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setembro 20, 2007

Grand Tour 2007: Cobertura a várias mãos: Passos e espaços no Skulptur Projekte Münster 2007, texto e fotos de Hugo Fortes

Grand Tour 2007: Cobertura a várias mãos
Passos e espaços no Skulptur Projekte Münster 2007, texto e fotos de Hugo Fortes

Possibilidades e impossibilidades da arte no espaço público

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Era uma manhã fria e chuvosa do fajuto verão alemão. Os nativos já haviam me advertido da necessidade de se alugar uma bicicleta para percorrer o Skulptur Projekte Münster, já que as obras, distribuídas por toda a cidade nesta grande exposição ao ar livre, encontravam-se distantes umas das outras. Porém minha teimosia e minha preguiça paulistana decidiram seguir a pé.

Poder visitar o Skulptur Projekte Münster é realmente uma experiência rara, já que a exposição acontece apenas a cada 10 anos. Criado em 1977 com o intuito de dotar a cidade de um grande número de esculturas públicas, que assim se tornariam um chamariz turístico, o Skulptur Projekte vem trazendo, a cada uma de suas edições, artistas do porte de Donald Judd, Richard Serra, Claes Oldenburg e Rebecca Horn, entre outros, para desenvolver projetos específicos para a pequena cidade de Münster. Embora também haja obras efêmeras, muitas das esculturas perenes permanecem instaladas na cidade e podem ser visitadas nas edições seguintes. O oneroso levantamento de verbas para o financiamento do projeto justifica a periodicidade do evento a cada década. Aos olhos de um brasileiro, é de se admirar o tempo de antecedência com que os alemães conseguem planejar seus eventos, sem deixá-los "morrer na praia" no meio do caminho.

Entretanto, para um tempo de planejamento tão longo, creio que a organização da exposição poderia estar um pouco mais clara. Embora haja um mapa da cidade indicando onde estão situadas as obras, nem sempre é fácil localizá-las, já que as pequenas plaquetas que as identificam são difíceis de encontrar. Esta dificuldade, porém, decorre também às vezes das próprias características de muitos dos projetos de arte contemporânea, que, ao invés de se imporem como monumentos no espaço público, parecem oferecer certa resistência a se tornarem atrações turísticas e acabam por se articular através de meios fluidos e estratégias efêmeras.

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Um exemplo é a instalação de Isa Genzken, construída com bonecas baratas quebradas, guarda-sóis estropiados e cadeiras caindo aos pedaços. Há uma visível violência nesta obra que parece estar abandonada ao vento em meio a uma pequena praça em frente a uma igreja medieval. O catálogo explica que a instalação faria uma representação de uma nova paixão de cristo, já que a instalação situa-se em frente a uma igreja e as bonecas parecem tão torturadas e depauperadas como o Salvador.... Humm!?.... Pode ser... Difícil mesmo é pensar nesta obra como escultura pública, dada a sua fragilidade. E talvez seja por isso que ela atrai o interesse e incomoda o observador de certa maneira. Enquanto caminho por lá surpreendo-me pelo fato da obra ainda estar ali; creio que se ela fosse instalada aqui nas metrópoles brasileiras dificilmente resistiria mais do que cinco minutos.

Uma atitude provocadora nota-se também no trabalho do artista Andreas Siekman. Instalada na frente de um dos mais belos palácios barrocos de Münster, a obra de Siekman mais parece uma imensa bola de lixo reciclável, ao lado de uma enorme caçamba para prensamento de detritos. O material utilizado para a confecção da escultura foram antigos animais e bonecos de plástico utilizados pelo departamento de marketing das cidades do interior da Alemanha. O escoamento do dinheiro dos cofres públicos, gasto na auto-propaganda municipal é criticado pelo artista também através do título da obra: Escoamento. O espaço público na era de sua privatização. A obra é ao mesmo tempo auto-crítica, já que ela se insere também dentro deste esquema de financiamento público e confronta a imponência luxuosa do palácio frente ao qual se encontra com a feiúra pobre de sua realização.

