Carta enviada ao Jornal
do Brasil por email em 07/02/2002 em
resposta à matéria "Perdidos no espaço" publicada no Caderno B em 06/02/2002
(a matéria se encontra abaixo)
PAULO REIS E RICARDO BASBAUM
Curadores da mostra Panorama da Arte Brasileira
2001, em cartaz no MAM-RJ
Rio de Janeiro e Curitiba,
06 de fevereiro de 2001
Caro Sr. Editor,
A matéria “Perdidos no espaço”,
de Joaquim Ferreira dos Santos, publicada no Caderno B em 06/02/2002, sobre
a mostra Panorama da Arte Brasileira 2001, da qual somos curadores, ao lado
de Ricardo Resende, é de péssima qualidade – um verdadeiro atestado de incompetência
do referido jornalista. Melhor seria não tê-la escrito, nem seu editor publicado.
Não sabemos o que pretendem – editor e jornalista – com tal artigo, se é
se expor ao ridículo ou inaugurar inédita coluna de humor. O que se espera
do Jornal do Brasil é que trate de uma exposição como esta – concebida pelo
Museu de Arte Moderna de São Paulo, hoje em sua 27ª edição – com a importância
que merece, designando articulistas, críticos, artistas ou escritores com
um mínimo de competência para comentar e discutir a arte contemporânea brasileira.
Talvez possamos ter assim, entre críticas e elogios, um debate minimamente
interessante sobre esta mostra significativa. Tão ruim e desrespeitoso é
o texto, e tantos os erros e imprecisões cometidos, que quase não haveria
como começar uma crítica ao seu conteúdo. Procedendo deste modo os senhores
deixam seus leitores em maus lençóis, terrivelmente constrangidos com tal
gesto de obscurantismo para com os artistas, críticos, curadores, colecionadores,
galeristas, estudantes de arte, etc, brasileiros ou não brasileiros, ou seja,
aqueles que simplesmente têm inventado e desinventado a arte na atualidade.
E pensar que este jornal já abrigou em suas páginas debates decisivos para
o pensamento contemporâneo – como nos tempos do famoso Suplemento Dominical
– e mesmo críticos de variadas posições, formas e formatos (até muito pouco
tempo atrás…). Sinceramente, lamentamos pelos senhores, e por este jornal,
a posição constrangedora a que chegaram.
Se o primeiro pressuposto
de um jornalista é a correção e a exatidão dos fatos, a matéria “Perdidos
no Espaço” incorre em falhas primárias:
- a artista Lia Menna Barreto
não coloriu as sementes de milho, em seu trabalho “Máquinas de bordar”, como
escrito pelo jornalista. Um pouco mais de atenção o faria ver que aquelas
são sementes híbridas, que naturalmente têm essa cor;
- a artista Márcia X, que realizou
a performance “Pancake”, não se apresentou nua, como diz o jornalista, mas
vestida. Isto pôde ser observado por quem viu a performance no dia de abertura
ou no catálogo da exposição;
- a autoria das faixas espalhadas
pela sala de exposição não é de André Burian, mas da artista Marta Neves;
- a obra “Marulho”, de autoria
de Cildo Meireles, que ilustra o artigo, não faz parte da exposição comentada;
O olhar apressado do Sr. dos
Santos não o levou também a refletir sobre o processo, em algumas obras,
que se abre à percepção de uma realidade nacional. Olhos atentos e não tão
carregados de idéias cimentadas o levariam a ver mais demoradamente as obras
de Eduardo Aquino e Karen Shanski e a entender as sutilezas do trabalho de
Jarbas Lopes (feito com faixas de bailes funk dos subúrbios do Rio).
Ao pensarmos a idéia de percepção,
permeando a exposição, propomos um olhar multissensorial pelas obras apresentadas,
sejam elas a “Cama”, do grupo Chelpa Ferro, ou a “Musa” ou “Parede”, de Tatiana
Grinberg. Um pouco mais de perspicácia o levaria a pensar nas experiências
cariocas de Hélio Oiticica e Lygia Clark como fundamentos artísticos importantes
no Brasil.
