Página inicial

Portfolios

Compartilhar
      
Pesquise por palavras e/ou expressões (entre aspas)
 

Marcos Chaves
apresentação
 




textos: Ligia Canongia e Adolfo Montejo Navas

fotos:

XXV Bienal Internacional de São Paulo; Abril 2002
Vicente de Mello

Logradouro
Museu Ferroviário da Vale do Rio Doce; Vitória – ES; Outubro 2002
Flávio Santos

trabalhos e exposições realizados em 2002

individuais:

Galeria Nara Röesler,
São Paulo

Museu Vale do Rio Doce, Vitória, ES

Galeria Arte Futura, Brasília

Logradouro, Laura Marsiaj Arte Contemporânea,
Rio de Janeiro


instalações:

Force Sombre, backlight em homenagem a Artaud, Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto, com a participação de dois artistas plásticos, Jan Fabre da Bélgica e Marcos Chaves do Brasil, Represa Municipal de São José do Rio Preto, SP


principais coletivas:

ArteFoto, Centro Cultural Banco do Brasil,
Rio de Janeiro

XXV Bienal Internacional de São Paulo, São Paulo

Matéria Prima, Novo Museu, Curitiba, PR

“7X7”Arte Contemporáneo Brasileño, La Paz, Bolivia

Stazione Topolò / Postaja Topolove, Udine, Itália

Love’s House, Hotel Love’s House, Rio de Janeiro

Morro/Labirinto, Goethe Institute - Paço Imperial, Rio de Janeiro

Sidaids, Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro

Coletiva 1, Laura Marsiaj Arte Contemporânea, Rio de Janeiro

Panorama Brasileiro da Arte Brasileira, Museu de Arte Moderna, Rio de Janeiro

Panorama Brasileiro da Arte Brasileira, Museu de Arte Moderna, Salvador, BA


workshops:

Stazione Topolò/Postaja Topolove, Udine, Italia

Faxinal das Artes, Secretaria de Cultura do Governo do Paraná

      


Textos críticos escritos para o artista durante o ano de 2002

Sobre a XXV Bienal Internacional de São Paulo
Quando o olho ri, ou vice-versa, de Adolfo Montejo Navas


Sobre a exposição na Galeria Arte Futura
Marcos Chaves – Vazio e Totalidade, de Ligia Canongia


Sobre a exposição Logradouro,

na Laura Marsiaj Arte Contemporânea
Negra IRONIA Amarela, de Adolfo Montejo Navas

no Museu da Vale do Rio doce
Logradouro, de Ligia Canongia



Sobre a XXV Bienal Internacional de São Paulo

Quando o olho ri, ou vice-versa

Tristeza demasiada ri. Riso demasiado chora
William Blake

ADOLFO MONTEJO NAVAS
Rio de Janeiro, março de 2002

Para quem não conhece, mas também para quem conhece bem a obra anterior de Marcos Chaves (Rio de Janeiro, 1961), construída sempre sobre os parâmetros da apropriação e da intervenção, a chegada desta obra à Bienal não deve deixar de surpreender, pois a reconhecida chave do humor de seu trabalho, como recurso sinônimo de linguagem, aqui não se apresenta só como elemento, senão como fundamento, como uma declaração estética. O que à vista da seriedade de grande parte da arte última –às vezes de uma sagramentação conceitual que dificulta até o passo do ar– é algo mais que oportuno, faz que seja um trabalho mais procedente do que nunca.

Como não podia deixar de ser, Morrendo de rir é um trabalho fronteiriço não só pela sua natureza mista e pela criação de um espaço híbrido, como também pela semântica não delimitada das imagens: de dor, de grito, de gozo? Marcos Chaves tem escutado este paradoxo intrínseco do riso –cujo extremo é a gargalhada– tão “essencialmente humano” e “essencialmente contraditório”, segundo confessava Baudelaire, para fazer una verdadeira instalação-colagem, donde as partes da obra são superpostas, ligadas como se fossem camadas, também levadas a seu extremo: silêncio, imagem, espaço e riso.