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As relações entre o poder público e o espaço urbano são também questionadas ironicamente nos trabalhos do escultor Thomas Schütte. Em 1987 o artista já havia participado do Skulptur Münster Projekte com uma escultura que representa duas enormes cerejas colocadas imponentemente sobre uma coluna escultórica. O trabalho deveria funcionar como crítica à vontade de embelezamento da cidade, como se as cerejas fossem apenas os detalhes de enfeites que faltavam para completar o "bolo de noiva" urbano.No novo trabalho, construído em 2007 ao lado do antigo, Schütte criou um grande sarcófago de vidro que encobre uma fonte escultórica já existente no local. Sobre o sarcófago pode-se ver uma espécie de maquete de um possível museu que poderia ser construído em Münster, por sugestão do artista. A apresentação visual do trabalho é de extrema artificialidade, estabelecendo um jogo irônico entre sedução e mau gosto. A cobertura de vidro, ao mesmo tempo em que protege a fonte existente, tendo assim um papel museológico, também a distancia do público e exibe o duplo jogo do poder público enquanto conservador e promotor de obras de arte.

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Enquanto muitos dos artistas utilizam seus trabalhos para criticar o poder público, outros optam por obras desmaterializadas, performáticas, efêmeras ou pouco visíveis, numa certa recusa a constituir uma presença monumental no espaço urbano. Um caso de intervenção social, por exemplo, é a obra de Maria Pask. A artista montou algumas barracas de camping em um parque da cidade e em uma delas há uma espécie de centro esotérico, onde podem-se consultar livros sobre diversas religiões e onde são realizadas palestras com líderes de diversas crenças, revivendo assim uma espécie de acampamento hippie dos anos 60. Confesso que demorei a perceber que aquilo também era uma obra.

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Há também pelo menos três obras difíceis de serem percebidas. Uma delas é um fio que o artista Mark Wallinger amarrou entre diversos prédios da cidade, em alturas entre 4,5 e 15 metros, circundando uma área fechada. Fui até o local indicado pelo mapa para a localização da obra e não vi nada. Só depois fiquei sabendo pelo catálogo que o local marcado no mapa era o centro da área isolada pelo fio; provavelmente eu já tinha passado diversas vezes sob o fio ao caminhar pela cidade sem me dar conta.

Outra obra que foge de espectador é o projeto Caravan de Michael Asher. Trata-se de um trailer antigo que a cada semana é estacionado em um local da cidade. Desde a primeira edição do Skulptur Münster Projekte o artista vem estacionando o trailer sempre nos mesmos lugares, repetindo o roteiro a cada dez anos. Não há nada de especial no trailer, apenas o fato de que ele foi ficando velho e a cidade foi se modificando, sendo que alguns lugares onde ele costumava estacionar não existem mais. O artista pretende discutir com isso a passagem do tempo e as transformações do espaço urbano. Sorte de quem conseguir encontrar o tal trailer, sem que ele passe despercebido.

Ao caminhar por Münster vi um vendedor de revistas pela rua, destes que costumam pedir dinheiro nas cidades alemãs, um pouco como nossos vendedores de bala no sinal, porém não tão miseráveis. Apenas quando estava indo embora de trem da cidade, ao ler o catálogo notei que aquilo era na verdade uma obra da artista espanhola Dora García. O vendedor de revistas era na verdade um performer, que observa os observadores da exposição e depois relata seus comentários no site www.thebeggarsopera.org

Parece que mesmo as obras de artistas mais antigos, que pretendem funcionar como monumentos duradouros, recusam-se a marcar uma presença escultórica muito visível na cidade. O trabalho "Square Depression", de Bruce Naumann, embora construído com concreto abrangendo uma grande área de uma praça pública, ao invés de se projetar verticalmente como escultura, cria uma depressão piramidal que afunda em a partir do chão. Durante minha visita vi alguns jovens, provavelmente estudantes de arte, divertindo-se com suas bicicletas sobre o "sagrado" Bruce Naumann.

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Mesmo a exposição chamando-se "Skulptur Münster Projekte", ela engloba também uma série de vídeos, alguns aliás bastante interessantes. Talvez uma das obras mais interessantes da exposição seja o vídeo "Drama Queens" da dupla Elmgreen & Dragset.

