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agosto 29, 2014

Após polêmica por patrocínio de Israel, Fundação Bienal se compromete a discutir financiamento por Marcia Abos, O Globo

Após polêmica por patrocínio de Israel, Fundação Bienal se compromete a discutir financiamento

Matéria de Marcia Abos originalmente publicada no jornal O Globo em 29 de agosto de 2014.

Curadores também manifestaram apoio, mas medida valerá apenas para a próxima edição

SÃO PAULO — Após a confusão envolvendo artistas e organização da Bienal de Arte de São Paulo por conta de financiamento do estado de Israel, os curadores da Bienal, Charles Esche, Pablo Lafuente, Galit Eilat, Oren Sagiv e Nuria Enguita, afirmaram que apoiam os artistas entendem a posição deles. Por meio de nota oficial, a equipe curatorial informou que “esse é um tema maior que a 31 Bienal” e pediram à Fundação “que revise suas regras atuais de patrocínio e se certifique de que artistas e curadores concordem com qualquer apoio a seu trabalho que possa ter um impacto em seu conteúdo e recepção”.

Já a Fundação Bienal, em comunicado oficial à carta aberta dos artistas, informou que se compromete a “levar ao Conselho a discussão sobre os modelos de participação e captação de recursos internacionais para a realização das mostras futuras”.

Como mostram os comunicados, a postura da Fundação Bienal é diferente da dos curadores. Os representantes da instituição têm dito nas reuniões com os artistas que eles estão fazendo "muita confusão" sobre um “logo estúpido”, contou o artista plástico, arquiteto e escritor libanês Tony Chakar, ponderando que, se o logo é insignificante, não será difícil removê-lo do material de divulgação da mostra.

— A decisão de aceitar dinheiro do estado de Israel e colocar seu logotipo no material de divulgação da Bienal é uma decisão política. A solução que propomos é simples: devolver o dinheiro, o que, pelo que entendi, é um valor bem pequeno, remover o logo e todos os artistas ficarão felizes e voltarão ao trabalho — fala Chakar.

VALORES E CONFLITOS

Especula-se que o valor do patrocínio de Israel para a Bienal de São Paulo é de US$ 40 mil. Em reais, pela cotação do dólar dessa sexta-feira, isso dá R$ 89.560. O orçamento da 31ª Bienal é de R$ 24 milhões.

Na avaliação de um gestor cultural, o debate é muito mais complexo do que simplesmente a capacidade da Bienal de devolver ou não o dinheiro a Israel. Para o especialista, os artistas estão "sendo autoritários" e tentam impor um ponto de vista político à Fundação Bienal, exigindo que ela tome um partido sobre uma questão que não lhe diz respeito.

Para esse especialista, cabe à Fundação Bienal zelar pela total liberdade de expressão da curadoria e dos artistas e trabalhar na legalidade quando se trata de captação e gestão de recursos.

— A mostra costuma receber patrocínios de diversos países, uma tradição que vem desde o tempo em que ela era dividida por delegações nacionais. Recusar patrocínio de Israel seria o equivalente a recusar financiamento dos Estados Unidos por discordar da guerra no Iraque ou da Rússia, por ser contra a ingerência na Ucrânia — afirma.

Nesse ano, estão listados como apoiadores Espanha, Turquia, Polônia, Argentina, Suíça, França, Israel, México, Reino Unido, Dinamarca, Portugal e Alemanha.

Ao fazer juízos de valor e tomar posições perante complexas questões políticas, aceitando ou recusando financiamento de países, a Bienal "entra num complicado plano de discussão, um debate que poderia até culminar na exclusão da participação de artistas por causa de sua nacionalidade, o que seria lamentável", segundo análise do gestor que preferiu não se identificar.

A soma dada por Israel à Fundação Bienal pode parecer pequena perante o orçamento total da exposição. No entanto, o orçamento desse ano é quase igual ao da edição anterior. Às vésperas da abertura da mostra, os recursos estão comprometidos, a Fundação tem problemas de caixa e está devolvendo dinheiro para o Ministério da Cultura por problemas de gestões anteriores.

Por outro lado, os artistas também estão finalizando seus projetos, ou seja, usaram o dinheiro dado pela Bienal para os realizar. A retirada da mostra é, por isso, complicada. Mas eles não descartam essa possibilidade, nem a hipótese de realizarem uma performance ou obra de protesto. Segundo Chakar, a decisão será tomada coletivamente, pelo grupo de artistas que assinou a carta.

— Israel é um país ocupando outro. Nesse exato momento está ativamente engajado em atacar e bombardear outro país. Essa não é minha opinião, é a opinião da ONU. Aceitar dinheiro de um país nessa situação certamente é complicado. O que Israel faz é de conhecimento público. Aceitar dinheiro desse estado e colocar seu logo no material de divulgação é uma decisão política — afirma Chakar.

Leia a íntegra da resposta da Fundação Bienal:

A Fundação Bienal de São Paulo, após tomar conhecimento da carta dos artistas quinta-feira, 28 de agosto, recebeu um representante dos signatários. A instituição se compromete a levar ao Conselho a discussão sobre os modelos de participação e captação de recursos internacionais para a realização das mostras futuras.

