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setembro 23, 2014

Bienal fora do eixo por Paula Alzugaray, Istoé

Bienal fora do eixo

Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na revista Istoé, edição 2337, atualizada em 23 de setembro de 2014.

A segunda maior exibição de arte do planeta abre para o público com obras vindas de fora do circuito tradicional, imbuídas de críticas à indústria da religião, ao racismo e à violência nos países periféricos

31ª Bienal de São Paulo: Como (…) coisas que não existem, Pavilhão Ciccillo Matarazzo, São Paulo, SP - 06/09/2014 a 07/12/2014

A Ilha dos Astronautas Anciãos, a Península das Religiões OVNI, o Mar da Viagem Imaginária e a Trilha Hippie são algumas das regiões cartografadas no “Mapa” desenhado à mão pelo artista chinês Qiu Zhijie na parede da rampa do Pavilhão da Bienal. Esse mapa de cidades fictícias e locais utópicos funciona como um prólogo da 31ª Bienal de São Paulo, dedicada a pensar o papel da arte em um contexto de incertezas políticas, sociais e culturais. “As manifestações de junho de 2013 aconteceram apenas dois meses após recebermos o convite para a curadoria”, diz o espanhol Pablo Lafuente, do coletivo curatorial que assina esta edição do evento, composto por sete profissionais. A equipe trabalhou, portanto, no calor das manifestações que se alastraram por cidades brasileiras e elaborou uma exposição em resposta ao que ouviu. “A Bienal funciona como uma caixa de ressonância, para amplificar a insatisfação das ruas”, diz ele. Para lidar com o estado de transição que as sociedades vivem hoje, o grupo decidiu trabalhar com o que “não existe”. O resultado é a exposição “Como (...) Coisas que Não Existem”, título de formulação variável na qual os verbos são alternados e aplicados de acordo com a vontade do espectador. Leia-se, portanto, “Como Procurar, Reconhecer, Usar, Imaginar, Mapear, Materializar, Acreditar em Coisas que Não Existem”.

A Península das Religiões OVNI talvez não exista, mas a arte produzida em regiões consideradas remotas do planeta, marginais aos grandes centros, como Indonésia, Chipre, Índia, Senegal, Angola, Bolívia, Peru, Turquia, Líbano, Egito, Romênia, Rússia e Bósnia e Herzegovina, existe e está muito bem representada nesta exposição. “Falamos de coisas e lugares que de fato existem, mas que não estão estabelecidos por nossos parâmetros políticos e culturais”, diz a curadora associada Luiza Proença. Já a representação brasileira busca escapar ao eixo Rio–São Paulo e joga um foco de luz sobre a produção do Pará, de Mato Grosso do Sul e do Maranhão.

O trabalho do paraense Éder Oliveira é um exemplo dessa diretriz descentralizadora que orienta a exposição. O artista realizou nos muros de São Paulo e nas paredes da Bienal uma série de pinturas murais que têm como objeto jovens envolvidos em crimes, cujas fotografias são publicadas nas páginas policiais dos jornais. Estigmatização social e discriminação racial são denunciadas pela obra.

O estado transitório é um dos grandes eixos da mostra e aparece na obra da baiana Virginia de Medeiros. A videoinstalação “Sergio e Simone” retrata a transitoriedade de gêneros e a miscigenação religiosa em um só personagem. Simone é um travesti que cuida de um santuário para o culto de orixás e Sergio é um pastor evangélico messiânico. Ambos são a mesma pessoa.

A crítica às indústrias da fé e o crescimento das religiões evangélicas e neopentecostais são o mote do filme “Inferno”, da israelense Yael Bartana. O cenário é a réplica do Templo de Salomão construído em São Paulo pela Igreja Universal do Reino de Deus, e o roteiro imagina seu futuro trágico, repetindo profeticamente a sua destruição, até restar um muro de lamentações. Entre as imagens do filme, há passagens impagáveis, como um fiel de túnica branca andando de skate nas ruas de São Paulo e a especulação turística em torno do culto aos escombros. Os trabalhos do coletivo argentino Etcétera e do cineasta espanhol Val del Omar (1904-1982) também evocam imagens hereges como crítica às relações promíscuas entre a Igreja e as ditaduras e políticas repressivas.

Alternam-se, assim, diversas referências a cultos e armas, proferidas em várias línguas, sugerindo que o mundo todo vive um mesmo estado de incerteza. Outro ponto alto é “Wonderland”, do artista turco Halil Altindere, que adota a linguagem universal do videoclipe de rap para denunciar a perseguição às comunidades de etnia curda e a destruição de assentamentos seculares, no centro de Istambul.

Mas nem só de violência e trevas é feito o vigor imaginativo da 31ª Bienal. O vídeo da dupla Ines Doujak e John Barker (Austria e Inglaterra), por exemplo, é uma lufada de bom humor, trabalhando com música, fantasia, nonsense e surrealismo. Na proposta arquitetônica do andar térreo do edifício, outra mensagem de esperança, em que a curadoria procura passar o recado de que as coisas podem se transformar para melhor.

Intitulado de “Área Parque”, esse espaço teve suas portas abertas para os usuários do Parque do Ibirapuera e será palco de saraus, poesia hip-hop e performances de artistas da periferia. “Gostaríamos de usar o térreo como um espaço que ainda não é da arte, para ser usado por quem ainda não decidiu se se interessa por arte contemporânea. Será um espaço para provocar uma curiosidade e funcionar como uma entrada”, afirma Pablo Lafuente. Embora não possa ser usado como pista de skate, como a marquise, pelo menos é um espaço sem catracas.

Posted by Patricia Canetti at 2:13 PM

Entrevista com Alexandre Allard por Paula Alzugaray, Istoé

"Há pessoas que mudam o mundo. Outras só comem e dormem"

Entrevista por Paula Alzugaray originalmente publicada na revista Istoé, edição 2338, atualizada em 23 de setembro de 2014.

Com um empreendimento turístico e cultural de R$ 1,4 bilhão em São Paulo, empresário francês quer mostrar ao planeta que o Brasil é o país mais criativo de todos

Made by... Feito por Brasileiros, Cidade Matarazzo, São Paulo, SP - 09/09/2014 a 12/10/2014

Alexandre Allard pertence a uma geração de engenheiros financeiros nascidos com as novas tecnologias da informação. Antes de chegar ao Brasil e comprar o antigo Hospital Umberto Primo, para transformar o quarteirão de 27 mil m2 na região da avenida Paulista no “landmark turístico que falta à cidade de São Paulo”, Allard já havia inventado uma startup e promovido a revitalização do palácio Royal Monceau, em Paris. Mas o Cidade Matarazzo é seu mais ambicioso projeto, prevendo um hotel, uma torre comercial e um grande “centro dedicado à criatividade”. Antes de a reforma começar – o processo corre no Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat) há três anos, adaptando-se às exigências de quatro gestões sucessivas – , ele lança seu empreendimento de R$ 1,4 bilhão com uma megaexposição com mais de 100 artistas nacionais e internacionais, a fim de passar sua mensagem: o futuro do Brasil é a criatividade.