O filme documenta uma peça de teatro realizada ao vivo no dia da abertura da exposição. Bem, ao vivo em termos, pois os atores da peça são réplicas de esculturas modernas famosas de artistas como Henry Moore, Barbara Hepworth, Giacometti, Sol LeWitt, Jeff Koons e outros. O engraçado e que cada escultura movimenta-se e fala com voz, trejeitos e "pensamentos" típicos de seu criador. Assim vemos a magra escultura de Giacometti tecer comentários melancólicos sobre a vida, a estrutura de Sol LeWitt teorizar matematicamente sobre a arte conceitual ou a maluquinha escultura de Jeff Koons falar bobagens sem parar. "Drama Queens" não deixa de ser um comentário hilário sobre a situação da arte e seus discursos.

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Uma exposição de esculturas no espaço público, na qual as esculturas fogem ou escondem-se do público, riem e tecem comentários sobre ele ou reclamam de seus próprios patrocinadores oficiais, realmente dá muito o que pensar. Porém não é fácil correr o dia todo atrás de obras de arte que insistem em escapar daquilo que se espera e às vezes são mais fáceis de ver no catálogo do que em seu lugar (ou não-lugar?) original. Sem conseguir ver todas as obras, até mesmo pela extensão da exposição, volto para casa com os pés cansados e a cabeça cheia de perguntas, sem saber ao certo o que perdi ou o que foi melhor ter visto pelo catálogo mesmo. O trem no qual retorno para Berlim acelera e pela janela vejo imagens e experiências fugidias.


Hugo Fortes é artista plástico, professor universitário e pesquisador. Realizou doutorado em Artes na ECA-USP e na Universität der Künste Berlin, na Alemanha, onde residiu por dois anos. Tem participado regularmente de exposições no Brasil, Alemanha, França, Espanha, Grécia, Dinamarca, Armênia, Filipinas e Uruguai.

Posted by João Domingues at 11:20 AM | Comentários (5)

setembro 17, 2007

CONEXÃO Fortaleza - Um percurso pelo 58º Salão de Abril

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CONEXÃO Fortaleza - Um percurso pelo 58º Salão de Abril

JULIANA MONACHESI

Ficamos um bom tempo hoje diante deste trabalho da Viviane Gueller. As imagens são manipuladas ou não? São, essas situações urbanas não existem assim, é impossível. Não, dependendo do ângulo do qual foram feitas as fotos a artista pode ter conseguido essa perspectiva "impossível". Mas vamos olhar direito: uma avenida tomada por árvores desse jeito não tem como existir. E como é que esse edifício histórico poderia ter uma palmeira plantada ali no alto? Aliás, se não houvesse manipulação digital, por que o trabalho dela estaria ao lado das fotografias do Murilo Maia, que justamente flagra situações simbióticas entre natureza e construções urbanas? Talvez as obras tenham sido colocadas lado a lado para apresentar duas abordagens de um mesmo tema... Ou talvez elas estejam exibidas assim para evidenciar a oposição temática! Ana Cecília fez a seguinte leitura dos dois trabalhos: "Na obra de Viviane, a natureza é mostrada brigando com o concreto, enquanto nas fotos do Murilo vemos a malha urbana se moldando à natureza". Certo, mas essa briga com o concreto foi "fabricada", "amplificada", ressaltada ou retratada exatamente como se encontra nesse lugar? Não chegamos a uma conclusão lá muito definitiva. Quando parecia que alguém tinha resolvido o "problema", outra pessoa argumentava o contrário e voltávamos à estaca zero, o que foi ótimo.

