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julho 27, 2004

Cristina Miranda e Cristina Salgado

Cris.jpg

Conversas sobre a exposição Sensores cotidianos, de Cristina Miranda, em cartaz até 8 de agosto de 2004 no Espaço Cultural Sérgio Porto

Espaço Cultural Sérgio Porto
Galeria 1
Rua Humaitá 163
Botafogo Rio de Janeiro
21 2266-0896
Terça a domingo, das 12 às 21h.

Cristina Salgado - Como você vê a formação acadêmica do artista hoje e especialmente no Brasil?

Cristina Miranda - Na minha opinião é importantíssimo que exista a formação acadêmica do artista, porque assim questionamos a idéia tão difundida de que só seria artista aquele que nasce artista. Por debaixo desta idéia está o conceito de artista gênio, dotado desde o berço de algo diferente das outras pessoas Eu considero muito mais atrativa a idéia de que um artista se faz. Acredito na possibilidade de formar a sensibilidade, de ajudar que a criatividade que todos levamos dentro -em distintos graus, campos e níveis de expressão- possa encontrar um leito e fluir, protegida e nutrida. A formação artística acadêmica pode ser um instrumento para o cultivo desta criatividade que pode chegar a dar origem a artistas, ou a pessoas criativas em qualquer campo da atividade humana. Neste sentido a ênfase da formação acadêmica deveria ser tanto na formação prática como nas teórica e analítica. Ajudar para que a pessoa possa fazer perguntas e buscar as suas próprias respostas, conhecer como a arte deu respostas a algumas perguntas e dar os instrumentos para que o artista possa pesquisar e aprofundar sua percepção e seu conhecimento do mundo, do espaço, da matéria, do tempo, da sua sociedade, cultura e época, e do sistema da arte no qual está submerso. Com respeito às técnicas e tecnologias, para mim, estas têm um papel restrito como meios e nunca como fins em si mesmos.

Em relação à formação acadêmica no Brasil, lamento dizer que não a conheço em profundidade pois me formei como artista plástica na Espanha, mas acredito que as preocupações sejam as mesmas dos diversos países do mundo.


CS - Seria possível que você identificasse algumas experiências -estéticas ou não- que você considera que foram fundamentais, mesmo a longo prazo, para a produção que você apresenta agora na galeria do Espaço Cultural Sérgio Porto?

CM - Esta exposição expressa uma acumulação de experiências perceptivas e conceituais. Venho trabalhando com os diversos sentidos, a transsensorialidade na arte e especialmente com processos artísticos não visuais. Por outro lado, este trabalho se refere muito especialmente ao observador, à posição que assumimos como observadores e observados na nossa relação com o mundo. Estamos dentro e fora, nos vemos vendo. Esta idéia está presente na imagem que se forma no recipiente com água, uma espécie de microcosmos que capta todo o espaço e nos insere nele, enquanto nós, como observadores, permanecemos à margem da imagem, fora do microcosmos, expectantes, observantes.

Na obra tento capturar estas imagens de luz que vejo ao meu redor, efêmeras, frágeis, pequenas. São imagens que sempre nos acompanham e que apenas vemos. São presenças quase invisíveis.

Os objetos cotidianos atuam como sensores constantes. As superfícies espelhadas destes sensores que nos espreitam, nos captam, nos registram, funcionam como telas ativas de projeção, que conformam as imagens que captam dando-lhes suas próprias características, reinterpretando-as. Esta reinterpretação é sempre um registro borroso, mudado, pouco nítido, distorcido e que nos oferece uma imagem deformada, uma imagem que se adapta à forma destes sensores, uma imagem que se adere, que veste a superfície refletora destes objetos cotidianos como se fosse uma segunda pele. Aqui também se produz uma analogia com filtros interpretativos, ou teorias que temos para interpretar a realidade. Somos também como estes objetos que captam a realidade de forma estereotipada, deformada. Classificamos e estereotipamos a realidade em função dos nossos filtros de educação, de cultura, de posição social, de situação pessoal etc.


CS - Neste trabalho você estrutura uma subversão no uso da tecnologia da imagem. Seria possível falar sobre as relações dessa estrutura com uma narrativa poética?

CM - Para mim a tecnologia é somente um meio e o que importa é o que se revela através de qualquer meio. Na instalação existe uma forte inter-relação entre a presença do observador, a imagem-luz que se forma e a tecnologia que a capta e a projeta ampliada. É uma poética da fragilidade, do efêmero, da impossibilidade de reter a realidade, da impossibilidade de reter e fixar a fluidez da vida. A fixação é sempre o passado.

Por outro lado na exposição se produz uma situação dupla, de contraste. A imagem captada instantaneamente na água (parte da "instalação") é sempre êfemera, não se estabiliza, como a vida que é inapreensível, algo que se resiste à "apropriação humana e geométrica do visível", como diz Hubert Damisch, e que permanece irrepresentável: é o sensor em ação. Em contraposição, as fotografias são momentos congelados desta mesma ação, captados sobre sensores que já não captam, simplesmente informam de uma situação que já está desconectada da realidade que sucede na sua presença. São os sensores descontextualizados, inativos neste espaço, mas que continuam ativos em outros espaços. Nas fotografias que acompanham a instalação, os sensores cotidianos estão inativos, oferecem imagens de objetos e situações que já não estão mais presentes. Se produz uma dessintonia entre a imagem que oferecem e a realidade do observador, enquanto, por contraste, a imagem na água está sempre atualizando-se, mas nesta fluidez constante não é capaz de representar. Quando há fixação não há presença, quando há presença não pode haver retenção.

Um sensor cotidiano, quando ativo, é capaz de condensar todo o espaço que o cerca em imagens microcósmicas, como pequenos universos densos. Pequenos mundos deformados, estranhos, que nos observam constantemente, se queremos também observá-los. Somos observadores e observados, nos observamos observando e nos observam enquanto observamos. Estamos aprisionados dentro destas geometrias objetuais, em círculos viciados impossíveis de superar.

As imagens fotográficas estão transladadas à tela por processos digitais por uma alusão à pintura: o observador é simultaneamente pintor, artista, performer, simultaneamente produtor e consumidor, emissor e receptor.


Cristina Miranda mora em Viscaya, Espanha, onde fez formação acadêmica em artes plásticas. Atualmente cursa o Doutorado em Belas Artes na Universidade do País Basco UPV-EHU.

Cristina Salgado é artista plástica e professora do Instituto de Arte da UERJ e doutoranda em Artes Visuais da EBA|UFRJ.

Posted by João Domingues at 4:56 PM