Nascido em Washington, criado na França e residente no Rio de Janeiro desde o início do ano, Allard diz ter tido a mesma educação de brasileiros que nunca visitaram uma exposição. “Quando eu tinha 20 anos e as pessoas falavam de arte, eu imaginava um mundo muito chato!” Nesta entrevista, às vésperas de inaugurar a “invasão artística” “Made by...feito por Brasileiros”, ele critica veementemente os colecionadores de arte e diz que seu centro de criatividade vai mudar a visão sobre a maneira de lidar com arte. “Será como um chip colocado em seu cérebro que diz: a criatividade é a única coisa importante no mundo. Seu filho vai levá-lo pela mão e dizer ‘mamy, eu quero ir para o Museu!’ .”

ISTOÉ - Quando vislumbrou a possibilidade de fazer negócios no Brasil?

ALEXANDRE ALLARD - Existe um contexto super-rico. Há grandes coisas acontecendo ao mesmo tempo: a Bienal, a ArtRio, novas aquisições em Inhotim... É uma fase de grande expansão da informação cultural e não sei se as pessoas que convivem com arte vislumbram como fazer negócio a partir de tudo isso. O projeto que estamos criando irá mudar a visão das pessoas sobre a maneira de lidar com arte e o que um desenvolvimento imobiliário significa.

ISTOÉ - Qual seu envolvimento com arte contemporânea? Você é colecionador?

ALEXANDRE ALLARD - Parei completamente. Não comprei uma só peça de arte no último ano e meio. O que tenho feito é financiar exposições. Financiei as de Basquiat e Miró em Versalhes, na França. Vamos supor que você tenha US$ 10 milhões para gastos anuais em arte. Há pessoas que vão comprar de 20 a 30 peças. Em dez anos, você terá 300 peças e um museu. Ou você pode decidir alocar seu dinheiro em exposições. Com US$ 1 milhão ou US$ 2 milhões, você faz uma boa exposição.

ISTOÉ - Seu empreendimento está sendo divulgado como um centro de compras, turismo e cultura. Mas como evitar o modelo dos shopping centers de luxo, em que a arte é um apêndice decorativo?


ALEXANDRE ALLARD - Um projeto dessa magnitude pode ter duas origens possíveis. A primeira é você ser uma pessoa do setor imobiliário, ou que trabalha com luxo, e que tem a necessidade de criar magia. Então, você usa a arte para fazer diferença. Há outro caminho se você tem um projeto de cultura e precisa encontrar sustentabilidade. Eu pertenço a esta categoria. Vi um potencial incrível aqui. São boas ideias, mas como fazê-las sustentáveis? Se eu tivesse parceria com o governo, adquiriria os fundos de isenção fiscal. Nesse caso, teria 200 milhões de brasileiros, cada um dando a cada ano R$ 1 para o meu projeto, porque ele custa exatamente isso: R$ 1 por ano, por brasileiro

ISTOÉ - Você tentou e não conseguiu patrocínio do Banco do Brasil para o para o centro cultural. Sem financiamento público, de onde virão os recursos?

ALEXANDRE ALLARD - É claro que teremos patrocinadores, mas será um negócio sustentável. Tampouco terá um modelo de negócio como o de Bernard Arnaud (presidente e diretor-executivo da LVMH) e de François Pinault (diretor-executivo da Kering, conglomerado que reúne grifes como Gucci e Yves St. Laurent): “Sou tão rico que vou criar isso e, quando eu morrer, a fundação vai dar dinheiro para isso. Mas esse será um problema dos meus filhos”. Fantástico legado, mas ninguém sabe o que eles vão fazer com o Palazzo Grassi (que hospeda a Fundação François Pinault, em Veneza) daqui a dez anos. E a Fundação Vuitton é um grande buraco, porque, se o grupo LVMH for fragmentado, não se sabe quem vai pagar aquilo. Como não posso assinar um cheque de US$ 1 milhão por ano, tenho que encontrar uma maneira de levantar o dinheiro para pagar o sonho. Esta é uma novíssima categoria de financiamento. A cultura tem sido, em muitos países, um investimento estratégico do governo. Mas as pessoas estão se dando conta de que este não é um modelo sustentável e deriva em uma abordagem caricatural da arte. Porque a arte governamental não é arte. Na França, eles mataram completamente toda uma geração de artistas.

ISTOÉ - Seu projeto também fala em “exportação” da criatividade brasileira. Como pensa em fazer isso?

ALEXANDRE ALLARD - Você sabe quem é o colaborador número 1 do balanço de pagamentos na França? O turismo. Nada pode alcançar o turismo. A melhor maneira de exportar é fazer com que os estrangeiros comprem de você onde você estiver. O povo brasileiro é o exemplo perfeito. As despesas dos brasileiros em luxo são divididas em 1% no Brasil e 99% fora. O Brasil tem potencial de exportar seus produtos, mas antes tem de vender seus produtos aqui, para as pessoas que vêm. Havia 12 milhões de turistas, há dois anos, em São Paulo, agora há 14 milhões. E não há nenhum lugar onde você pode comprar coisas incríveis brasileiras. Conheço pessoas talentosas no Brasil que não vendem, porque não têm uma chance. A ideia é: vamos criar um lugar sobre a cultura brasileira.

ISTOÉ - Que não venderá Gucci nem Chanel?

ALEXANDRE ALLARD - Não vou criar um mercado livre. Não vou vender só feijoada. Nós temos que ter equilíbrio, mas tudo que você vai encontrar aqui envolve a cultura brasileira. A primeira coisa é o edifício histórico, que é uma obra-prima da história desta cidade e, então, você terá o conteúdo que cobre todo um espectro cultural, da gastronomia à dança, passando por arquitetura, design e arte. Teremos um estúdio de música para promover a música brasileira, além de artesãos da Bahia, do Recife, de Mato Grosso, do Sul, selecionados por diferentes comitês. O centro de criatividade terá um conselho consultivo com pessoas que vêm da arte, da ciência, da moda, do design, etc. Não faço nenhuma diferença entre Leonardo da Vinci, Mozart, Jimi Hendrix, Einstein, Basquiat, Yves Saint Laurent ou o cara que inventou o iPhone, Steve Jobs. Todos eles pertencem à tribo criativa. Pertencem a um só grupo de pessoas que acreditam em suas ideias e as defendem até o último milímetro. Essas pessoas mudam o mundo. As outras só comem e dormem.