O nosso percurso pelo salão começou antes, lá do lado de fora, onde o artista Marcos Martins instalou seu quase imperceptível Piso Tátil. Eu, que nunca tinha estado no MAUC (o Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará), não notei que havia algo de estranho com o piso logo na entrada. Assim como não percebi que aquela árvore com aquele laguinho em volta -a primeira coisa que se dá a ver ao entrar no museu- era uma obra de arte. A Valéria resumiu tudo: "A questão aqui é você olhar e depois olhar de novo, o que é muito difícil de acontecer". Quando se trata de arte contemporânea, é salutar duvidar de tudo; acho que foi esse insight que nos postou diante de várias das fotografias expostas no salão com ares de "será que isso é isso mesmo?"; e o grande barato de ver uma mostra de arte com outras pessoas é o monte de perguntas que surgem sem parar. Visitar uma exposição é sempre uma ótima oportunidade para fazer perguntas, mesmo que as respostas não satisfaçam. O que importa são as perguntas. Pistas para possíveis respostas costumam vir dos títulos das obras. Voltando à obra de Viviane Gueller, fomos checar o título, claro: Projeto paisagístico. Eunice comentou: "Mas é tão desarrumado, o trabalho parece falar mais da falta de projeto ou de como os projetos se desenvolvem à força em determinados contextos. Alguma coisa aí não se encaixa".

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Já em fotos como as da série Cidade de Gelo, de Bruno Vieira, a postura de duvidar não parece fazer mais sentido. O trabalho é plasticidade e poesia puras, sem problematizações da linguagem fotográfica. A questão aqui é capturar um "happening" muito efêmero e que não poderia acontecer da mesma maneira em qualquer espaço expositivo: uma cidade de gelo é erigida diante do mar e dura o tempo de a maré encher (ou vazar), talvez nem isso. O registro fotográfico garante que a experiência possa reverberar para além do local onde o artista construíu sua cidade fadada ao desaparecimento. Estão expostos no 58º Salão de Abril três vídeos que partilham também dessa característica poética e efêmera, que são da ordem do quase inapreensível, o que justifica o formato videográfico. Refiro-me à obra sem título de Nelton Pellens, à videoinstalação Carona, de Maíra das Neves, e ao enigmático Ação Zen (Nightshot Skateboard), de Fábio Tremonte (detalhe do vídeo está reproduzido na imagem abaixo).

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(continua...)

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Posted by Juliana Monachesi at 11:21 PM

setembro 16, 2007

CONEXÃO Fortaleza - Bastidores da oficina de iniciação à crítica de arte, por Juliana Monachesi

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CONEXÃO Fortaleza - Bastidores da oficina de iniciação à crítica de arte

JULIANA MONACHESI

Nos dois primeiros dias de oficina aqui em Fortaleza discutimos dois tópicos imensos: como se aproximar de uma obra de arte e quais tipos de texto sobre arte são mais eficazes (leia-se "mais críticos", "mais característicos da escrita de intervenção"); o primeiro dia, dedicado às maneiras de abordar uma obra -não ainda pensando em um texto a ser escrito, mas simplesmente tendo em mente a importância de ver, refletir, fazer perguntas à obra, descobrir nela os parâmetros a partir dos quais se poderá analisá-la etc.-, configurou-se como um exercício coletivo de "testar leituras" sobre trabalhos de vários artistas; o segundo dia, em que nos debruçamos sobre diversos tipos de escrita sobre arte -matéria (preview), crítica (review), crônica, resenha, entrevista, ensaio para catálogo, estudo monográfico, grande reportagem, texto de artista, artigo para revista acadêmica, texto colaborativo, participação em fóruns de discussão na rede etc.- e analisamos exemplos de alguns deles, deixou claro que o campo de atuação do crítico de arte, se por um lado se consitui de razoável liberdade, encerra também uma grande responsabilidade social.

A fotografia acima, de Rodrigo Braga, foi vista pelo grupo no segundo dia da oficina, a propósito da leitura de um texto que o artista publicou na Revista Fotosite de outubro de 2006 intitulado Dos bastidores de um auto-retrato. Rodrigo Braga narra, nesse texto publicado sob a rubrica "ficção", a experiência de realizar a série de foto-performance Fantasia de compensação (2004), exibida em São Paulo na mostra O Corpo na Arte Contemporânea Brasileira, no Itaú Cultural, entre outras exposições. Nessa série, o artista se valeu de recursos digitais para simular a sua transformação, por meio de uma cirurgia, em cachorro, ou, nas palavras de Rodrigo Braga, para concretizar uma "intenção antropofágica de fusão da minha cabeça com a de um rottweiler". A leitura do texto do artista e a análise da série de imagens que constitui o trabalho geraram bastante discussão, principalmente em torno de questões éticas, ainda que o artista deixasse claro em seu artigo na Fotosite que a utilização dos restos mortais do cachorro foi autorizada pelo Centro de Vigilância Ambiental da Prefeitura de Recife e que o procedimento cirúrgico fora realizado por um veterinário experiente.

