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maio 22, 2008

NY, NY - Cai Guo-Qiang: não quero acreditar, por Juliana Monachesi

cai_guo_qiang2.jpg cai_guo_qiang3.jpg NY, NY - Cai Guo-Qiang: não quero acreditar

JULIANA MONACHESI

Assim que a porta giratória joga você no hall do museu Guggenheim, um certo arrebatamento é inevitável. E nada me tira da cabeça que o sentimento é também calculado, à maneira do clímax hollywoodiano, que enreda o espectador de modo a "programá-lo" para se emocionar em um determinado momento do filme. A obra Inopportune: Stage One [Inoportuno: Cena Um], instalação composta de nove carros brancos que estão suspensos como numa capotagem progressiva (e invertida) do chão ao topo da rotunda do museu -de cada carro, dezenas de hastes de luz elétrica simulam fogos de artifício explodindo-, é uma pertinente introdução à faceta espetaculosa da obra do artista chinês Cai Guo-Qiang. Conhecido pelos trabalhos em que utiliza pólvora, seja na "composição" de desenhos de grandes dimensões ou nos "eventos explosivos", Cai Guo-Qiang merecia em sua retrospectiva no museu Guggenheim de Nova York uma "introdução" menos literal.

A série de "explosion events" foi iniciada em 1989; eventos entre os quais os mais famosos são, provavelmente (e em ordem cronológica), The Earth Has Its Black Hole Too: Project for Extraterrestrials nº 16 [A terra também tem seu buraco negro: Projeto para extraterrestres nº 16], realizado no parque central de Hiroshima em 1994, próximo à região atingida pela bomba atômica em agosto de 1945; The Century with Mushroom Clouds: Project for the 20th Century [O século das nuvens de cogumelo: Projeto para o século 20], que ocorreu em diferentes locais dos Estados Unidos entre fevereiro e abril de 1996; Ye Gong Hao Long (Mr. Ye Who Loves Dragons): Explosion Project for Tate Modern [Ye Gong Hao Long (Sr. Ye apaixonado por dragões): Projeto de explosão para a Tate Modern], projetado para o museu londrino e a Millenium Bridge em 2003; e Red Flag [Bandeira vermelha], ambiciosa explosão levada a cabo na fachada da Galeria Nacional de Arte Zacheta, em Varsóvia, em 2005; além, obviamente, do espetáculo que está sendo preparado para a abertura dos jogos olímpicos de Pequim, em 2008.

Também no piso térreo do museu, em diálogo com Inopportune: Stage One, é apresentada a videoinstalação Illusion (2004), com três projeções que mostram a imagem de um carro explodindo sobreposta a cenas da igualmente alucinante movimentação de carros, pessoas e painéis digitais luminosos em Times Square. A obra sugere que a explosão -um atentado terrorista?- teria de fato ocorrido na movimentada região de Manhattan, em meio à apatia dos pedestres, ao mesmo tempo em que o desmente no título, reforçando que a fusão de imagens não passa de ilusão (arrebatamento calculado, como na instalação que divide o hall de entrada com os vídeos). Subindo pelas rampas circulares do museu, o visitante se depara primeiro com a obra Inopportune: Stage Two, composta de nove réplicas de tigres em tamanho natural cravados de flechas; em seguida, no piso seguinte, com a instalação Head On [De frente], exibida originalmente no Deutsche Guggenheim (Berlim, 2006), onde a alcatéia de 99 lobos em tamanho natural colidindo contra uma barreira de vidro e capitulando em posições atormentadas pelo chão devia fazer bastante mais sentido do que na rampa clean de Frank Lloyd Wright.

cai_guo_qiang1.jpg cai_guo_qiang4.jpg

Quatro níveis acima do hall, finalmente, estão expostos os desenhos e pinturas de pólvora. "Os desenhos de Cai Guo-Qiang feitos de explosivos incendiados de pólvora colocada sobre papel constituem um novo meio de expressão artística contemporânea. Para Cai, sua escolha de material e processo é significativa porque se situa fora das categorias convencionais das formas artísticas orientais e ocidentais; seus trabalhos são livres de associações lineares com quaisquer tradições específicas da história da arte. Junto dos eventos explosivos aos quais são conceitualmente ligados, os desenhos de pólvora de Cai orientam sua idéia central de mediar forças de energia natural para criar obras que conectam tanto o artista quanto o espectador com estados primordiais e contemporâneos de caos, contidos no momento da explosão. Eles também demonstram seu interesse central pela relação entre matéria e energia; nestes trabalhos, a matéria (pólvora) explode em energia e se reverte em matéria em outro estado (o desenho carbonizado). Desta maneira, eles são representações de tempo, processo e transformação" (1), escreve Alexandra Munroe, curadora sênior de arte asiática do Solomon R. Guggenheim Museum em ensaio para o catálogo publicado por ocasião da retrospectiva do artista.

