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Como atiçar a brasa

 


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julho 28, 2019

Marepe constrói painel nostálgico sobre a Bahia em sua primeira retrospectiva por Clara Balbi, Folha de S. Paulo

Marepe constrói painel nostálgico sobre a Bahia em sua primeira retrospectiva

Matéria de Clara Balbi originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 25 de julho de 2019.

Conhecido como o Duchamp baiano, ele reúne 30 obras que combinam humor e crítica social

“É uma situação bem desrespeitosa, não é? Cada um tem seu nome. Um é baiano, outro é maranhense”, comenta Marcos Reis Peixoto, o Marepe, quando questionado sobre um episódio recente em que o presidente Jair Bolsonaro usou o termo racista “paraíbas” para se referir a nordestinos.

Nascido em Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo Baiano, lugar onde vive até hoje e do qual sua obra plástica é indissociável, o artista faz sua primeira retrospectiva agora na Pina Estação.

Organizada por Pedro Nery, a exposição reúne cerca de 30 trabalhos pinçados da carreira do “Duchamp baiano” —alcunha que, recebida da curadora Lisette Lagnado nos anos 1990, permanece viva ainda hoje. Afinal, a prática de tirar objetos de seu contexto original com a qual o francês Marcel Duchamp revolucionou a história da arte no século 20 marca grande parte da produção do artista.

Ela já estava presente, por exemplo, em “Tudo no Mesmo Lugar pelo Menor Preço”, trabalho que mostrou na Bienal de São Paulo em 2006. Um muro pintado à mão retirado de sua cidade natal e reproduzido, intacto, no pavilhão da Bienal, no parque Ibirapuera, ele é ao mesmo tempo símbolo de um Brasil arcaico e um pedaço de memória afetiva, uma vez que pai e avô do artista trabalharam na loja que o paredão anuncia.

O apelido ainda vale nas instalações, esculturas, fotografias e desenhos que Marepe agora traz ao museu. Como em “Os Filtros”, instalação formada por filtros de barro expostos sobre bancos de madeira, ou as pilhas de desempenadeiras de “Desempoladeira”, ou ainda os guarda-chuvas pendurados que compõem “O Cânone”.

Mesmo reconhecendo a influência de Duchamp sobre a sua trajetória, Marepe não gosta de rotular suas criações como “ready-mades”, nome dado pelo francês aos objetos produzidos em massa que ganhavam status de obra de arte quando expostos nos museus e galerias. Prefere chamar as peças de “nécessaires”.

“É uma homenagem ao Duchamp, que era francês, mas também é uma palavra muito nossa. E ela fala do que é necessário. No meu trabalho, uso objetos úteis no dia a dia”, explica Marepe.

“Não está tão ‘ready’ assim. Tem muito ‘made’”, diz Nery. O curador ressalta que, enquanto Duchamp trabalhava com o deslocamento puro, no caso de Marepe muitas das peças são feitas à mão, encomendadas a artesãos locais.

O caminhão de madeira de “A Mudança”, espécie de brinquedo de criança agigantado, por exemplo, é obra de um marceneiro contratado, assim como o armário modular de “Embutido Recôncavo”, dois trabalhos sobre o êxodo do campo para a cidade.

Esse embate entre artesanal e industrial, aliás, contamina a obra do artista, em trabalhos que mesclam crítica social e ironia em doses equivalentes. “Nenhum trabalho dele é direto”, analisa Nery, destacando as brincadeiras de forma e título características de Marepe.

“Satélite Baldio”, por exemplo, transforma quase 200 baldes de plástico num corpo celeste com as cores da bandeira nacional. “Metamorfose” enfileira 15 bacias de metal, formando um casulo prateado. Carretéis de costura desenrolados pintam o chão de um degradê de tons de azul em “Chorinho”.

O artista diz ver essa modernidade se apoderar aos poucos da cidade natal —mesmo os letreiros escritos à mão que abundavam em Santo Antônio na época de “Tudo no Mesmo Lugar pelo Mesmo Preço” foram praticamente extintos, substituídos por plotagens.

Mas ele não acha que as mudanças tenham afetado tanto as suas criações. “Tenho essa nostalgia ainda, viajo mais para o passado. Estou sempre com um pé por lá.”

O saudosismo, como qualifica Nery, aparece mais claramente em referências à infância e à sua família.

São obras como as “Camas de Vento”, macas acrescidas de asas de borboleta, “Palmeira Doce”, performance na qual o artista pendurou algodões-doces em troncos de árvores, e “Retrato de Bubu”, uma enorme pintura de nanquim que reproduz uma fotografia de seu avô. A última foi pendurada por Marepe ao lado do retrato de Georges Pompidou no museu de mesmo nome, em Paris, em 2005, quando o artista inaugurou uma mostra naquele museu.

“Periquitos” é uma de suas criações mais representativas nesse sentido. Um enorme televisor de mentirinha reproduz uma prática, comum nos anos 1960, de colar tiras de papel celofane sobre a tela para tornar a imagem colorida. Em seu interior, retratos de Marepe criança, fantasiado de periquito, se movem para cima e para baixo.

Ao responder como observa a evolução de sua carreira desde que começou, há mais de 20 anos, Marepe afirma que seus trabalhos ganharam camadas mais sutis, delicadas.

Uma mudança e tanto para um artista que, questionado pelo jornal Correio da Bahia sobre qual era o tema de seu trabalho em 2003, disparou: “Meu trabalho é todo ligado à pobreza”.

“Marepe: Estranhamente Comum” é mais uma mostra a abordar uma produção que floresceu no Nordeste neste ano em São Paulo. Além dela, estão em cartaz “Vaivém”, que chega ao fim no CCBB na semana que vem, À Nordeste, em cartaz no Sesc 24 de Maio, e a 36ª edição do Panorama do MAM, que, com o tema sertão, tem abertura marcada para o dia 17 de agosto.

O curador Pedro Nery recusa, no entanto, o rótulo de “regionalista” quando se trata do trabalho do baiano.

“Quer dizer que se um artista fizer uma obra sobre a avenida Paulista ela vai ser regionalista? O regionalismo está no olhar do outro”, afirma. “O que o Marepe faz é trazer a experiência dele para a produção.”

Marepe: estranhamente comum
Pina Estação - lgo. Gal. Osório, 66, 4º andar. Qua. a seg., 10h às 17h30. Abertura sáb. (27), às 11h. Até 28/10. Grátis.

Posted by Patricia Canetti at 10:53 AM

julho 21, 2019

À Nordeste traz as diferenças entre posição e identidade | Exposição, Metrópolis

À Nordeste traz as diferenças entre posição e identidade | Exposição, Metrópolis

Partindo da pergunta 'À Nordeste de quê', a mostra 'À Nordeste' apresenta mais de 250 obras, desde Portinari até o mundo dos memes das redes sociais. Isso para pensar na ideia do nordeste como posição e não como identidade.


Exposição "À Nordeste" mostra o mundo visto a partir dos nordestinos, tvbrasil

Uma exposição no Sesc 24 de maio em São Paulo reúne 160 artistas que estimulam uma reflexão sobre o Nordeste e o "estar à Nordeste", confira!

Leia também:
Mostras atacam estereótipo do Nordeste como terra preguiçosa por Clara Balbi, Folha de S. Paulo
Uma Curadoria por Aracy Amaral, Arte!Brasileiros
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Um Nordeste para além de registros identitários por Bárbara Buril, Continente
Apesar de montagem confusa, “À Nordeste” aponta para questões urgentes por Tadeu Chiarelli, Arte!Brasileiros
À Nordeste no Sesc 24 de maio propõe outra História da Arte por Giselle Beiguelman, Rádio USP
Muvuca por Yuri Firmeza, Arte!Brasileiros

Posted by Patricia Canetti at 6:35 PM

Muvuca por Yuri Firmeza, Arte!Brasileiros

Muvuca

Texto de Yuri Firmeza originalmente publicado na revista Arte!Brasileiros em 19 de julho de 2019.

Artista escreve sobre À Nordeste na Sala de Debate, coluna colaborativa da ARTE!Brasileiros

1.
Enosiofobia é o termo científico que se dá a quem tem medo de ter cometido uma crítica imperdoável. Parte da crítica brasileira parece ter sido acometida, de maneira epidêmica, por esta fobia. E por isso, na contramão, tanto me alegra ler o texto escrito por Bitú Cassundé, Clarissa Diniz e Marcelo Campos. Se, por um lado, o texto é endereçado para outro texto, escrito por Aracy Amaral, não é menos verdade que o texto convoca, numa dimensão política-clínica, ao debate público acerca da “história oficial” da arte brasileira.

2.
Dizem que no carnaval de Olinda estamos sempre no meio. Não tem começo e nem fim e tem “gente” em demasia. Gente em demasia pode gerar epidemia, fujamos das multidões.

