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setembro 10, 2020

Leilão de obras de Edemar Cid Ferreira deixa museu com prejuízo de R$ 20 mi por João Perassolo, Folha de S. Paulo

Leilão de obras de Edemar Cid Ferreira deixa museu com prejuízo de R$ 20 mi por João Perassolo

Matéria de João Perassolo originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 4 de setembro de 2020.

MAC-USP gastou a quantia conservando as 2.000 peças, que agora deixam seu acervo, e só foi reembolsado em R$ 37 mil

Uma história de quase 15 anos de parte importante da imensa coleção de obras de arte do ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira está prestes a ter seu capítulo final. Neste mês, cerca de 2.000 peças que pertenciam ao empresário e foram apreendidas pela Justiça, em 2005, quando o banco Santos teve a falência decretada, serão leiloadas para angariar fundos destinados a pagar os credores da massa falida da instituição financeira.

O pequeno retorno para os credores virá às custas de uma perda imensa para o Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, o MAC, instituição que ficou responsável pela conservação e exibição das obras nesse período.

Segundo Ana Magalhães, diretora da instituição, o custo com armazenamento e catalogação das peças para os cofres públicos foi de R$ 20 milhões. Há anos, o MAC pleiteava o ressarcimento desse valor em obras, não em dinheiro, mas uma decisão judicial do ano passado devolveu à instituição só R$ 37 mil.

O acervo que será posto à venda tem seu forte na área de fotografia, com cerca de mil imagens que contam a história dessa arte, desde o final do século 19 até o presente, afirma Helouise Costa, curadora de fotografia do museu.

Há relíquias do surrealista Man Ray, um núcleo com obras do Foto Cine Clube Bandeirante e outro com fotografias de moda de artistas americanos, além de trabalhos de fotógrafos japoneses. “Não existe nenhuma coleção brasileira em museu, nem público e nem privado, que tenha essa abrangência”, diz.

Há também bastante pintura brasileira moderna e contemporânea à venda, entre as peças está um estudo da tela “Operários”, da modernista Tarsila do Amaral, com lance inicial de R$ 32 mil, e uma escultura de Tunga, que começa em R$ 46 mil. O trabalho mais caro em disputa é a gigantesca tela “The Foundling N#6”, de 16 metros, do mestre americano do minimalismo Frank Stella, com preço a partir de R$ 3 milhões.

“Essas obras ficariam mais acessíveis ao público e muito melhor resguardadas no museu, isso é óbvio. Elas teriam uma vida muito mais animada e mais rica”, argumenta Magalhães, a diretora. “Nós tomamos conta dessas obras como se fossem nossas. O museu sempre viu com muito bons olhos essa coleção porque essas obras complementavam o nosso acervo de algum modo." O MAC, aliás, organizou 17 mostras diferentes a partir da coleção de Cid Ferreira.

A coleção chegou ao museu da USP em 2005, por uma determinação do juiz federal Fausto De Sanctis, que condenou o banqueiro a 21 anos de prisão por gestão fraudulenta, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. De Sanctis também decidiu que 10 mil das 12 mil obras de arte de Cid Ferreira fossem transferidas para sete museus públicos, de acordo com a lógica do acervo de cada instituição. Além do MAC, os trabalhos foram distribuídos para o Museu do Ipiranga, o Instituto de Estudos Brasileiros e o Museu de Arte Sacra, entre outros.

A leitura de De Sanctis era de que as obras deveriam ficar com a União —e não serem vendidas para ressarcir os credores—, já que teriam sido adquiridas de forma criminosa, com dinheiro ilícito, hipótese parcialmente comprovada pelas investigações.

“Não importa o valor econômico, a obra de arte transcende, ela tem um valor muito maior do que o econômico. Ela tem valor cultural, de criação, de história. Entendi e entendo que a obra de arte tem um valor para a humanidade”, diz ele.

Esse entendimento mudou quando o juiz Paulo Furtado de Oliveira Filho assumiu o processo, há seis anos, depois do afastamento de De Sanctis. Ele defende que as obras sejam vendidas para pagar os credores, já que o dinheiro desviado do banco não era público. “Não dá para fazer caridade com o chapéu alheio”, afirma. O banco Santos quebrou em 2005, deixando um rombo de R$ 3,4 bilhões para mais de 2.000 credores. A decisão de que as obras sob a guarda do MAC iriam a leilão foi tomada pela Justiça há quatro anos.

