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outubro 15, 2007

CONEXÃO Fortaleza - Entre flores e impressões, por Eunice Siebra

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Quando as memórias e os desejos se encontram...

EUNICE SIEBRA

Nada parece permanecer tão resguardado do que nossas lembranças. Viemos ao mundo com uma nativa capacidade de produzir e arquivar imagens, mesmo aquelas que não se reproduziram efetivamente no dito "mundo real".

Uma sensação mista de curiosidade e nostalgia se fez presente quando me proporcionei a tarefa de assistir ao vídeo Estão Voltando as Flores , da artista Jussara Correia, uma entre os trinta artistas selecionados do 58º Salão de Abril 2007, em Fortaleza.

O vídeo apresenta uma seqüência de cenas que a priori podem parecer desconexas e, exatamente por isso, a necessidade de estabelecer links entre as imagens se manifesta como algo, no mínimo, desafiador. Encarei.

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Entre bicho, valsas e vermelho derramado, o vídeo se debruça sobre o universo feminino. Uma lagartixa solitariamente anda por uma superfície desnivelada e é ela -a lagartixa- o elo entre todas a outras figuras femininas que aparecem posteriormente e que constroem a poética do vídeo.

Metaforicamente, a lagartixa se apresenta como pano de fundo da narrativa. Uma espécie de voyer, que observa uma mulher em pleno mergulho íntimo em suas lembranças cujas forças de vida se afirmam na capacidade de sedução, de busca e de prazer. Uma mulher derrama um líquido vermelho sobre a pia, higieniza a alma, transborda vida... Cenas de dança entre casais dão uma pitada de humor e serenidade ao vídeo em contraposição ao enigmático e cinza percurso da lagartixa que inicia e encerra o trabalho, voltando ao seu esconderijo anterior.

Os bichinhos de Jussara observados em outros trabalhos da artista -coelhos que compartilham do espaço vazio e noturno de uma rua; centopéia num desfile triunfante ao som de uma marcha nupcial; lagartixa ferida no solo narrando sensações de impotência; cavalinho preso a uma haste que roda em círculos almejando fuga e liberdade; lagartas que "dançam" ao som de Grieg sob uma caixa aberta com os escritos ainda estou tentando- parecem dar conta de nos mostrar um cotidiano carregado de poesia e, contraditoriamente, solitário e pueril.

Jussara Correia inaugura uma fase de trabalhos em vídeo com um discurso narrativo mais extenso e roteirizado, sem perder a característica de imprimir simbolismos e deixá-los nas entrelinhas.

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Estão Voltando as Flores fala das memórias sejam elas solitárias ou compartilhadas. Um feminino pardo e multicor lançado na própria estética do vídeo.

Como entrar nos escombros das memórias de outros e, daí, identificar e extrair nossos próprios feixes de desejos e prazeres?

Jussara propõe essa alucinada aventura em que na sutileza dos gestos escondem-se raros instantes.

Existir somente, não basta.

Posted by Oficina at 7:08 PM

outubro 10, 2007

Grand Tour 2007: Entre uma gôndola e outra, a Bienal de Veneza, por Ricardo Resende

Grand Tour 2007: Entre uma gôndola e outra, a Bienal de Veneza, por Ricardo Resende

Grand Tour 2007: La Biennale di Venezia, Art 38 Basel, Documenta 12 e Skulptur Projekte Münster 07. Como resultado da coincidência a cada dez anos das três maiores exposições de artes visuais, que ocorrem a cada dois, cinco e dez anos, respectivamente, e a principal feira de arte abrem uma seguida da outra em junho de 2007. (www.grandtour2007.com)

Nos dias 27 e 28 de Setembro, tive a oportunidade de visitar a Bienal de Veneza depois de passar pela Documenta de Kassel, já em seu último dia de exibição.

A mais antiga bienal do mundo, que inspirou o modelo para nossa Bienal de São Paulo, tinha 99% do que estava em exposição com "aparência" de estar em ordem ou melhor, funcionando em sua quase totalidade.

A mostra italiana, que está na sua fase final, tem pela frente cerca de um mês para se encerrar, depois de mais de 90 dias em funcionamento.