Se um dos sonhos reconhecíveis das instalações é sua aproximação à vida, a questões da condição humana, aqui as duas partes que há nesta obra se fundem numa terceira que é o público, como se fosse um “fio terra”. De fato, o equilíbrio/diapasão desta instalação visual-sonora ou, dependendo da ordem que o visitante acione, sonora-visual, repousa nesse triângulo: as imagens do artista-as gargalhadas-os visitantes. Devido a esta estrutura da obra, os visitantes se convertem em mediuns, pois são eles quem sintonizam a gargalhada visual e a sonora, com o acrescento da sua, muito possivelmente. Os espectadores são os que ativam a obra, sua seqüência. Uma seqüência, aliás, que nunca está parada, tanto pelo movimento da imagem da boca-gargalhada, como pelo o som que colabora como movimento: a imagem remite para uma trilha e o som se faz imagem.

O silêncio oficial da arte se pode quebrar com a obra, quando pessoas rindo transgridam seu espaço sonoro, e até a própria narração, pois a obra não é estática, como podem enganar as fotografias aqui objetualizadas, é continua: se refaz em cada visitante que chega, em cada riso ou gargalhada nova, como um moto-continuo da obra, onde se pode descobrir um heterodoxo e vivo componente minimal, pois ainda que o motivo se repita –a forma dificilmente–, às vezes o efeito e a causa podem alterar-se nela. Assim, se a metade da obra é do domínio do público, é porque é ele quem fala a última palavra, ou melhor dizendo, a última gargalhada, já que a obra tem essa vontade de ensaio aberto, esse gume.

Morrendo de rir faz parte de um vocabulário artístico como o de Marcos Chaves, cuja maior figura continua sendo a ironia: da arte, do espaço da arte e do mesmo artista; e aí estão os jogos de formas que se podem intuir do riso e sua gargalhada, como precisamente o contrário do quadrado da sala e dos próprios puffs, ou as amontadas imagens do rosto do artista, como o maior exemplo para equacionar o campo de tensão de um trabalho que se aproxima a essa vertente da arte acústica, mas que sobretudo põe em pane alguns de nossos créditos estéticos, pela junção irônica do olho e o ouvido sobre um título que promete sua parte.(volta ao topo)



Sobre a exposição na Galeria Arte Futura

Marcos Chaves – Vazio e Totalidade

LIGIA CANONGIA

Quando Marcel Duchamp propôs o readymade, dissociou inteiramente a questão da plasticidade da noção de arte, e tornou caducas as práticas que ainda preservavam algum ideal de beleza em termos clássicos. Para ele, não era necessário o sentido da criação, em que o artista tem pleno controle sobre o fazer. Um ato de seleção era suficiente para instituir o objeto selecionado na esfera da arte; na seleção estava a “criação”, pois ali já residia a Idéia. Naquele momento, Duchamp dava à forma o caráter de acidente, desqualificando-a.

O trabalho de Marcos Chaves pertence a essa linhagem histórica, à linhagem que passou a dar ao objeto cada vez mais o valor de pensamento e menos o de forma sensível: um objeto, portanto, mais ético do que estético. Chaves certamente considera o potencial aberto pelo readymade e sabe de seus desdobramentos na atualidade. Não está interessado no produto formal, no objeto “artístico”, na esteticidade. Construir a obra de arte pode ser, para ele, extrair um objeto comum de seu ambiente funcional, combiná-lo a outros, mudar seu contexto lógico, acrescentar palavras e outros meios vindos de fora do campo estrito da visualidade, jogar com associações mentais, com o humor e com o acaso. Esses são os seus procedimentos “estéticos”.

