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julho 19, 2005

Proposta de espaço aberto, mas controlado, por Maria Hirszman, Estadão

Proposta de espaço aberto, mas controlado

Matéria de Maria Hirszman, originalmente publicada no Estado de São Paulo no dia 15 de Julho de 2005

Caráter contraditório do evento Ocupação, realizado pelo Paço das Artes, suscitou debates

O projeto Ocupação, que ocorreu ao longo dos meses de junho e julho no Paço das Artes, constitui uma interessante maneira de tentar escapar aos limites cada vez mais estreitos impostos à produção visual brasileira. De maneira um tanto reducionista, podemos dividir as ações neste campo em dois grandes blocos.

De um lado estão as poderosas e midiáticas iniciativas que concentram as verbas e, conseqüentemente, o público. E de outro grupos e instituições que buscam estabelecer ações com vínculos sociais mais concretos, capazes de criar alternativas à institucionalização museológica gerando espaços de criação alternativa. Mesmo que essas fronteiras sejam um tanto permeáveis, podemos classificar o Paço das Artes (instituição que comemora este ano 35 anos de existência) no segundo grupo, sobrevivendo a duras penas mesmo que pertencendo ao governo do Estado de São Paulo.

E para reafirmar seu papel de espaço privilegiado para a arte contemporânea e a situação de exceção permanente, nada melhor do que um projeto como este.

Ao convidar mais de 70 artistas e performers a literalmente ocupar o espaço da instituição, construindo aos poucos e in loco seus projetos (o grupo foi dividido em três blocos, cada um deles expondo ao longo de 15 dias), a instituição tenta sair de maneira produtiva e criativa da enrascada em que estão as organizações culturais de menor status deste País. Ao longo do período abrangido pela Ocupação foram gerados trabalhos de grande interesse, quer tenhamos como parâmetro a evolução pessoal da poética de cada um dos artistas participantes, quer pensemos na oportunidade dada ao público de arte contemporânea de conhecer os intestinos da produção, em contato direto com o artista.

O diálogo entre as várias obras propostas também estimula leituras interessantes, como demonstra o site criado pelo grupo de curadores que se dispôs a acompanhar passo a passo a evolução do evento e que gerou uma série de interpretações um tanto limitadas ao caráter "estético-conceitual" dos trabalhos.

Mas parece que o verdadeiro motor do evento, aquele que suscitou mais debate e interesse não são seus méritos, mas seu caráter contraditório. A ambigüidade entre a provocação e a ação institucional. Trata-se, realmente, de uma ocupação, ou este é um termo instigante para uma ação de caráter até que bastante democrático mas que conta com o apadrinhamento de uma instituição? Quem ocupa não o faz com data marcada, num espaço rigorosamente dividido - e de maneira até um tanto criticável, pelo excesso de painéis e "cotovelos" criados no espaço para segmentar de forma individualizada cada uma das intervenções. Também não depende de um convite, mas de um anseio de transformação. Como resume com precisão Mariana Cavalcante no blog criado pelo site Canal Contemporâneo, é "legítima a realização de uma ocupação de artistas em um espaço cultural público condenado pela negligência do Estado, como oportunidade de denúncia dessa situação insustentável e vergonhosa por que passa o Paço das Artes (...). Questionável pra mim é a forma como este processo se deu. No momento me parece que a a iniciativa da 'ocupação' perdeu o sentido quando abriu suas portas apenas para alguns artistas pertencentes a um círculo restrito criado pelos interesses de alguns, não sendo de forma alguma uma iniciativa de abertura e democratização do espaço em questão."

Acrescente-se aí o fato de que a Ocupação nem ao menos se dá de forma total.

Ela é limitada geograficamente, ocupando apenas o espaço não usado pelos artistas participantes da Temporada de Projetos (programa de mostras que há anos vem exibindo o trabalho para artistas jovens e convidados). E também não ocorre no momento nobre da programação do Paço. Em agosto a instituição realiza importante simpósio sobre a produção contemporânea, com a presença dos principais críticos e teóricos do País, demonstrando que reflexão e prática devem andar juntos. Mas simultaneamente o Paço abrigará então não uma experiência ousada como a de agora, mas os trabalhos agraciados pelo Prêmio Sergio Motta, uma parceria público-privada, com orçamento garantido.