Por outro lado, o retorno financeiro do leilão —o maior já feito pela casa paulistana de James Lisboa, que acontecerá por telefone e online entre 21 de setembro e 2 de outubro— não deve gerar valor significativo para os credores do banco, segundo Vânio Aguiar, o administrador da massa falida. Aguiar estima uma arrecadação da ordem de R$ 10 milhões com as vendas, uma parte irrisória do R$ 1,2 bilhão que ainda precisa ser ressarcido.

Um dos fatores para o baixo retorno, segundo Aguiar, é que as obras em disputa têm menor valor de mercado em relação a outras da coleção do banqueiro que foram leiloadas no passado. Por exemplo, uma tela do artista americano Jean-Michel Basquiat foi arrematada por R$ 42 milhões num leilão da Sotheby’s, há quatro anos. Até agora, foram recuperados R$ 126,7 milhões em diversos leilões de obras de arte de Cid Ferreira, dos quais R$ 13,5 milhões com trabalhos leiloados no Brasil.

A curadora de fotografia do MAC reclama que James Lisboa está desmembrando obras que foram pensadas como conjuntos, a exemplo de “Eletricidade”, um álbum da década de 1930 do francês Man Ray com dez fotogramas, no que considera uma atitude predatória. “Parece feira. Em vez de você vender o cacho de bananas, você vende a banana avulsa pra ganhar mais”, diz. O lance mínimo para cada foto é de R$ 5.000.

Caso quisesse comprar obras do acervo que conservou por 15 anos e exibiu para centenas de milhares de pessoas, o MAC teria preferência no leilão, de acordo com uma lei de 2009 que dá prioridade a museus. Mas o orçamento anual da instituição—R$ 27 milhões— é todo comprometido com a folha de pagamento, manutenção predial e programa de exposições.

“O que teríamos hoje disponível é R$ 37 mil para ir a leilão e exercer nosso direito. O ideal teria sido o ressarcimento em obras, que nos parecia mais justo”, afirma a diretora.

Posted by Patricia Canetti at 11:18 AM

Doação de Mendes da Rocha tenta salvar obra do Brasil de Bolsonaro por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Doação de Mendes da Rocha tenta salvar obra do Brasil de Bolsonaro

Análise de Silas Martí originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 9 de setembro de 2020.

Acervo do arquiteto vai para museu português e desperta protestos de arquitetos e intelectuais

Há mais de um século, Paris acordava estarrecida com a notícia de que a “Mona Lisa” havia sido roubada do Louvre. Ela só ressurgiria anos depois, descoberta em Florença, quando o ladrão, um italiano que trabalhava no museu francês, tentou vender a tela —Vincenzo Peruggia via o seu rapto da Gioconda como um ato patriótico, de restituição de um tesouro a seu país de origem.

Não estava ainda nas páginas de jornal, mas as redes sociais já ferviam de raiva com outra notícia nesta semana —a de que o acervo do arquiteto Paulo Mendes da Rocha seria doado à Casa da Arquitectura, um museu nos arredores do Porto, bem longe da São Paulo onde o vencedor do Pritzker construiu grande parte de sua obra brutalista e se tornou o maior arquiteto brasileiro vivo hoje.

Seus colegas de profissão, muitos deles professores da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, onde Mendes da Rocha deu aula por tanto tempo que chegou a se tornar quase sinônimo da instituição, lamentaram sua decisão, vendo nela um gesto de desprezo pelo Brasil, que se torna menor sem os desenhos, croquis e esboços dele.

O Brasil, há muito, parece se apequenar diante do mundo, mas essa é outra história. A sensação de déjà-vu agora, no entanto, é candente. Não é a primeira vez que um acervo de importância histórica incontornável deixa o país, seja ele doado ou vendido mesmo.

Houve o “Abaporu”, tela de Tarsila do Amaral hoje sob a guarda do Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires, depois a coleção de Adolpho Leirner, com joias do nosso concretismo e do neoconcretismo, vendida para o Museu de Belas Artes de Houston. Há pouco, o único Jackson Pollock nos trópicos, que era do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, partiu e ainda outra Tarsila, “A Lua”, foi arrematada pelo MoMA, em Nova York, coisa de uns US$ 20 milhões.