Aqui, já sem energias pela falta de comedimento curatorial na exploração, quiçá involuntária, da faceta kitsch do grande artista chinês da atualidade, desisti; assolada pelo sensacionalismo, perdera a capacidade de entrar no clima mais denso de conexão com o caos e com a transmutação da matéria em superfícies frágeis, em tudo opostas à presença acachapante de tigres, carros, lobos e luzes piscando no caminho que me levara até ali, desenhos, pinturas e registros em vídeo dados à investigação detida dos detalhes e vestígios de lesões deixadas por uma explosão (real e simbólica) dos cânones da arte. Gostaria de ter lido uma resenha que sugerisse iniciar a visita pelo sexto andar. Ver a exposição de cima para baixo poderia ter rendido outra leitura da obra do artista, inclusive da espetacular Inopportune: Stage One, em que o slow motion do carro capotando pareceria um rewind do acidente hollywoodiano gerando um anticlímax mais afeito à sensibilidade contemporânea.

Notas:
1. Texto original: "Cai Guo-Qiang's drawings made from igniting gunpowder explosives laid on paper constitute a new medium of contemporary artistic expression. For Cai, his choice of material and process is significant because it lies outside of the conventional categories of Eastern and Western art forms; his works are free from linear associations with any specific art historical traditions. Together with the explosion events to which they are conceptually linked, Cai's gunpowder drawings convey his central idea of mediating natural energy forces to create works that connect both the artist and the viewer with primordial and contemporary states of chaos, contained in the moment of explosion. They also demonstrate his central interest in the relationship of matter and energy; in these works, matter (gunpowder) explodes into energy and reverts to matter in another state (the charred drawing). In this way, they are charts of time, process and transformation" [Thomas Krens e Alexandra Munroe, Cai Guo-Qiang: I Want to Believe. Nova York: The Solomon R. Guggenheim Foundation, 2008, p. 91].

Posted by Juliana Monachesi at 9:42 PM

maio 4, 2008

CONEXÃO Fortaleza – CASA CASULO, por Júnior Pimenta


Exposição MAC Gaio Matos 2.jpg

CONEXÃO Fortaleza – Casa casulo

JÚNIOR PIMENTA

Penso a urbe de forma orgânica, como um ser complexo onde se interrelacionam várias estruturas, com o propósito de manter a vida.

Avenidas, ruas, travessas, ruelas, becos, funcionam como espécies de canais sangüíneos, pelo qual se movimentam as células, que unidas dão vida a esse corpo-cidade.

Na série de trabalhos do artista Gaio Matos, intitulada de “Ambulantes”, mostra uma arquitetura viva que é capaz de se movimentar.

Em “Ambulantes”, Gaio realiza um conjunto de fotografias, em que registra um caracol em seu habitat, com uma planta baixa de uma casa (compartimentada), desenhada na parte superior da concha do molusco. Em uma das imagens, o caracol se localiza num lugar verde, composto por uma vegetação rasteira. A ação se repete de forma semelhante nas outras imagens da série. Porém, sendo utilizado um novo habitat e residido por um outro ser.

Exposição MAC Gaio Matos 1.jpg

Dividida por compartimentos virtuais, descritos nos desenhos, essa arquitetura mantém uma relação tão íntima com o ser, que acaba fazendo parte deste. Funcionando como o posicionamento de unidades espaciais, justapostas à maneira de células de um tecido orgânico.

Essa espacialização virtual é percebida apenas como volume, visto que seu continente lateral, ou seja, suas “paredes” são imaginárias.

Tudo isso se faz muito presente na vida urbana, onde pessoas carregam as suas próprias casas, ou pior, elas são suas próprias casas, só não possuem casulos adaptados aos seus corpos, e acabam tendo que transformar espaços (não lugares) em lugares íntimos. E essa arquitetura imaginária se torna mais visível e perceptiva, pois não tem fachada.

Júnior Pimenta é Artista Visual e graduando em Arquitetura e Urbanismo.

Posted by Oficina at 6:40 PM