. Embora haja um mapa da cidade indicando onde estão situadas as obras, nem sempre é fácil localizá-las, já que as pequenas plaquetas que as identificam são difíceis de encontrar. Esta dificuldade, porém, decorre também às vezes das próprias características de muitos dos projetos de arte contemporânea, que, ao invés de se imporem como monumentos no espaço público, parecem oferecer certa resistência a se tornarem atrações turísticas e acabam por se articular através de meios fluidos e estratégias efêmeras.

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Um exemplo é a instalação de Isa Genzken, construída com bonecas baratas quebradas, guarda-sóis estropiados e cadeiras caindo aos pedaços. Há uma visível violência nesta obra que parece estar abandonada ao vento em meio a uma pequena praça em frente a uma igreja medieval. O catálogo explica que a instalação faria uma representação de uma nova paixão de cristo, já que a instalação situa-se em frente a uma igreja e as bonecas parecem tão torturadas e depauperadas como o Salvador.... Humm!?.... Pode ser... Difícil mesmo é pensar nesta obra como escultura pública, dada a sua fragilidade. E talvez seja por isso que ela atrai o interesse e incomoda o observador de certa maneira. Enquanto caminho por lá surpreendo-me pelo fato da obra ainda estar ali; creio que se ela fosse instalada aqui nas metrópoles brasileiras dificilmente resistiria mais do que cinco minutos.

Uma atitude provocadora nota-se também no trabalho do artista Andreas Siekman. Instalada na frente de um dos mais belos palácios barrocos de Münster, a obra de Siekman mais parece uma imensa bola de lixo reciclável, ao lado de uma enorme caçamba para prensamento de detritos. O material utilizado para a confecção da escultura foram antigos animais e bonecos de plástico utilizados pelo departamento de marketing das cidades do interior da Alemanha. O escoamento do dinheiro dos cofres públicos, gasto na auto-propaganda municipal é criticado pelo artista também através do título da obra: Escoamento. O espaço público na era de sua privatização. A obra é ao mesmo tempo auto-crítica, já que ela se insere também dentro deste esquema de financiamento público e confronta a imponência luxuosa do palácio frente ao qual se encontra com a feiúra pobre de sua realização.

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As relações entre o poder público e o espaço urbano são também questionadas ironicamente nos trabalhos do escultor Thomas Schütte. Em 1987 o artista já havia participado do Skulptur Münster Projekte com uma escultura que representa duas enormes cerejas colocadas imponentemente sobre uma coluna escultórica. O trabalho deveria funcionar como crítica à vontade de embelezamento da cidade, como se as cerejas fossem apenas os detalhes de enfeites que faltavam para completar o "bolo de noiva" urbano.No novo trabalho, construído em 2007 ao lado do antigo, Schütte criou um grande sarcófago de vidro que encobre uma fonte escultórica já existente no local. Sobre o sarcófago pode-se ver uma espécie de maquete de um possível museu que poderia ser construído em Münster, por sugestão do artista. A apresentação visual do trabalho é de extrema artificialidade, estabelecendo um jogo irônico entre sedução e mau gosto. A cobertura de vidro, ao mesmo tempo em que protege a fonte existente, tendo assim um papel museológico, também a distancia do público e exibe o duplo jogo do poder público enquanto conservador e promotor de obras de arte.

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Enquanto muitos dos artistas utilizam seus trabalhos para criticar o poder público, outros optam por obras desmaterializadas, performáticas, efêmeras ou pouco visíveis, numa certa recusa a constituir uma presença monumental no espaço urbano. Um caso de intervenção social, por exemplo, é a obra de Maria Pask. A artista montou algumas barracas de camping em um parque da cidade e em uma delas há uma espécie de centro esotérico, onde podem-se consultar livros sobre diversas religiões e onde são realizadas palestras com líderes de diversas crenças, revivendo assim uma espécie de acampamento hippie dos anos 60. Confesso que demorei a perceber que aquilo também era uma obra.

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Há também pelo menos três obras difíceis de serem percebidas. Uma delas é um fio que o artista Mark Wallinger amarrou entre diversos prédios da cidade, em alturas entre 4,5 e 15 metros, circundando uma área fechada. Fui até o local indicado pelo mapa para a localização da obra e não vi nada. Só depois fiquei sabendo pelo catálogo que o local marcado no mapa era o centro da área isolada pelo fio; provavelmente eu já tinha passado diversas vezes sob o fio ao caminhar pela cidade sem me dar conta.

Outra obra que foge de espectador é o projeto Caravan de Michael Asher. Trata-se de um trailer antigo que a cada semana é estacionado em um local da cidade. Desde a primeira edição do Skulptur Münster Projekte o artista vem estacionando o trailer sempre nos mesmos lugares, repetindo o roteiro a cada dez anos. Não há nada de especial no trailer, apenas o fato de que ele foi ficando velho e a cidade foi se modificando, sendo que alguns lugares onde ele costumava estacionar não existem mais. O artista pretende discutir com isso a passagem do tempo e as transformações do espaço urbano. Sorte de quem conseguir encontrar o tal trailer, sem que ele passe despercebido.