Posted by João Domingues at 12:15 PM | Comentários (1)

julho 17, 2005

Sobre a última reunião da Ocupação

Ontem, durante a discussão sobre o terceiro turno da Ocupação, onde se tentou fazer um balanço geral do que foi essa iniciativa, o clima foi tenso. Apesar de ter sido considerada uma intervenção estapafúrdia, os comentários de Zorro no QUEBRA, sobre a matéria na Ilustrada mereceram resposta, o que tomou grande parte do tempo disponível para a reunião.
A maioria dos artistas não se colocou contra, mas ficou em silêncio ou então manifestadamente alinhados, de modo que a temida acusação de "manipulação" não encontrou respaldo. Mesmo assim alguns artistas manifestaram vivamente, durante a reunião, insatisfação com o fato de que a repercussão que a Ocupação teve só alcançou essa extensão, por que foi tratada, na mídia, como sendo algo que só mereceu atenção, em virtude de seu caráter político. Nas palavras de Daniela Bousso, em sua carta: "A proposta de "Ocupação" do Paço das Artes deve-se à necessidade que a equipe do Paço e eu sentimos em nos posicionar frente a penúria que as instituições culturais estão vivendo em nosso país."
Bem, é claro que com a participação dos artistas, esse posicionamento deixou de ser exclusividade de Daniela Bousso e da equipe do Paço.
No entanto, para alguns artistas menos visíveis, a questão política era outra, conforme foi mencionado por vezes durante os três debates da Ocupação, pois estavam interessados no significado intrínseco da Ocupação, o que ela representa conceitualmente no âmbito da arte, ou seja, da relação entre artista e curador.
Algumas pessoas foram pegas de surpresa com o rumo que a exposição pareceu tomar e Daniela Bousso comentou ontem: "...os artistas vinham trabalhar no primeiro turno achando que tudo era "cor-de-rosa" e de repente levaram um chacoalhão(com a matéria na Folha)...a partir de então as coisas começaram a ficar boas..."
Sentiu-se falta de que a exposição tivesse, além da polêmica, a cobertura crítica que normalmente é dispensada na imprensa às exposições do circuito, e era quase frustrante que esta estivesse tendo tanta visibilidade e que isso não revertesse na divulgação dos trabalhos, que estavam sendo desenvolvidos pelos ocupantes.
Era quase como se os artistas não importassem, nesse jogo político, e portanto foi inadvertidamente ignorado o fato de que os trabalhos também são políticos.
Em qualquer trabalho de arte, que seja contemporâneo, existe a questão da relação do artista com um mundo onde ele é sempre colocado para escanteio, como parece ter sido o caso, principalmente por parte da imprensa.
Embora os artistas se posicionem politicamente, com seus trabalhos, esse posicionamento parece não ter sido levado em conta nessa polêmica, já que o que se falou foi mais da "penúria" das condições, sem exibir o que os artistas são capazes de fazer, nessa penúria. Artista nunca teve grana, de qualquer modo.

Posted by rogerbarnabe at 6:00 PM

julho 10, 2005

Governo de SP rebate crítica do Paço das Artes por Fabio Cypriano

Governo de SP rebate crítica do Paço das Artes

Matéria de Fábio Cypriano publicada originalmente na Folha de S. Paulo, Ilustrada, no sábado, dia 9 de julho de 2005

Secretaria afirma administrar bem a cultura e ataca ações de museus privados

"Quem não tem política cultural são alguns museus privados e não o Estado", afirmou o secretário-adjunto de Estado da Cultura, Fabio Magalhães, em resposta às críticas de Daniela Bousso, diretora do Paço das Artes, a partir da polêmica surgida com a mostra "Ocupação", em cartaz no local.

"O Estado é bom administrador da cultura, é só ver como ele nomeia bem. Como exemplo, temos o Paulo Herkenhoff, no Museu Nacional de Belas Artes, e o Marcelo Araújo, na Pinacoteca do Estado. O mesmo não acontece com museus privados, o Masp nem tem um curador", diz Magalhães.

Na última semana, Bousso divulgou uma carta na internet, na qual denunciava a "ausência total de políticas culturais públicas para o exercício da arte contemporânea", que gerou irritação na Secretaria de Estado da Cultura. "Creio que a Daniela se sentiu ameaçada pelas críticas em relação à exposição e preferiu se fazer de vítima, em vez de defender a exposição. A mostra em cartaz é muito inteligente, nunca me passou pela cabeça que ela tem a ver com penúria, como ela descreve", conta o secretário-adjunto.