Veja o comunicado dos curadores da 31ª Bienal de São Paulo:

Nós, os curadores da 31 Bienal de São Paulo, apoiamos os artistas e entendemos sua posição.

Acreditamos que a declaração e a demanda dos artistas deve ser também um gatilho para pensar sobre fontes de financiamento de grandes eventos culturais. Na 31 Bienal, muitos trabalhos buscam mostrar a luta por Justiça no Brasil, na América Latina e em outros lugares do mundo. A ideia de viver numa era de transformações é fundamental para essa Bienal, tempos em que antigos padrões e comportamentos estão esgotados e crenças arraigadas são questionadas. Essas transformações também afetam a relação entre curadores e organizadores de grandes eventos culturais como essa Bienal. No início, aceitamos o tradicional acordo no qual curadores têm liberdade artística e a Fundação é responsável por assuntos financeiros e administrativos. A Fundação Bienal, com muita correção, manteve esse acordo. De nossa parte, ajudamos no financiamento internacional.

No entanto, em consequência dessa situação, junto com outros incidentes e similares eventos, está claro que fontes de financiamento cultural têm um impacto dramático nas suposta "independência" das curadorias e narrativas artísticas de um evento. O financiamento, seja ele estatal, corporativo ou privado, molda de maneira fundamental a forma com que o público recebe o trabalho de artistas e curadores.

Por ser esse ser um tema maior do que a 31 Bienal, pedimos à Fundação que revise suas regras atuais de patrocínio e se certifique de que artistas e curadores concordem com qualquer apoio para seu trabalho que possa ter um impacto em seu conteúdo e recepção.

Posted by Patricia Canetti at 7:55 PM

Em carta aberta, artistas repudiam apoio de Israel à Bienal de São Paulo por Celso Filho, Estado de S. Paulo

Em carta aberta, artistas repudiam apoio de Israel à Bienal de São Paulo

Matéria de Celso Filho originalmente publicada no jornal Estado de S. Paulo em 29 de agosto de 2014.

Mais de 50 nomes assinam o documento, pedindo que Fundação recuse verba do governo israelense

Às vésperas da inauguração da 31ª Bienal de São Paulo, um grupo de 55 artistas de diferentes países publicou uma carta aberta à Fundação da Bienal, pedindo que a instituição recuse o apoio financeiro de Israel ao evento. A carta foi postada na página oficial no Facebook do artista plástico, escritor e arquiteto libanês Tony Chakar.

De acordo com Chakar, mais artistas devem aderir ao protesto. "Ao aceitar esse financiamento, o nosso trabalho artístico exibido na exposição é prejudicado e, implicitamente, usado para legitimar agressões e violação do direito internacional e dos direitos humanos em curso em Israel", explica a carta.

Todos os artistas que assinaram a carta terão trabalhos expostos na Bienal, que abre oficialmente para o público no dia 6 de setembro.

Confira a íntegra da carta:

Carta aberta à Fundação Bienal de São Paulo,

Nós, os artistas abaixo assinados participantes da 31 Bienal fomos confrontados, às vésperas da abertura da exposição, com o fato de que a Fundação Bienal de São Paulo aceitou dinheiro do Estado de Israel e o logo do Consulado de Israel aparece no pavilhão da Bienal, em suas publicações e em seu website.

Numa época em que o povo de Gaza volta para os escombros de suas casas, destruídas pelo exército israelense, não sentimos que seja aceitável receber patrocínio cultural israelense. Ao aceitar esse financiamento, o nosso trabalho artístico exibido na exposição é prejudicado e, implicitamente, usado para legitimar agressões e violação do direito internacional e dos direitos humanos em curso em Israel. Rejeitamos a tentativa de Israel de se normalizar dentro do contexto de um grande evento cultural internacional no Brasil.

Com essa declaração, nós apelamos à Fundação Bienal de São Paulo para recusar esse financiamento e agir sobre esse assunto antes da abertura da exposição.

1. Agnieszka Piksa
2. Alejandra Riera
3. Ana Lira
4. Andreas Maria Fohr
5. Asier Mendizabal
6. Coletivo Chto Delat: Dmitry Vilensky, Tsaplya Olga Egrova e Nikolay Oleynikov
7. Danica Dakic
8. Débora Maria da Silva (Movimento Mães de Maio)
9. Erick Beltran
10. Etcétera…, Federico Zukerfeld e Loreto Garin Guzman
11. Farid Rakun
12. Francisco Casas e Pedro Lemebel (Yeguas del Apocalipsis)
13. Gabriel Mascaro
14. Graziela Kunsch
15. Grupo Contrafilé
16. Gulsun Karamustafa
17. Halil Altindere
18. Heidi Abderhalden
19. Imogen Stidworthy
20. Ines Doujak
21. Jakob Jakobsen
22. John Barker
23. Jonas Staal
24. Lia Perjovschi e Dan Perjovschi
25. Liesbeth Bik e Jos van der Pol
26. Lilian L’Abbate Kelian
27. Loreto Garin
28. Luis Ernesto Díaz
29. Mapa Teatro - Laboratório de Artistas
30. María Berríos
31. Maria Galindo & Esther Argollo (Mujeres Creando)
32. Mark Lewis
33. Marta Neves
34. Michael Kessus Gedalyovich
35. Miguel A. López
36. Nilbar Güres
37. Otobong Nkanga
38. Pedro G. Romero (Archivo F.X.)
39. Prabhakar Pachpute
40. Rolf Abderhalden
41. Romy Pocztaruk
42. Ruanne Abou-Rahme Basel Abbas
43. Sandi Hilal e Alessandro Petti
44. Santiago Sepúlveda
45. Sergio Zevallos
46. Sheela Gowda
47. Tamar Guimarães e Kasper Akhøj
48. Thiago Martins de Melo
49. Tiago Borges
50. Tony Chakar
51. Voluspa Jarpa
52. Walid Raad
53. Ximena Vargas
54. Yael Bartana
55. Yonamine