Ao caminhar por Münster vi um vendedor de revistas pela rua, destes que costumam pedir dinheiro nas cidades alemãs, um pouco como nossos vendedores de bala no sinal, porém não tão miseráveis. Apenas quando estava indo embora de trem da cidade, ao ler o catálogo notei que aquilo era na verdade uma obra da artista espanhola Dora García. O vendedor de revistas era na verdade um performer, que observa os observadores da exposição e depois relata seus comentários no site www.thebeggarsopera.org

Parece que mesmo as obras de artistas mais antigos, que pretendem funcionar como monumentos duradouros, recusam-se a marcar uma presença escultórica muito visível na cidade. O trabalho "Square Depression", de Bruce Naumann, embora construído com concreto abrangendo uma grande área de uma praça pública, ao invés de se projetar verticalmente como escultura, cria uma depressão piramidal que afunda em a partir do chão. Durante minha visita vi alguns jovens, provavelmente estudantes de arte, divertindo-se com suas bicicletas sobre o "sagrado" Bruce Naumann.

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Mesmo a exposição chamando-se "Skulptur Münster Projekte", ela engloba também uma série de vídeos, alguns aliás bastante interessantes. Talvez uma das obras mais interessantes da exposição seja o vídeo "Drama Queens" da dupla Elmgreen & Dragset.

O filme documenta uma peça de teatro realizada ao vivo no dia da abertura da exposição. Bem, ao vivo em termos, pois os atores da peça são réplicas de esculturas modernas famosas de artistas como Henry Moore, Barbara Hepworth, Giacometti, Sol LeWitt, Jeff Koons e outros. O engraçado e que cada escultura movimenta-se e fala com voz, trejeitos e "pensamentos" típicos de seu criador. Assim vemos a magra escultura de Giacometti tecer comentários melancólicos sobre a vida, a estrutura de Sol LeWitt teorizar matematicamente sobre a arte conceitual ou a maluquinha escultura de Jeff Koons falar bobagens sem parar. "Drama Queens" não deixa de ser um comentário hilário sobre a situação da arte e seus discursos.

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Uma exposição de esculturas no espaço público, na qual as esculturas fogem ou escondem-se do público, riem e tecem comentários sobre ele ou reclamam de seus próprios patrocinadores oficiais, realmente dá muito o que pensar. Porém não é fácil correr o dia todo atrás de obras de arte que insistem em escapar daquilo que se espera e às vezes são mais fáceis de ver no catálogo do que em seu lugar (ou não-lugar?) original. Sem conseguir ver todas as obras, até mesmo pela extensão da exposição, volto para casa com os pés cansados e a cabeça cheia de perguntas, sem saber ao certo o que perdi ou o que foi melhor ter visto pelo catálogo mesmo. O trem no qual retorno para Berlim acelera e pela janela vejo imagens e experiências fugidias.


Hugo Fortes é artista plástico, professor universitário e pesquisador. Realizou doutorado em Artes na ECA-USP e na Universität der Künste Berlin, na Alemanha, onde residiu por dois anos. Tem participado regularmente de exposições no Brasil, Alemanha, França, Espanha, Grécia, Dinamarca, Armênia, Filipinas e Uruguai.

Posted by João Domingues at 11:20 AM | Comentários(5)
Comments

Parabéns Hugo!
O texto ficou muito bom, claro e gostoso de ler.
E nos faz refletir... A que ponto chegamos!!!

Posted by: Patricia at setembro 22, 2007 7:48 PM

Gosto muito mesmo da franqueza com que escreve, faz com que eu acredite e concorde ou discorde realmente, muito legal, parabéns

Posted by: Newman Schutze at setembro 24, 2007 2:11 PM

ótimo texto! parabéns... o engraçado é que a sua visita à tal exposição parece um passeio pela cidade onde moro atualmente. valeu!

Posted by: robson at setembro 25, 2007 11:31 PM

Hugo, parabéns novamente.
Nesse momento em que estou envolvida com questões da arte píblica onde moro, muito me ajuda suas percepções e análises vindas de tão longe com questões tão próximas.
Não poderia de deixar de registrar que ADOREI
o termo "enfeitar o bolo de noiva" urbano;e se me permite gostaria de adotá-lo por tamanha precisão.Parabéns.ABÇ.Ana Maria Bomfin

Posted by: ana maria bomfin at setembro 26, 2007 2:18 PM

Olá Hugo,
acabei de voltar de Münster e foi bom ler seus comentários para não ficar achando que só eu fiquei com a impressão de que perdi alguma coisa... realmente, é uma experiência que beira a frustação. É um esforço enorme para localizar as obras (planejaram tanto, bem que poderiam também ter posto algumas plaquinhas ajudando a mostrar o caminho, né?). Além disso fiquei com a impressão de que, em geral, há um certo provincianismo nas questões colocadas pelas obras. Muito delas me pareceram velhas... Vou lendo o catálogo para relativizar um pouco essa minha impressão.
Também gostei muito do "Drama Queens"!
Abraços,
Patricia Furlong

Posted by: Patricia Furlong at outubro 8, 2007 5:18 PM
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