"Eu não entrei em questões conceituais, pois busquei defender a instituição dos ataques. Mas concordo com o Fábio Magalhães que o projeto da ocupação é muito rico e tem várias questões conceituais brotando dele, só a idéia em si já é um ato conceitual", disse Bousso, à Folha, anteontem.

Na carta, Bousso afirma que o Paço tem funcionários "indecentemente pagos" e o espaço funciona sem verba para programação, informações contestadas por Magalhães: "A média salarial do Paço é de R$ 1.600, o que está na média dos museus em geral, e, como toda instituição pública, as verbas saem de forma burocrática. Neste ano, já foram liberados R$ 240 mil ao Paço, mais do que no primeiro semestre do ano passado, e ainda estamos buscando liberar mais verba para as comemorações dos 35 anos do Paço."

Com isso, o secretário-adjunto volta suas críticas aos museus privados: "São eles que não têm programação coerente. O Masp nem paga suas contas, e parte dos museus privados se transformou numa ação entre amigos. Ainda que tenham boas exposições, como a Faap e o MAM, são instituições invertebradas, sem política cultural", diz Magalhães.

Ainda segundo Magalhães, as críticas de Bousso são "injustas", pois "a prioridade que ela mesmo tem apresentado é em relação ao prédio e estamos finalizando a aprovação de um projeto, em parceria com a USP e a iniciativa privada, que irá transformar o Paço". Quando o projeto for implantado, diz o secretário, o portão da USP será transferido para depois do prédio do Paço, "o que irá tirar o local do isolamento" atual.

O edifício será então finalizado, já que o Paço ocupa apenas uma pequena área da construção, tendo inclusive salas de cinema.

Masp e MAM respondem aos ataques

Para o arquiteto Júlio Neves, presidente do Masp, a questão sobre quem não tem política cultural deve ser relativizada: "Eu não culpo nem o Estado nem as instituições privadas, estamos todos com tantos problemas que a cultura é sempre relegada. Mas acredito que os três níveis de governo precisam encontrar um modelo brasileiro com participação dos museus particulares e dos museus públicos". Sobre a ausência de curadoria no Masp, Neves diz: "Estamos buscando criar um modelo".

Já Rejane Cintrão, curadora-executiva do MAM de São Paulo, aponta que o problema central, em qualquer esfera, é o personalismo: "Acho que o problema não é ausência de política no setor público ou no privado". Cintrão aponta a Pinacoteca como exemplo. "Ela começou a ter sucesso com Emanoel [Araujo] e agora tem continuidade com o Marcelo Araújo, mas o problema é que as instituições são dependentes de pessoas." O MAM, diz Cintrão, é uma mistura: "Temos a figura da Milú [Villela], que acertou a situação financeira, mas justo pela ação dela, temos obtido independência".

Cintrão contesta a suposta programação incoerente: "Desde 1997, mesclamos arte moderna e contemporânea, com privilégio para arte brasileira. Nas bienais, fazemos exposições paralelas importantes. Se isso não é coerência, não sei o que é".

Posted by Patricia Canetti at 6:35 PM | Comentários (9)