Com a presença pontual de brasileiros na mostra principal, que conta com curadoria do norte-americano Robert Storr, deve se destacar a presença do Leonilson no centro da exposição, ao lado de outros artistas homenageados como o cubano naturalizado norte-americano Felix Gonzalez-Torres. Artistas que deixaram obras curtas (todos morreram prematuramente) mas de grande importância para a contemporaneidade.

Mas parte de meus comentarios são antes uma crítica, à falta de crítica que domina os meios de comunicação, particularmente a midia impressa, no Brasil.

Não se pode ler nos jornais e/ou revistas especializadas (só temos uma num país) uma crítica mais reflexiva sobre estas grandes mostras e particularmente sobre a presença dos artistas brasileiros. Dever-se-ia ter sido discutido com mais consistência, os critérios atuais da escolha da representação brasileira no nosso pavilhão, situado nos Giardini, local nobre da cidade de Veneza, onde acontece a parte principal da Bienal.

E é isso, em particular, o que me traz a este espaço.

Tive uma sensação de completo desânimo ao chegar no belo pavilhão brasileiro, com arquitetura do Paulos Mendes da Rocha (por si já valeria a pena a visita, se o edifício em questão, estive em condições adequadas de conservação), depois de percorrer grande parte da mostra e me deparar por fim, com o que eu poderia definir, um retrato fiel do descaso com a nossa representação. Abandono, displicência ou simplesmente desinteresse.

Faço a pergunta aqui: quem deveriam ser os maiores interessados na representação de nosso país neste evento ?

Imagino que nós, brasileiros de modo geral e os que se dedicam o seu tempo para pensar sobre a arte e a cultura nacionais, somados aos artistas participantes, o Ministério da Cultura, a Fundação Bienal de São Paulo, responsável direta pela escolha e apresentação dos artistas, além das galerias de arte, que colocaram os seus nomes nas etiquetas que acompanham os trabalhos e as empresas que ainda poderiam patrocinar a representação, como a Petrobras, o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e a TAM que começou a bem pouco a viajar para Milão, ali ao lado, além de outras instituições financeiras com seus centros culturais que poderiam ter adotado, sem grandes problemas nos seus gordos orçamentos, esta participação brasileira, de grande visibilidade internacional.

Poderiam ter permitido ao Brasil "vender" uma boa imagem, como muitos outros países sempre fazem ou o fizeram nesta tipo de espaço expositivo.

A Fundação Bienal, tem se mostrado incapaz de gerir sua própria versão local de bienal, em nosso mal conservado espaço dentro do Parque Ibirapuera, em São Paulo. Fundação esta que, até o presente, ainda não viabilizou sequer um catálogo do seu último evento.

Como pode o Ministério da Cultura permitir que esta Fundação (envelhecida na sua forma e gestão) tome conta desta representação nacional de grande interesse na exposição italiana, se ela nem é capaz de utilizar um dos muitos editais disponíveis, de apoio a projetos culturais no país, que poderiam patrocinar este "pequeno" evento, de insdiscutível relevância(?).

Um outro comentário, recai sobre a curadoria, responsável pela seleção dos artistas e suas respectivas obras.

Acompanho o trabalho da dupla Angela Detânico & Rafael Lain, representados pela Galeria Vermelho (de São Paulo), desde o início de suas carreiras, mas infelizmente acho que, curador e artistas, foram infelizes na escolha dos trabalhos ali apresentados. Herméticos, de dificil comunicação com o público e que demandam um tempo longo para sua fruição e compreensão (ainda mais se pensarmos na localização do pavilhão brasileiro, no final do percurso, quando a maior partes dos visitantes já, com razão, estão cansados, após um longo trajeto expositivo).

Havia um vídeo, imagino, já que diante do abandono constatado, o mesmo estava inoperante. Deixava dúvidas se tratar apenas de um nicho, com um projetor no teto ou se efetivamente estava quebrado o equipamento.

A iluminação dos demais trabalhos de parede, que também não funcionava, os abandonava na penumbra logo na entrada do espaço. O trabalho do artista José Damasceno, representante da Galeria Fortes Vilaça ( também de São Paulo), também era de difícil comunicação com os visitantes. Em sua sutileza, um dos trabalhos, que utilizava o giz como sua matéria constituinte, passava no entanto, despercebido pela maioria que, sem saber do histórico do artista, não levava o espectador a ter o interesse em se aproximar do trabalho, para se certificar do que era constituído.