Depois de muito debate e da apresentação de imagens de obras de outras séries de Rodrigo Braga, como a fotografia que se vê no início do presente texto, intitulada Comunhão (2006), chegamos à conclusão de que todo o trabalho do artista parte de uma relação respeitosa e quase religiosa com a natureza e com os animais; e que, portanto, uma leitura crítica dessas obras deveria, necessariamente, abarcar reflexões sobre ritualização e sobre o uso contemporâneo do aparato fotográfico. Começo por esse exemplo mais "polêmico", entre outros exemplos de obras que foram discutidas nestes dois primeiros dias de oficina, para apresentar um dos motes mais recorrentes nas discussões que vêm sendo entabuladas durante os nossos trabalhos aqui em Fortaleza: a crítica de arte hoje, mais do que nunca, não pode prescindir de contextualizações, sejam elas históricas, biográficas, socioculturais, geográficas, técnicas, tecnológicas, literárias, midiáticas etc.

Trabalhos recentes de Caetano de Almeida e Camille Kachani -e o contraste entre ambos- são ótimos exemplos de como chegamos a essa conclusão.

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Diante dos desenhos que Caetano de Almeida apresentou recentemente na Pinacoteca do Estado, em São Paulo, o que um crítico de arte precisa mobilizar para poder refletir e produzir um texto concatenado são as referências à história da arte, a estratégia pós-moderna da releitura e da ironia, o uso ou criação de imagens de "segunda geração", a idéia de diluição no pensamento crítico -aqui posta em prática deliberadamente-, a reflexão sobre a condição contemporânea da pintura e a hibridação com a visualidade dos meios massivos e dos materiais nada eruditos do design por atacado; já as pinturas feitas de pelúcia por Camille Kachani e expostas até o começo deste mês no Paço das Artes parecem requerer um outro tipo de mobilização por parte do crítico que pretenda analisá-las: a relação entre atração pelo material e repulsa pela temática que os trabalhos instauram, o regime de invisibilidade de certos componentes da paisagem urbana que as obras explicitam, tornando visíveis caçambas e kombis imundas que costumam passar despercebidas no cotidiano das grandes cidades, tudo isso e mais ainda sobre o olhar sedado dos urbanóides deveria constar de uma leitura crítica das obras do artista. O que se pode concluir da demanda quase oposta por repertórios críticos diversos que estes dois exemplos apresentam?

No limite, a conclusão seria que cada artista, cada conjunto de trabalhos, cada obra, enfim, determina ou mesmo incita a criar os critérios e parâmetros a partir dos quais poderá se fazer a sua crítica.

Bem, mas e se eu não sei que o Caetano de Almeida pintou As Madames (1999), uma série de quatro pinturas -Madame Anne-Henriette de France, Le Feu, Madame Marie-Adélaide, L'Air, Madame Victoire de France, L'Eau e Madame Louise-Elisabeth, Duchesse de Parme (Madame L'Infante), La Terre- que são cópias quase fiéis da série de Jean-Marc Nattier (1685-1766) pertencente à coleção do MASP?; e se eu não sei que esse artista é o grande representante brasileiro da arte pós-moderna?; e se eu não sei que o Camille Kachani vive em São Paulo e fez um trabalho de videoarte em parceria com um catador no qual fica evidente a invisibilidade de personagens como um catador, que, na obra em questão, circulou pela cidade com seu carrinho e todo o conteúdo deste pintados de dourado e, mesmo assim, permaneceu praticamente ignorado pelas pessoas? Ok, angústias todas muito pertinentes, mas vamos por partes: 1. ninguém precisa saber de tudo; 2. ninguém é obrigado a escrever sobre tudo; 3. cada pessoa aqui tem formações e repertórios diferentes e isso é ótimo para o horizonte da crítica de arte: se cada um mobilizar o que sabe, o que pensa e o que pesquisa para tratar de arte contemporânea, isso vai resultar em leituras bastante diversificadas e plurais da produção atual em Fortaleza, o que é sempre muito bem-vindo! Feitas essas ressalvas, voltemos às angústias: um bom corpo-a-corpo com a obra é o primeiro passo, mas a ele se segue uma pesquisa de campo (uma entrevista com o artista, por exemplo, uma visita a uma instituição -ou site- que tenha outras obras do artista etc.) ou de arquivo (livros, catálogos, revistas, jornais etc.), e ao final de toda a reflexão que a obra e as fontes tiverem propiciado segue-se um certo distanciamento -estratégico- para, em meio a tantas vozes, encontrar a sua própria.