A nova possibilidade inaugurada com a Ocupação

A exposição Ocupação, ou a "ocupação" Ocupação, ou
como se queira chamar, é certamente uma proposta
importante, se tiver continuidade, para as Artes
Plásticas em São Paulo e provavelmente no Brasil, pois
pode influenciar iniciativas semelhantes, além das
fronteiras do eixo cultural Rio-Sampa.
Há muito que algo assim era ansiado pelos artistas em
geral, e principalmente por aqueles que dificilmente
são escolhidos para curadorias, um espaço partilhado
humildemente entre instituição e artistas, ou seja,
uma atitude institucional bem diferente daquela a que
estamos acostumados, onde o peso do julgamento é
corriqueiramente exercido de modo ostensivo, e já faz
um bom tempo, pelos curadores unidos do mundo.
Digo do mundo por que não quero acusar este ou aquele
curador de exercer além da medida a autoridade que, de
algum modo, lhe foi conferida. É uma tendência geral,
até onde se sabe, e isso ressalta a importância de uma
atitude com moldes diferentes, pois pode significar um
renovo do papel da instituição, no que diz respeito à
arte contemporânea.
No caso da Ocupação, o papel de Daniela Bousso parece
ter sido, além de criar e viabilizar o projeto, ser
uma mediadora mais do que curadora.
O único limite, declaradamente imposto pelo Paço das
Artes, foi a exigência de que o espaço oferecido
estaria sendo cedido para ser "ocupado" com a
condição de que os artistas permanecessem cinco horas
diárias no prédio, durante os seus respectivos turnos.
Dada essa condição, eles poderiam desenvolver o que
bem lhes apetecessem, até mesmo não fazer nada,
acampar, cozinhar ou passar a noite no terreno
ocupado. O mínimo a ser cumprido eram cinco horas no
local, mas o limite máximo de permanência não
foi restringido, de modo que seria possível "morar" no
Paço, possibilidade hipotética que talvez, quem sabe,
tenha dado origem ao agora famoso título da exposição,
ou melhor, da "ocupação".
Mas precisamente essa exigência, por ser de algum modo
um limite, acaba assumindo uma importancia tal, que
nos leva a prestar atenção melhor em seu sentido, que
poderia ser dividido em sentido aparente e sentido
oculto.
Ora, estávamos, quando aceitamos o convite do Paço,
numa espécie de negociação com a instituição, pois
apesar de ela então nos oferecer um espaço sem
curadoria, isso certamente era mais do que uma oferta,
já que também não deixava de assumir, implicitamente,
ares de uma antiga reinvindicação da classe dos
artistas que agora, finalmente, estava sendo atendida.
Bem, se estamos em negociação, temos que dar o braço a
torcer em algum ponto. Sendo assim, aceitamos sem
grandes problemas ou questionamentos, sem "chiar", a
obrigação de estar cinco horas diárias na Ocupação. Do
ponto de vista da negociação, tendo em vista o
benefício de ocupar um lugar como o Paço, tal atitude
é perdoável e até mesmo muito compreensível.
Mas o que ninguém se perguntou foi o motivo que levou
a essa exigência, que aliás, muitos artistas
resolveram deliberadamente não cumprir.
Se não houvesse a obrigação de ficar todos os dias no
Paço, oitenta e cinco por cento dos artistas optaria
simplesmente por deixar expostas obras já prontas, ao
invés de exibir seus esforços criativos num "work in
progress".
Precisamente por isso foi uma exigência, por que se
sabia que se a obrigação não existisse o resultado
provavelmente seria uma exposição.
Uma mera exposição não poderia ter o apelo político da
óbvia idéia subentendida no nome Ocupação.
Se os artistas aceitam participar, então, bem ou mal,
o nome pode ser aplicado, e a presença deles é, de
modo indireto, usada politicamente, pois legitima o
nome e o nome tem uma conotação política que é bem
conhecida de todos.
É curioso reparar como o nome Ocupação foi alvo de
tantas polêmicas, pois muitos acham que esse nome não
se encaixa numa definição apropriada da situação real.
Resta saber se nas próximas edições da Ocupação (o nome
já pegou) a permanência dos artistas vai ser uma
exigência ou uma alternativa.
Se pensarmos democraticamente e em termos de
resultados, o mais interessante talvez seja convocar
todos os artistas de que se tem notícia, com o intuíto
de realizar um sorteio para a escolha dos "eleitos".
A única exigência seria deixar a cargo dos sorteados a
divisão do espaço e as regras de sua própria ocupação.
Vamos esperar para ver no que dá.

Roger Barnabé

Posted by rogerbarnabe at 6:00 PM

julho 9, 2005

arte=capital

ReginaJohas_todo_mundo_no_futon.jpg

Gosto de repensar o mote beuysiano no contexto da OCUPAÇÃO:
KUNST=KAPITAL, que significa arte=capital. O que ele queria dizer era que a arte deveria substituir a MOEDA no sistema capitalista: a arte é que deveria circular, e circular como uma força viva que nos enreda, que nos une como as tramas das camas de gato, como os fios de uma meada tecida entre mãos encadeadas.
Acho que algumas propostas do artista alemão poderiam ser retomadas: como a consciência de que a revolução somos nós ("Die Revolution bin Ich"), o potencial diário que temos de mudar as coisas, contaminar as pessoas que nos circundam. Resistência e revolução hoje não tem nada que ver com os dogmas que herdamos, há que haver uma QUEBRA DO PADRÃO.
A arte não é um instrumento de comunicação, ela é um jeito de ser e estar no tempo/espaço. Sendo pura potência, sendo o lugar da experiência é que ela é, por excelência, um ato de resistência: "Não existe obra de arte que não faça apelo a um povo que ainda não existe".
Reg Johas