Não bastassem todos estes problemas, ainda podíamos observar o descuído na limpeza do espaço, sem qualquer cuidado mínimo visível.
Sem a presença de nem um monitor qualquer que pudesse auxiliar e orientar os visitantes sobre o que se passava ali. Singelamente exisitia um cestinho de lixo rendilhado vazio, desdes que se encontra em lojas de mercadorias a preços de 1,99 reais, sozinho e triste logo na entrada ou saída do pavilhão.

Ao ler a revista inglesa Frieze edição de setembro de 2007, senti-me particularmente motivado a redigir essas linhas, particularmente após ler a entrevista da norte-americana Nancy Spector, responsável pela bem sucedida representação oficial daquele país, que trouxe Felix Gonçalez-Torres, o mesmo artista que dividia com Leonilson, uma das salas principais desta bienal.

A curadora justificava sua escolha, com uma exposição generosa da obra de Gonzalez-Torres. Trouxe trabalhos importantes, capazes de torná-la uma das melhores representações nacionais, dentre os países presentes. Disse que não importava o fato do artista já estar morto, mas sim a contundência de sua obra para se pensar a atualidade. Uma obra ousada, instigante, que melhor representa a arte que se produz nos Estados Unidos, na busca de um olhar menos conservador, diferente do que rege o seu país na atualidade, servindo também como um complemento inteligente à curadoria de Robert Storr.

Para não me alongar mais, trago para terminar o comentário da curadora russa Olga Sviblova que, no mesmo artigo da revista inglesa, assumia ter sido necessário fazer, além da escolha dos artistas, o trabalho de captadora de recursos, para possibilitar uma exposição daquela grandeza, que lida com alta tecnologia, além de ter sido necessária uma reestruturação do pavilhão expositivo.

Creio que há que se mudar muito ainda o grau de comprometimento das empresas brasileiras, no fomento à cultura, na eficiência da gestão das instituições culturais e o comportamento dos curadores e artistas. Mas há sinais de algo se meche por aqui.

Ricardo Resende
Curador Independente
Curador do Projeto Leonilson

Posted by João Domingues at 11:48 AM

outubro 6, 2007

CONEXÃO Fortaleza - Quando ele dobrou a esquina..., por Ana Cecília Soares

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CONEXÃO Fortaleza - Quando ele dobrou a esquina...

ANA CECÍLIA SOARES

Aparentemente, poderia ser só mais uma gaiola, dentre muitas outras, se não fosse a presença de um detalhe específico... Mas, antes que falemos do tal detalhe, é preciso rememorar uns fatos, que muito contribuíram para tornar esta gaiola a não-gaiola ou, melhor, algo mais do que parece ser, ou a fizeram ser algo mais do que representa, entende? Enfim, veremos...

Um dia, um artista dobra a esquina da rua onde mora e de repente se depara com algo meramente banal, que mesmo portador desta banalidade cotidiana vai fazer promover um estalinho de idéias em sua cabecinha borbulhante.

O fato é que nosso artista deparou-se com uma velha casa, mais para um cubículo carcomido pelas ferrugens do tempo, que apresentava fixada em uma de suas paredes laterais uma pequena gaiola contendo desajeitosamente um pombo branco, de olhar conformado. Coitado do pombo! Parecia um gigante enjaulado. Tudo isso inquietou profundamente o artista, que seguiu seu caminho pensando.

E idéia vai, idéia vem, noites em claro e cérebro suado, eis que surge algo interessante. Temos, então, à nossa frente, uma estrutura mediana de madeira, com suas pequeninas barras de ferro e piso revestidos por uma limalha de alumínio, adornada simetricamente por espinhos. Sendo mais direta, temos à nossa frente uma gaiola composta por espinhos, que é o tal detalhe a que me referi lá no início.

É, espinhos! Espinhos que ferem, que fazem doer, mas que, ao mesmo tempo, toda esta constituição formada por seu agrupamento promove ao olhar um encanto, meio que anestésico.

Armadilha para Caçador de Pássaros é o nome da obra do nosso artista, que na verdade se chama Euzébio Zloccowick. A partir dela, é possível perceber a transformação de um objeto comum, digamos até que invisível, em algo real para os nossos sentidos. De repente o que era passa a ser, passa a existir novamente.