3.
Prefiro pensar que corpo demais pode gerar uma alegria indomável. Tem muita gente, mergulhemos na muvuca.

4.
Parte da crítica brasileira parece não gostar de carnaval, pois que o corpo – e de maneira contígua, a escrita – foram produzidos sob a égide da razão moderna e eurocêntrica.

5.
O texto de Tadeu Chiarelli publicado na revista ArteBrasileirXs (e o “X” não se trata apenas de uma implicância com a língua, como ele aponta de maneira simplista no texto) começa descrevendo um ambiente saturado, cheio, entre outras coisas, de gente. Procura um início, pior seria procurar se “nortear”. Parece-me que o esforço encontrado para iniciar a visita à exposição, corresponde ao esforço, a “sofrência” e o melindre a escrever tal crítica.

6.
Pierre Menard, personagem de Jorge Luis Borges, copia letra por letra, palavra por palavra, linha por linha… de Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. O texto de Chiarelli parece almejar o mesmo, copiar letra por letra, palavra por palavra, linha por linha… do texto da Aracy Amaral. Não o faz tão diretamente. Acometido estaria pela epidemia enosiofóbica?

7.
Alguém dirá: estamos vivendo o furor Nordeste nas artes visuais, mas é preciso pensar o Brasil como um todo. Esta frase provavelmente será enunciada por este corpo descrito no bloco 4 deste texto. A cegueira historiográfica brasileira não é uma abstração. É constituída, antes, por agentes que têm respaldos e privilégios para inserir-excluir personagens de suas narrativas.

8.
Ainda na esteira do texto do Chiarelli, lemos que a exposição está repleta de obras que pensam o Brasil como um todo. Seria esta frase uma espécie de mea culpa do sulicídio (com L mesmo) operado sistematicamente à toda produção de pensamento fora daquilo que convencionamos chamar (cada vez menos, e essa exposição aponta para isto) de eixo? Pensar o Nordeste seria restritivo demais, vamos combinar, diz ele. De fato, seria. Mas esta exposição-ocupação passa longe de cair neste lugar do ensimesmamento. Ao contrário, e de forma reiterada, boa parte das exposições em São Paulo, feitas por paulistas, em instituições supostamente brasileiras, por exemplo, estão longe de sair deste lugar.

9.
Talvez o que falte é a tal liberdade (tão clamada e tão pouco praticada como forma de vida) em correr riscos. E sobra, quiça, o receio da perda de privilégios historicamente construídos, quando uma suposta ameaça se encontra num meio (múltiplo e que não é, portanto, O Centro).

Yuri Firmeza é artista e professor

À Nordeste, Sesc 24 de Maio, São Paulo, SP - 16/05/2019 a 25/08/2019

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Posted by Patricia Canetti at 6:26 PM

À Nordeste no Sesc 24 de maio propõe outra História da Arte por Giselle Beiguelman, Rádio USP

À Nordeste no Sesc 24 de maio propõe outra História da Arte

Coluna Ouvir Imagens de Giselle Beiguelman originalmente publicada na Rádio USP em 15 de julho de 2019.

Visitei À Nordeste, no Sesc 24 de maio e recomendo. Com curadoria de Bitu Cassundé, Clarissa Diniz e Marcelo Campos, a exposição traz no seu próprio título uma ambiguidade. Grafado com crase, À Nordeste pode ser lido como “à moda do Nordeste”. No falar, pode ser entendido como nordeste no feminino, indicando questões sobre diversidade e mais obviamente, aquilo que fica na direção nordeste. Essa ambiguidade não é casual.

A exposição parte de uma provocação do artista cearense Yuri Firmeza “A nordeste de quê?”para discutir as relações entre centralidades e periferias no Brasil e no mundo.

Uma das motivações do projeto dos curadores foi a eleição de de 2018, que acirrou um debate sobre a região, pela contraposição política que expressou configurando-se nitidamente como um foco de resistência às plataformas do então candidato Bolsonaro.

Não foram poucos os preconceitos e clichês que tomaram as redes nessa época, associando o nordeste e os nordestinos com atraso cultural atávico e terra amaldiçoada pela seca por ser território do pecado e da insurreição.

Uma outra história da arte
É uma exposição política, mas não partidária. É política no sentido de nos fazer pensar o Brasil, outras matrizes culturais e a violência da produção social de nossa história.

Para além do estopim das últimas eleições, a mostra evidencia a riqueza do Nordeste como centro irradiador de linguagens e espaço de produção simbólica e crítica, que se expressa na obra de mestres artesãos e de artistas que operam no circuito do mercado, seja no das artes visuais, seja o da música ou do cinema.

São pontos altos, para mim, os cruzamentos feitos entre obras dos mais variados repertórios, como incríveis carrancas de madeira e sua releitura em fibra de vidro por Tadeu dos Bonecos, como capacete e adereço de motocicleta.

Isso lado a lado com obras como as de Ayrson Heráclito, Tiago Sant’ana (no destaque) e Caetano Dias, e ao som do Mangue Beat de Recife, nos faz pensar que é mais que urgente pensar em uma outra História da Arte, capaz de dar conta dessa diversidade cultural, superando as oposições tradicionais entre artesanato/artefato e arte, cultura popular e cultura erudita, alta e baixa cultura e reelaborando as constelações estéticas que constituem a arte brasileira nas suas intersecções e particularidades em relação ao mundo.

Eu fico por aqui e deixo vocês com o Maracatu Atômico de Jorge Mautner e Nelson Jacobina na versão de Chico Science e Nação Zumbi.

A exposição fica em cartaz até 25 de agosto no Sesc 24, de 3a a Domingo.

Transcrição da coluna Ouvir Imagens, de Giselle Beiguelman, veiculada toda segunda-feira, às 8:00, pela Rádio USP (93,7).

Acesse a playlist com todos os áudios da coluna Ouvir Imagens na Rádio USP | Leia todas as transcrições e posts.

Esta coluna tem playlist no YouTube! Acesse e divulgue.


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Posted by Patricia Canetti at 5:36 PM

Apesar de montagem confusa, “À Nordeste” aponta para questões urgentes por Tadeu Chiarelli, Arte!Brasileiros

Apesar de montagem confusa, “À Nordeste” aponta para questões urgentes

Coluna Conversa de Bar(r) de Tadeu Chiarelli originalmente publicada na revista Arte!Brasileiros em 10 de julho de 2019.

Com disposição para permanecer naquele espaço labiríntico, o público encontrará bons motivos para visitar a exposição

Ambiente saturado: objetos, esculturas, desenhos, gravuras, salas fechadas, vídeos, sons, gente. O primeiro movimento foi escapar daquele espaço repleto de entradas/saídas, mas com algum esforço me aproximei de um pequeno monitor em que uma moça ia dizendo em libras (com legendas em português e inglês) que eu estava no final da exposição. Mais um sinal para cair fora de uma vez? Resisti. Voltei, então, para o que seria o início da mostra (não era) e comecei a me esforçar para dar início à visita.

Exposições normalmente são produzidas para “dar a ver” algo: a obra de um ou mais artistas, objetos industrializados ou artesanais etc. “Dar a ver” é criar condições ideais ou, pelo menos, satisfatórias para que o visitante possa percorrer o espaço sem entraves, sem ser bombardeado por inúmeros estímulos. Muita informação tende a ser igual a nenhuma informação ou a informações truncadas que se prejudicam mutuamente. É o que ocorre com a mostra À Nordeste (com crase, mesmo), no Sesc 24 de Maio.

À Nordeste foi concebida para lacrar. E conseguiu, claro que conseguiu. O que a ensejou foi sublinhar (ou explicar) a diferença entre o Nordeste e o resto do Brasil, diferença esta manifesta nas últimas eleições, quando aquela região, opondo-se à tendência majoritária no país, não elegeu aquilo que acabou sendo levado para Brasília. O Nordeste ali, nessa pretendida (des)exposição, foi apresentado ao “Sul maravilha” como o seu outro. O “lado de lá”, a nossa diferença (por mais próxima de nós que ela esteja, como a própria À Nordeste revela).

E com tal propósito, À Nordeste chegou chegando na vontade de desconstruir o estabelecido, a começar com uns catiripapos na língua portuguesa, colocando crase na proposição do título, suprimindo os artigos definidores dos gêneros de determinadas palavras, substituindo-os pelo “x” (assim quiseram xs curadorxs). Pueril? Pode ser, mas se a lacração tem momentos discutíveis – a implicância com a língua, mas também os painéis em madeira “natural” me parecem um problema entre muitos outros –, À Nordeste tem momentos fortes, outros fortíssimos que justificam uma visita.

Embora nos textos publicados no folder e espalhados pela exposição, xs curadorxs não analisem uma obra sequer, para dela extraírem os postulados que jogam no visitante, À Nordeste está repleta de obras fundamentais, não para pensarmos apenas o Nordeste (o que seria restritivo demais, vamos combinar), mas para pensar o Brasil como um todo. Dentre elas, O caseiro, 2016, de Jonathas Andrade. Essa obra talvez seja o momento mais alto da (des)exposição: colocar ao lado de um antigo documentário que “flagra” Gilberto Freyre em seu cotidiano, o vídeo sobre o cotidiano de um senhor que trabalha como caseiro da antiga residência do senhor de Apipucos, e hoje museu, reafirma Andrade como um dos melhores interpretes do Brasil, de suas complexidades estruturais.