Posted by Regina at 2:22 PM | Comentários (1)

julho 7, 2005

Instalação provoca mal-entendido e artista plástica é detida em SP, por Luciana Pareja

Instalação provoca mal-entendido e artista plástica é detida em SP

Matéria de Luciana Pareja originalmente publicada na Folha de São Paulo no dia 4 de julho de 2005

Arte contemporânea nem sempre é bem-compreendida. A artista plástica Ana Teixeira, 47, por exemplo, foi parar no 5º DP ontem à tarde, quando fazia uma intervenção pública na feirinha do Bexiga (região central de São Paulo), realizada semanalmente numa praça na rua Treze de Maio.

Na sua bancada móvel, identificada com o nome do trabalho, "Outra Identidade", a artista fazia réplicas de carteiras de identidade, nas quais o "identificado" pode escolher uma entre dez frases, como "ainda tenho tempo" e "não tenho certezas", para ser carimbada no papel, no lugar em que normalmente figura o nome e o número do registro geral.

"A idéia é identificar a pessoa não pelo nome ou por um número, mas por frases que exprimam um pouco do que ela é", diz Teixeira, que já havia realizado a ação outras vezes.

As pessoas levam para casa a "outra identidade" e deixam a impressão digital do polegar gravada em um caderninho, que a artista expõe posteriormente como resultado de seu trabalho. A confusão começou aí.

"Uma senhora que trabalha na feirinha não quis fazer a identidade e começou a dizer que o pessoal era louco de colocar a digital no caderno, que eles não sabiam que uso eu faria daquilo", diz Teixeira. Não é feita identificação do dono da impressão digital no caderno, só há a marca de vários polegares indistintos e a inscrição "Outra Identidade" na capa.

As pessoas, temendo serem vítimas de um golpe, reclamaram no posto da Guarda Civil Municipal instalado na praça, segundo a artista, que foi levada ao 5º Distrito Policial para averiguação.

"Não houve crime, foi só um mal-entendido, é um trabalho de finalidade artística perfeitamente plausível", explica o delegado do 5º DP João Achem Jr. Tanto que Teixeira foi liberada em cerca de 15 minutos.

"O que me impressionou foi a lógica do capital que rege a cabeça das pessoas. Todo mundo ficava me perguntando como eu estava fazendo aquilo sem ganhar nada, sem pedir pagamento. Alguém disse que, se pelo menos eu fosse patrocinada por alguma grande empresa, poderia acreditar em mim, mas como eu não visava nenhum lucro, devia estar com "armação'", afirma Teixeira.

Posted by João Domingues at 12:21 PM | Comentários (6)

julho 5, 2005

"Falta apoio à arte", acusa diretora do Paço, por Fábio Cypriano

"Falta apoio à arte", acusa diretora do Paço

Matéria de Fábio Cypriano publicada originalmente na Folha de S. Paulo, Ilustrada, na terça-feira, dia 5 de julho de 2005

Em carta aberta, Daniela Bousso denuncia ausência de políticas públicas para a arte contemporânea

O ano de 2005 está sendo o das cartas-bomba no circuito das artes plásticas. Primeiro foi o então secretário municipal da Cultura Emanoel Araujo, que ao deixar o cargo, em 11 de abril passado, desancou a visão do poder público sobre a cultura. Agora, é a vez da diretora do Paço das Artes, Daniela Bousso.

Em carta enviada por e-mail a mais de 200 pessoas, na última semana, e divulgada no site da instituição (www.pacodasartes.sp.gov.br), Bousso denuncia a "ausência total de políticas culturais públicas para o exercício da arte contemporânea".

O desabafo tem por base a exposição em cartaz no Paço, "Ocupação", aberta no último dia 6 de junho, que em três turnos, o último começa hoje, apresenta o processo criativo de 70 artistas, transformando o local num ateliê aberto durante 45 dias. O evento, que comemora os 35 anos da instituição, a única do Estado dedicada exclusivamente à produção contemporânea, foi a "saída possível", segundo Bousso, já que o Paço não está pagando cachê aos artistas nem tampouco auxiliando na produção dos trabalhos, para comemorar a efeméride.