Estamos diante da obra que atrai e repulsa, da dificuldade, mesmo, de contato em sentir toda essa estrutura espinhenta. É o belo que fere, que não podemos tocar.

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Todo o trabalho é perpetuado por antíteses, que refletem uma série de conflitos da própria relação homem/natureza, caçador/caça, liberdade/repressão. A Armadilha, partindo do politicamente ecológico, é um questionamento sobre a própria liberdade que temos. Na verdade, somos também como o pombo enjaulado.

Esta não é a única obra de Zloccowick a fazer uso de espinhos. O artista vem trabalhando com este material há algum tempo. O espinho é algo simbólico para o conjunto de sua obra, o que remete a diversas leituras por entre as esferas do sagrado e do profano na relação do homem com os objetos.

Cem Pecados é outro trabalho do artista que evoca esta idéia. A obra é uma composição feita por cem maçãs recobertas por espinhos, onde está bem evidenciada a noção de sacrifício como forma de se alcançar a elevação espiritual: a maçã é a fruta-símbolo do pecado. Pecado este que pode ser redimido por meio do sofrimento, que está concretizado na imagem do espinho.

Armadilha para Caçador de Pássaros foi um dos trabalhos selecionados para o 58° Salão de Abril de 2007, em Fortaleza, que aconteceu no Museu de Artes da Universidade Federal do Ceará (MAUC). Apesar de estar localizada em um espaço, digamos, meio inadequado, por não permitir uma melhor visibilidade de suas dimensões, a obra não deixa de atrair a atenção do público, pois, afinal... "aparentemente poderia ser só mais uma gaiola, dentre muitas outras, se não fosse a presença de um detalhe específico...".

Posted by Oficina at 10:44 AM | Comentários (1)

outubro 4, 2007

CONEXÃO Fortaleza/SP - Um passeio pelo Festival Videobrasil: o cinema multimídia e interativo de Peter Greenaway, por Camila Vieira

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Uma das malas de Tulse Luper: foto do blog do Videobrasil

CONEXÃO Fortaleza/SP - Um passeio pelo Festival Videobrasil: o cinema multimídia e interativo de Peter Greenaway

CAMILA VIEIRA

Consolidado como importante espaço de exposição de obras que articulam cinema, vídeo e artes visuais e de intercâmbio entre artistas contemporâneos, o 16º Festival Internacional de Arte Eletrônica Sesc_Videobrasil começou sua programação -que se estende até 25 de outubro- com o estranhamento que seu próprio slogan sugere. Não se trata de qualquer tipo de estranhamento -o que poderia sugerir algo meramente bizarro e negativo-, mas sim de um certo deslocamento de olhar. Com o lema Limite: Movimentação de imagem e muita estranheza, a nova edição do festival instiga o público a perceber inovadoras propostas da arte contemporânea, que tensionam linguagens, que superam barreiras e que até escapam dos cânones de rótulos e das classificações. Por exemplo, o que dizer do ambicioso projeto Tulse Luper Suitcases, do cineasta e multiartista britânico Peter Greenaway, principal convidado desta edição? Cinema, VJ performance, instalação, jogo para internet? Na verdade, é tudo isso junto e um pouco mais.

Envolvendo exposição, trilogia de filmes, sites e games na Internet e sessões de VJ, o novo projeto de Greenaway é, de fato, o principal atrativo deste festival. Por meio de diferentes linguagens, a intenção do cineasta não é apenas dimensionar a trajetória de seu personagem ficcional Tulse Luper, um escritor e projetista que nasceu em 1911, passou parte da vida em prisões e desapareceu em 1989, deixando seu testemunho em 92 maletas espalhadas pelo mundo. Mais do que "narrar" a vida de tal personagem, Greenaway propõe a implosão do conceito de cinema. Desde a abertura do festival, sua polêmica afirmação de que "o cinema está morto" circula nas páginas dos principais jornais do Brasil e continua sendo motivação de calorosas discussões entre os visitantes do evento.