ISTOÉ - Como define a criatividade?

ALEXANDRE ALLARD - A criatividade vem com a liberdade e com a ausência de complexo sobre o seu passado. Você é criativo quando está bem colocado sobre seus pés, usando suas raízes e sua história e seu contexto. Uma criação sem essa noção está fadada ao fracasso – que é o caso de muitos designers no Brasil. O artista brasileiro que tenta ser Jackson Pollock não tem nenhuma chance. Mas um artista brasileiro que começa a falar sobre a história do Brasil e o designer que diz “eu sou totalmente brasileiro” estão fazendo economia criativa. O futuro da economia criativa reside nas raízes de seu próprio país. Primeiro você acredita no seu passado – e não acha que ele é cafona ou estúpido – e então você irá construir o futuro.

ISTOÉ - A exposição inaugural tem 30% de artistas estrangeiros. Por que é intitulada “Made by... Feito por Brasileiros”?

ALEXANDRE ALLARD - Dom Pedro é português, Matarazzo é italiano. Esses caras fizeram este País. Sinto muito, mas até sua bandeira foi feita por um francês. O Brasil tem valor graças às pessoas que vieram aqui para fazer o Brasil. O que faz os maiores centros de cultura do mundo? Sua capacidade de atrair talentos estrangeiros. O Vale do Silício, nos EUA, é o vale do Silício porque tem 25% de indianos, 9% de chineses, 6% de franceses. O futuro do Brasil é trazer os melhores caras de todo o mundo. Isso vai criar empregos para os brasileiros. Este projeto quer, em primeiro lugar, fazer os brasileiros entenderem que a história é um bem de valor inestimável, a partir da qual podem construir. Há oito bilhões de pessoas neste mundo que acreditam que o Brasil é uma cultura de valor inestimável.

ISTOÉ - Esse é o motivo pelo qual seu projeto imobiliário tem arquitetura de Jean Nouvel e direção artística de Philippe Starck e não de criadores brasileiros?

ALEXANDRE ALLARD - Não há criatividade se você não tem respeito por suas raízes. Uma vez que as pessoas tenham orgulho de suas raízes, vão entender que a melhor maneira de ser criativo é convidar as pessoas mais criativas do mundo. Ninguém aqui entende isso. O mais importante criativo que trabalhou no meu país, Leonardo da Vinci, há 500 anos, é italiano. Convidado por Francisco I. Depois, Picasso, Miró, Kandinsky, mas antes Modigliani. Nenhum desses caras tem a ver com a França. E eles fizeram a França. O Brasil será feito pelas pessoas que convidar

ISTOÉ - Por que prefere criatividade à arte?

ALEXANDRE ALLARD - A arte perdeu completamente seu valor e fico pensando se não é um novo “golden ville”.

ISTOÉ - Então você não concorda que a arte seja atrelada às leis de mercado?

ALEXANDRE ALLARD - No Brasil, além de dois ou três caras, que inclui Bernardo Paz (empresário siderúrgico, um dos maiores colecionadores do País e idealizador do Instituto Inhotim, em MG), todos os outros estão na arte por dinheiro. Fora as pessoas do governo, trabalhando com o dinheiro do contribuinte, todas as pessoas envolvidas com arte aqui só pensam em dinheiro. Tentei envolver todos os grandes colecionadores nesta exposição e a única coisa em que eles estão interessados é o dinheiro. No Brasil, a arte é um ativo anti-inflação. Aqui as pessoas não sabem o que fazer para manter o seu dinheiro, estão sempre com medo de alguém vir e levá-lo. Então, uma maneira de mantê-lo é o setor imobiliário – as pessoas são loucas por especulação imobiliária aqui e agora descobriram a arte. Elas compram arte. Mas só pensam por quanto a obra foi comprada e quanto ela vale hoje. A melhor maneira de progredir é aceitar a verdade. A verdade é que o Brasil é provavelmente o país mais criativo do mundo hoje, tem uma criatividade altamente contagiante e está lidando com assuntos interessantes. Mas se você quer saber o que a arte no Brasil é hoje, é um banco. Arte e criatividade são coisas muito diferentes. Criatividade é útil e muda a vida das pessoas e arte é algo que você coloca na parede e vende daqui a dez anos pra comprar uma pintura melhor.

Posted by Patricia Canetti at 1:29 PM

Crítica: Mostra parece só disfarçar projeto imobiliário por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo

Mostra parece só disfarçar projeto imobiliário

Crítica de Fabio Cypriano originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 9 de setembro de 2014.

Contexto muda impressão sobre 'Made by... Feito por Brasileiros', que num primeiro olhar aparenta ser sensacional

NÃO É A TOA QUE NOMES ANTES ANUNCIADOS, COMO CILDO MEIRELES, NÃO ESTEJAM NA EXPOSIÇÃO. AFINAL, O CONTEXTO DE UMA MOSTRA VAI MUITO ALÉM DAS PAREDES ONDE ELA OCORRE

Made by... Feito por Brasileiros, Cidade Matarazzo, São Paulo, SP - 09/09/2014 a 12/10/2014

"Made by...Feito por Brasileiros" é desses projetos que, em um primeiro olhar, parecem sensacionais, mas com um olhar mais atento acabam merecendo desconfiança. Então, quanto mais se procura entender, mais estranho ele fica e, no final, pouco sobra da primeira impressão.

A ver: a exposição "Made by...Feito por Brasileiros" reúne cem artistas estrangeiros e brasileiros, que ocupam o antigo Hospital Umberto 1º, há 20 anos desocupado. A exceção, aliás, foi quando o Teatro da Vertigem encenou lá "O Livro de Jó", em 1995, um dos pontos altas da dramaturgia brasileira.

O lugar em si é fantástico: um complexo de edifícios com 27 mil m², que começou a ser construído em 1904 e terminou em 1973. Seu estado deteriorado em ruínas lembra "Asylum", a segunda temporada da série American Horror Story.

É preciso reconhecer que fica difícil a arte competir com um cenário desses, e as obras que se destacam são aquelas que reforçam esse caráter teatral. É o caso, por exemplo, das instalações de Artur Lescher, que faz chover em um dos ambientes, ou de Laura Vinci e José Miguel Wisnik, que provocam um redemoinho de papéis em outro.