"Não havia dinheiro para a exposição, mesmo em 35 anos de existência, só temos financiamento para o básico, sequer temos dotação orçamentária", diz a diretora. Mesmo assim, atualmente até as linhas telefônicas do local não funcionam por problemas no cabeamento. No ano passado, o Paço recebeu R$ 400 mil do governo do Estado e, por patrocínio, cerca de R$ 1 milhão. "Este ano está muito mais difícil obter apoio", conta Bousso.

A mostra se tornou polêmica quando, em meados de junho, o blog do site Canal Contemporâneo (www.canalcontemporaneo.art.br/quebra), de Patrícia Canetti, uma das artistas que participa de "Ocupação", passou a receber ataques de pessoas contrariadas com o sentido da mostra.

"Por que o Paço da Artes e todos que estão envolvidos nesse evento, com a idéia de ocupação e com o reconhecimento da precariedade existente, imprimem esforços de mobilizar e organizar tanta gente, se utilizam do acesso a mídia que o meio cultural naturalmente tem, mas não realizam a ação em sua real potência transformadora?", questiona, por exemplo, Flavia Vivacqua. Já Daniel Manzione, em outra parte do blog, qualifica a exposição como "oportunista" e a ação dos artistas que dela tomam parte como "adesão leviana".

A carta, segundo Bousso disse, ontem, à Folha, foi escrita "para gerar uma consciência geral sobre a situação das instituições brasileiras. Uma boa gestão depende de encarar os problemas e enfrentá-los, inclusive alertando o próprio Estado sobre isso, realizando o debate com transparência".

No texto, a diretora afirma: "O projeto [...] pretende, isso sim, criar oportunidade de encontros e trocas entre os interessados na continuidade de uma instituição como essa, pois cabe à sociedade civil e ao meio artístico lutar pelos seus interesses".

Após a ocupação, Bousso organiza um simpósio, em conjunto com o Fórum Permanente: Museus de Arte, entre o Público e o Privado, que irá debater três eixos, com especialistas brasileiros e estrangeiros: o circuito (instituições, mercado e mostras); a produção e a reflexão; e a mídia.

O simpósio, "Padrões aos Pedaços", ocorre entre os dias 7 e 10 de agosto, e as inscrições, que podem ser realizadas no site da instituição, vão até o dia 22 de julho. Vem aí mais bomba.

Posted by João Domingues at 12:42 PM | Comentários (1)

julho 4, 2005

seleção de textos publicados no blog dos críticos

do merzblog

Segunda-feira , 27 de Junho de 2005

de colaborações e agenciamentos

gaiad.jpg

se no primeiro turno vimos dimensões afetivas da participação em arte nos trabalhos de regina johas e beth moysés (além de instâncias colaborativas nas propostas da casa blindada, de patrícia osses e paulo buenoz), nesta segunda etapa temos alguns projetos que recolocam a questão em outra chave: paulo gaiad se põe diante da fotografia da vaca que, da janela de seu ateliê em florianópolis, ele vê pastando todos dias, e vai copiando em papel-jornal espalhado pelo chão um texto coletivo que foi elaborado a partir do envio, por dezenas de colaboradores, de frases e palavras escolhidas aleatoriamente. vera bighetti e paulo telles instalaram um boneco inflável destes que se vê pelas ruas, acionados pelo vento, dentro do paço das artes, onde o vento é substituído pelo agenciamento dos visitantes, que acionam sensores e fazem o boneco-pintor trabalhar. raquel kogan propicia aos espectadores da instituição uma espiada nos bastidores: basta se postar diante do olho mágico em uma caixa de espelho suspensa. helga stein fotografa quem estiver a fim de posar e devolve os retratos retrabalhados digitalmente (veja em http://ocupandros.nafoto.net). eduardo salvino posa de repórter e entrevista deus e o mundo para criar seus textos-pardais instalados dentro de uma arapuca. você prefere guardar a obra ou destruí-la para ter acesso à entrevista? voltaremos a estes trabalhos para análises detalhadas.