Com cerca de 60 filmes no currículo, Greenaway não acredita no cinema narrativo, linear, marcado pelo texto e pela influência da literatura. Para o iconoclasta, este tipo de cinema morreu em 31 de setembro de 1983, com a chegada do controle remoto nas casas dos espectadores de televisão, possibilitando escolha das imagens e acenando para a necessidade do cinema encontrar para si um suporte mais interativo. Inovação que ainda não ocorreu, segundo o multiartista, que participa de palestras, durante o festival, com sede no Sesc Avenida Paulista e no CineSesc, em São Paulo.

Para demonstrar sua tese de que o "cinema morreu", Greenaway abriu o festival no último domingo com sua VJ performance, realizada ao vivo e pela primeira vez a céu aberto, em palco montado na lateral do Sesc, na rua Leôncio de Carvalho, situada entre a avenida Paulista e a alameda Santos. Apesar do frio de 14º C, cerca de duas mil pessoas -de acordo com a produção do evento- se amontoaram no local para conferir de perto o cinema multimídia e interativo que Greenaway planejava colocar em prática. Durante 50 minutos, o cineasta reeditou as principais cenas de sua trilogia de filmes The Tulse Luper Suitcases, projetadas em três telões e, do outro lado da rua, na fachada do prédio do Itaú Cultural.

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VJ Performance de Greenaway, em São Paulo: fotos do Videobrasil

Sua "VJ performance de live image" consistiu em ficar de pé diante de uma tela de plasma sensível ao toque e escolher com os dedos quais imagens desejava projetar entre mais de dois mil fragmentos de sua trilogia de sete horas de duração. A instantânea edição de imagens era acompanhada dos ruídos e dos trechos de músicas mixadas também ao vivo pelo DJ holandês Serge Dodwell. Apesar do barulho estrondoso que saiu das caixas de som, o público pareceu não ter reagido bem, já que a maioria limitou-se a permanecer parado, sem dançar, diferente do que pretendia Greenaway. Além de romper com a linearidade da projeção fílmica, o multiartista desejava que sua VJ performance sacudisse os corpos da platéia. Não foi possível. Mas os calorosos aplausos no final indicaram que o público em geral gostou do belo espetáculo visual e do estranhamento proposto.

Se você perdeu a performance de Greenaway, mas tem curiosidade em saber mais sobre o projeto Tulse Luper Suitcases, ainda dá tempo de conferir a exposição com as 92 maletas do personagem no 4º andar do Sesc Avenida Paulista. Mais informações pelo site do Festival Videobrasil.

Camila Vieira é jornalista e estudante de Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará (UECE).

Posted by Oficina at 10:51 PM

outubro 3, 2007

CONEXÃO Fortaleza - Outro mundo é, então, possível, por Ana Valeska Maia

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CONEXÃO Fortaleza - Outro mundo é, então, possível

ANA VALESKA MAIA

Já disseram que os olhos são as janelas da alma. Na obra da artista Jacqueline Medeiros as janelas são territórios apropriados pelo olhar. São fragmentos de mundo. Exercício de lugares possíveis. Portais de sentido onde o olhar se apropria e cria, tecendo uma poética. Territórios férteis, onde acontecem encontros: reunem olhar, sujeito e mundo. Instigada pelo fluxo dinâmico, intenso e imprevisível das cidades, a artista tem o olhar aguçado para captar os entrelaçamentos de pensamentos e convivências. A arte, então... acontece!

Seu olhar para as cidades partiu de uma repetição. Sempre um quarto de hotel. Sempre os falsos sorrisos acolhedores. Ao abrir a porta, a paisagem se repetia: cama, televisão, telefone, frigobar. Tudo muito limpo, arrumado e previsível. Recorrentes não-lugares permeados pela angústia do insípido mesmo. Tudo igual, até abrir a janela. Ao abrir a janela, surgem mundos novos. Todo igual traz consigo a sua peculiar diferença.

Ao artista antenado com seu tempo será improvável fugir da percepção de que "vivemos num mundo confuso e confusamente percebido", como disse Milton Santos . A confusão da vida urbana celebra pactos que nos cegam, impondo a doutrina da pressa e da efemeridade das relações. Como se estivéssemos condenados a estamos juntos e, ao mesmo tempo, incomensuravelmente solitários. Um individualismo egóico reina na coletividade urbana, ornamentado pelo consumo. Inseridos na orgulhosa civilização, sem espaço para sermos singulares, coexistimos num mundo que grita em seus mais amplos sentidos: não temos mais tempo!