Posted by Patricia Canetti at 3:36 PM

Manifesto de 55 artistas pede que Bienal devolva dinheiro de Israel por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Manifesto de 55 artistas pede que Bienal devolva dinheiro de Israel

Matéria de Silas Martí originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 29 de agosto de 2014.

Diretores da mostra descartam possibilidade de recusar apoio

Artistas da 31ª Bienal de São Paulo descontentes com o patrocínio do Estado de Israel divulgaram nesta quinta (28) um manifesto em que exigem que a fundação responsável pela mostra recuse o apoio e devolva o dinheiro ao país antes da abertura do evento, na semana que vem. "Enquanto o povo de Gaza retorna aos escombros de suas casas destruídas pelo Exército israelense, nós achamos inaceitável receber o apoio de Israel", diz o texto.

"Ao aceitar esse financiamento nosso trabalho artístico mostrado na exposição está sendo utilizado para limpar as continuadas agressões conduzidas por Israel e suas violações da lei internacional e de direitos humanos. Recusamos a tentativa de Israel de normalizar sua presença no contexto deste importante evento cultural", acrescenta.

O documento assinado por 55 dos 86 artistas participantes da mostra, entre eles israelenses, palestinos e libaneses, foi enviado aos curadores e à direção da Fundação Bienal.

Entre os signatários estão artistas influentes, como o libanês Walid Raad, que liderou boicote à filial do museu Guggenheim em Abu Dhabi, e a israelense Yael Bartana, que já foi à Bienal de Veneza.

"Em princípio, nós apoiamos os artistas", diz Charles Esche, um dos curadores da mostra, falando em nome de sua equipe. "Entendemos o pedido dos artistas. Aguardamos uma resolução em breve para essa questão."

Luis Terepins, presidente da Fundação Bienal, disse à Folha, antes da divulgação do manifesto, que não existe a possibilidade de devolver o dinheiro --cerca de R$ 90 mil de um orçamento total de R$ 24 milhões-- a Israel.

"Nós somos uma instituição plural, não tomamos partido", diz Terepins. "Buscamos apoio de todos sem discriminação. Esse problema que existe entre Israel e palestinos fica lá. O grande exemplo que a temos de dar é o que buscamos construir."

O cônsul de Israel em São Paulo, Yoel Barnea, disse que estava ciente do manifesto. "A arte é uma linguagem que aproxima os povos. Mas a atitude destes artistas só cria mais distância entre eles e não é construtiva para a paz no Oriente Médio".

Posted by Patricia Canetti at 3:31 PM

Árabes ameaçam deixar Bienal por causa de patrocínio de Israel por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Árabes ameaçam deixar Bienal por causa de patrocínio de Israel

Matéria de Silas Martí originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 28 de agosto de 2014.

Artistas árabes convidados da 31ª Bienal de São Paulo, que começa na semana que vem, ameaçam boicotar a mostra em repúdio ao fato de o evento ter, entre outros patrocinadores, o apoio oficial do Estado de Israel. Cerca de 40 artistas, entre eles palestinos e libaneses, formaram um grupo dissidente dentro da mostra, e se opõem ao fato de a Bienal ter aceito dinheiro israelense.

Eles exigem que o logo do Consulado de Israel em São Paulo, inserido no catálogo da mostra, em painéis no pavilhão e no site da exposição, seja removido e o dinheiro —cerca de R$ 90 mil de um orçamento total de R$ 24 milhões—, devolvido ao país.

Um dos pontos a indignar artistas como a dupla palestina Basel Abbas e Ruane Abou-Rahme é o fato de o site do consulado israelense, acessível via página oficial da Bienal, informar que as recentes operações militares do país em Gaza são atos de "autodefesa" contra "hostilidades iniciadas" pelo Hamas.

"Jamais teria aceitado participar de uma mostra se soubesse que seria patrocinada por Israel", diz Ruanne Abou-Rahme. "Eles querem nos usar por meio da arte para legitimar e purificar o genocídio que eles estão conduzindo agora na faixa de Gaza."

"Nós temos um site onde apresentamos a posição israelense", diz Yoel Barnea, cônsul de Israel em São Paulo. "Se os artistas têm críticas ao Estado de Israel, nós também temos críticas às ações dos terroristas palestinos."