A dupla Barbara Wagner e Benjamin de Burca também amplia a força da exposição. Ela está representada na mostra por dois trabalhos de 2013: Edifício Recife – documentação fotográfica sobre esculturas em entradas de alguns edifícios do Recife – e o vídeo Faz que vai. Apesar das diferenças de suporte é notável como a dupla ressignifica criticamente o cotidiano por meio de ações que nem folclorizam e muito menos insistem em discursos visuais/textuais repletos de retórica vazia sobre questões sociais (da qual À Nordeste está repleta, diga-se).

Cristiano Lenhardt, com o vídeo Polvorosa, 2012, também empresta à exposição a importância do trabalho que vem realizando. O vídeo subverte o discurso televisivo mais vulgar trazendo para a exposição um sopro ficcional bem-humorado que também destoa da maioria das obras apresentadas.

Curiosamente, tanto Lenhardt quanto a dupla Wagner/de Burca e Jonathas Andrade são algumas das estrelas de duas das mais prestigiadas galerias mainstream do Sudeste do país (Fortes D’Aloia & Gabriel e Galeria Vermelho). A inclusão, em À Nordeste, de obras desses artistas tão significativos (não esquecer que Wagner/de Burca representa o país na edição deste ano da Bienal de Veneza), poderá parecer para alguns uma espécie de contradição da mostra que, obstinada na ênfase à diversidade nordestina, acaba apostando em nomes que, afinal, foram já devidamente adotados pelo poder hegemônico do circuito São Paulo/Rio. Ao contrário, prefiro acreditar que a integração dos trabalhos desses artistas responde a duas questões. Em primeiro lugar, são produtores de qualidade e seria indigno não os incluir na exposição pelo fato de já terem alcançado reconhecimento no “sul maravilha”. Em segundo, considero a presença deles na mostra um índice importante sobre como xs curadorxs pensam bem a complexidade do Brasil de hoje, em que divisões regionais do país são no mínimo discutíveis. O Brasil, apesar do que ainda querem alguns, é muito mais complexo do que mostram as estatísticas, as divisões regionais etc. e, neste sentido, a inclusão na mostra, não apenas das obras dos artistas citados, mas também da peça de Ton Bezerra – Signos eletronejos, 2013, um vídeo que documenta sua performance no centro de São Paulo – sublinham aspectos dessa complexidade.

Afinal, o estranhamento que causa aquele ser estranho caminhando pelo centro de São Paulo em Signos eletronejos, diz muito também sobre essa cidade que é a mais nordestina do país.

***

Pelos comentários acima, penso ter ficado clara a intenção deste texto: se o visitante insistir em permanecer no recinto da mostra, e se tiver disposição para procurar naquele espaço labiríntico e confuso, encontrará mais motivos para ficar contente por ter ido visitar À Nordeste. E, é claro, não apenas pelas obras de Lenhardt, Wagner/de Burca e Jonathas Andrade. Creio que vale a pena também prestar a atenção aos vídeos de Zahy Guajajara e Marcelo Pedroso. É certo que ambos excedem na retórica, o que não carecia. Talvez jovens demais, cometem exageros quando poderiam confiar mais na potência das imagens que concebem, mas isso pode diminuir com o passar do tempo. A pintura de Dalton Paula – Canção das abelhas, 2018 – também justifica a visita, assim como algumas joias raras dos irmãos Joaquim e Vicente do Rego Monteiro e as delicadas pinturas produzidas em 1964 por Montez Magno.

(No final saí da mostra com a sensação de que, apesar dela mesma – de todos os entraves que criou para si e para o visitante –, À Nordeste aponta para questões que precisamos pensar com urgência. Questões sobre a sociedade brasileira, sobre a arte que produzimos e, tão importante quanto, sobre como adequar satisfatoriamente o desejo de romper com o trabalho curatorial tradicional e, ao mesmo tempo, manter a inteligibilidade do que quer ser apresentado ao público).


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Posted by Patricia Canetti at 5:01 PM

Um Nordeste para além de registros identitários por Bárbara Buril, Continente

Um Nordeste para além de registros identitários

Texto de Bárbara Buril originalmente publicado na revista Continente, em 3 de julho de 2019, na edição 223, julho de 2019.

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Assim como as pessoas, o Nordeste também pode ocupar muitos lugares em uma relação, porque ele não é apenas, em si mesmo, um lugar, mas também (e principalmente) uma posição. O Nordeste tem sido interpretado a partir de um outro que o inferioriza, pelos pressupostos de ser menos “produtivo” e “desenvolvido”, por falar com menor correção gramatical e polidez que o Sul e o Sudeste do Brasil, entre outros aspectos de subalternidade construídos ao longo do tempo.

Essa “identidade nordestina”, compreendida como a face deteriorada de outra face mais polida, é problematizada na exposição À Nordeste, com curadoria de Bitu Cassundé, Clarissa Diniz e Marcelo Campos, em cartaz no Sesc 24 de maio, em São Paulo, até o dia 25 de agosto. A mostra é grandiosa: conta com mais de 300 obras. Participam da exposição 160 artistas, nem todos nordestinos, nem todos brasileiros.

No entanto, não se trata de um panorama da arte feita no Nordeste, com a intenção de mostrar “isto é o Nordeste”, como se, através de um arranjo bem-delimitado pudéssemos, enfim, identificar os aspectos de uma arte propriamente nordestina. Tampouco essa mostra se forma por subtração, como se, ao excluirmos os artistas não nordestinos, pudéssemos finalmente encontrar a “alma” nordestina no cerne de trabalhos feitos apenas por nordestinos. Aqui, não somos nordestinos por subtração, para parafrasear o crítico literário Roberto Schwarz, no ensaio Nacional por subtração, através do qual busca pensar o nacional não como algo que se conquista através da subtração de elementos estrangeiros, mas justamente segundo a lógica que põe justamente em colapso as ideias de nacional e estrangeiro, original e cópia, autêntico e inautêntico.

O que essa mostra problematiza – logo no centro de São Paulo, para onde tantos nordestinos já foram em busca de alguma prosperidade, mesmo que às custas de muita submissão – é um Nordeste que é percebido não só pelos sudestinos e sulistas, mas também pelos próprios nordestinos como um espaço geográfico dotado de uma identidade específica. Comumente pensamos o Nordeste como se ele tivesse um caráter, um significado só dele, como se ele fosse uma coisa só: o Nordeste do sol imenso, de tons ocres, da terra rachada, dos corpos retirantes, da fé irracional, do misticismo monárquico, do litoral, por exemplo. Assim como fazemos com as pessoas, também nos referimos ao Nordeste como um espaço geográfico portador de uma identidade – isso porque é mais fácil organizar a realidade dessa maneira. Também é mais fácil interagir com as pessoas desse modo: como se elas portassem, de fato, uma identidade.

No entanto, nem nós, pessoas, nem o Nordeste nos submetemos tão facilmente a organizações identitárias. Nesse sentido, se é possível falar de algo que é especificamente nordestino (se é possível afirmar que há algo essencialmente nosso, humano), é o seu caráter indomável. Por isso que os curadores resolveram crasear o Nordeste, com o título À Nordeste. Porque esse espaço geográfico só poderia ser compreendido em relação; em movimento. Como acontece com a fotografia, parece que só conseguimos capturar as pessoas, e também os caracteres de um lugar, por partes.

A fotografia nos oferece uma construção apenas parcial de um instante, mas nunca a completude de um evento. Também só nos aproximamos do Nordeste capturando uma parte dele; mas isso não quer dizer que poderemos um dia compreendê-lo, se fizermos uma catalogação de tudo o que já foi feito na região. Se assim o fosse, compreenderíamos a história do mundo em uma visita ao Louvre. Mas não é assim que podemos entender as coisas.

Nesse sentido, o que encontramos na exposição À Nordeste é um conjunto amplo e diversificado de trabalhos que se referem a questões variadas, organizadas como eixos temáticos na mostra. São eles: “futuro”, “insurgências”, “(de)colonialidade”, “trabalho”, “natureza”, “cidade”, “desejo” e “linguagem”. Essa separação temática funciona apenas como caminho orientador para o visitante, uma vez que a maior parte dos trabalhos não apenas passeia por mais de um eixo, como também extrapola as categorias temáticas pensadas pelos curadores. As obras de arte escolhidas não se reduzem aos eixos especificados, tampouco sintetizam uma ideia global do que é o Nordeste. No máximo, apontam para imagens parciais da região. Imagens interpretativas sobre o Nordeste que, inclusive, concorrem entre si.