Os imperativos da caótica pós-modernidade são objeto de reflexão no trabalho O que você precisa fazer para sobreviver?, apresentado na Semana Pernambucana de Arte - SPA (2004). A artista adesiva frases nas calçadas, onde os transeuntes se deparam com os comandos -não pare, não pense, não sinta. Em 2006, expõe no Salão de Abril três fotos manipuladas digitalmente, onde as contradições da vida urbana, permeadas pelas agressões ao interior de nossa existência e ao espaço coletivo são novamente tematizadas. Vistos em outra proporção, a intervenção na habitualidade do espaço público pauta a amplitude da linguagem da arte, do crucial papel contemplativo, da totalidade do conhecido que fundamenta o caminho para mundos novos. O olhar da artista abre portais, guardados a 7 chaves (Alpendre, 2005) e doa ao público paisagens idílicas, lugares de paz, vivências, sentidos.

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O tempo e a memória entre a crueldade e a poesia. O tempo pulsa em Água mole em pedra dura... (vídeo, 2006). O ritmo que impõe a recorrência dos movimentos das marés nos faz pensar em nosso organismo, com seus fluxos naturais agredidos pelos valores contemporâneos. Os afetos pedem tempo. Afetos que podem ser engolidos na cidade pela ansiedade do novo, onde abrigos de memória se despedaçam. Vizinhos que não mais existem, tornaram-se espectros de existências. Pessoas que passam pela cidade e nela deixam marcas invisíveis para olhos disciplinados. Gravam afetos, entornam resquícios de sua permanência no local. A artista recolhe esses pequenos amuletos, escombros de histórias da vida privada, tece narrativas. Quanta vida existiu neste lugar? Quantos sorrisos, nascimentos, aniversários, perdas ou decepções existiram na rua Raimundo Resende, 55?

Uma metáfora do tempo nos traz o vídeo Era uma vez (2006). Nos leva a uma reflexão da vida como passagem. A areia que marca a passagem do tempo pela ampulheta nos remete aos processos inevitáveis, à vida mediada por seus contrários, por suas construções e desconstruções. O que fica do que foi vivido? Quais escolhas determinarão a condução de nossa vida? Em De que lado você está? (2005), encontramos imagens de pessoas hipnotizadas, enlaçadas nas amarras do sistema, submetidas à violência simbólica que engendra o estímulo ao ser passivo. Agrupados, mas limitados em nossas percepções, caminhamos num túnel aparentemente sem saída (vídeo, 2007), onde a etapa seguinte somente é percebida por quem tem olhos para ver o caminho de luz.

O caminho de luz que a arte possibilita. Para Paul Klee, "a arte não representa o visível, a arte torna visível". Clifford Geertz, por sua vez, alega em suas reflexões sobre o imaginário e a realidade, que o imaginário é tão real quanto a própria realidade. Duas aparentes dicotomias, que nos possibilitam metamorfoses. Podemos assim ser grandes ou pequenos, voar ou andar nas nuvens. (Ah se eu pudesse...andar nas nuvens, fotomontagem, 2007). Integrantes de uma rede invisível, que entrelaça existências, propicia poéticas e nos torna atores e autores de nossa história. Desta forma, talvez possamos ver um outro horizonte possível (fotografia digital, 2007).

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A obra da artista Jacqueline Medeiros entrelaça reflexões sobre aspectos da contemporaneidade, tece diálogos com os inúmeros tempos que vivenciamos. O tempo da dinâmica pública, o tempo da intimidade do universo privado e sua memória particular. Dona de um olhar que persegue novos sentidos para o existir, a artista propõe narrativas, trilhas, fugas para a máquina do cotidiano. Ao abrir a janela, instaura portais, enseja poéticas, abre espaços para que tenhamos um lugar. Refletindo e interpretando a vida o olhar se ilumina. Outro mundo é, então, possível.

Sem pressa, podemos enxergar que alguns caminhos sinalizam a compreensão de outro lugar, de outro tempo. Com janelas abertas para o mundo, como voyeurs ou caminhantes, como artistas da arte do viver, sentiremos a alegria do existir. É bom ter um pertencimento nesse mundo, se sentir em casa, ser parte consciente de Gaia. Jacqueline Medeiros, como intérprete de seu tempo, nos direciona para a percepção de outros lugares. Com seu trabalho, nos faz sentir como a vida pulsa em cada canto (2005).