Segundo Barnea, o apoio de Israel se deve ao fato de a mostra incluir três artistas israelenses. Entre os 86 nomes, quatro são árabes, entre palestinos, egípcios e libaneses.

"Participar dessa mostra pode ter graves consequências legais para mim", diz o artista libanês Tony Chakar.

Mesmo que queiram abandonar a mostra, eles alegam que o contrato assinado com a Fundação Bienal os obriga a devolver o dinheiro da produção de seus trabalhos.

Uma reunião entre artistas e curadores estava marcada para a noite desta quarta (27) para discutir o assunto. Curadores disseram que se manifestarão nesta quinta (28) após a divulgação de um comunicado dos artistas. Diretores da Fundação Bienal não comentaram o assunto até a conclusão desta edição.

Posted by Patricia Canetti at 3:26 PM

agosto 25, 2014

Mostra com mais de 400 obras revê mestiçagem na arte do país por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Mostra com mais de 400 obras revê mestiçagem na arte do país

Matéria de Silas Martí originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 13 de agosto de 2014.

Histórias Mestiças, Instituto Tomie Ohtake, São Paulo, SP - 16/08/2014 a 05/10/2014

Um negro e uma mameluca estão lado a lado como símbolos da mistura de raças que construiu o Brasil atual.

Essas telas do século 17 criadas pelo holandês Albert Eckhout, consideradas o retrato fundador do homem americano, sintetizam com certa ironia a ideia de "Histórias Mestiças", mostra agora no Instituto Tomie Ohtake com mais de 400 trabalhos sobre como a questão racial se manifesta na arte do país.

"Um dos desafios dessa exposição é subverter o senso comum", diz a antropóloga Lilia Moritz Schwarcz, uma das curadoras da mostra. "Existe mestiçagem como mistura, mas ela é também separação. Esses discursos mestiços vêm da discriminação e do racismo violento."

De fato, nesse panorama de arquivos históricos, obras inéditas e peças de mais de 60 acervos do mundo todo, a ideia de violência no trato entre as raças atravessa todos os trabalhos, algo às vezes latente, às vezes escancarado.

Numa mesma parede estão um retrato acadêmico da princesa Isabel, cartões-postais com imagens de escravos no Brasil colonial, os autorretratos de Adriana Varejão com o rosto coberto de padrões indígenas e um esboço da "Negra", de Tarsila do Amaral, entre outas peças.

É um coro de vozes que se atropelam, o que faz dessa mostra um tanto difícil de se ver -e isso é intencional.

Noutra sala, três séries de trabalhos brigam pela atenção da mesma forma -em cima, desenhos de um índio, no meio, aquarelas de um artista viajante que mostra os primeiros contatos entre portugueses e indígenas e, embaixo, a série "Marcados", em que Claudia Andujar retratou índios como judeus num campo de concentração.

"Não é tanto uma história da mestiçagem. É mais uma mestiçagem de histórias", diz Adriano Pedrosa, outro curador da mostra. "Tem certa pluralidade e inconstância."

Nesse ponto, os vários momentos históricos, correntes estéticas e autores de origem distintas embaralhados na mostra vão derrubando qualquer noção de certeza para criar no museu um turbilhão perturbador, o que os curadores resumem como ideia de "fricção" entre os trabalhos.

Mesmo alguns nomes mais conhecidos, como Alfredo Volpi, José Pancetti, Iberê Camargo ou Antônio Bandeira, aparecem na mostra com obras que fogem do estilo que os consagrou, todos eles com retratos figurativos de personagens negros ou mulatos.

Outro ponto alto de "fricção" é a sala dedicada a obras têxteis de índios e grupos de escravos, em que motivos geométricos aparecem como signos de distinção entre tribos e nações, mas ao mesmo tempo ecoam as formas que dominariam o concretismo.

"É outra maneira de ver", afirma Pedrosa. "Podemos pensar que a abstração geométrica já estava entre nós."

RUÍDOS HISTÓRICOS

Na mesma pegada desses ruídos históricos, uma das salas mais desconcertantes da mostra justapõe representações clássicas de momentos históricos brasileiros, como uma primeira missa de Rugendas ou o descobrimento visto por John Graz, a obras de artistas contemporâneos.

Enquanto Thiago Martins de Melo revê a chegada dos portugueses como invasão violenta, Luiz Zerbini transforma a primeira missa em estranho ritual multirracial, solapando relatos históricos.

Moritz Schwarcz, aliás, lembra que a mostra entra em cartaz num momento em que se discutem direitos civis no país. "É algo que se coloca bem na hora em que o país está tentando tirar um retrato 3 x 4 um pouco diferente."

Posted by Patricia Canetti at 9:05 AM

Nara Roesler abre com mostra de Marcos Chaves e antecipa chegada de galerias paulistas no Rio por Nani Rubin, O Globo

Nara Roesler abre com mostra de Marcos Chaves e antecipa chegada de galerias paulistas no Rio

Matéria de Nani Rubin originalmente publicada no jornal O Globo em 7 de agosto de 2014.