Marcos Chaves surpreende significados e valores imersos nas coisas vulgares, dissimulados no hábito ou na convenção. Faz deslocamentos imprevisíveis e produz assemblages em tom de paródia, destilando aí a sua aguda observação sobre o mundo, da tecnologia ao lixo. As coisas de que se apropria, em sua maioria, são produtos do consumo e do imaginário popular. Observa não apenas a estética que é dirigida às grandes massas e por elas absorvida, como as manifestações que partem naturalmente do povo, do meio urbano e do comércio do mau gosto. São esses produtos que, paradoxalmente, acentuam a força do comentário “culto” da arte e ajudam a enfatizar o tom jocoso de suas associações. O humor entra aí como uma lâmina fina a satirizar o senso comum, a uniformidade e a falta de juízo crítico. O humor intervém sobre o significado original do objeto e enxerta outro, por um movimento imprevisto, um desconcerto, quase piada. A acidez de seu humor opõe-se, na verdade, à banalidade do objeto, dando-lhe, ao contrário, originalidade. De um lado, temos uma operação que escarnece da vulgaridade e do consumo, através da apropriação dos próprios produtos que os fomentam, e, de outro, uma operação que os reintegra ao mundo do “refinamento” intelectual da arte. O trabalho sustenta-se na ambigüidade, associando movimentos opostos, fundindo dicotomias, apontando sentidos multidirecionais.

Desestetizado e antiformal, por excelência, o trabalho de Marcos Chaves rejeita a “aura” da obra de arte e contamina sua “pureza” com as coisas da vida comum, substituindo o belo pela inteligência.

Lugar de Sobra, concebido em 1995, pensa a idéia de “série”, como muitos de seus trabalhos, voltando à discussão da indústria e dos processos de produção mecânica. Confronta, de cara, o Brasil industrial e progressista ao Brasil miserável, propondo uma “série” de objetos mambembes, de fatura manual e precária, às vias de se indeterminarem enquanto forma. Uma série que se auto-anula como idéia mesma de serialidade. Em Lugar de Sobra não há uniformidade, repetição, programa, planejamento, formalidade. Cada objeto preserva um mínimo de individuação. E, de novo, o material é desestetizado ao extremo. São peças de mobiliário, banquinhos usados, velhos. Não se trata mais de um produto industrial, mas de banquinhos “arranjados” à mão, obra do “jeitinho” popular e criativo, que produz utensílios com refugos, com sobras. Mas aqui o artesanato não se eleva à categoria de produção bem acabada, nem empresta ao objeto uma “estética”. O objeto acaba por possuir o mesmo espírito do assemblage dadaísta: uma forma dissociada, feita por acumulação de pedaços, por justaposição de partes díspares, uma antiforma.

Cada banquinho mantém uma individuação mínima porque, de fato, são diferentes entre si, mas a precariedade de sua construção, o aspecto surrado e a indefinição de seus contornos é tamanha que eles não retém nosso olhar, não realçam qualidades.

Outro dado importante é que os banquinhos são colocados em exposição e podem ser utilizados pelos espectadores para se sentar. Eles substituem os bancos que existem nos museus para que o público contemple a obra. Só que eles são “a obra”, e o objeto da contemplação falta. O mundo é esse objeto. Lugar de Sobra inclui a obra, o público e o resto do mundo no mesmo lugar, por isso ele é de sobra, é amplo. É de sobra também porque são muitos os banquinhos e ocupam grande espaço. E é de sobra porque os objetos são sobras do mundo, o resto. É o lugar do refugo, do lixo, da pobreza e da carência, mas é também, paradoxalmente, o lugar da fartura. Falta e sobra ao mesmo tempo.

A série fotográfica dos Buracos, a exemplo dos banquinhos, também alveja uma direção dupla: artística e política. Marcos Chaves apropria-se das “soluções” criativas do povo, ao tramitar, brincando, na área pública da “sinalização urbana”. Dadaísta de alma, o povo brasileiro das metrópoles inventa arranjos e justaposições irônicas e hilárias para driblar o descaso público, como os assemblages espontâneos que constroem para sinalizar os buracos das ruas. Chaves vê nessas “construções” verdadeiros readymades urbanos, prontos para serem clicados, numa apropriação rápida e eficaz dessas antiformas populares, plenas de humor. E a operação fotográfica, avesso radical da manualidade virtuose dos pré-modernos, é o instrumento perfeito para a captação necessariamente veloz desses “acidentes criativos”, com que nos deparamos no dia-a-dia. O readymade surgiu para declarar a falência do “fazer” pictórico, do exercício progressivo e lento desse fazer manual e compositivo. Na verdade, o readymade foi o sinal da impotência do pintor na sociedade industrial, e seu aparecimento deveu-se ao declínio da pintura e à redenção da arte enquanto idéia. O métier pictórico foi impotente para enfrentar a realidade da máquina, incluindo a da máquina fotográfica.