Posted by Oficina at 12:09 AM | Comentários (1)

outubro 1, 2007

Grand Tour 2007: Cobertura a várias mãos: Que texto cabeça, por Rafael Campos Rocha

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Foto de Pedro Torres

Grand Tour 2007: Cobertura a várias mãos
Que texto cabeça, por Rafael Campos Rocha

"(...) Que texto cabeça (...) confesso que li por alto (...) Porém um pouco prolixo.
Seja mais sintético, meu amigo, escreva menos para as pessoas lerem mais. Quanto à Bienal, veja o que escrevi no comentário do texto do (...).
ab
A Malta"

Devo ter sido mesmo pouco claro quando citei a célebre passagem do 18 Brumário em que Marx alerta sobre a estetização do ideário do passado para tratar da tessitura do presente. Afinal, eles repetiram o mesmo erro em Kassel. Mas foi importante por ter-me aberto os olhos para outras intenções escondidas no slogan de Barthes para a nossa última bienal que por sua vez explicam aspectos (mas não as intenções) dessa última versão da Documenta de Kassel, mesmo que as deformações dessa sejam mais gritantes e tenham feito mais danos, tanto as obras quanto as intenções dos próprios curadores. Na verdade eu gostei da Bienal, assim como da Documenta, apesar delas mesmas. O evento brasileiro tinha vários trabalhos de alto nível técnico em contraste à subserviencia colonizada (inconsciente ou não) da temática curatorial, sempre pronta a sugerir que a roda sangrenta da história pode parar de girar quando descobrirmos que tudo não passa de um mal-entendido de linguagem ou de caráter existencial. Sei. Devolver o Texas, a faixa de Gaza e o solo iraquiano ninguém quer, garanto. Enfim, a cobiça e a resistencia à ela (as engrenagens da roda) podem ser substituidas por um diálogo franco entre culturas, nós (os outros) não queremos tomar tudo Deles (europeus e americanos) mas somente viver juntos, em total harmonia para toda a eternidade do Espírito, esquecendo as mazelas do passado e tocando nosso tamborzinho na selva transformada em parque temático. Infelizmente, queridos, é mentira. Não seremos mais bonzinhos com eles do que eles foram conosco. Um dia Bagdá abrigou 2 milhões de pessoas enquanto Paris continha 80 mil aldeões, e hoje os iraquianos tem que abaixar a cabeça para o consenso internacional pró-americano de como eles devem ser. Algo impensável para um árabe do século X. E acontecerá de novo, com outros personagens, enquanto a existência do Tempo não for aniquilada, com toda a vida terrena com ele. É lógico que essa é uma simplificação, contando somente com os aspectos materialistas dessa representação, mas esquecer por completo esses aspectos nos faz correr um risco incomensurável. Em segundo lugar, a propria criação de uma cultura autonoma, como frisou Jameson em seu ensaio sobre os estudos culturais, já é, em si, um ato de violência, ou pelo menos um ato com a violência necessária para a diferenciação do Outro, diferenciação essa que dá acesso à própria existência ou noção de si.