Quarta-feira , 29 de Junho de 2005

o que é que a dobra tem?

sonia.jpg

sonia guggisberg vem pesquisando há mais de 15 anos as possibilidades que vários materiais lhe oferecem de manipulação, dobra e torções. aqui, a dobra nada tem a ver com a dobra de um amílcar de castro, por exemplo. não se trata de dobrar uma matéria que oferece resistência, mas, antes, de conformar provisoriamente materiais moles. esta torção provisória se adere ao feltro, à borracha, ao plástico e até à fotografia pela ação da artista, que põe no mundo esculturas transitivas e irrepetíveis instaurando um vocabulário que ao mesmo tempo em que parece próximo ao do modernismo, promove seu desmanche. na ocupação, sonia guggisberg trabalhou duas formas em plástico transparente cheias de água. para quem visitou a exposição em dias diferentes, a operação fica mais clara: as esculturas moles foram mudando, alongando-se e retraindo-se ao sabor da manipulação. as peças encontraram uma solidez provisória quando, depois de dobradas e torcidas, aderiram ao chão. na fotografia, meio novo na experimentação da artista, o processo é semelhante. e mesmo aquilo que tenderia mais definitivamente à solidez e ao congelamento sonia põe instável, valendo-se de uma técnica de adesivar as fotografias em suportes moles. a dobra volta à tona e abre, aqui, um campo fértil para futuras experiências.

meu laboratório de desenho

fabio_tremonte.jpg

a primeira providência de fábio tremonte depois de instalar sua mesa de trabalho no paço das artes foi simular um céu numa janela à sua frente. uma vez criado o horizonte, pôs-se a desenhar. mas não foram retratos nem confissões nem monotipias que saíram de cima do tampo de vidro. a iconografia subjetiva, permeada de escritos, que estamos habituados a ver no trabalho de tremonte deu lugar a desenhos esquemáticos, palavras esquemáticas, e tudo sobre superfícies de cores artificiais. o que estaria se passando neste laboratório de desenho que o artista organizou pra si em seu espaço na ocupação? bloqueio criativo? crise? contaminação talvez seja a palavra mais adequada. tremonte está utilizando esta oportunidade para se ocupar de um interesse que há muito o acompanha: o ambiente virtual. seus novos trabalhos são desenho de observação... da internet. contaminado pelo mundo de imagens que circulam na rede, o artista está experimentando confrontar com aquele universo cotidiano tão presente em sua produção um outro cotidiano, e para isso escolheu como suporte papéis que estão à mão, como pequenos cartões pautados ou folhas cor-de-rosa e verde limão de um bloco criativo. as imagens de referência, curiosamente, lhe chegam a partir de um procedimento em tudo afeito à sua poética: ele digita em sites de busca as palavras que designam formas recorrentes em sua poética (coração, casa, céu etc.) e põe-se a desenhar, reinventando seu desenho. uma outra pesquisa também se delineia nesta ocupação: vídeos curtos, disponíveis apenas na rede. o endereço é http://tremonte.multiply.com/video. mais adiante trataremos dos vídeos.

artista-repórter

eduardo_salvino.jpg

entre um b.o. do espectador que foi seqüestrado pela ocupação e a entrevista cifrada de uma das artistas participantes (que se resume à repetição pela artista de quatro ou cinco das palavras mais importantes na descrição de seu processo criativo), eduardo salvino vai compondo suas reportagens sobre o evento no paço das artes. o artista propõe uma visão nada ortodoxa de jornalismo cultural para subverter o que considera as "arapucas da mídia": sempre que alguém é entrevistado, a manipulação do que diz é tanta que se instaura a dúvida acerca de se a pessoa foi objeto de uma reportagem ou vítima de uma cilada. gravador em punho e vestindo a camisa de repórter, na sua cobertura da ocupação salvino leva ao extremo a cultura do remix da fala alheia e gera narrativas ficcionais na forma de impressos que são, por meio de uma técnica de origami, transformadas em pequenos pardais. eles ficam dispostos no espaço e podem ser destruídos/lidos por quem quiser. o artista está fazendo uma cobertura completa, entrevistando público e participantes ao longo dos três turnos. nos sábados de encerramento de cada turno, ocorre a "pardalada", quando todas as matérias já realizadas invadem a escadaria do paço das artes. agarre o seu pardal!