Se a ida ao Panorama pode
configurar-se também como um “programa divertido”, isto aponta para um espectador
que, ao não fechar os olhos ao novo e à surpresa, tem a possibilidade de
um entendimento da situação das artes plásticas e do mundo em que está vivendo.
Não queremos espectadores apenas conhecedores de um saber específico das
artes, mas alguém, sem preconceitos, que percorra a exposição, faça suas
escolhas e tenha suas opiniões. Não procuramos alguém que entre no espaço
do MAM-RJ e queira “chocar-se” com as obras apresentadas, chame uma das obras
de “borrão de geleca” e as demais de “cacarecos”. Não acreditamos que este
seja um convite a um inteligente debate cultural realizado por um grande
jornal. Desculpe-nos Sr. jornalista e Sr. Editor, mas o choque foi nosso!
O Sr. dos Santos praticou
em “Perdidos no espaço” uma espécie de jornalismo-Ratinho – quase um jornalismo
marrom – , querendo conquistar o leitor desavisado através de expressões
chulas e desrespeitosas. Se queria produzir alguma polêmica, achamos que
conseguiu: trouxe à capa do caderno B (com chamada de primeira página) um
claro exemplo de incompetência da imprensa em lidar com eventos significativos
da área de artes visuais. O Sr. dos Santos tem esse mérito, quase impossível
de ser superado: poucos serão capazes de escrever artigo ainda pior, com
efeito tão nocivo à própria imprensa ligada ao campo da cultura. Sr. Editor,
quando afinal este jornal irá dizer ao que veio, retomando o fôlego de seus
grandes momentos e conseguindo produzir algum debate cultural decente que
anime o panorama carioca e brasileiro?
Com nossos pêsames pelo péssimo
artigo,
Paulo Reis
Ricardo Basbaum
Curadores da mostra Panorama
da Arte Brasileira 2001, em cartaz no MAM-RJ.
Matéria
publicada no Jornal do Brasil, no Caderno B em 06/02/2002
Perdidos no espaço
No Panorama da Arte Brasileira, no MAM,
representantes da vanguarda querem chocar, mas
só provocam tédio
JOAQUIM DOS SANTOS FERREIRA
A função da arte já foi chocar,
arrepiar, contestar, denunciar, provocar ou encher os bolsos do artista de
grana. O Museu de Arte Moderna está apresentando o Panorama de Arte Brasileira
e um dos trabalhos apresentados é um borrão de geleca branco no mármore preto.
Silvio Santos pergunta todo domingo ''Qual é a música, maestro?''. No MAM
não adianta perguntar ''Qual é a arte, gente boa?'' ao segurança Paulo Roberto
Alves, responsável pela integridade física de todos aqueles cacarecos. Paulo
vai dar um risinho sem jeito. Não lhe contaram também.
Há um tatame vibratório, pedras
cortadas retas, banquinhos de madeira um ao lado do outro e, se você tiver
mais de 18 anos, poderá avaliar também ''Qual é a arte?'' na sala em que
um vídeo mostra as evoluções de zoofilia homossexual entre uma mulher e uma
cabra. Nenhuma das duas faz méééééé. Parece que não há orgasmo em qualquer
canto da mostra.
Nada choca. Nada que não pudesse
já ter aparecido no Salão de 2000. A velha imagem de ser socado no estômago
diante de algo agressivo e transgressor, no abandonado Aterro do Flamengo,
só acontece em caso de assalto. O espectador entra com o olho de um jeito
e sai olhando a vida da mesma maneira. Talvez um pouco mais interessado em
acompanhar os trabalhos de biologia do filho no primeiro grau. Um dos trabalhos
expostos é uma plantação de milho, aquela que se faz na escola para entender
o germinar da planta desde a semente. O artista coloriu o caroço do milho,
enfileirou o milharal e assinou embaixo.
Programa divertido - Parece
que não era a intenção, mas o Panorama de Arte Brasileira, com exceção do
espetáculo das cabras, é um dos mais divertidos programas para se levar os
filhos. Há uma cabaninha feita com faixas de ráfia costuradas, assinada por
Jarbas Lopes, na medida para as crianças deixarem de lado, pelo menos por
um fim de semana, a brincadeira naquele labirinto que existe há décadas no
Parque do Flamengo. Nas faixas, como se tivessem sido roubadas de cenários
suburbanos, está escrito Anchieta, São João, Dama Grátis, Quem é quem?, Charme
dos Milagres, Sem preconceito, Pagodão ao vivo e dezenas de outros anúncios.