Contudo, e aí começa o estranho, a mostra, com direção artística de Marc Pottier, se revela sem eixo curatorial, como se a ocupação em si fosse suficiente. Não é.

Pior, ela parece disfarçar o lançamento de um empreendimento imobiliário, a Cidade Matarazzo, que deve conter, entre outros projetos, um hotel de luxo. Junto, é lançado um livro ambicioso, com 1.200 páginas, que faz um mapeamento da cena de arte brasileira, e, não por acaso, já foi lançado na China e Índia, outros dos BRICs, acrônimo dos principais países de economia emergente. Ou seja, a arte parece aí o embrulho para um outro pacote.

Contudo, tudo isso até seria compreensível se o financiamento dessa festa viesse do empresário Alexandre Allard, o idealizador do projeto. No entanto, a mostra teve aprovados para captação nada menos que R$ 12,6 milhões via Lei Rouanet. Até agora, captou R$ 3,2 milhões.

Não é toa que nomes previamente anunciados, como Cildo Meireles, não estão na exposição. Afinal, o contexto de uma mostra vai muito além das paredes onde ela ocorre.

Posted by Patricia Canetti at 1:23 PM

Empresário que comprou hospital Matarazzo fala sobre centro cultural por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Empresário que comprou hospital Matarazzo fala sobre centro cultural

Matéria de Silas Martí originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 9 de setembro de 2014.

Made by... Feito por Brasileiros, Cidade Matarazzo, São Paulo, SP - 09/09/2014 a 12/10/2014

Em seu escritório no segundo andar de um sobrado em São Paulo, em frente ao antigo hospital Matarazzo, o empresário francês Alexandre Allard mostra uma pulseira que ganhou de índios do Acre.

"Quero vender isso aqui por R$ 1.000", sorri. "Isso vai comprar a liberdade desses índios, alimentar a aldeia inteira."

Na visão de Allard, 45, o homem que comprou o antigo conjunto de prédios onde funcionou o hospital Umberto 1º até os anos 1990, a "cultura é um investimento" e "criatividade pode ser vendida", tanto que ele quer transformar o lugar num shopping, centro cultural e hotel de luxo.

Essa ideia de cultura como motor do capitalismo parece orientar a mostra que Allard exibiu a convidados na semana passada e que será aberta ao público nesta terça, espalhando obras de arte pelas velhas alas do hospital.

Na antiga lavanderia, Artur Lescher criou um trabalho que faz chover dentro do espaço. Há outras salas cheias de raios laser e fumaça, além de bichos de tecido gigantescos da portuguesa Joana Vasconcelos.

É uma combinação de artistas famosos e trabalhos feitos para causar espanto, na tentativa de devolver a vida a um conjunto de prédios que ficou fechado por duas décadas.

Financiada em parte com recursos incentivados –cerca de R$ 3,2 milhões dos R$ 15 milhões que Allard diz ter gastado–, a exposição despertou protestos de artistas, que a viram como truque publicitário para legitimar um shopping.

"É uma exposição feita com dinheiro público para validar um projeto imobiliário", diz Maurício Ianês, artista que desistiu de participar da mostra.

Cildo Meireles, que também declinou o convite de Allard, disse que "se soubesse que seria um projeto imobiliário, teria feito mais perguntas".

"Estamos gastando dinheiro, investindo numa assinatura poderosa, mas não fazemos isso para vender nada", diz Eduardo Machado, diretor do grupo Allard no Brasil. "É uma exposição mecenas. Claro que ela tem a ver com nossas pretensões, mas não queremos vincular uma coisa à outra."

No caso, a exposição é só a ponta mais visível de um investimento de R$ 1,4 bilhão, que envolve a construção de um hotel de 20 andares desenhado pelo francês Jean Nouvel e uma loja de departamentos, que venderá de artesanato indígena a biquínis de grife, gerando renda estimada de R$ 1,6 bilhão ao ano.

Mas a construção disso tudo ainda precisa ser aprovada. A pedra no sapato de Allard é que o hospital Matarazzo é tombado como patrimônio histórico e qualquer intervenção ali tem de passar pelo crivo do poder público.

Desde que comprou o terreno por R$ 117 milhões há três anos, o empresário tenta liberar o projeto. Em fevereiro deste ano, o Condephaat, órgão estadual de defesa do patrimônio, mudou o tombamento do conjunto, permitindo a demolição de um dos edifícios para erguer a torre de Allard.

"Tivemos de criar uma máquina gigantesca para fazer dialogar vários grupos com visões distintas", conta o empresário. "Mas todo mundo que passa tempo com a gente acaba apoiando. Quanto mais você investiga essa história, mais se apaixona por ela."

SENHOR MUITO LEGAL

De fato, Allard é sedutor. Nádia Somekh, presidente do Conpresp, órgão municipal de defesa do patrimônio, que também mudou suas restrições a intervenções no hospital, comprou logo a sua ideia.

"Esse senhor é muito legal", diz Somekh, falando sobre Allard. "Ele quer valorizar a arte brasileira. Nós não somos vendidos aos interesses imobiliários. Se isso pode trazer geração de riqueza, é do interesse da cidade."

Mas nem todo mundo concorda. Embora elogie o projeto de restauro sugerido por Allard, o historiador Francisco Alambert, ex-integrante do Condephaat, critica o uso da exposição para promover um shopping. "É uma espécie de Cirque du Soleil do mercado imobiliário", afirma. "O dinheiro público financia um evento de interesse privado, que só usa a arte contemporânea como um espetáculo."

Na espetacular festa de abertura da mostra, aliás, não faltaram celebridades. Gilberto Gil, Luciano Huck, Angélica, Letícia Spiller e Reynaldo Giannecchini deram as caras.

Carlinhos Brown, acompanhado pelo artista Vik Muniz no reco-reco, fez até um show intimista na antiga lavanderia, enquanto VIPs disputavam tacinhas de espumante.

Artistas plásticos, mesmo os que levantaram a voz contra o projeto, também foram à balada. "Não podemos achar que há algum lugar puro, virgem para expor", diz Nino Cais, que está na mostra. "Não vou ficar lá fora imaginando o que acontece aqui dentro."

Mas muito além das "dezenas de milhões de dólares" em arte contemporânea que adornam as alas do hospital, Allard pensa no show business como aliado de seu projeto e fala em criar um "centro de criatividade" no shopping.

Depois que o Banco do Brasil desistiu de instalar uma nova sede de seu centro cultural paulistano no complexo de Allard, por considerar a ideia "desvantajosa", o empresário quer criar estúdios de música e cinema que serão alugados.