A mesma lógica que preside o ato fotográfico governa o ato duchampiano. O readymade, como a fotografia, suspende o objeto do contínuo de seu tempo e de seu meio original, da cadeia progressiva, evolutiva, separando uma fatia do mundo do resto do mundo. O readymade é outra espécie de cut, que interrompe, assim como a foto, o fluxo normal de um objeto. O disparo que fundamenta a operação fotográfica é o mesmo disparo que isola, no readymade, uma porção do mundo.E é importante sublinhar que Marcos Chaves não é fotógrafo, não pretende que as imagens fotográficas sejam “artísticas”, a foto sendo tão-somente esse recorte que assimila imediatamente a fatia do real que lhe interessa. O readymade não precisa ser um objeto, uma coisa, ele pode ser a paisagem, uma cena de rua, algo que o artista se apropria como “já feito”. Os Buracos “reais”, no perfil que assumem com as interferências populares, têm uma sobrevida fugaz, e são resultado de uma ação incisiva e satírica que só pode ser “eternizada” com a ação igualmente breve, mas eterna, do clique fotográfico. Ao disparar seu olhar sobre essas intervenções, colhê-las e torná-las obras, Marcos Chaves prolonga a duração desses acontecimentos, contrariando a sua sorte acidental. Congeladas no tempo perpétuo da fotografia, as intervenções, feitas para durar o tempo preciso até sua coleta por um caminhão de lixo, transformam-se em “monumentos” urbanos, suspensos “na interminável duração das estátuas”.1

O buraco é a falta, o vazio, o lugar que nos solicita imediato preenchimento para que não nos deparemos com o fato insuportável da ausência. O buraco é ainda o desconhecido, a ameaça, o lugar da queda, do perigo e da morte. As interferências populares nos alertam para esses temores, nos protegem, sinalizando a iminência do desastre, e o fazem com o humor e a irreverência de quem ilude e desfaz as armadilhas da fatalidade. Reagem à morte com o humor que, no dizer de Chaves, “é uma forma de tirar a tragicidade das coisas”. O buraco ressurge então como espaço de criação, de vida, de pulsação, justo as qualidades que a fotografia, enquanto meio, congela, e que a arte de Marcos Chaves, como expressão da ambivalência, retém, mas vivifica. “Come into the (w)hole”!.(volta ao topo)

Dubois, Philipe – in O Ato Fotográfico, Campinas, Papirus, 1994 (retorna ao texto)



Sobre a exposição Logradouro

Negra IRONIA Amarela

ADOLFO MONTEJO NAVAS
Poeta, crítico de arte e literatura, tradutor e artista plástico.
janeiro de 2002

A falta de piedade da ironia determina que só seja salvo o que merece ser salvo, segundo uma velha anotação de Cioran. Pode-se dizer que para grande parte da arte contemporânea ela é um estimado recurso expressivo, em sintonia talvez com os tempos de hoje, mais pesados do que parecem. No vocabulário de Marcos Chaves ela não é só presença constante, mas também estrutural, na medida em que permite apresentar um véu sobre o que verdadeiramente despe. O resultado é sempre algo com um disfarce transparente, em que quase tudo está à vista, mas só vendo.