Leve seu filho ao tatame vibratório. Ele vai curtir o quadro desenhado por
lesmas. Sério.
Se o Panorama é, como quer
o texto na entrada, ''um mapeamento periódico da produção artística do país'';
se o deste ano aponta ''uma idéia da arte como percepção e conhecimento do
mundo''; se este é ''um país marcado por forte exclusão social e aqui tentou-se
entender o sistema de trocas simbólicas e materiais dadas no circuito artístico'';
bem, se é isso tudo que está em exposição no MAM então é melhor que Romário
vá à Copa. Pelo menos faz mais sentido.
O texto que legenda as artes
plásticas é uma monumental fonte de risos - e a propósito um dos trabalhos
expostos é uma fonte de música, com águas dançantes e coloridas. Talvez com
a água significando ''a exclusão social'' que nos molha o ''sistema de trocas
simbólicas'' de ''percepção''. Mais adiante foram expostas cinco fotos de
uma senhora enorme de gorda. Aquilo seria, segundo o texto pregado na parede
ao lado, ''pelas vias do humor cáustico'', ''com suas aberrações e excessos'',
''um quase-filme-espelho que reflete uma visão nua e crua desse viés da vida''.
Na sala das cabras amantes há cartazes com a águia americana jogados no chão.
Mas, felizmente, não há explicação.
Orelhas - As crianças vão
adorar passear por um corredor repleto de orelhas desenhadas. Mande-as encostar
as próprias orelhas nas orelhas da arte e elas ouvirão uma voz de mulher
dizendo, por sobre uma outra voz de mulher: ''um ser todo interface'', ''prometeu
a si mesmo que jamais seria tão apegado à arquitetura novamente''. É divertido
mas, como em tudo mais que os artistas mexem com palavras, não se preocupe
em compreendê-las racionalmente. Eles não conseguem acertar nem a grafia
da palavra ''alto-falante'' que, dependendo da instalação, pode ser grafada
como ''auto-falante''. A propósito número dois: num telão passa o filme de
um bando de formigas mexendo num graveto. Uma delas, deve ser a artista do
formigueiro, carrega, toda lépida e prosopopéia, um letreiro com a palavra
''word''. Pegou?
Exatos 80 anos depois do escândalo
da Semana de Arte Moderna os artistas brasileiros se reúnem e, ao invés de
ecoar o grito de Oswald de Andrade pedindo ''contra a cópia, a invenção e
a surpresa'', comemoram a data com uma artista em pêlo se besuntando de Leite
Moça. Mais de 30 anos depois de Antônio Manuel ter se exposto nu na escadaria,
o gosto é doce, antigo ou previsível demais. André Burian colocou meia dúzia
de faixas pela mostra fazendo um jogo com a palavra idéia. Numa delas diz
que ''André Burian gostaria que Roseana Sarney fosse sua mãe, mas não tem
idéia de como isso possa acontecer. Como fazer?'' RoseBrahma, que já não quer
ter pai, certamente não vai querer filhos que não sabem como fazer acontecer
suas idéias. Mesmo que o Albieri ajudasse o rapaz, isso não resolveria o
problema do Panorama de Arte Brasileira. Não falta mãe. Falta uma cabra que
faça mééééé e, saudando Oswald, volte a desafinar o coro dos contentes. Enquanto
isso um grande e velho bode preto está solto no MAM sob os cuidados do segurança
Paulo Roberto Alves.
Panorama de Arte Brasileira
MAM - Museu de Arte Moderna do
Rio de Janeiro
Av. Infante Dom Henrique 85,
Aterro
3ª a 6ª, do meio-dia às 18h
Sáb e dom., das 13h às 19h
R$ 8. Crianças até 12 anos grátis
Estudantes e maiores de 65 anos
pagam meia
Às 4ª, R$ 4 para todos. Clube
JB: 30% de desconto.
Copyright © 1995, 2000, Jornal
do Brasil. É proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo do JB Online
para fins comerciais.
www.canalcontemporneo.art.br