"Não estamos aqui para pendurar telas nas paredes", diz Allard. "Se você quer que o Emicida trabalhe com o Kanye West, vai ser aqui. Mas se isso vai custar R$ 12 milhões, preciso ganhar dinheiro."

Nesse ponto, Allard se compara aos Médici em seu apoio a Michelangelo na Renascença. "Não inventei nada", diz. "A verdade é que cultura é investimento e precisa gerar retorno, mas não vejo brasileiros vendendo cultura, transformando isso em business."

CRONOLOGIA

1904
Começa construção do complexo hospitalar; novos pavilhões foram sendo erguidos até os anos 1970

1993
Hospital vai à falência e é vendido para a Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil

2007
Grupo Allard faz primeira oferta pelo terreno e seus imóveis, mas donos recusam proposta

2011
Terreno é vendido ao grupo francês por R$ 117 milhões após acordo com moradores e governo

2013
Condephaat, órgão estadual de defesa do patrimônio, faz audiência para alterar tombamento

2014
Governo muda tombamento de 1986, permitindo demolição de um prédio e construção de uma torre

Posted by Patricia Canetti at 1:15 PM

Mostra tem 100 artistas nas ruínas de um prédio erguido por Matarazzo por Antonio Gonçalves Filho, Estado de S. Paulo

Mostra tem 100 artistas nas ruínas de um prédio erguido por Matarazzo

Matéria de Antonio Gonçalves Filho originalmente publicada no jornal Estado de S. Paulo em 3 de setembro de 2014.

'Made by...Feito por Brasileiros' será aberta em 9 de setembro

Made by... Feito por Brasileiros, Cidade Matarazzo, São Paulo, SP - 09/09/2014 a 12/10/2014

Nascido em Washington há 45 anos, o empresário de origem francesa Alexandre Allard criou um império ligado às tecnologias de comunicação e marketing, fundando há 19 anos o Consodata, maior banco de dados comportamental do mundo.

Há 14 anos, Allard, já milionário, decidiu se dedicar às suas duas grandes paixões: arte e arquitetura. Seu grupo investiu pesado para salvar a revista L'Architeture d'Aujourd’hui e dar uma nova destinação para o hotel Royal Monceau, sinônimo do luxo parisiense. Atualmente empenhado em restaurar o antigo Hospital Matarazzo perto da Avenida Paulista, que vai se transformar num misto de centro de criatividade, hotel de luxo (assinado por Jean Nouvel) e complexo de lazer, Allard resolveu abrir para o público os prédios abandonados (desde 1993) que seu grupo comprou - e deve entregar renovados à cidade em 2018. Ele empenhou mais de R$ 1 milhão na montagem de uma exposição temporária, Made by...Feito por Brasileiros, que será aberta na sexta para 800 convidados (e a partir do dia 9 para o público).

É apenas a milésima parte do valor que o grupo Allard vai investir na recuperação dos 35 mil m² de área construída no quadrilátero formado entre a Alameda Rio Claro e as ruas São Carlos do Pinhal, Itapeva e Pamplona: R$ 1,2 bilhão, segundo os cálculos do animado Alexandre. Fascinado pelo Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, lançado em 1928, o empresário faz o caminho inverso proposto pelo escritor, que, baseado nas ideias dos surrealistas franceses, propôs a deglutição do legado cultural europeu para construir uma arte brasileira canibal. "Não há evolução sem confronto", sentencia Allard, propondo um 'takeover' reverso, a apropriação da cultura de raiz afro-ameríndia ao organizar a exposição Made By... Feito por Brasileiros.

A mostra, ambiciosa, reúne 100 artistas (50 brasileiros e 50 estrangeiros), que vão ocupar todos os prédios da Cidade Matarazzo - nome do complexo. Ela abriga nomes consagrados, como os brasileiros Tunga e Nuno Ramos e o grafiteiro norte-americano Kenny Scharf, além de artistas emergentes, como Sofia Borges e Nino Cais, além de coletivos como os nativos da tribo warli, da Índia, passando por criadores polêmicos como a portuguesa Joana Vasconcelos, que se viu catapultada à condição de superstar ao apresentar um lustre de cristal com absorventes higiênicos na Bienal de Veneza de 2005 (exposto na mostra Ciclo, em cartaz no CCBB). No Hospital Matarazzo, ela exibe um piano revestido de bordados.

A intenção do trio de curadores responsável pela mostra - os franceses Marc Pottier e Pascal Pique e o canadense Simon Watson - não é, porém, a de causar polêmica. Eles querem integrar esses artistas à comunidade imaginada por Allard como alternativa à uniformização cultural ditada pela globalização. "Estou convencido de que grandes ideias e novos conceitos artísticos, aliados ao respeito pelo passado, podem revitalizar espaços como o do hospital Matarazzo", justifica Allard, que, "fascinado pela imaginação dos brasileiros", fixou residência no País.

A criatividade do Norte, diz ele, está ligada à tecnologia. Abaixo do Equador estão os visionários, os artistas, que, segundo o empresário, são os profetas da nova era, o que o fez apostar na criação de um centro de criatividade na Cidade Matarazzo. “O mundo contemporâneo é dominado pelo virtual, há uma desmaterialização em curso e essa exposição é uma maneira de mudar o paradigma”, analisa. “São Paulo tem de se reinventar”, conclui. Allard argumenta que a França trata seus monumentos históricos com naftalina, o que o fez trocar Paris por São Paulo, instalando aqui seu laboratório arquitetônico e artístico. Já enfrentou quatro diretores do Condephaat para aprovar seu projeto de restauração do Hospital Matarazzo, mas falta pouco para a aprovação, garante.

Entre os projetos dos curadores da mostra, um, em especial, vai servir de plataforma para a divulgação de seu projeto, o Labcidade. Quatro artistas e uma equipe de apoio vão produzir intervenções digitais em um contêiner que funcionará como estúdio de filmagens, coletando depoimentos dos paulistanos sobre o antigo hospital, cujos prédios, hoje ruínas urbanas, Allard promete transformar em ponto de referência turística e artística.

Alguns dos projetos apresentados na exposição têm, por via transversa, uma relação analógica com o sofrimento dos pacientes que passaram pelo hospital. Os autorretratos da americana Francesca Woodman (1958- 1981), que se matou aos 22 anos, são metáforas poderosas do desamparo e da solidão, ao fundir corpos femininos ao ambiente, característica marcante de suas fotos. Alguns dos artistas brasileiros convidados metaforizaram igualmente essa dor, como Lia Chaia, que usou, na intervenção Transfusão, cabos e fios vermelhos que saem dos encanamentos do Matarazzo como sangue das veias. Henrique Oliveira usa uma cama do hospital como base de sua escultura feita de compensado e revestida com gaze. Nino Cais mostra sua visão particular da Anunciação e da maternidade, substituindo o sexo feminino por figos.