Estreia cria situação e oportunidades inéditas para artistas

Marcos Chaves - Academia, Galeria Nara Roesler, Rio de Janeiro, RJ - 08/08/2014 a 07/09/2014

RIO — Uma das mais conceituadas galerias de arte de São Paulo, a Nara Roesler abre as portas nesta quinta-feira, em Ipanema, com uma exposição que é a cara do Rio: "Academia", do carioca Marcos Chaves. Ao mesmo tempo, cria, na surdina, uma saia-justa em que artistas já representados aqui — caso de Abraham Palatnik e Angelo Venosa, da Anita Schwartz, Carlito Carvalhosa e Cristina Canale, da Silvia Cintra + Box 4, e Raul Mourão, da Lurixs, passam a ser representados, cada um, por duas galerias na mesma cidade. O discurso de Nara, uma pernambucana que se iniciou no mercado de arte no fim dos anos 1980, é o de que veio "para somar".

— Não viemos para confrontar nada; estamos aqui para ampliar o espaço de nossos artistas e para ajudar o Rio de Janeiro a se fortalecer cada vez mais no seu papel de difusor cultural — diz ela, ressaltando o bom momento da cidade como um fator determinante para a decisão de abrir aqui uma filial do seu estabelecimento, um dos cinco maiores de São Paulo.

— O Rio sempre foi um difusor cultural importante, mas isso se perdeu um pouco nos anos 1980. Sinto que está havendo uma retomada desse papel, com o aquecimento do mercado e, inclusive, com instituições como o Museu de Arte do Rio, a Casa Daros, o Instituto Moreira Salles e o próprio Museu de Arte Moderna — avalia.

Ela também destaca a necessidade de ficar próxima de seu time de artistas cariocas.

— A proximidade dos ateliês deles é muito importante para agilizar a execução de projetos. Por ocasião da ArtRio (feira de arte anual, em setembro), senti que o Rio precisava de mais uma galeria fazendo esse papel que gosto de fazer, de arte/educação — afirma, referindo-se ao projeto Roesler Hotel, que convida artistas, mesmo não representados por ela, para encontros com o público, visando à educação do olhar para a arte e à formação de novos colecionadores, que ela espera promover aqui também.

Procurados, galeristas do Rio preferiram não falar sobre o assunto neste momento, sob o argumento de que, com o tempo, tudo deve se ajustar. Mas parecem confiar num acordo de cavalheiros que dita um comportamento universal neste mercado, o de que quem chega respeita o que já está estabelecido. É uma situação que promete desdobramentos, com a vinda já anunciada de duas outras importantes galerias paulistas, a Fortes Vilaça e a Mendes Wood, prevista para 2015.

Enquanto isso, Angelo Venosa, por exemplo, tem uma exposição abrindo na Anita Schwartz em 4 de setembro, uma semana antes da ArtRio (que começa em 10 de setembro). Como será o compartilhamento de mostras desses artistas na cidade, só o tempo dirá.

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Enquanto isso, Nara Roesler divulga um calendário sem atritos. O próximo artista a ocupar a casa reformada na Rua Redentor será o francês Daniel Buren. Em seguida é a vez de Vik Muniz ("um carioca que não expõe no estado", observa a galerista) mostrar um novo trabalho, feito a partir de fotografias antigas que vem comprando em sebos, remontando as cenas e dando-lhes outra conotação. E, para finalizar o ano, a galeria será ocupada com obras inéditas de Tomie Ohtake, uma série de pinturas brancas.

A mostra desta quinta-feira, de Marcos Chaves, ocupa os dois andares da casa, com duas séries de trabalhos. No primeiro andar, estão as esculturas da série "Academia", que dá nome à exposição. A palavra, universalmente associada a instituições do saber, no Rio é ligada ao culto ao corpo. As obras foram feitas a partir da observação atenta do artista a uma academia de ginástica informal montada no Aterro do Flamengo, e que ele cruzava em seu trajeto frequente de bicicleta por ali.

— Quando a Nara me convidou para abrir a galeria, achei que seria muito legal reinterpretar essa academia. É uma visão acadêmica de uma iniciativa popular, mas tem alguma coisa nova, uma ironia no olhar — diz o artista, que criou aparelhos de ginástica com concreto, ferro, pneus e latas.

No segundo andar, estão 25 fotografias da série "Sugar loafer", formando grupos associadas pela luz, pelas cores ou pela geometria, como uma linha de areia comum a duas fotos.

Na abertura, nesta quinta-feira, às 19h, haverá uma performance de pessoas se exercitando nas obras, ao som do DJ americano Daniel Perlin, com câmeras GoPro que projetarão simultaneamente as imagens da fachada da casa.

Posted by Patricia Canetti at 8:59 AM

agosto 18, 2014

Direção de escola do Parque Lage muda após governo adotar novo modelo de gestão do espaço por Caio Barretto Briso e Elenilce Bottari, O Globo

Direção de escola do Parque Lage muda após governo adotar novo modelo de gestão do espaço

Matéria de Caio Barretto Briso e Elenilce Bottari originalmente publicada no jornal O Globo em 16 de agosto de 2014.