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Como exercício final no primeiro dia da oficina, discutimos alguns trabalhos da artista Janaina Tschäpe: por ser menos conhecida, nos auxiliou a aguçar o olhar e o pensamento diante de um trabalho a respeito do qual pouco se sabe. Afinal, a idéia é que, nos próximos dias, possamos percorrer o 58º Salão de Abril e problematizar as obras expostas, mesmo sem ter acesso a maiores informações sobre os artistas e suas respectivas trajetórias; esta é uma situação com a qual o crítico de arte sempre se depara, sobretudo quando trabalho em veículos de jornalismo diário: pouco tempo para escrever e, consequentemente, para pesquisar; quando o tema da resenha é uma individual, vá lá, é menos material para correr atrás, mas se o objeto do texto a ser entregue "ontem" é uma exposição coletiva, então é contar com a experiência, saber eleger um foco para a pesquisa e confiar, depois de uma detida observação do conjunto de obras, nos instintos e insights.

Observando uma série de fotos, stills de vídeos e aquarelas da artista, o grupo fez leituras riquíssimas dos trabalhos: a ligação quase simbiótica entre corpo e natureza; a "naturalização" de elementos artificias nas fotos e vídeos e a "artificialização" de elementos naturais nas aquarelas que representam plantas e flores; o uso da fotografia como suporte sem problematização do meio fotográfico; a coerência do uso da aquarela para tratar de um tema clássico da história da arte; a metáfora ora da destruição ora da exaltação pela figura humana da paisagem ao seu redor; a dubiedade sobre o controle exercido entre homem e natureza; conexões com Iemanjá e com o surrealismo também foram trazidas à baila. E tudo isso sem informação alguma sobre a artista ou sobre as obras que estavam em discussão. A impressão final é que o Salão de Abril vai render muito debate até terça e textos instigantes de terça ou quarta em diante. Espero!

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[seleção de perguntas e tentativas de respostas destes dois primeiros dias]

o que deve conter um texto de crítica de arte?
Dependendo do público-alvo, do perfil da publicação e da especificidade da obra do artista a ser analisada, de maneira geral podemos dizer que é desejável que um texto crítico lance questões pertinentes para a reflexão sobre a obra analisada após uma breve contextualização (seja histórica, política, social, biográfica etc.) para situar o leitor e estabelecer um solo comum de discussão. O texto tem como ambição maior ampliar o sentidos da obra e alargar o escopo de leituras possíveis para determinada produção (seja contemporânea, seja histórica).

qual a diferença entre crítica e curadoria?
A crítica é um exercício reflexivo sobre a arte. Nas palavras de Camillo Osório em passagem do livro Razões da crítica que lemos ontem, "é função primordial da crítica procurar compreender as transformações da arte, seus novos processos e materializações, dando voz a manifestações poéticas ainda indefinidas e hesitantes". A crítica tem como missão promover uma constante interlocução com o público, com os artistas e com a história da arte.