Abrindo a mostra domina o hall um trabalho da artista mineira Lygia Clark (1920-1988), Baba Antropofágica (1973), cuja relação íntima com os fluidos corporais a levou a conceber uma festa dionisíaca em que fios de linha fazem o papel de uma baba que une os participantes - como o vinho das festas bacantes. A baba é antropofágica por consumir quem participa desse encontro orgiástico e ser consumida como a saliva que mantém o corpo vivo. O culto a Baco não termina por aí.

O grafiteiro Kenny Scharf decorou sua sala com restos do carnaval paulista, num ato canibal de apropriação da maior festa popular do Brasil. Naturalmente, a instalação mais parece a decoração de um trem fantasma, o que combina com as ruínas dos filmes da Hammer em que se transformou o hospital , a tal ponto que convidaram até Zé do Caixão para compor o ambiente. Inspirada nesse cenário, a artista Dora Longo Bahia revisita em sua obra o filme O Iluminado, de Stanley Kubrick: nela, dois triciclos estão à disposição de crianças corajosas para rodar nos escuros corredores da Cidade Matarazzo.

Posted by Patricia Canetti at 1:08 PM

setembro 10, 2014

Crítica: Bienal de São Paulo apresenta um tom político raro no Brasil por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo

Bienal de São Paulo apresenta um tom político raro no Brasil

Crítica de Fabio Cypriano originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 6 de setembro de 2014.

31ª Bienal de São Paulo: Como (…) coisas que não existem, Pavilhão Ciccillo Matarazzo, São Paulo, SP - 06/09/2014 a 07/12/2014

Obras da exposição recorrem à ironia e ao humor para falar de temas sérios

A MOSTRA FAZ A MELHOR OCUPAÇÃO DO PAVILHÃO DA BIENAL JÁ REALIZADA NOS ÚLTIMOS ANOS, DANDO NÃO SÓ AMPLO ESPAÇO ÀS OBRAS, MAS CRIANDO LUGARES DE CONVIVÊNCIA

Não parece coincidência que a 31ª Bienal de São Paulo tenha tantas obras sobre religiosidade e, em particular, sobre evangélicos, no momento em que o Brasil pode vir a ter uma presidente evangélica.

De fato, há uma temperatura jornalística na exposição, organizada por um time de curadores estrangeiros, Charles Esche, Galit Eilat, Nuria Enguita Mayo, Oren Sagiv e Pablo Lafuente, que se preocuparam em falar do contexto onde a Bienal ocorre.

Talvez por isso, a exposição tenha tantos vídeos, afinal é a mídia que mais pode se aproximar do caráter documental, embora demande tempo, o que nem todo visitante está disposto a gastar. Mas deveria.

Nesse sentido, o coração da Bienal se torna o "Video Trans Americas", um mapeamento da América Latina em vídeo, feito pelo chileno Juan Downey (1940-1993), entre 1973 e 1979.

Radicado em Nova York, em busca de suas raízes, Downey decidiu atravessar todo o continente, durante esses seis anos, registrando de grupos urbanos a povos da selva, mas sempre buscando projetar as imagens nesses locais, instaurando uma ética de troca.

PANFLETÁRIO

Esses procedimentos, do registro e da troca, de certa forma atravessam a mostra, às vezes em obras com caráter didático, às vezes até panfletário, mas que se sustentam em um tom político raro em terras brasileiras, especialmente após a 30ª Bienal, que evitou qualquer possibilidade de conflito.

Um dos trabalhos exemplares nesse sentido é "Apelo", um vídeo de Clara Ianni realizado em parceria com Débora Maria da Silva, mãe de uma vítima das ações de esquadrões da morte, em São Paulo, em 2004.

Gravado no cemitério Dom Bosco, em Perus, criado em 1971 para receber corpos das vítimas do regime militar, "Apelo" aponta que a truculência sofrida pela classe média naquele período não foi alterada na periferia nos dias atuais.

Menos contundente, mas mais complexo, a videoinstalação "Contando as Estrelas", da israelense Nurit Sharett, constrói-se por um mosaico de depoimentos dos chamados "anussim", cristão novos descendentes dos judeus que foram forçados a se converter ao catolicismo no período da Inquisição no Brasil.

Nesse trabalho, Sharett revela os traumas surgidos em decorrência da violência da Igreja Católica no período colonial, a partir de histórias atuais, novamente unindo passado e presente na mostra em São Paulo.

Contudo, é importante salientar, não se trata apenas de uma reunião de obras engajadas.

OCUPAÇÃO

A mostra faz a melhor ocupação do pavilhão da Bienal já realizada nos últimos anos, dando não só amplo espaço às obras, mas criando lugares de convivência.

Isso ocorre tanto no térreo, área aberta e mais voltada a ações propostas pelos curadores, quanto no primeiro andar, onde conjuntos de sofás estão dispostos para encontros mais íntimos.

Com isso, a organização do espaço expositivo coincide com a maneira de trabalho dos curadores na elaboração mostra, que se baseou em encontros por diversas cidade do país.

Assim, o dispositivo expositivo funciona como uma metalinguagem do processo do elaboração da Bienal.

Finalmente, para uma exposição com caráter tão politizado, muitas das obras recorrem à ironia e ao humor para tratar de temas sérios. É o caso do coletivo argentino Etcétera em parceria com León Ferrari, que pede em uma petição ao papa o fim do inferno, ou da curadoria "Deus é Bicha", organizada pelo peruano Miguel López.

"Como falar de coisas que não existem", um dos títulos dessa edição do evento, ele mesmo já é uma ironia. Afinal, poucas foram as Bienais que conseguiram de forma tão urgente e radical falar de coisas que existem.

Posted by Patricia Canetti at 2:52 PM

Crítica: Bienal de Arte de São Paulo - A arte da reflexão por Daniela Labra, O Globo

Bienal de Arte de São Paulo - A arte da reflexão

Crítica de Daniela Labra originalmente publicada no jornal O Globo em 7 de setembro de 2014.

Ideias e ativismo assumem papel de protagonistas na mostra, em lugar de um painel de obras contemporâneas

31ª Bienal de São Paulo: Como (…) coisas que não existem, Pavilhão Ciccillo Matarazzo, São Paulo, SP - 06/09/2014 a 07/12/2014

SÃO PAULO - A recém-inaugurada 31ª Bienal de São Paulo propõe um formato novo, de caráter eminentemente político, com muitos elementos para instigar e incomodar os visitantes. Tendo pela primeira vez uma equipe curatorial formada por estrangeiros, a mostra traz 81 projetos de mais de 100 artistas de 34 nacionalidades, em programa idealizado pela equipe do curador Charles Esche. A mostra fica em cartaz até o dia 7 de dezembro.

Ao entrarmos no Pavilhão da Bienal vemos algumas instalações resultantes de processos colaborativos entre coletivos de artistas e ativistas, e uma estrutura para receber atividades como debates, performances e shows artísticos e de movimentos socioculturais. No andar térreo, os trabalhos se colocam de modo esparso, e alguns se postam como pontos de leitura e pesquisa sobre ações ativistas e situações de convulsão social. Como aponta a curadoria, esta exposição não se funda em objetos, mas em pessoas que trabalham com outras, colaborativamente, e pode ser compreendida mais como um processo aberto a indagações, ações, reflexões críticas e políticas pela arte do que um panorama artístico internacional. Por sua vez, seu título acompanha essa premissa, sendo também um jogo aberto a possibilidades poéticas e reflexivas. Como (...) coisas que não existem, traz parênteses que podem ser preenchidos por muitos verbos: ver, falar, procurar, celebrar, e invoca a potência da arte e sua habilidade de influenciar a vida, o poder e credos.

A maioria dos projetos expostos, muitos realizados para a ocasião, aborda assuntos políticos, religiosos, sexuais, ecológicos, educativos, indicando que as tais "coisas que não existem" são situações da vida cotidiana palpitantes mas invisibilizadas por sistemas e culturas de exclusão e preconceito. Os curadores defendem uma Bienal sobre o estado de "virada" do mundo contemporâneo, onde é necessário se afastar dos estabelecidos parâmetros da modernidade, o que vem a ser um discussão bem europeia. Ancorada nessa ideia, a proposta curatorial minimiza os "critérios estéticos do modernismo" e parece também minimizar a modernidade brasileira, cuja história se afastou dos parâmetros estabelecidos pelo pensamento europeu assim que nasceu no espaço social.

Essa busca por outros critérios, menos estéticos, talvez justifique a boa quantidade de trabalhos políticos mas pouco interessantes do ponto de vista plástico-visual, e outros que são muito literais no seu ativismo e exageram na composição de instalações cenográficas. Além disso, há instalações estranhamente ruins, que na verdade funcionam apenas quando ativadas por performances, como é o caso de Espacio para Abortar, do coletivo boliviano Mujeres Creando.

Como em outras edições recentes, a 31ª Bienal tem atividades que ocorrem no interior do pavilhão e intervenções espalhadas no Parque do Ibirapuera. Não há artistas estelares, e os históricos são poucos, mas entre eles se destaca a poética sala do polonês Edward Krasinki (1925-2004), e os filmes do espanhol Val del Omar, filmados na ditadura franquista, nos anos 1950. Entre as obras recentes, chama a atenção a sala Dios Es Marica, organizada por Miguel Angel Lopez, com trabalhos queer dos anos 1970-80, de artistas ibero-americanos. Um dos trabalhos mais impactantes é "Inferno", filme de ar épico da israelense Yael Bartana que critica as estratégias da indústria da fé na disputa por poder. Também é destaque a videoinstalação em multicanais do coletivo russo Chto Delat.

Os curadores replicam temáticas na moda nos países centrais, e conseguem se manter algo isentos das influências do mercado de arte que guia o movimento da internacionalização da arte brasileira nos últimos anos. Assim, há a integração de artistas desconhecidos no Sudeste, com visualidades em princípio pouco comerciais, como é o caso do paraense Éder Oliveira, que pintou um mural no Pavilhão com retratos de criminosos, tal como realiza nas ruas de Belém. A diversidade das nacionalidades da equipe deu um aspecto multicultural bastante apropriado, e permitiu com que obras políticas de distintos contextos sejam apresentadas.

Charles Esche é um nome conhecido na cena internacional atual e se destaca por desenvolver projetos que problematizam formatos engessados. Nesse sentido, sua Bienal questiona o modelo das bienais mais tradicionais em um mundo tomado pelo modelo excludente do capitalismo. Ainda assim, como qualquer ator influente no sistema da arte, não escapa da contradição de apontar as mazelas da sociedade contemporânea, consumista e elitista, enquanto recebe o patrocínio do banco privado mais lucrativo do país, cujo texto institucional na exposição afirma que é bom investir em cultura por que #issomudaomundo.

Posted by Patricia Canetti at 2:48 PM

setembro 1, 2014

Bienal retrata mundo em violenta mutação a partir do olhar de excluídos por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Bienal retrata mundo em violenta mutação a partir do olhar de excluídos

Matéria de Silas Martí originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 1 de setembro de 2014.

31ª Bienal de São Paulo: Como (…) coisas que não existem, Pavilhão Ciccillo Matarazzo, São Paulo, SP - 06/09/2014 a 07/12/2014

Nas vidraças do pavilhão da Bienal de São Paulo, estão desenhos como o de um manifestante que enfrenta um policial com um coquetel molotov. Também está escrito que Ferguson, a cidade americana que entrou em convulsão com o assassinato recente de um jovem rapaz negro, é ela também toda negra.

Sentado ao lado da caixa de canetões que usou para fazer o trabalho abre-alas da mostra que começa nesta semana, o romeno Dan Perjovschi diz que seu projeto é uma "mistura de tudo que acontece no momento, com elementos da sociedade em geral".

E que ele nunca planeja nada -a obra surge dos jornais que lê e dos noticiários da TV.

VER IMAGENS NA MATÉRIA DA FOLHA

"É o momento atual no Brasil e em muitas partes do mundo", diz o britânico Charles Esche, curador da 31ª Bienal de São Paulo. "O que me interessa são artistas que estão olhando para o que acontece agora, não os que pesquisam a história da arte."

REPÚBLICA CURATORIAL

De fato, quando Esche e os demais curadores da mostra -os israelenses Galit Eilat e Oren Sagiv e os espanhóis Pablo Lafuente e Nuria Enguita Mayo- toparam formar uma espécie de república e dividir uma casa em São Paulo, desde maio do ano passado, já pensavam em criar algo com o calor do momento atual.

Só não esperavam que tal momento fosse tão quente -dos protestos de junho de 2013 à reviravolta nas eleições brasileiras, com a morte de um candidato, passando pelos tumultos na Copa do Mundo e os conflitos mais recentes na faixa de Gaza.

Essa guerra, aliás, turbinou o protesto de 55 dos 86 artistas da mostra, que lançaram um manifesto na última quinta-feira pedindo que a Fundação Bienal devolva o patrocínio que recebeu de Israel -cerca de R$ 90 mil do orçamento de R$ 24 milhões.

Um dia antes da revolta no pavilhão, orquestrada em clima de centro acadêmico com intermináveis assembleias entre os artistas, Esche já dizia ter certeza de que "haveria escândalos".

ABORTO E TRAVESTIS

Outro bafafá que estourou antes mesmo do início da mostra envolveu o filme da artista israelense Yael Bartana, que simula a destruição do novo megatemplo da Igreja Universal em São Paulo.

Essa obra, ainda inédita no país, foi alvo de denúncia ao Ministério Público por incitar o preconceito religioso, mas o órgão arquivou o caso.

E não deve mesmo faltar polêmica. A seleção de artistas da mostra, quase todos nomes desconhecidos do grande público e às margens do mercado, está calcada em obras que discutem temas candentes do momento, em geral partindo do olhar de minorias sociais e excluídos.

VER IMAGENS NA MATÉRIA DA FOLHA

No térreo do pavilhão, além dos desenhos de Perjovschi, o coletivo boliviano Mujeres Creando instalou seu "Espaço para Abortar", arena com casulos simbolizando úteros, que defende a descriminalização desse ato.

Também há um núcleo de artistas que subvertem ícones católicos, criando imagens como uma Nossa Senhora masculina, e um vídeo que narra a transformação de um travesti em pastor.

ESTRATÉGIAS

No fundo, são todos trabalhos que registram em tempo real os traumas de um mundo em mutação veloz.

Um dos agentes dessa transformação é a violência ou estratégias por trás dela, como o que mostra o filme do artista Gabriel Mascaro.

Usando meios que ele não revela, Mascaro conseguiu imagens feitas por policiais militares durante os protestos que varreram o país, mostrando que antes dos atos eles filmam os rostos e os sapatos dos manifestantes, para que, mesmo que usem máscaras mais tarde, possíveis suspeitos possam ser identificados pelos pés.

"Isso gera uma angústia muito grande em mim", diz Mascaro. "São momentos de vulnerabilidade imensa. Aquilo que afirma uma singularidade pode acabar gerando a prova de um crime."

Enquanto o poder público esquadrinha a multidão, o trabalho da artista Ana Lira mostra como o povo reage a símbolos do poder, registrando cartazes de políticos vandalizados nas ruas durante campanhas eleitorais.

"Meu trabalho fala sobre que leituras podemos fazer de intervenções espontâneas nos rostos dos políticos", diz Lira. "É uma reflexão sobre a fragilidade das imagens."


Bienal dos conflitos religiosos

A religião é um dos temas centrais da Bienal de São Paulo deste ano. Uma das obras mais polêmicas é o filme "Inferno", da artista israelense Yael Bartana. Ela simula no vídeo a destruição do recém-aberto Templo de Salomão, da Igreja Universal, em São Paulo. Bartana não considera a obra uma crítica aos evangélicos, e sim uma reflexão sobre a história

Bienal das Feministas

O ativismo aparece na mostra nesta instalação do coletivo boliviano Mujeres Creando. Em seu "Espaço para Abortar", as artistas mostram relatos de mulheres que interromperam a gravidez e convida o público a entrar nos úteros vermelhos

Bienal dos Transexuais

Um dos núcleos mais controversos da mostra inclui artistas que subvertem a iconografia católica, criando imagens como uma Nossa Senhora travesti, do performer peruano Giuseppe Campuzano,

entre outras provocações

Bienal das Guerras

A convulsão na política causada pelos casos recentes de espionagem entre governos se materializa na mostra em obras que lidam com documentos secretos, como a instalação da artista chilena Voluspa Jarpa. Em placas de acrílico, ela justapõe documentos sobre a ditadura brasileira elaborados pela CIA, agência de inteligência norte-americana, e arquivos dos serviços secretos do governo brasileiro do mandato de Getúlio Vargas


O QUE É A BIENAL?

A Bienal de São Paulo é a mais importante exposição da América Latina. Criada em 1951, por Ciccillo Matarazzo, foi inspirada na Bienal de Veneza. Hoje, dedica-se à produção contemporânea e funciona como um termômetro do estado atual da arte

Posted by Patricia Canetti at 10:10 AM

'Gosto de procurar a arte fora de museus e galerias', diz Tunga, Folha de S. Paulo

'Gosto de procurar a arte fora de museus e galerias', diz Tunga

Matéria originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 1 de setembro de 2014.

O artista plástico Tunga, convidado da "Roda da Folha", realizado na última quinta-feira (28), no Teatro Folha, disse que gosta de procurar a arte fora das galerias e museus.

"É uma inquietação dos surrealistas que guardo até hoje. Essa arte, que está onde a gente não espera, é mais curiosa e vital", disse aos jornalistas da Folha Mario Cesar Carvalho e Silas Martí, que conduziram a conversa.

Um exemplo citado por Tunga foi um artista de farol do Rio, que faz malabarismos usando "quatro ou cinco garrafas" e uma mangueira.

A conversa no Teatro Folha começou após a exibição do vídeo "Cooking", do artista, que mostra cenas de sexo de um casal em que o pênis é simbolizado por um cristal, elemento presente em outras obras de Tunga.

Ela urina, ele defeca e o casal prova o que o outro fez. "Acho que é um vídeo inocente", diz o artista. "O filme tem uma alquimia e acho que essa alquimia leva um pouco dessa relação entre o pensar, o fazer e o transformar uma matéria, um espírito através do corpo", disse. "O processo que se apresenta é de transformação contínua."

Tunga, que tem agora uma mostra em cartaz na galeria paulistana Mendes Wood e havia desistido de participar da atual Bienal de São Paulo pela inviabilidade técnica e orçamentária para expor um trabalho seu de grandes dimensões, comentou o protesto de artistas da Bienal.

Israelenses, palestinos e libaneses, entre outros, repudiaram o apoio financeiro de Israel ao evento, em função dos recentes ataques a Gaza, e ameaçam deixar a mostra.

"Há um momento pendular na reflexão. De tempos em tempos se pensa na singularidade ou na tribo. Acho que a gente está vivendo um tempo de reflexão de manada, porque, no mundo em que vivemos, os valores são muito bizarros, absolutos, impostos", disse Tunga. "A prática da arte em direção à libertação de um grupo talvez seja uma perspectiva positiva."

Posted by Patricia Canetti at 10:04 AM