Na quinta, Claudia Saldanha pediu demissão do cargo de diretora. Secretaria de Cultura escolheu OS para administrar o parque

RIO — Professores da Escola de Artes Visuais (EAV) do Parque Lage e artistas foram surpreendidos, na última quinta-feira, por um e-mail intitulado ‘‘Até breve!’’. Era de Claudia Saldanha, que, na mensagem, comunicava seu pedido de demissão após seis anos como diretora da escola. Seu afastamento acontece pouco mais de um mês depois de Evangelina Seiler entregar seu cargo de diretora da Casa França-Brasil, no Centro. As instituições têm em comum o fato de serem administradas pela Organização Social Oca Lage, escolhida pela Secretaria estadual de Cultura para implantar um novo modelo de gestão, mais moderno, nas unidades, a exemplo do que acontece em outros lugares, como na Pinacoteca de São Paulo.

Presidida pelo artista Márcio Botner, a Oca Lage tem 22 conselheiros, entre colecionadores, curadores e artistas, que se reúnem a cada dois meses. Uma reunião está marcada para a próxima terça-feira, quando uma nova diretora será escolhida para a EAV. Só depois desse encontro, a entidade se pronunciará sobre as duas demissões. Procurada, a Secretaria estadual de Cultura afirmou, por nota, que Evangelina Seiler e Claudia Saldanha foram convidadas a permanecer em seus cargos, após a OS assumir a gestão compartilhada, “mas preferiram seguir outros caminhos”. Ainda segundo a notas, Plano Diretor da EAV será “mantido e atualizado". Claudia Saldanha não foi localizada para comentar sua saída.

Em sua carta de despedida, Claudia lembrou os seis anos em que esteve à frente da EAV, quando, segundo ela, houve aumento do número de alunos de 500 para 2 mil, a criação de novos cursos e atividades e um plano diretor inédito saiu do papel.

— Temos dúvidas em relação ao futuro, por isso vamos nos reunir hoje (ontem). Claudia engrandeceu a escola. Sua saída cria um clima de incerteza e instabilidade — diz a artista plástica Anna Bella Geiger, professora da EAV.

— É natural que a nova gestão tenha sua própria concepção sobre como gerir a escola. Só não deixaram claro que concepção é essa — diz o artista e professor Franz Manata.

Ex-diretor da escola, o artista plástico Luiz Áquila também lamentou a saída de Claudia e afirmou que torce para que a linha institucional da EAV seja mantida:

— Eu não tenho elementos para julgar a saída de Claudia. Torço para que a escola continue a mesma fundada por Rubens Gerchman que, de tão perfeita, ficou marcada como escola livre e experimental. A Escola de Artes Visuais é o coração pulsante da arte do Rio — afirmou Áquila, que dirigiu a escola nos anos 80:

— Naquela época, tínhamos até ameaça de despejo. A associação de amigos sempre conseguia recursos para garantir o funcionamento. Ao assumir, a Claudia deu um salto de qualidade extraordinário na escola. Lembro que o subsolo dos ateliês de gravuras era uma catacumba. Ela mudou tudo isso. As instalações agora são ótimas.

A artista plástica Suzana Queiroga destacou o trabalho de Claudia na defesa do Plano Diretor da instituição:

— Esse plano era uma reivindicação antiga, queríamos uma escola forte. Acho uma pena ela sair, mas talvez eu fizesse o mesmo. Entendo que a a criação da OS modificou um organograma existente há décadas.

O presidente do conselho da Oca Lage, Paulo Vieira, disse que a saída de Claudia era esperada, e a transição foi planejada. O presidente da OS é o artista Márcio Botner, que foi aluno da EAV de 1991 a 1994, para onde retornou como professor, de 2004 a 2012. Ele foi vice-presidente da Associação dos Amigos da EAV Parque Lage, de 2007 a 2014. Segundo ele, o objetivo da OS é dar rapidez de gestão, maior autonomia e fazer uma ponte entre a EVA e a Casa França-Brasil:

— O modelo OS de gestão é muito bem sucedido há anos. O objetivo é gerir equipamentos públicos com a agilidade da iniciativa privada. Ela profissionaliza a gestão. Fui, por oito anos, até 2014, o vice-presidente da Associação de Amigos da EAV, que buscava captar recursos para os projetos da escola. A OS irá profissionalizar isso — disse Botner, afirmando que Claudia Saldanha foi muito importante para a escola e que a saída dela foi a pedido. — Ela entendeu a mudança como encerramento de um ciclo.

Posted by Patricia Canetti at 11:24 AM

agosto 15, 2014

'Artistas plásticos brasileiros são alienados’, diz historiadora por Maria Fortuna, O Globo

'Artistas plásticos brasileiros são alienados’, diz historiadora

Entrevista de Maria Fortuna com Aracy Amaral originalmente publicada no jornal O Globo em 13 de agosto de 2014.

‘Os artistas brasileiros são completamente alienados’

Uma das mais importantes historiadoras de arte do país, a paulistana Aracy Amaral, 84 anos, acha os artistas plásticos brasileiros pouco politizados. “Eles são alienados, voltados para pequenas problemáticas. É uma espécie de refúgio de uma realidade hostil”, define ela, que participa de bate-papo sobre a mostra “artevida”, ao lado da crítica Lisette Lagnado, hoje, no Parque Lage. Aracy falou à coluna.