A ironia visual continua, agora na Galeria de Laura Marsiaj, na mesma semântica do amarelo, uma cor já considerada a cor da loucura, a cor corporal por Kandinsky, mas também a escolhida pelos códigos urbanos de trânsito, como signo de atenção e isolamento. Uma fita negro-amarela de plástico que, como se pode ver, é o ponto de partida desta ousada exposição, que começa sendo visual e acaba sendo extraordinariamente física. De fato, a instalação contém uma dúvida que ocupa a Galeria toda: uma dúvida sobre a cor como sensação, como informação: "a cor não está nas coisas, mas na relação entre as coisas e nós" (Félix de Azúa). A aposta da Galeria é clara: a obra é o lugar. Marcos Chaves sabe disto quando desloca significados do processo de comunicação nesta obra, que é um "jogo de linguagem" negro-amarelo.

Assim como uma leve memória do amarelo no artista remete a anteriores trabalhos de outra índole (série de objetos de Hommages aux Mariages, postes de fila única de S/ Título) cujo dominante tonal é reconhecível, a escolha da própria fita como material de trabalho lembra uma irmandade de apropriação com aqueles baldes oiticianos com luz vermelha, das ruas cariocas. Mas é sobretudo o diálogo interno com Raymundo Collares o que mais aparece nesta obra chamada Logradouro, pela vertente pop/construtiva que a composição desta instalação respira. Na verdade, podem-se escutar coisas comuns: certa melodia da cidade grande e signos de uma voragem urbana, embora a natureza das obras seja de seqüências diversas: naquele mais temporal e em Marcos Chaves mais espacial. A instalação não deixa de ser um caleidoscópio onde elementos pop/op/cinético/neoconcretos se articulam no olho sempre neo-dada do artista.

É sobre a comunicação social deste elemento viário, sobre os códigos visuais e sua leitura que se assenta esta obra site specific, aliás, mais specific que site, pois suas fronteiras genéricas situam-se mais ambiguamente: trata-se de uma instalação cujo conteúdo é a forma, e cuja substância é tão interior quanto exterior. É obra de Galeria e obra pública ao mesmo tempo, sem saber nunca se o fluido dela está entrando ou saindo – o mesmo ponto energético que toda imagem tem, neste caso, situa-se numa parede como feixe ou sumidouro.

Embora a matéria-prima escolhida nesta obra não saia do plano, trata-se de uma obra de pura superfície que é toda volume, fazendo da galeria uma caixa, um continente de ressonâncias conceituais. Se é famosa no artista carioca a apropriação de objetos e fotografias, quando não de palavras, neste caso a apropriação é de um espaço da arte. O espaço expositivo é a obra. Se já numa ocasião anterior, neste mesmo espaço, o próprio Marcos Chaves trouxe para uma nova dimensão uma instalação feita num Castelinho, agora numa outra reviravolta, traz à tona uma diferente condição para a Galeria. Ela é magnetizada pela nossa presença, fazendo-nos parte da obra.

Uma obra que resgata uma vertente instalativa anterior, sempre preocupada com a desnaturalização representacional. De alguma forma, Logradouro é um trabalho pictórico sem pintura. A composição da instalação guarda também uma descontinuidade visual, ou melhor, respeita as geometrias do acaso, essa outra pedra filosofal do mestre francês do dadaísmo. A seqüência deste acaso geométrico guarda sua poção própria de humor, um elemento indispensável no artista, tanto como linguagem quanto como substância (veja-se o sonoro trabalho apresentado na atual Bienal de São Paulo).

Em Logradouro, as linhas de orientação de rua conduzem à Galeria para descobrir que a obra é precisamente os próprios sinais. Tanto o material como o suporte e a mesma Galeria entram aqui numa certa roda desconstrutiva: a fita sofre uma intervenção e ela mesma intervém, é dona da seqüência e do espaço: o espaço da Galeria torna-se seqüencial.

A operação do artista segue sendo combinatória: é a convergência da intervenção e da apropriação ao mesmo tempo: através dos signos mexe em nossos referenciais. O exercício inerente desmonta um sistema de representação viário com outro uso de linguagem da mesma imagem: a ‘desconvenção’ de uma fita urbana. A estratégia ‘desublimadora’ de Marcos Chaves ganha um paradoxo a mais, sobretudo quando o próprio artista não teme reconhecer que "o sublime pode chegar através do humor". O que acontece com Logradouro. Não esqueçamos que a ironia adora adivinhar qualquer crise de representação, e até as nossas convenções visuais e ideológicas mais veteranas.