Sábado , 02 de Julho de 2005

renata_barros.jpg

se me pedissem uma leitura crítica do conjunto dos trabalhos desenvolvidos no segundo turno da ocupação, eu responderia que há quatro "questões" principais que amarram as propostas destes artistas: impermanência (martha lacerda, lali krotoszynski, sonia guggisberg, renata barros), fetiche (caetano dias, helga stein, eduardo salvino, raquel kogan), participação (vera bighetti e paulo telles, regina carmona, canal contemporâneo, guto lacaz) e processo (preguiça febril, fábio tremonte, paulo gaiad, vera martins). estes parâmetros meio frouxos de análise são intercambiáveis, no sentido de que os artistas em geral transitam por mais de uma questão levantada aqui (e por outras não apontadas, claro). no caso da impermanência, chama a atenção o modo como alguns artistas pensaram a ocupação como oportunidade de reflexão sobre o espaço (não o espaço de modo geral, mas aquele espaço específico: a instituição no momento em que celebra seus 35 anos de existência). lali krotoszynski se propôs a vivenciar o espaço, ocupando-o e se deixando contaminar por ele, avançando muito lentamente sobre áreas do paço das artes conforme a área anterior se mostrava "resolvida". sua ação acontece como um misto de performance e de "negociação". o percurso pode ser visto em um traçado sutil e impermanente de fios pretos no chão do espaço. no trabalho de renata barros, vemos também a incorporação do trabalho do outro, da presença do outro no espaço. uma outra dimensão da vivência do espaço está no diário gravado em páginas de vidro e em uma superfície refletora, ambas trabalhadas ao longo do período da ocupação, espécie de avanço lento também sobre "áreas" do paço das artes. esta questão da impermanência me foi sugerida em conversa com a artista martha lacerda, que trouxe para a ocupação seus bordados efêmeros como uma forma de pensar a passagem de tantos artistas e tantos trabalhos e tantas poéticas pelo paço ao longo de seus 35 anos. os trabalhos de martha ocupam o espaço e, em sua consistência delicada, já prenunciam sua extinção.

fetiche

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caetano dias tarda... mas não falha (mesmo!). o artista deixou seu espaço desocupado na primeira semana do segundo turno (por conta de uma viagem de trabalho), mas apareceu esta semana no paço com uma proposta de risco: instalou um notebook no chão, que fica exibindo, ao som de um cravo, um slide-show de fotografias apropriadas de sites pornográficos da internet que mostram apenas os rostos de pessoas amordaçadas. enquanto isso, o artista distribui mordaças ao público e faz novas fotos para a série. helga stein, a poucos metros dali, promove um desdobramento de seu trabalho andros hertz, em que manipulava auto-retratos. na ocupação, ela captura os retratos de visitantes e os transfigura digitalmente. a androginia da série de trabalhos originais (http://www.projecto.com.br/andros/) dá lugar, em ocupandros, à alteração radical que provoca não mais o estranhamento diante de uma mesma identidade retrabalhada à exaustão, mas o impacto diante de "identidades" radicalmente artificiais.

Posted by Juliana Monachesi at 4:41 PM | Comentários (1)

julho 3, 2005

Sobre o encontro do dia 02 de julho na Ocupação

Hoje muito se falou de uma tentativa de atitude polítca ou coisa parecida da parte dos artistas que ocupam o Paço das Artes; entre outros assuntos tratados no encontro, quero me ater a esse especificamente.
Acho que a partir do momento em que cada artista se disponibilizou a ficar durante 12 dias, 5 horas por dia dentro do Paço das Artes, isso já se torna uma atitude política. Por quê? Primeiro: não havia cachê, nem infra-estrutura para os artistas, mas todos providenciaram a infra-estrutura de que cada um necessitava. Segundo: moramos em São Paulo, onde a simples ação de se deslocar de um lugar para o outro pode se tornar algo penoso, mas diariamente os artistas se dirigiam ao Paço. Terceiro: 5 horas por dia, durante o horário comercial não é fácil de se arranjar, ainda mais quando sabemos que artistas têm, na sua maior parte, outro trabalho, para poder comer e pagar suas contas, mas mesmo assim, fizemos negociações e ajustes para estarmos no Paço das Artes. Quarto: o que esperar de artistas passando 12 dias, 5 horas por dia em uma instituição cultural, que comemora seus 35 anos e que disponibilizou nichos para os artistas? Produção! Não importa se os artistas não tomaram a fachada do Paço, não saíram em passeata pelas ruas da Cidade Universitária e nem mesclaram seus trabalhos aos trabalhos dos outros, criando um único e grandioso trabalho coletivo e democrático. Acredito que cada atista em seu canto, no seu silêncio e reflexão estava sendo muito mais político e crítico da situação da instituição do que se tivesse que participar de algo coletivo e fake. Cada dia mais acredito que a revolução virá de atos pessoais e individuais isolados, que aos poucos vai alcançar e um dia, quem sabe, transformar. Continuo acreditando e sonhando com nuvens.

*para Leonilson

Posted by Fábio Tremonte at 3:10 AM | Comentários (1)