Encontramos, portanto, os pernambucanos Vicente do Rêgo Monteiro e Lula Cardoso Ayres. Do primeiro, a obra Atirador de arco (1925). Do segundo, Boiada (sem data específica, compõe série criada entre 1940 a 1950), Tatu (1940) e Lavadeiras (1951). Com eles, encontramos uma imagem particular do Nordeste, deparamo-nos com retratos de uma elite pernambucana sobre a vida no Nordeste.

No livro A invenção do Nordeste e outras artes, publicado em 1999, o historiador Durval Muniz de Albuquerque Jr. refere-se aos pintores Cícero Dias e Lula Cardoso Ayres, mas também à obra sociológica de Gilberto Freyre e a romances de autores como José Américo de Almeida, José Lins do Rego e Rachel de Queiroz como responsáveis pela criação de um Nordeste que tem saudades de sua época de riqueza, do fausto da casa-grande, da “docilidade” da senzala, da “paz e estabilidade” do império.

“O Nordeste é gestado como o espaço da saudade dos tempos de glória, saudades do engenho, da sinhá, do sinhô, da Nega Fulô, do sertão e do sertanejo puro e natural, força telúrica da região”, escreve o historiador. É o Nordeste do passado, elaborado por uma elite rural que não encontra mais o mesmo prestígio anterior, embora ainda assuma diversos cargos políticos, como se esses fossem bens privados que devessem ser herdados pelas gerações seguintes (e as oligarquias do presente são testemunhos dessa persistência).

Por sua vez, esse Nordeste elaborado por uma elite que tem saudades de seu passado de glória rural é ironizado em trabalhos artísticos também encontrados na exposição. No vídeo O palhaço degolado (1977), por exemplo, o artista pernambucano Jomard Muniz de Britto satiriza tal visão de Nordeste. Na obra, um palhaço passeia pelo espaço da Casa da Cultura, no Recife, antigo espaço de detenção, e questiona o Nordeste cuja construção se fez na casa-grande. Diz o palhaço no vídeo, ironicamente: “Mestre Gilberto Freyre? Mestre Gilberto Freyre? Mestre Gilberto Freyre? Muito bem-situado nos trópicos! Casa-grande! Casa-grande! (…) Senzala! Senzala?”. E continua: “Casa-grande de detenção da cultura. Muito bem-situado nos trópicos. Tristes trópicos. Democracia racial? A seu modo. Morenidade, brasilidade? A seu modo. Lusotropicologia? A seu modo. Regionalismo ao mesmo tempo modernista e tradicionalista? A seu modo”.

A língua ferina do palhaço – a língua de Jomard Muniz de Britto – não poupa ninguém. E expressa: “Ai, que saudades dos quitutes e dos quindins preparados pelas sinhazinhas formosas em seus engenhos e pelas piedosas freirinhas em seus conventos. Ai, que saudades, porque o povo só se conhece e se preserva pela sua cozinha”.

O sociólogo Gilberto Freyre está na exposição novamente na obra O caseiro (2016), de Jonathas de Andrade. No trabalho, o artista alagoano põe em paralelo dois vídeos diferentes em um só vídeo: do lado esquerdo, estão trechos de O mestre de Apipucos (1959), filme dirigido por Joaquim Pedro de Andrade, em que assistimos a momentos de um dia na vida de Gilberto Freyre; do lado direito, está outro vídeo, produzido pelo próprio artista, no qual assistimos ao dia a dia do caseiro que atualmente vive e trabalha na casa onde viveu Freyre.

O Nordeste da casa-grande, da “morenidade”, da “brasilidade” e da “lusotropicologia” surge na mostra como uma visão de Nordeste. Uma, entre tantas outras. A visão de um Nordeste elitista e rural, saudoso de si mesmo, é novamente questionada em ABC da cana (2014), também de Jonathas de Andrade, e Brasil S/A (2014), do pernambucano Marcelo Pedroso. Em ambas as criações, observa-se o reverso do Nordeste rural, experienciado cotidianamente por quem move, com os próprios braços, o moinho de uma economia violenta. Como ocorre ao caseiro da casa onde viveu Gilberto Freyre.

O Nordeste contemporâneo, que é herdeiro do genocídio indígena e que não usufrui do mesmo fausto de uma elite do passado, também pode ser identificado na série de fotografias Paridade (2017), da artista maranhense Gê Viana, em que se vê uma fotomontagem de imagens de indígenas que foram assassinados e descendentes de indígenas que ainda resistem.

Já a herança da cultura africana pode ser encontrada nos trabalhos dos artistas baianos Rubem Valentim e Mestre Didi, que, através de esculturas, fazem referência aos orixás das religiões afro-brasileiras.

***

A exposição revela trabalhos artísticos que sequer falam de Nordeste e que, se assim o fazem, é mais por acidente que por intenção. Esse Nordeste que se enuncia tangencialmente se mostra como um espaço geográfico, político e cultural que só pode ser compreendido em relação. Trata-se de um lugar que não se possui, porque atravessado por questões que o ultrapassam. Um território que, quando fala de si, acaba se referindo ao mundo. E que, à maneira inversa, ao falar do mundo, acaba chegando a si mesmo.

Assim, encontramo-nos com um Nordeste que se denuncia por acidente em trabalhos contemporâneos, como em Teile e Zaga (2019), vídeo encomendado pelos curadores à digital influencer pernambucana Alcione Alves. A instagramer, que produz vídeos para seu perfil nessa rede social narrando coreografias, está na mostra narrando uma coreografia de uma dupla de passistas de frevo dançando no Marco Zero do Recife, diante da Torre de cristal, de Francisco Brennand. Não se trata especificamente de um vídeo sobre o Nordeste, mas uma imagem do Nordeste que se revela nas suas gírias periféricas (“teile”, “zaga”, “laga”), nas suas manifestações corporais particulares, na sua paisagem artística e litorânea.

Nesse vídeo, assim como nas outras criações de Alcione Alves, observamos o caráter universalizante (ou, pelo menos, nacionalmente compreendido) de um humor que conquistou pessoas em vários lugares do Brasil (atualmente, ela tem 657 mil seguidores). Mostra-se um Nordeste que não é aristocrático ou rural, mas urbano, tecnológico e periférico. Um Nordeste que ri de si mesmo, ao não se colocar no lugar do oprimido. Ou que, ao menos com humor, sabe se virar com a exclusão a que está sujeito.

Um lugar que se afirma de maneira enviezada, um pouco por consequência, mas não exatamente por intenção, também está presente na obra Memelito (2019), vídeo cuja autoria é do coletivo pernambucano Saquinho de Lixo, atuante no Instagram e formado por Douglas Layme, Davi Xavier, Isabelle Strobel, Sofia de Carvalho e Aslan Cabral. O vídeo, também feito especialmente para a exposição, não tematiza o Nordeste, mas, ao falar de questões abrangentes, como a política nacional ou uma forma de vida experienciada no Brasil, acaba por revelá-lo.

Por exemplo, em Memelito, vemos pessoas caminhando em uma praia entre GIFs de tubarões, numa clara alusão à falta de balneabilidade da Praia de Boa Viagem, no Recife, por conta dos ataques de tubarões. Isso logo depois de termos assistido a um questionamento provocativo sobre por que alguns ladrões são presos e outros não, sendo estes últimos políticos de profissão. Existe uma conjunção entre elementos locais e nacionais, portanto, em memes que conquistaram o Brasil. Como o vídeo de Alcione Alves, a obra do Saquinho de Lixo também surpreende por sintetizar a entrada dos memes em espaços expositivos, comumente compreendidos como lugares dedicados à “alta cultura”.

***

Também encontramos, na exposição, criações que nos mostram uma imagem de Nordeste em que as vidas presentes carregam o peso das normas e da história. Na obra A ferida colonial ainda dói (2017), por exemplo, a artista potiguar Jota Mombaça, residente em Portugal, apresenta um documento oficial emitido pelo governo português em que se pode ver um reconhecimento de residência pelo governo. O trabalho integra um projeto homônimo mais amplo, em que Mombaça problematiza as narrativas coloniais, ao evidenciar o apagamento da memória e as feridas ainda abertas deixadas pelas invasões e domínios portugueses no Brasil.

Em outro trabalho da mesma série, que não está presente em À Nordeste, a artista escreve a frase “vocês nos devem até a alma. E, assim como nós, os nossos fantasmas estão vindo cobrar”, com sangue, no chão, ao lado do Padrão dos Descobrimentos, monumento em Lisboa em homenagem aos invasores envolvidos nos autoproclamados descobrimentos portugueses. A ida massiva de brasileiros para Portugal, em um momento no qual o Brasil se encontra em uma crise econômica (e também em uma crise de humanidade), parece revelar uma cobrança história pelos brasileiros daquilo que lhes foi retirado com a colonização: talvez um estado de bem-estar social capaz de oferecer um mínimo de segurança coletiva.