O momento para debater partidas e chegadas, aliás, é oportuno. Pouco antes do anúncio da doação de quase 9.000 peças de Mendes da Rocha à instituição portuguesa, a massa falida do banco Santos anunciou que, enfim, vai liquidar o que sobrou de suas obras sob a guarda do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo.

Falamos de peças de Amilcar de Castro, Geraldo de Barros, Frank Stella, Man Ray, Tunga, entre muitos outros, trabalhos conservados a um custo estimado de R$ 20 milhões pelo museu público agora vendidos, nas palavras de uma diretora do museu, como bananas avulsas num grande bazar para saldar dívidas de um banco que deixou um rombo bilionário —o valor das obras, mesmo se o leilão for um sucesso estrondoso, é só uma gota no oceano de dívida.

E o que uma coisa tem a ver com a outra? O MAC, hoje de mãos amarradas, é da mesma USP que a FAU, também longe de ter qualquer papel de barganha. Enquanto o museu universitário à borda do Ibirapuera consome seus recursos com a folha de pagamento e a manutenção do acervo numa reserva técnica que lutou por anos para adequar e tornar impermeável, a FAU ainda sofre com desafios estruturais de maior gravidade.

Mendes da Rocha não vê ali condições ideais de armazenar seu acervo —basta lembrar os inúmeros problemas de conservação da sede da escola desenhada por Vilanova Artigas e o fato de seu satélite em Higienópolis, um casarão dilapidado, ainda estar interditado aos alunos desde um projeto de restauro ter início.

Se nosso Instituto Brasileiro de Museus, hoje subordinado a um secretário especial da Cultura que levou a polícia à Cinemateca Brasileira, prevê em lei um direito de preferência na aquisição de peças de importância histórica caso elas estejam à venda, esqueceu de destinar verbas para isso. Por que então não evitar agora, por exemplo, que todo o acervo do banco Santos saia das galerias do MAC? Ou por que nossa plutocracia bem nutrida não decide tirar as mãos do bolso para comprar e então doar esse acervo?

No caso do arquiteto, nem é dinheiro o problema. Mendes da Rocha se mostra preocupado com o destino de sua memória num país desmemoriado. A decisão de entregar o acervo a uma instituição com recursos adequados tem a ver com o seu desejo mais que compreensível de que a obra sobreviva aos atropelos e às intempéries do tempo.

Num país que já viu pegar fogo o Museu Nacional, o MAM do Rio, quase todo o acervo de Hélio Oiticica e vê inundar todos os anos uma série de museus nas enchentes de verão, quem garante que a sua memória poderá estar a salvo?

Posted by Patricia Canetti at 11:01 AM

setembro 2, 2020

Nuno Ramos: Precisamos da camada básica da arte contra essa barbaridade por Eleonora de Lucena e Rodolfo Lucena, Tutaméia

Nuno Ramos: Precisamos da camada básica da arte contra essa barbaridade

Entrevista de Eleonora de Lucena e Rodolfo Lucena originalmente publicada no Geléia Geral do Tutaméia em 15 de agosto de 2020.

“A gente vive uma queda livre, com aceleração. Estamos todos esperando uma espécie de fundo do poço, mas a coisa não termina. A gente precisa terminar esse pesadelo. A gente, aos poucos, vai cedendo. Isso me dói. O nível de democratização do país vai caindo. Não há negociação possível. A gente precisa lembrar disso e voltar para um lugar mais digno. Precisamos recuperar o desejo de jogo. Não é hora de obra prima. É hora da camada básica da arte, que é fazer arte, que é amar a linguagem. Esse amor à linguagem a gente precisa atualizar contra essa barbaridade”.

As palavras são de Nuno Ramos ao TUTAMÉIA. Artista plástico, escritor, poeta, ele lembra do que ocorreu nos anos 1970, quando o AI-5 provocava “o enclausuramento total do horizonte simbólico” produzido nos férteis anos 1960. “Esse fechamento de horizonte trouxe uma grande convivência entre as artes. Espero que a gente consiga fazer isso, jogar, jogar juntos, cada um sair do seu … da preocupação com a feira de São Paulo, com o mercado de arte ou o não sei o quê de não sei onde. Isso tudo ficou muito velho. Precisamos mostrar que nós amamos senão a vida, a linguagem que a gente usa e que a gente vai jogar”.

Nuno Ramos tem colocado essa visão na prática. Com o grupo Teatro da Vertigem, ele conduziu uma performance intensa e original nas ruas de São Paulo na noite de 4 de agosto. Promoveu uma carreata em marcha ré do prédio da Fiesp, na Avenida Paulista, até o Cemitério da Consolação. O percurso de 1,5 km foi percorrido em pouco mais de duas horas por 130 carros tendo como trilha sonora os ruídos de um respirador de UTI. Na Consolação, do alto da entrada do cemitério, o trompetista Richard Fermino (foto) executou o hino nacional ao contrário, da última à primeira nota. “Ficou uma melodia nada marcial, meio Lamartine Babo, tocada na fronteira, para os vivos e para os mortos”, afirma Nuno.

No pórtico do Cemitério foi instalado um pano gigante com um desenho de Flávio de Carvalho, no qual ele retrata a agonia da mãe às vésperas da morte, sem ar, sem poder respirar _como o que ocorre com as vítimas da Covid 19. Flávio de Carvalho (1899-1973) foi a referência inicial para o trabalho de Nuno, que tinha como objetivo a confecção de uma obra para a Bienal de Berlim. Em setembro, a mostra fará homenagem ao multiartista brasileiro, um dos ícones do modernismo. A pandemia modificou os planos e resultou na carreata em marcha à ré.

Nuno conta que a discussão sobre a performance que irá a Berlim em vídeo se preocupou em discutir “como ocupar o espaço público sem replicar o discurso irresponsável e homicida do bolsonarismo”. Lembra que a carreata virou um elemento bolsonarista ali mesmo na Paulista. Mais seguro em tempo de pandemia, o carro foi usado pelos participantes, que adotaram toda as medidas de isolamento e cuidados sanitários. O próprio Nuno, que acompanhou o evento, estava vestido como “aqueles caras da apicultura”. O grupo todo, ressalta, agiu “sem repetir irresponsabilidade e violência do inimigo que manda as pessoas para a morte”.

Ao TUTAMÉIA, Nuno fala dos ataques de Bolsonaro à cultura em diversas dimensões, de censura, de autocensura e da estética do bolsonarismo (acompanhe a íntegra no vídeo acima e se inscreva no TUTAMÉIA TV).

“O bolsonarismo é uma forma de violência. É uma espécie de violência latente no país, que veio por brecha infernal da história, que contou com uma facada, contou com uma espécie de haraquiri que o sistema político fez consigo próprio. Contou com um apoio incompreensível das elites para um projeto que, evidentemente, não se sustenta de pé nem nos termos dela”, afirma. Para ele, o país há muito convive com a violência, que agora conta com um projeto no poder. Ele fala dos mais de 60 mil assassinatos por ano, as mortes no trânsito, a política hipócrita sobre drogas, as condições desumanas das prisões, o encarceramento em massa.

“A pergunta dura é: parece que a vida no Brasil não vale nada. Não é de hoje. A morte alheia parece não ser um freio ético. Não parece o inominável. Parece um dado. A violência no Brasil cresceu exponencialmente nos governos democráticos e benignos. Ninguém assumiu isso. Isso é um enclave bolsonarista na vida democrática. A gente não consegue esse solo comum de choque trágico, grego, da morte. A gente não consegue chegar nesse estupor. A naturalização da violência atravessou tudo. Muita coisa melhorou [desde a redemocratização]. Compara com o que a gente está vivendo. Talvez o país seja mais anômalo do que esse projeto constituinte de centro esquerda [de 1988], seja mais radicalmente divergente do razoável do que nós fomos capazes de reagir. A gente está vivendo a destruição de uma coisa que não se completou. O que me assusta no governo Bolsonaro é que, acho, não vai sobrar nada. Só vai sobrar o que eles não enxergarem, o que tiver uma escala muito pequena”.

E avalia: “É uma coisa de uma violência que a gente tinha que se unir de uma forma. Não entendo não haver um esforço gigantesco de afastamento disso. Isso é diferente de um governo de direita. O que estamos vivendo é a violência mesmo. É a violência instituída mesmo. Há um tesão de destruição. Há um escárnio com o valor do outro. É muito chocante”.

Nuno fala de resistência e das dificuldades de fazê-la em tempo de pandemia, do necessário isolamento e da queda institucional.

“Há diminuição de recurso muito grande, há perda de instituições benignas. É jogar um jogo mais subterrâneo; o que der, deu. E não ficar no boteco se queixando e dizendo que o país foi tomado pelos monstros. A gente precisa jogar.”

Posted by Patricia Canetti at 10:44 AM