Por que você classifica os artistas brasileiros como alienados?

Hoje, no resto do mundo, vemos artistas plásticos muito mais preocupados com a política, com a realidade, do que no Brasil. Na América Latina, principalmente na Colômbia, vemos uma preocupação maior com o que se passa em volta. O Brasil vive em um estado de guerra civil latente, com 40 mil pessoas assassinadas por ano. Há uma guerra não declarada com toda esta desigualdade. É uma sociedade altamente preconceituosa.

Você diz que o Brasil está sempre olhando para fora...

Este é o nosso problema. Não nos olhamos no espelho, e pensamos que temos olhos azuis e somos louros. Há uma rejeição de si próprio, uma coisa muito esquisita. Antigamente, os artistas plásticos se atualizavam com o Prêmio Turner. Agora, com a internet, eles sabem de tudo o que acontece no mundo muito mais rápido.

O que acha dos jovens artistas?

A maioria só está preocupada com o mercado e as feiras de arte. Nos anos 1970, havia duas correntes: uma mais atenta ao que se passava à volta com a política, e outra mais conceitual, importada de outros países, como acontece até hoje.

Posted by Patricia Canetti at 10:26 AM

Crítica: Ambiciosa, mostra 'artevida' se torna asséptica e fria por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo

Ambiciosa, mostra 'artevida' se torna asséptica e fria

Crítica de Fabio Cypriano originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 7 de agosto de 2014.

A gênese da hoje chamada arte contemporânea teve início no final dos anos 1950, especialmente por meio de artistas que buscaram vincular arte e vida, fosse pelo uso do corpo, dando início às perfomances, fosse usando a estética como uma plataforma de transformação social.

É justamente esse momento o foco da mostra "artevida", com curadoria de Adriano Pedrosa e Rodrigo Moura, em quatro espaços do Rio de Janeiro: o Museu de Arte Moderna, a Casa França-Brasil, a Escola de Artes Visuais do Parque Lage e a Biblioteca Parque Estadual.

Trata-se de uma exposição ambiciosa, que traça um panorama da produção experimental dos anos 1950 até os anos 1980 de mais de cem artistas das Américas, Ásia, Europa e África, muitos deles desconhecidos no Brasil, como o palestino Abdul Hay Mosallam ou a turca Gülsün Karamustafa.

Em cada espaço, há um tema dominante, mas os dois que merecem destaque são o corpo, na Casa França-Brasil, com 63 artistas, e a política, no MAM, com 52.

Para reunir um grupo tão amplo e de tantas origens, há uma pesquisa de fôlego. A originalidade da mostra, aliás, está em dispor tal diversidade em torno da produção brasileira. Muitas foram as exposições que focaram esse período e seu caráter experimental, mas poucas apresentaram, como ocorre no Rio, obras de Hélio Oiticica, Lygia Clark e seus contemporâneos.

Ambos estão representados com obras que possibilitam a interação do público, como os "Parangolés", de Oiticica, que podem ser vestidos, ou os "Bichos", de Clark, que podem ser manipulados.

MOLDURAS

O problema é que, dentro desse amplo escopo, a interação com as obras é exceção. Ao expor obras realizadas em um período conturbado, como o dos artistas latino-americanos sob regimes de ditadura e com obras de forte caráter de protesto, "artevida" resulta elegante demais.

Com obras em molduras sofisticadas, que transformam o caráter político desses trabalhos em mero objeto de consumo, a mostra se torna asséptica e fria.

Será que o típico formato para o mercado acaba sendo o destino da chamada arte experimental —ou foi apenas falta de ousadia curatorial? O fato é que, para uma mostra que se chama "artevida", há arte demais para pouca vida.

Posted by Patricia Canetti at 10:09 AM

agosto 10, 2014

Resenha: Arte e multidão de Antonio Negri, Quadrado dos Loucos

Arte e multidão

Resenha de NEGRI, Antonio. Art & multitude. Cambridge: 2011, Polity, originalmente publicada no Quadrado dos Loucos em 1 de novembro de 2012.

A arte não acontece descolada do sistema de produção. Qualquer fabricação, ação, acontecimento ou crítica de arte passa, necessariamente, pela organização das forças produtivas. Por “sistema produtivo”, aqui, se adota uma concepção ampla. Mais do que a produção de sujeitos e objetos, é um conceito radicalmente construtivista. O sistema produtivo é o que cria o próprio mundo, natureza e cultura; é subjetividade em estado fluido, dinâmico, disforme. É uma essência atuante, um campo de forças a partir do que se podem constituir e desconstituir as formas de vida, as perspectivas, os regimes expressivos e as relações sociais. Para Negri, a produção não se esgota no produtivismo, que é sobredeterminar a produção por seu aspecto econômico. A produção neste sentido negriano não se subordina a uma lógica — economicista, politicista ou culturalista que seja. Produção tem um caráter ontológico. Baseia-se nas mutações incessantes do trabalho vivo — o núcleo conceitual da filosofia da práxis constituinte. O trabalho vivo reúne as qualidades de cooperação, criatividade, procriação, comunicação e imaginação; o que condiciona uma ética e uma política. Pesquisar o lugar do trabalho vivo convoca certa antropologia, uma etnografia dos processos produtivos de subjetividades, em suma, uma copesquisa, militante e perspectivista, capaz de ativar pontos de vista e, a partir deles, construir o comum das diferenças e singularidades — uma força política composicional.