Narrativas que buscam nos mostrar aquilo que está à margem dos saberes instituídos, ou, pelo menos, que está fora da história que nos foi contada, também podem ser vistas nos trabalhos da fluminense Pêdra Costa. À frente do show de baile funk queer Solange, tô aberta! (STA!), a artista trata de assuntos como gênero, identidade, estereótipos e sexualidade através de elementos estéticos distintos e aparentemente inconciliáveis, como os bailes funks do Rio de Janeiro e a contracultura queer. No vídeo CUCETA – A cultura queer de Solangê, tô aberta!, dirigido por Cláudio Manoel, Pêdra Costa e Paulo Belzebitchy, que integram a STA!, contam em seus depoimentos sobre como o projeto em questão busca levar as pessoas a construírem uma consciência corporal mais ampla, capaz de incluir nela, por exemplo, o cu, como vemos na música Cuceta.

O tom politizado do STA! evidencia, por sua vez, um Nordeste por onde circulam questões que não se reduzem à forma de vida experienciada apenas nesse lugar. Ao questionar a heteronormatividade sexual e o binarismo de gênero, por exemplo, o STA! traz provocações que não se reduzem à “existência nordestina”, tampouco a um questionamento sobre uma determinada “identidade nordestina”. O show tem uma posição “à Nordeste”, mas não se fecha nesse lugar. Não é por acaso, portanto, que ele tenha sido apresentado, além do Brasil, em países como Bolívia, Dinamarca, Noruega, Itália, Polônia, Espanha, Alemanha, Áustria e Grécia. Porque o Nordeste não é, nem nunca foi, um território fechado em si mesmo, daí não ser possível compreendê-lo a partir de uma ideia particular de identidade regional.

Em À Nordeste, encontramo-nos com um lugar que, quando se move, chega a muitos lugares. Estes constituem uma vida cultural que põe em colapso ideias de nacional e estrangeiro, original e imitado, porque aquilo que nos é próprio tem muito de estrangeiro, porque aquilo que nos é original tem muito do imitado, e também porque, naquilo que imitamos, existe originalidade. Nesta exposição, vemos como é mesmo difícil, muito difícil, resumir uma vida cultural.

Bárbara Buril é jornalista pernambucana e doutoranda em Filosofia na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).


Também leia, assista e ouça
Mostras atacam estereótipo do Nordeste como terra preguiçosa por Clara Balbi, Folha de S. Paulo
Uma Curadoria por Aracy Amaral, Arte!Brasileiros
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Apesar de montagem confusa, “À Nordeste” aponta para questões urgentes por Tadeu Chiarelli, Arte!Brasileiros
À Nordeste no Sesc 24 de maio propõe outra História da Arte por Giselle Beiguelman, Rádio USP
Muvuca por Yuri Firmeza, Arte!Brasileiros
À Nordeste traz as diferenças entre posição e identidade | Exposição, Metrópolis

Posted by Patricia Canetti at 4:37 PM

julho 11, 2019

É possível sentir cheiro dos Bolsonaros no ar do Brasil, diz artista portuguesa por Gabriela Longman, Folha de S. Paulo

É possível sentir cheiro dos Bolsonaros no ar do Brasil, diz artista portuguesa

Matéria de Gabriela Longman originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 4 de julho de 2019.

Grada Kilomba reflete sobre as feridas abertas do colonialismo em mostra na Pinacoteca e livro que lançará na Flip

Numa sala da Pinacoteca do Estado, ela espera a chegada de terra. É com terra, café, açúcar, cacau e velas que a artista Grada Kilomba monta “Table of Goods”, instalação-oferenda com que homenageia os prazeres, mas lembra também os produtos âncora da escravização africana.

Aos 51 anos, a psicóloga, pensadora e artista descendente de angolanos, portugueses e são-tomenses radicada em Berlim é uma das grandes vozes do movimento feminista negro atual. No Brasil por alguns dias, ela abre agora a exposição “Desobediências Poéticas” e participa da 17ª Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, onde lança “Memórias da Plantação”, que sai no país pela editora Cobogó.

“Sabes o que eu acho? A história colonial nunca foi tratada devidamente. É uma ferida de 500 anos muito profunda, com uma violência e brutalidade que nós próprios ainda não nos apercebemos. Ao mesmo tempo é vista como uma história que já passou e que, portanto, não precisa ser falada. Acho que é aí que habita o grande problema”, diz Kilomba, durante a montagem de sua exposição.

O extrativismo ambiental, a desumanização e o controle aguerrido de fronteiras são para ela ecos dessa história inflamados no presente. É justamente para colocar o dedo nas feridas, ou “perturbar esse ‘white cube’”, que seus vídeos e instalações ocupam quatro salas do museu paulistano.

“A Pinacoteca tem uma história colonial brutal, como todas as instituições. Eu sei que uma parte da população não entra, tem medo de entrar aqui, e acho fascinante entrar como mulher negra e ocupar o espaço. É possível trazer para dentro do museu elementos poéticos que geralmente não estão lá e que perturbam.”

Trabalhando na confluência entre dança e encenação, os vídeos de Kilomba procuram desconstruir narrativas tradicionais, como o mito de Narciso, para remontar esses enredos sobre novas bases, usando atores e bailarinos negros.

Teoria e prática, ali, são inseparáveis, assim como trabalho intelectual, emocional e espiritual. É a potência desse encontro, quiçá, que tem seduzido instituições de arte e curadores mundo afora. Suas obras foram exibidas na 32ª Bienal de São Paulo, em 2016, na Documenta 14, em Kassel, na Alemanha, em 2017, e na 10ª Bienal de Berlim, no ano passado.

Enquanto vídeos e instalações refletem sua pesquisa atual, o livro “Plantation Memories”, só agora traduzido para o português, remonta a 2008, quando ela se mudou de Lisboa para fazer o doutorado na Freie Universität, em Berlim. Foi ela, aliás, a primeira da família a sair do subúrbio para estudar.

Escrita em inglês, a tese parte de entrevistas com mulheres afro-alemãs alicerçadas por conceitos centrais da psicanálise —negação, culpa, vergonha, reconhecimento, reparação— para tratar de um cotidiano marcado pela violência implícita ou explicita sobre a
subjetividade negra.

“A branquitude é o ponto de vista suspostamente neutro, a partir do qual os outros diferem”, escreve, numa tradição teórica de desmonte de estruturas sociais e do vocabulário que tem em Audre Lorde, Angela Davis e Frantz Fanon alguns de seus expoentes.

Dessa forma, ela argumenta, em vez de fazer a clássica pergunta moral “eu sou racista?” e esperar uma resposta confortável, o sujeito branco deveria se perguntar como pode desmantelar o seu próprio racismo.

É esse processo de responsabilização, segundo ela, que está mais avançado na Alemanha do que no Brasil, ainda preso na negação ou mesmo na exaltação da história colonial.

“Tu sentes os Bolsonaros, tu cheiras no ar. Incomoda muito quando tu entras num prédio e tem a porta de serviço e a da frente. Não é possível, isso é proibido! Não pode haver uma hierarquização de pessoas no espaço arquitetônico. A extrema direita está a voltar, porque sempre esteve lá, porque nunca foi embora. Quando eu mostro meu trabalho no Brasil e quando mostro na África do Sul é idêntico, porque são países com uma urgência democrática.”

O impacto do trabalho, portanto, é para ser sentido na pele. Ao montar uma exposição no Museu de Arte e Tecnologia, em Lisboa, Kilomba conta que fez amizade com um homem idoso de Angola que trabalhava na portaria.

“Viu-me entrar e no terceiro dia perguntou: ‘Mas o que tu vens fazer aqui todos os dias?’. E eu disse: ‘Eu sou a artista que vai fazer a nova exposição individual’. Ele ficou paralisado e falou: ‘Eu nunca entrei lá dentro. Eu só entro para me vestir.’ Convidei-o para abertura, ele veio com a esposa e foi a primeira vez que ele entrou no próprio local de trabalho sem ser da porta para o vestiário. Depois me disse que havia se emocionado com o trabalho, que voltaria para trazer os filhos, a sobrinha.”

É, portanto, a triangulação entre que histórias são contadas, como são contadas e quem as conta que está no centro das preocupações da artista. Não à toa, seu nome costuma ser lembrado como referência por Djamila Ribeiro, teórica brasileira autora de “O que É Lugar de Fala?”. As duas se encontrarão no museu para uma conversa aberta ao público.

“Quando escrevi o livro, eu era muito jovem e estava à procura de formular as minhas questões e buscar respostas que não encontrava. Agora, faço aquilo que eu gosto e que eu quero. Já não sou uma menina que está à procura, mas talvez uma mulher que performa novas perguntas.” Fazer o que quer, ela diz, é um privilégio, mas é também uma conquista.

o que ver, ler e ouvir

Grada Kilomba: Desobediências Poéticas
Pinacoteca - pça. da Luz, 2, tel. (11) 3324-1000. Qua. a seg.: 10h às 17h30. Até 30/9. Neste sáb. (6), ela realiza um debate no museu com Djamila Ribeiro, colunista da Folha

Flip
Na programação oficial, autora será entrevistada por Kalaf Epalanga e Lilia Moritz Schwarcz no dia 12 de julho, às 19h. Ela participa de mesa na Casa IMS, da programação paralela, no dia 11, às 19h

Memórias da Plantação
Autora: Grada Kilomba. Ed.: Cobogó. R$ 48 (244 págs.)

Posted by Patricia Canetti at 11:01 AM

Paisagens excluídas: projeto da fotógrafa Alice Miceli registra campos minados em zonas de conflito, Zum

Paisagens excluídas: projeto da fotógrafa Alice Miceli registra campos minados em zonas de conflito

Entrevista originalmente publicada na revista Zum em 10 de julho de 2019.

Em cartaz no Rio de Janeiro, a exposição Em profundidade: (Campos-minados), da artista carioca Alice Miceli, apresenta pela primeira vez a série completa de fotografias do seu projeto. Feitas em campos minados no Camboja, em Angola, na Bósnia e na Colômbia, países que sofreram recentemente com guerras e conflitos armado e que ainda possuem localidades infestadas com minas terrestres. Segundo Miceli, é “um desafio interessante pensar o meio de fotografia para justamente considerar o que não pode ser visto, e como se dá nossa visão, do que ela feita, de como é mediada”.

Parte importante do trabalho de Miceli, fotografar “o que não se vê” já foi tema de Chernobyl, seu projeto anterior, em que foi até a Zona de Exclusão na Ucrânia para registrar a contaminação invisível causada pela radiação gama [leia mais sobre esse projeto no site da ZUM]. “No caso do meu trabalho nos campos minados e já anteriormente, em Chernobyl, me deparei com problemas acerca dos limites da representação, de como tentar olhar aquilo que não se dá a ver, não se revela. Como olhar e por intermédio do que?”, pergunta Miceli.

Em entrevista, Alice Miceli detalha a metodologia, conceitos e desafios para dar conta de um projeto que a coloca em situações de risco no meio de campos minados.

Ver imagens na Zum

Como surgiu a ideia para o projeto Em profundidade (campos-minados)? E por que a escolha desses quatro países para fotografar?

Alice Miceli: A ideia de pensar em atravessar campos minados como um trabalho começou quando eu estava numa residência. Tinha acabado de terminar meu trabalho em Chernobyl e andava refletindo sobre questões que esse trabalho tinha suscitado para mim, as quais havia encontrado pela primeira vez ao desenvolvê-lo, acerca de problemas sobre a definição e a representação de paisagens em imagem, mais especificamente me concentrando em espaços que foram feitos impenetráveis, ​​ou inacessíveis, como resultado da ação do homem. É um desafio interessante pensar o meio de fotografia para justamente considerar o que não pode ser visto, e como se dá nossa visão, do que ela é feita, de como é mediada.

Os quatro países foram escolhidos de acordo com a intensidade da contaminação por minas terrestres e outros explosivos remanescentes de guerras e conflitos ainda existentes hoje em dia em seus territórios.

A primeira série descreve um campo minado no interior da província de Battambang, no Camboja. Ela evolui em onze fotos sucessivas atravessando o campo em onze passos. Trabalhei em colaboração com o CMAC – Cambodian Mine Action Centre and Victim Assistance Authority, a organização governamental no Camboja que é encarregada do programa nacional de desminagem.

A segunda série é focada na contaminação por minas na Colômbia. Viajei para áreas afetadas em Antioquia, em torno de Medelín, para regiões outrora dominadas pelas FARC, que minaram várias aéreas como mecanismo de defesa contra o exército, que as perseguia. Essa série é composta por sete imagens. Trabalhei em colaboração com o HALO Trust Demining Program na Colômbia.

A terceira série examina áreas minadas no contexto europeu, ou seja, regiões fortemente afetadas na Bósnia e Herzegovina, uma contaminação por minas causada pelo conflito armado associado com o desmembramento da ex-Iugoslávia no início dos anos 1990. A série foi captada em nove etapas na comunidade de Obudovac, no município de Samac. Trabalhei em colaboração com a NPA – Norwegian People’s Aid – Humanitarian Disarmament Campaign na Bósnia e Herzegovina.

Para a quarta e última etapa da pesquisa, planejei examinar o problema de contaminação de minas em Angola, que permanece entre os países mais afetados do planeta, como resultado de mais de 40 anos de conflito e guerra civil, com minas utilizadas por diversos grupos em todo o território angolano. Desenvolvi a etapa em colaboração com a NPA – Norwegian People’s Aid – Humanitarian Disarmament Campaign em Angola.

A sua abordagem artística nos remete a elementos da land art e da performance, trazendo essas práticas para a fotografia de uma maneira original. Além disso, percebesse um rigor na conceituação do projeto, na definição de uma metodologia para o registro das imagens. Como isso acontece no seu processo criativo?

AM: Nossa visão (dos seres humanos), nosso modo de enxergar o que vemos, é sempre uma construção complexa: física (fenômeno ótico e geométrico), mas também fisiológica, neurológica e cultural. E nossa “visão” é ainda mais mediada quando uma ferramenta concebida pelo homem intervém na criação de uma imagem. Essa ferramenta já chega impregnada da intenção, da atenção e da proposição de alguém sobre como ela será utilizada, já caminhando para uma direção pré-determinada, predisposta a criar um certo tipo de imagem, contendo em si camadas de história em sua concepção.

No caso do meu trabalho nos campos minados e já anteriormente, em Chernobyl, me deparei com problemas acerca dos limites da representação, de como tentar olhar aquilo que não se dá a ver, não se revela. Como olhar e por intermédio do que? Em Chernobyl, devido ao fato de que, para mim, câmeras fotográficas convencionais não conseguiam realmente enxergar naquele meio muito particular, precisamente por ser um meio dominado de maneira onipresente por um “nada” ostensivamente presente e eterno (a contaminação invisível causada pela radiação gama), cogitei então se seria possível tocar nesse “nada” de alguma forma – aproximando-me do que, nessa situação de Chernobyl, está em toda parte, mas que nunca é realmente observado ou percebido, exceto pelos traços de destruição que deixa para trás e pela ocupação negativa que impõe à Zona de Exclusão. Foi ficando claro para mim que seria necessário criar minhas próprias ferramentas, do zero, para dar a ver essa impenetrabilidade visual absoluta.

Uma vez Chernobyl concluído, eu queria ainda prosseguir nesse problema. Comecei a me perguntar que outros tipos de impenetrabilidade existiriam aqui, conosco, no nosso planeta. Olhar para campos minados foi o próximo passo lógico nessas indagações, considerando uma outra situação que me oferecia uma interessante variação do problema, pois nesse caso dos campos tomados por minas terrestres e outros explosivos de guerra, a impenetrabilidade se desloca do problema da visão em si, como havia sido o caso em Chernobyl, para a profundidade do espaço, o que traz consigo todo um novo conjunto de questões sobre como traduzir esse problema de impenetrabilidade, agora espacial, em imagem.

Eu poderia ter cogitado, por exemplo, ficar apenas do lado de fora do campo, na borda de entrada da área minada, e parar por aí, capturando na imagem um horizonte, uma profundidade somente contemplada, porém nunca alcançada. Como foi o que aconteceu tragicamente com o fotógrafo Robert Capa, que morreu ao pisar em uma mina terrestre na Indochina, tendo segundos antes capturado uma imagem que se estende até um horizonte que ele mesmo nunca alcançou. Levando adiante esse problema, de onde Capa foi interrompido, eu queria justamente continuar. Esse é o aspecto performático do trabalho, no qual o meu corpo, no fora-de-quadro, não está apenas olhando para uma profundidade impenetrável a partir de um exterior, mas se movendo por ela, produzindo imagens de dentro das áreas tomadas e considerando, nessas travessias, como essa penetração se dá tanto no espaço físico da profundidade como no resultado visual da imagem.

A metodologia do trabalho foi desenvolvida a partir desse diagrama. Dentre vários desenhos e rascunhos da época do início desse trabalho, esse foi o primeiro que fez sentido para mim, que me ajudou a começar a entender como ativar o entrelaçamento entre posicionamento, distância focal, ponto de vista e o tamanho de magnificação de um objeto projetado em uma imagem.

A distância focal de uma lente determina seu ângulo de visão e, portanto, quanto do objeto será ampliado na imagem a partir de uma determinada posição. No diagrama, diferentes comprimentos focais são representados, em pontos de vista sucessivos em um mesmo eixo, a fim de manter o objeto sempre em um tamanho de ampliação constante na imagem, de forma a precisamente ativar a questão do posicionamento, do olhar e do corpo do fotógrafo no fora-de-quadro, no momento e no local da exposição, em uma situação – essa dos campos minados – em que posição, onde se pisa no chão, é o elemento mais crítico.

Seu projeto anterior, Chernobyl, também lidava com o registro de uma paisagem onde o invisível é a ameaça que permanece após a tragédia. Além dessa, você vê outras relações entre Chernobyl e o projeto sobre os campos-minados?

AM: Ao contrário de paisagens naturais remotas e imaculadas, tanto Chernobyl quanto os campos minados remanescentes pelo mundo não são apenas decorrências de fatos traumáticos do passado, mas espaços que permanecem no tempo presente, urgentes, e que seguem ocupando e reivindicando negativamente partes do nosso mundo ad infinitum.

Existe alguma diferença entre os quatro países que você escolheu para fotografar? As diferentes paisagens mudaram o resultado fotográfico do projeto?

AM: Sim. É como se diferentes paisagens tivessem diferentes timbres. Penso bastante em termos musicais, dado que o trabalho lida com problemas de intervalo. Por exemplo, de início temos uma divisão igual e regular do espaço, dada pelo diagrama, como se fosse a divisão temporal regular de uma partitura em compassos. Estes espaços são em seguida ativados, percebidos e experimentados através do percurso possível em cada campo minado, o que por sua vez depende da topografia e da contaminação específica de área atravessada. Em termos geométricos teóricos, existiria uma possibilidade infinita de pontos de vista alinhados em um mesmo eixo entre dois pontos dados no espaço. De fato, ao atravessar cada campo minado, o padrão da contaminação pelas minas terrestres atualiza essa virtualidade infinita e a reduz a um número restrito de pontos de vista, criando uma tensão entre a divisão igualitária do espaço, dada pelo diagrama, e a maneira pela qual meu corpo é forçado, devido ao padrões irregulares das contaminações, a atravessar cada um desses espaços. Essa é a razão pela qual o trabalho existe como um conjunto de séries fotográficas, e não como imagens únicas que poderiam ser desmembradas. O que tive que evitar e evadir, onde não foi possível pisar, de onde não foi possível fotografar, ou seja, o espaço entre cada imagem, é de igual importância ao que nelas aparece capturado.

Você já está com algum novo projeto? Seu interesse em registrar “paisagens invisíveis” continua?

AM: Sigo interessada em lugares que, mesmo em nosso tempo globalizado, parecem permanecer fora do mapa. Lugares que permanecem no sentido que prosseguem no presente, mesmo se esquecidos. A ver agora qual será o próximo destino.

Mais informações sobre a exposição Em profundidade: (campos-minados) aqui.

Alice Miceli (1980) vive e trabalha no Rio de Janeiro. De 1998 a 2002, cursou bacharelado em cinema na Escola Superior de Estudos Cinematográficas, em Paris, e em 2005 formou-se em História da Arte e Arquitetura pela PUC-RJ. Participou da 29ª Bienal de São Paulo (2010); da exposição The Materiality of the Invisible, em Maastricht (2017), Basta! na Shiva Gallery, em Nova York (2016) e da Cisneros Fontanals Grants & Comissions Award, em Miami (2015), entre outras.

Posted by Patricia Canetti at 10:45 AM

julho 7, 2019

Mostras atacam estereótipo do Nordeste como terra preguiçosa por Clara Balbi, Folha de S. Paulo

Mostras atacam estereótipo do Nordeste como terra preguiçosa

Matéria de Clara Balbi originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 25 de maio de 2019.

Exposições usam carranca prateada e redes de dormir para desmontar clichês

Sobre o farol de uma motocicleta, uma carranca —estátua tradicionalmente instalada na proa dos barcos do rio São Francisco para afugentar os maus espíritos— dá as boas-vindas aos visitantes da mostra “À Nordeste”, no Sesc 24 de Maio. É como se já anunciasse que o Nordeste ali apresentado não é aquele rural e atrasado marcado no imaginário do país.

Não que o retrato da região concebido por Bitu Cassundé, Clarissa Diniz e Marcelo Campos, os organizadores da mostra, negue de todo a ruralidade. Ao contrário, diz Cassundé, a proposta era reunir o maior e mais diverso conjunto de discursos sobre essa região do país. “Mais do que um panorama, queríamos realizar uma ocupação, uma convivência.”

A convivência, no caso, é entre mais de 300 obras de 160 artistas, uma seleção que vai de nomes consagrados, nordestinos ou não, a artesãos e influencers digitais —nem Romero Britto ficou de fora.

Pinçados, entre outros, de acervos de museus locais e ateliês de artistas durante uma pesquisa de cerca de seis meses pela região, os trabalhos apresentam Nordestes múltiplos, por vezes contraditórios.

Dessa forma, se o fervor católico religioso figura por exemplo no “Manto de Apresentação” do Bispo do Rosário, veste que o artista pretendia usar no Juízo Final, ou na figura de Padre Cícero esculpida na madeira por Mestre Noza, ele ganha uma nova camada de leitura ao avistarmos os retratos de Marcio Vasconcelos de representantes de religiões africanas espalhadas pelo mundo.

Mais do que um simples jogo de teses e antíteses, no entanto, a mostra busca mapear olhares alternativos às convenções sociais e aos rótulos do sistema de arte, afirmam os seus organizadores.

Veio daí, por exemplo, a decisão de incluir na coletiva uma toalha de mesa bordada por Leonilson, um contraponto ao conceitualismo ao qual o cearense é vinculado hoje, ou a de situar criações de artistas afro-brasileiros como Emanoel Araujo não no núcleo “(De)Colonialidade”, mas naquele centrado na linguagem, lado a lado com um quadro cinético de Abraham Palatnik.

“Tivemos muito cuidado com alguns filtros pelos quais o Nordeste passou na história das exposições”, afirma Campos. “Tem uma coisa iconoclasta, de quebrar as imagens.”

O ápice dessa vontade aparece no comissionamento de obras a personalidades das redes sociais, como o coletivo Saquinho de Lixo, que administra uma página de memes no Instagram, ou a pernambucana Alcione Alves.

Famosa por narrar coreografias nas redes sociais com um vocabulário próprio (“zaga”, por exemplo, significa empinar a bunda), Alves criou um vídeo especialmente para a exposição. Nele, dois bailarinos dançam uma coreografia de swingueira no marco zero do Recife, de onde se veem as esculturas de Francisco Brennand.

“Entender que aquilo que a hegemonia enxerga como popular pode ser, na verdade, muito sofisticado e contemporâneo é uma chave transformadora”, afirma Cassundé.

Se esse Nordeste colorido, vibrante em sua diversidade e potência política é o principal saldo de “À Nordeste”, em “Vaivém”, coletiva que o Centro Cultural Banco do Brasil inaugurou na semana passada, a região é vista em uma chave mais cinzenta.

Organizada por Raphael Fonseca e quase com o mesmo número de obras que a mostra do Sesc 24 de Maio, ela se estrutura em torno do curioso tema de redes de dormir. Indissociáveis de uma certa identidade brasileira, os objetos são analisados desde as suas primeiras representações iconográficas —uma delas um mapa francês do início do século 16 em que elas surgem ao lado do que parece ser um ataque canibal— até sua ampla presença na história da arte brasileira.

Uma das principais preocupações de Fonseca foi, no entanto, a de dissociar as redes do Nordeste. Ele argumenta que o fato de os itens serem mais imediatamente ligados à região do que aos povos indígenas, seus inventores originais, é um dos muitos apagamentos que os europeus realizaram em relação à cultura ameríndia durante a colonização.

A solução encontrada por ele foi, então, a de dar protagonismo a produções de alguma maneira ligadas à questão indígena, incluindo o comissionamento de trabalhos inéditos a 32 artistas nativos, a maioria à margem do circuito artístico, como o coletivo huni kuin Mahku, do Acre, ou Dhiani Pa’saro, da etnia wanano, que nunca havia exposto fora do estado do Amazonas.

Além deles, nomes como a fotógrafa Claudia Andujar, conhecida pela defesa dos povos ianomâmi, e artistas contemporâneos completam a seleção.

Embora a presença nordestina atravesse a coletiva, a sala especificamente dedicada à região tem um tom agridoce. Intitulada “Invenções do Nordeste”, o espaço busca desconstruir os clichês de preguiça e languidez que ambos nordestinos e redes de dormir adquiriram, segundo Fonseca, a partir do século 19 no imaginário brasileiro.

Ao escolher peças como as cerâmicas de Mestre Vitalino que retratam o uso do item em rituais fúnebres, fazendo as vezes de caixão, ou uma rede negra recortada, em que sobram apenas os bordados laterais, a mostra propõe uma visão radicalmente diferente daquela da indolência tropical. Mais trágica, é verdade, mas também mais complexa. “Nenhum clichê nasce do nada”, diz Fonseca. “A exposição tem esse esforço de pensar por outro viés.”

A Panorama do Museu de Arte Moderna, importante mostra paulistana do calendário brasileiro, começa em agosto, com o tema sertão.

À Nordeste
Sesc 24 de Maio, r. 24 de Maio, 109. Grátis. Até 25/8

Vaivém
CCBB, r. Álvares Penteado,112. Até 29/7

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Posted by Patricia Canetti at 1:32 PM

Uma Crítica por Bitu Cassundé, Clarissa Diniz e Marcelo Campos, Arte!Brasileiros

Uma Crítica

Resposta de Bitu Cassundé, Clarissa Diniz e Marcelo Campos originalmente publicada na revista Arte!Brasileiros em 1 de julho de 2019.

Bitu Cassundé, Clarissa Diniz e Marcelo Campos escrevem resposta à crítica de Aracy Amaral, publicada na ARTE!Brasileiros 47

A “confessada dificuldade” da crítica Aracy Amaral em encontrar, na exposição À Nordeste, as obras de “Francisco Brennand, João Câmara ou Miguel dos Santos” é compreensível: elas não estão lá. A apontada “relutância [da curadoria] em deixar de lado tudo o que poderia ser selecionado” ou a “ideia de que nada poderia escapar aos curadores” revela, no comentário publicado na edição #47 da ARTE!Brasileiros, os fundamentos de sua própria contradição. Esses três artistas – cuja participação a crítica aparentemente estava tomando por certa – não integram exposição, contrariando seu argumento de que a mostra teria sido inviabilizada por sua suposta não seletividade.

Ao criticar o que seria uma exagerada abrangência da curadoria enquanto se lança a uma desvairada busca pela presença de artistas ausentes, Amaral desvia-se daqueles que efetivamente estão lá e das urgências em torno da inclusão no âmbito da arte e da prática curatorial. Se, historicamente, mulheres, indígenas, negrxs e trans – dentre tantxs – foram marginalizadxs e invisibilizadxs na vida social e na arte, é com dor e indignação que chegamos em 2019 com as mesmas estatísticas, numa incontornável evidência da perpetuação da colonialidade. Nesse contexto, provocar as instâncias que produzem as condições de centralidade e de visibilidade nos parece necessário, donde nosso interesse por flexionar a pergunta que a própria crítica outrora lançou à arte, devolvendo-a como prática autocrítica e, quiçá, disruptiva: curadoria para que? Ou, ainda, para quem?

O comentário de Amaral – que subestima a inteligência do público, ignora “as etapas” da mostra (preferimos a ideia de “núcleos” que, no caso, são oito), como tampouco conferiu a lista dxs artistxs participantes – funda-se, provavelmente, no frustrado desejo de ver atendidas e ilustradas as suas expectativas sobre o Nordeste. Guiada por uma individual e preexistente cartografia dxs artistxs da região (evidentemente constituída ao longo de sua histórica e admirável trajetória), a crítica nem mesmo questionou suas certezas em torno de quem viria a encontrar. Atendo-se a uma espécie de mapa ficcional da exposição, atribuiu ao “labirinto” a responsabilidade pela “dificuldade” em acessar as naturalmente espectrais obras de Brennand, Câmara e dos Santos, despistando-se, assim, da evidência de que os marcos de À Nordeste são outrxs: Elielson Sayara, Marie Carangi, Pêdra Costa, Alcione Alves, Ayrson Heráclito, Saraelton Panamby & Naýra Albuquerque, @Saquinhodelixo, Nhô Cabolco, Goya Lopes, Zé de Chalé, Jota Mombaça, Jarid Arraes, Jayme Fygura, Zahy Guajajara, Mucambo Nuspano, Juliana Notari, Mestra Irineia, Romero Britto, Tertuliana Lustosa, Ana Lira, Gê Viana, Christina Machado, Michelle Mattiuzzi, Tadeu dos Bonecos, Marcelo d’Salete, Ramusyo Brasil, dentre muitxs. Passando ao largo desses marcos, não viu os corpos dançando agachadinhos, o carnaval da insurgência, a faca amolada, teile, zaga, o transe, o quilombo, a boneca, xs corpxs que geram, o kazumba, a cuceta, a moto-carranca, a siririca, a castração, os memes, Exu, Oxum, Solange, Tibira, Yolanda, não ouviu a rádio 97.5 FM nem percebeu que não “está tudo certo”: “quando eu acordei, havia 30 homens em cima de mim”.

Provavelmente sentindo no corpo – disciplinado pela razão pura – a vertigem produzida por À Nordeste em seu projeto de ocupação dos espaços (referência que nos interessa mais do que o paradigma do “display”), Aracy Amaral esquivou-se da análise do que a mostra se propõe a ser, como também parece não ter percebido que ela foi pensada para friccionar os muitos estereótipos projetados sobre o Nordeste. Se a preocupação com a visibilidade das obras é o operador central de seu comentário crítico, o que dizer da invisibilidade dxs corpxs? Há que se sublinhar que, no projeto curatorial proposto, outras visibilidades – sociais, políticas – foram igualmente prioritárias. Se causam desconforto porque convivem assimetricamente no espaço da exposição, o fazem pela preocupação ético-estética de não simular, por meio da arte, existências apaziguadoras, emolduradas, assépticas: neutralizadoras da violência dos mundos e das vidas de seus criadores. Se a performance de Jota Mombaça e colaboradorxs (capa da referida edição da Arte!Brasileiros) ameaça e vinga porque “combinamos de não morrer” (Conceição Evaristo), no âmbito da curadoria, publicizar e sustentar conflitos e divergências é uma forma de combinar de não matar.

Nesse sentido, se na mostra não é possível “localizar” os tão esperados artistas do já cartografado imaginário acerca da região, a negligência de não questionar o porquê dessas ausências só não é maior do que a cegueira crítica que prefere ignorar sua incapacidade de enxergar: olho adestrado para ver somente aquilo que um dia já foi capaz de observar. Se o que se buscava não se mostrou localizável, há ao menos que se suspeitar que ali estão em questão outras trajetórias, outras intenções, outros desejos, outros protagonismos, outras urgências, outrxs artistxs, outros nordestes. Uma crítica que não questione suas próprias expectativas e pressupostos será necessariamente um exercício de normatividade – especialmente quando realizado desde posições historicamente privilegiadas.

É preciso, todavia, sublinhar um ponto que de fato nos aproxima do comentário de Aracy Amaral e com o qual concordamos integralmente: assim como uma curadoria, uma crítica “não é tarefa fácil de ser concebida”.

Bitu Cassundé, Clarissa Diniz e Marcelo Campos são os curadores da exposição À Nordeste, em cartaz no Sesc 24 de Maio. Neste texto, eles respondem à crítica de Aracy Amaral publicada na ARTE!Brasileiros 47.


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Posted by Patricia Canetti at 1:17 PM

Uma Curadoria por Aracy Amaral, Arte!Brasileiros

Uma Curadoria

Crítica de Aracy Amaral originalmente publicada na revista ARTE!Brasileiros 47.

A historiadora e crítica de arte Aracy Amaral escreve sobre a mostra "À Nordeste", em cartaz no Sesc 24 de Maio, criticando o que chama de uma "montagem labiríntica" feita pelos curadores

Uma curadoria não é tarefa fácil de ser concebida. Sobretudo se o número de participantes for extenso, o espaço difícil, e grande a relutância em deixar de lado tudo o que poderia ser selecionado. Em especial quando se enfoca uma exposição como À Nordeste, atualmente no SESC 24 de maio. Região vasta em criatividade, o anseio, percebe-se, foi incluir tudo! Mesmo se com dificuldade de apreensão pelos visitantes daquilo que está exposto. A ideia que passa é que nada deveria poder escapar aos curadores, mesmo se não digerível pelo visitante. Que se sente envolvido num redemoinho que lhe empurra olhos e ouvidos abaixo todas as expressões de criadores nordestinos não distinguindo nenhum em particular. Assim, expressões populares, cordel, pintura figurativa, pintura concreta, arte conceitual, vídeo, em todos os níveis e dimensões envolvem violentamente o visitante. Que se sente física e visualmente tragado pela dificuldade do espaço atravancado em tentar – em vão – privilegiar um ou outro criador com olhar que se perde pela montagem labiríntica que nos é proposta.

O sistema de display acumulativo é preferência de alguns curadores – mas não de todos. E temos dúvidas sobre o acerto desse ponto de vista. A boa visibilidade de uma obra incluída deveria ser uma preocupação. Assim, descobrir subitamente, em meio a uma exposição como esta do Sesc 24 de Maio, os Retirantes de Portinari, da coleção do MASP, é uma surpresa. Assim como ver um pequeno Sérvulo Esmeraldo ao mesmo tempo em que confessamos a dificuldade em localizar Brennand, João Câmara, ou Miguel dos Santos.

E de repente encontramos Montez Magno, entre uma multidão de criadores diversificados inesperados, sem qualquer lógica de apresentação no espaço. O oposto ao didatismo aguardado de exposição que atrai uma multidão de visitantes heterogêneos que mereceriam uma orientação clara para sair com uma noção sobre a expressão artística em região tão extensa e ampla em sua criatividade. Talvez esta mostra se configure antes como não se deve fazer uma exposição (e não poderia ter sido dividida em etapas de acordo com a diversidade de linguagens?). Na verdade, uma curadoria não é tarefa fácil de ser concebida.


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Posted by Patricia Canetti at 1:08 PM