O olhar que persegue este trabalho é dilatado. É um olhar de visita, ou melhor, a visita do olhar. As chaves artísticas de Marcos são essas (já estão no nome, como descobriu a tempo L. Canongia). Encontrar caminhos onde há buracos, encontrar buracos onde há objetos, pedaços, fragmentos, figuras onde há cores. Ou como pede um aforismo de Licthenberg: "Novos olhares para velhos buracos.".(volta ao topo)




Logradouro

LIGIA CANONGIA

O trabalho de Marcos Chaves tem se desenvolvido no sentido de construir uma nova ética para o mundo das formas. Fazer com que o universo da arte não se restrinja mais à pura sensibilidade, nem se esgote em procedimentos estritamente estéticos, mas acrescente às assim chamadas “formas plásticas” um pensamento capaz de especular sobre o sentido do mundo, sua lógica, suas convenções e seus absurdos.

Apropriando-se de objetos banais, dos códigos e do consumo das grandes massas, e ainda da arquitetura e da cena urbana, o artista parte do déjà-vu, das coisas e dos sinais já assimilados pela convenção e pelo hábito, para neles injetar significações outras, surpreendentes e inesperadas. Afinal, a arte sempre foi o lugar da criação do novo, mas a novidade pode estar no simples deslocamento do lugar ou do sentido original das coisas, operação que os dadaístas inauguraram e Duchamp radicalizou. Marcos Chaves persegue portanto o filão desses desvios, como formas de intervir na ordem funcional ou convencional dos objetos e dos comportamentos. Com interferências irônicas e plenas de humor, o artista desestabiliza o espectador, retirando-lhe o chão daquilo que acreditava conhecer e dominar, expondo-lhe um outro lado, talvez o avesso, dos objetos, das formas e das matérias que pareciam vulgares.

Essa é a operação da obra Logradouro. Chaves empresta função “artística” e dá volumetria e monumentalidade a uma matéria ordinária e planar, como as faixas pretas e amarelas usadas na sinalização urbana. E ainda, ao senso de orientação e ordenamento que essas faixas possuem no complexo viário, o artista contrapõe o sentido da desorientação e da turbulência visual, indeterminando os limites originais do espaço e retirando do espectador qualquer ponto de horizonte e equilíbrio. Sem referência espacial, lançado ao centro de uma rede de linhas que se emaranham e avançam até o ápice de redemoinhos que constituem sua terra e seu céu, o espectador encontra no desequilíbrio e na vertigem o estranhamento de seu próprio “lugar” no mundo, agora despido das regras e dos sinais que convencionam o nosso mover. Mas, o espantoso é que, apesar desse sentido desestabilizador, a obra tem como princípio o traçar construtivo das linhas e das cores, seguindo evoluções que, ao menos a priori, partiam de coordenadas precisas e geométricas, o que, na verdade, constitui o seu paradoxo. Logradouro é uma torção em nossa sensação de segurança e estabilidade; é uma torção na idéia de um lugar/ abrigo interior, protegido do mundo lá fora, pois que a galeria se torna, ela mesma, uma continuidade desse mundo, o exterior; Logradouro é também um desvio das normas de funcionamento coletivo, orientado por convenções que pretendem regular nossos movimentos e, por último, a obra é ainda uma torção na precisão e na ordem da arte construtiva, pilar da nossa tradição moderna.

Logradouro é velocidade pura, é espaço quase tempo: espaço insubordinado que não chega a constituir lugar, tempo ensandecido que corre sem esperar que tomemos consciência de onde estamos.(volta ao topo)

 
Todos os direitos reservados. Copyright 2003 - Canal Contemporâneo, Marcos Chaves, Adolfo Montejo Navas, Ligia Canongia, Flávio Santos, Vicente de Mello.
 
     
   

envio de conteúdo_    cadastre-se_    contato_    sobre o sítio_