A arte é expressão do trabalho vivo. Como tal, vem primeiro de qualquer captura. A captura da arte para finalidades diversas ocorre sempre depois. Estas podem ser o mercado, a linha do partido, o futuro da nação, a didática “revolucionária”, o recesso do museu, a egolatria do Artista ou o narcisismo do colecionador. A captura mais usual, pelo mercado, transforma o trabalho vivo em valor, isto é, submete a turbulência da criação artística, domestica-a, e então confere um valor, coloca-a na circulação de sujeitos e objetos formatados pelo capital.

Mas esse processo vem depois. O antecedente ontológico da captura não deixa de ser a criação viva. Porque o capital não cria nada por si mesmo. Não é autônomo. O comum é quem cria, na contingência de sua historicidade, segundo as formas do viver juntos e viver bem. A imaginação resulta de um excedente decorrente desse viver mais. É fundamental que haja o ‘mais’. Sem surplus, o sujeito acaba fabricado somente por suas necessidades. No capitalismo, governa-se o excedente e paga-se literalmente o mínimo necessário. Ir além do trabalho necessário, exceder-se — das necessidades como conformação a uma natureza determinista e determinada de fora, adstrita às limitações de uma consciência moral, — consiste no primeiro passo para o momento especial da criação. Logo, da afirmação de subjetividade, que então se propaga em novos processos cruzados de individuação e coletivização — singularização.

Para Negri, arte é excesso de vida convertido em imaginação, que se exprime imediatamente na realidade como construção e reinvenção do comum.

A arte não exprime o seu tempo histórico. Não tem a ver com o Espírito do Tempo. Pesquisar-lhe as condições, apesar disso, é necessário para fazer a arte. A relação da arte com a história é a mesma entre o intempestivo e o tempo cronológico. Fura o tempo histórico, estilhaçando tudo o que nele é estático, amortecido, suas regularidades e suas mesmerizações. É ruptura. Se a arte não está perturbando ninguém, tem algo errado. O intempestivo da arte define sua própria medida — é, portanto, desmedida no tempo e espaço existentes, cria-se enquanto medida própria, incomensurável aos valores já existentes, a ser compilados apenas por funcionários — jamais artistas. O artista, — que qualquer um pode ser enquanto composição do trabalho vivo, — vive o próprio tempo além dele. Está no presente mas morde a borda do futuro. Não há telos senão kairós.

O artista não renuncia à contingência. Coloca-se na crise e a vive em sua loucura e exasperação. Das crises, se multiplicam vanguardas, que importam menos por seus programas e diktats, do que pelo desejo de selvagem recriação de todo o existente. A arte não pode dizer para onde vai, mas ela tem que ir — ou não perseverará. Essa ida sem volta é revolucionária nos mesmos termos que o trabalho vivo: quando desborda das necessidades e limites externos. O capital precisa seguir a produtividade da arte, e adaptar-se para continuar subordinando e explorando, — e não o inverso. A arte é primeira.

Qual o diagnóstico das forças produtivas hoje?

Vivemos a abstração derradeira. A capitalização comprime o futuro no presente, o tempo das finanças quando a vida está toda ela, inclusive em sua virtualidade, subsumida. O mercado mil vezes liquefeito do capitalismo globalizado e integrado. A realidade sólida do vazio: o dinheiro sem nenhum peso, acelerado à velocidade da luz. A sucessão incessante de formas fantasmáticas configura a nova condição do ser. Menos a abstração da verdade, do que a verdade do abstrato. Somos o abstrato, a sua mais maravilhosa consumação. O que fazer? Voltar? Se o abstrato cobre como segunda pele, não há mais pele anterior para regressarmos. Nada por debaixo que possa nos redimir. Nenhuma nostalgia do concreto, nenhum elo perdido do valor de uso.

Um critério ético se coloca para a criação, com três possíveis posicionamentos.

Primeiro, o niilismo eufórico, que comemora a enchente do abstrato. Apólogos de tudo que é fluxo e singular, uma mera reiteração acrítica do idêntico em movimento uniforme. É o autômato chinês. O niilista artístico se aninha nas rachaduras e dobras do vazio, e então o parasita. Facilmente vendável e ultimamente cínico. É a arte reduzida a joguete estético, o comum reduzido (e assim mais uma vez drenado) no capital simbólico, seus memes, sua fusão com o tempo histórico. Cronos da conservação.

Segundo, quem o vazio assombra. Teóricos do espetáculo, da indústria cultural ou da sociedade de consumo, — de qualquer Moloch abissal que tenha dominado tudo e lamentam não haver mais o que fazer de substantivo. Escoaram-se para sempre os momentos em que ainda poderíamos acreditar em nossa libertação. