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novembro 8, 2009

ensaios e/ou processos artisticoscuratoriais por Ananda Carvalho

sobre a 7a. Bienal do _ercosul



Ananda Carvalho*

A proposta curatorial da 7a. Bienal do Mercosul enfoca o artista como produtor do sentido crítico. Engloba sete exposições: Biografias Coletivas, Camilo Yáñez; Ficções do Invisível, Victoria Noorthoorn; Absurdo, Laura Lima; Texto Público, Artur Lescher; A Árvore Magnética, Mario Navarro; Projetáveis, Roberto Jacoby; e Desenho das Ideias, também por Victoria Noorthoorn. Conta ainda com curadores para o educativo, Marina De Caro; o editorial, Erick Beltrán e Bernardo Ortiz; e o radiovisual, Lenora de Barros. A construção experimental do discurso artístico aparece já na nessa concepção em que todos os curadores, menos Victoria, são _rtistas.

Começo meu passeio textual pela exposição A Árvore Magnética, que propõe obras que serão modificadas dez vezes ao longo da Bienal: “um sistema vivo de trabalho artístico”, um modelo de pensamento AUDIOvisual. Escolho esse tema como porta de entrada para a Bienal na medida em que, o enfo_ue ao processo e a possibilidade de produção de sentido a partir do pensamento artístico, sugere o conceito de ensaio, tema q_e transpassa todas as exposições. Essa temática é explicitada por Entrevista Terminada, Entrevista Interminável de Ingrid Willdi. Esse trabalho caracterizado pela própria artista como vídeo ensaio é constituído por quatro projeções, uma em cada lado da sala, que mostram imagens, textos, roteiros, contador de minutos, etc . Desse modo, a videoinstalação organiza fragmentos para constituir diferentes formas narrativas.

Seguindo a proposta de Ingrid, o termo ensaio pode ser entend_do aqui no sentido dado pelo filósofo Theodor Adorno**: uma forma de escrita que evidencia um caráter fragmentário e a necessidade de experimentação, ao caracterizar um exemplo concreto de como o pensar encontra ainda os meios para se realizar de maneira independente. Ou seja, pode-se compreender o ensaio como uma reflexão subjetiva sobre o mundo através da construção experimental de um discurso. Essa questão é explicitada nesta Bienal através da ênfase no sujeito artista e nos processos de realização que aparecem, pri_cipalmente, nas duas mostras curadas por Victoria e também em Texto Público e Projetáveis.

Desenho de Ideias relaciona o conceito de desenho com o de projeto. Porém, vai além ao explicitar diferentes caminhos e narrativas de possibilidades de ideias, ou pensamentos. Nas propostas de diálogo Cildo Meireles, Iran do Espírito Santo, Paulo Bruscky e Marta Minujín. De Cildo estão expostas Introdução à Nova Crítica, Malhas da Liberdade, Estudo para Tempo, Estudo para Espaço e Estudo para Espaço/Tempo. Essas três últimas estão ao lado direito da obr_ Sem Título (2009) em que Iran cria um imenso mural de uma “projeção” de uma tela cinza “vazia”.

Ficções do Invisível é composta por obras que expõem a relação dos artistas com seu próprio processo de uma forma elaborada. Não são rascunhos, nem making off. O trabalho de Fabio Kacero, por exemplo, constitui-se em questionamentos sobre a pro_ução do pensamento intelectual. A videoinstalação é composta por um vídeo que mostra uma criança lendo um trecho da Crítica da Razão Pura de Kant, enquanto outro exibe uma menina desenhando no livro Fenomenologia do Espírito de Hegel. Entre os dois, um vídeo apresenta uma outra garota lendo um relato radiofônico de um gol de Maradona na Copa do Mundo de 86. Desse modo, Fabio propõe oposições de leituras, de aprofundam_ntos, esvaziamento e complexidade. É preciso citar, também, a instalação sonora de Ana Gallardo em que a artista lê em tom monótono seu currículo no qual elenca todos os seus trabalhos que não consituem-se como práti_a artística. Logo na frente, seu vídeo A boca de Jarro mostra uma mulher cantando uma canção que denuncia a prostituição em Buenos Aires.

Texto Público expande o espaço expositivo para a cidade de P_rto Alegre. Entre as diversas perfomances e intervenções urbanas, destaco Pontos de Anti-gravidade do Provisório Permanente, um coletivo integrado por Victoriano Alonso, Eduardo Basualdo, Manuel Heredia, Hernán Soriano e Pedro Wainer. Os artistas convidam o público a escrever desejos num pequeno papel, que por sua vez é preso a uma bexiga. Essas bexigas contém um led (uma lampadazinha) e são reunidas para serem soltas todas de uma vez. Criam uma perfor_ance em que vaga-lumes mensageiros levam textos-desejos para um espaço indeterminado. Um texto aberto e sem destino definido.

Termino minha visita em Projetáveis, exposição com chamada pública para obras que utilizassem a internet como canal. A mostra inclui tanto trabalhos que dialogam com a linguagem da rede como os que apenas a utilizam com_ meio de distribuição. Com essa justificativa Projetáveis não apresenta apenas trabalhos de net art, webart e mobile arte. Dentro das experiências que exploram a linguagem da internet, encontrei Your Life, Our Movie (Fernando Velázquez), canal*MOTOBOY (Antoni Abad) e Global Safári Powered by GoogleTM (Wellington Cançado e Renata Marquez). A exposição me fez pensar também nos conceitos que a rede trás de forma implícita como espaço, vigilância e remix. E nesses parâmetros de diálogo contextualizo 475 Volver (Cinthia Marcelle), Atrás da Porta, uma Topologia dos Espaços Inacessíveis (Fernando Pião), Virtual Redundancy (Paul Matosic), Re-ação Pública Sonora (Grupo C.D.M. - Centro de Desintoxicação Midiática).

Este texto percorre um caminho em meio a uma diversidade de possibilidades oferecidas pela Bienal. A partir do conceito de ensaio, opto por colocar os links de todas as obras citadas para suas respectivas páginas no site da Bienal. Proponho assim, que mesmo quem não possa ir até Porto Alegre visite a exposição, voltando ou não a este texto, seguindo no_as possibilidades através das tags expostas em traj_tos áudio-textuais-visuais e não lineares. Afinal, como p_oposto por Adorno, o ensaio “não se constrói a partir de algo primeiro nem se fecha em algo último” (Adorno, 1986: 168).

*As letras faltantes neste texto foram subtraídas pelo artista Jorge Menna Barreto, como parte de seu projeto para o Projeto Editorial desta Bienal (www.jorgemennabarreto.com).


**ADORNO, Theodor W. O Ensaio como forma. In: COHN, Gabriel. Theodor W. Adorno – Sociologia. São Paulo: Editora Ática, 1986.

Posted by Ananda Carvalho at 9:28 PM