Pois bem, o fracasso da arquitetura expositiva de Kassel 2007 nasce justamente de uma retomada intencional dos paradigmas de montagem da primeira Documenta, em 55, em que uma contaminação entre cultura técnica e cultura artística (cortina fazendo as vezes de fundo para pintura e pintura fazendo as vezes de fundo para a legenda explicativa da mostra) parecia purgar a logística assassina do nazismo. Bom, não imagino como o público tenha percebido isso na época, mas sei o que isso causou em mim, hoje. Primeiro, o 11 de setembro não é o Holocausto, e a invasão do Iraque não é a segunda guerra mundial, a não ser pelo puxa-saquismo covarde das potências européias. Em segundo lugar, a narrativa auto-purificante da arte modernista (como pensava Greenberg, o cachorro-morto predileto da crítica pós-moderna) sempre apontou na direção da Unidade (entre arte e vida, sujeito e objeto) e a montagem naquela documenta de 55 tentava uma reconstituição filológica do modernismo para separá-lo do racionalismo tosco e deturpado do nazismo. Certo, os caras da documenta XII não são trouxas, como se pode comprovar pelo artigo excelente e esclarecedor sobre essa mesma Documenta de 55, escrito por Roger M.Buerden, mas a própria idéia de uma origem histórica de uma proposta curatorial pode ser lida de forma enviesada, já que uma origem é sempre narrada de um ponto do presente. Raizes flutuando no ar. E é nisso que a documenta parece não se resolver: entre uma retomada do caráter utópico do modernismo, com sua busca da unidade do humano por sobre as barreiras da contingência e uma mera retomada estética (fashion mesmo) dessa utopia. Daí o aspecto juvenil, e até pueril dessa retomada. E, convenhamos, pintar uma sala de pêssego ou verde bandeira não vai resolver o problema da liberdade do indivíduo dentro da multiplicidade do Ser mais do que um branquinho básico de museu. Eu, realmente, sou cada vez mais incrédulo com relação a essas alternativas a institucionalização da atividade artística. Fazer o que com a Mona Lisa? Deixar no relento? Enfim, prefiro direcionar minha indignação contra a Tortura e poupar, por hora, o "cubo branco".

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Tanaka Atsuko

Por outro lado, um evento de arte desse tamanho SEMPRE vai contribuir de alguma forma. Tanaka Atsuko, a integrante do arrojadíssimo grupo Gutai, de Tokio (algo como concreto, em português) é realmente muito mais do que uma simples curiosidade antropológica, e suas experiências precedem e muitas superam a abordagem fenomenológica que Oiticica desenvolveu mais de vinte anos depois. A própria transdiciplinaridade do grupo, com seus integrantes exercendo múltiplas profissões desligadas do metier de arte, contribui, no nosso entender, para o arrojo de suas intervenções. Afinal, nada menos interessante do que arte que trata de arte.

Paradoxalmente, a documenta contribui quando se atém à sua proposta anti-propositiva, ou seja, quando podemos notar uma unidade nas intenções curadoriais, mesmo que sua proposta seja a multiplicidade descentralizada. Enfim, essas coisas são mesmo complicadas. E nem mesmo esse fuá pode estragar os exepcionais desenhos, exercícios e pequenas meditações de Friedl, Schendel, Guogu e Kanwar, além do evidente interesse em uma abordagem artística um pouco diferente do espetáculo tecnológico do panorama artístico institucional (o que não impediu que Iñigo Manglano-Ovalle fizesse uma das melhores obras da mostra em estilo altamente tecnológico-cenográfico-monumental). A opção pela atividade artística "paralela" ou descentrada e modesta (esbocos, reflexões inacabadas) não deveria, entretanto, nos aproximar das obras de Klee, por exemplo, cuja busca do Invisível acaba sendo diamentralmente oposta ao tatear existencial das outras escolhas da curadoria. Ou seja, ambos os tipos de artistas estão certos (quando acertam), e a curadoria está errada (mesmo quando acerta na escolha dos artistas).

Que fique claro, entretanto, que isso não é uma declaração de guerra à curadoria da Documenta ou curadorias em geral, mas é, isso sim, uma posição contrária ao princípio curatorial em geral mais ou menos como Rosalind Krauss quando escreveu um livro inteiro contra o fotográfico em geral. Ou seja, contra o próprio norte dessas generalizações para a futura sobrevivência dessas mesmas generalizações, que continuo considerando fundamentais para a atividade artística. Ou seja, uma complicação infernal que me recuso a simplificar somente para usar um botton "estive na Documenta" ou praguejar no boteco contra os curadores que não nos chamam para tal e tal exposição.

Por último, cabe destacar a excelente publicação das discussões em torno dessa mesma curadoria. Um catatau ilustrado com a participação de diversas revistas de arte ao redor do mundo, inclusive desse Canal Contemporâneo. Na verdade, toda a exposição foi pensada um pouco em torno dessa discussão interdisciplinar de arte no qual essas revistas não-comerciais do assunto são tão ricas. O poeta estava certo. No final das contas, tudo é feito para terminar em um bom catálogo.

Rafael Campos Rocha é artista plástico.

Posted by João Domingues at 12:32 PM