Já a curadoria é um trabalho de pesquisa e reflexão sobre a produção artística com o objetivo de formatar o conceito de uma exposição. A interlocução com o público, com os artistas e com a história da arte também ocorre no processo curatorial, mas em geral este envolve também uma atividade de criação (de uma tese, de um recorte analítico, de uma postura em relação à arte) e de negociação com as várias instâncias do sistema de arte.

qual a especificidade do texto voltado para arte-educação?
A contextualização mais completa possível e uma abordagem didática sobre a arte, o que não significa simplificar e sim explorar o maior número de abordagens possíveis na leitura daquela obra (relações entre a arte e a vida cotidiana, rebatimentos da arte no contexto social de atuação destes professores e alunos, paralelos com o universo da literatura, da música, da televisão e do entretenimento etc.) para fornecer instrumentos ao professor e ao aluno que lhes possibilite um contato mais rico e profundo com a arte em questão.

quanto da subjetividade do autor pode transparecer no texto?
Novamente, dependendo do público-alvo, do perfil da publicação e da especificidade da obra do artista a ser analisada, de maneira geral podemos dizer que é salutar ver algo do autor no texto (gosto daqueles atravessamentos em que, por exemplo, o crítico relaciona o trabalho de um artista ao livro que está lendo no momento ou ao filme que viu recentemente: esse tipo de ligação -quando bem fundamentado- enriquece a fruição da obra pelo leitor, além de introduzir um elemento mais "mundano" e autoral no processo de construção de sentidos e de adensamento do pensamento sobre arte). Afinal, a arte tem relação com a vida e nada mais natural que o crítico estabeleça tais relações tomando-se também a si como base do aspecto "vivido" da obra.

Posted by Juliana Monachesi at 9:09 PM | Comentários (1)

setembro 15, 2007

CONEXÃO Fortaleza, por Juliana Monachesi

Começou hoje e se estende até terça-feira uma oficina de iniciação à crítica de arte aqui em Fortaleza, iniciativa da Funcet (Fundação de Cultura, Esporte e Turismo) e atividade ligada à realização do 58º Salão de Abril na cidade. A idéia do workshop é trabalhar a percepção da arte contemporânea, tomando a presente edição do Salão de Abril como ponto de partida, e estimular a prática da escrita sobre arte em Fortaleza. Hoje, no primeiro encontro dos participantes da oficina de crítica, feitas as apresentações -e foi muito interessante ver como há estudantes e profissionais de diferentes áreas do conhecimento com vontade de escrever, refletir e promover o debate sobre a cena contemporânea de arte aqui em Fortaleza-, partimos para exercícios de aproximação e abordagem de diferentes tipos de obras. O desafio de escrever sobre a complexidade que os trabalhos de arte dos nossos dias apresentam foi o foco da primeira conversa.

Até terça e também a partir de terça, o grupo quer discutir bastante, entender qual a função do crítico de arte em meio a essa complexidade toda do mundo da arte e do mundo em geral e também escrever muito. Muito e sempre. O Canal Contemporâneo, em seu papel de fomentar a circulação do pensamento sobre o sistema e as práticas artísticas no Brasil, nos ofereceu esse espaço para apresentar os resultados da oficina e nós pretendemos aproveitar ao máximo essa oportunidade de mostrar as várias facetas da reflexão que faremos acerca das obras exibidas no 58º Salão de Abril e em outras mostras em cartaz em Fortaleza no momento e, se essa iniciativa de adensar o debate crítico na cidade der liga, podemos, talvez, fazer desse um espaço de contínua discussão sobre o que está rolando no meio de arte cearense. Essa é a CONEXÃO Fortaleza. Sejam bem-vindos e aguardem pelos posts nos próximos dias!

"Nós" somos: Adriana Botelho, Alexsandra Bentemuller, Alexssandra Ximenes, Ana Cecília Soares, Ana Kátia da Silva Alves, Bruno Reis Lima, Camila Vieira, Carla Vieira, Cintia Mapurunga, Claudia Sampaio, Doug de Paula, Elizabeth Guabiraba, Eunice Siebra, Georgia da Cruz Pereira, Izabel Georgiana Cabral Gadelha, Janaína Pinto, Jacqueline Medeiros, Juliana Monachesi, Marcos Guilherme Vieira dos Santos, Rafael Alexandre Pinto, Renata Cavalcante, Roberta Felix, Simone Maciel, Tiago Coutinho e Valeria Roldan.

Posted by Juliana Monachesi at 7:13 PM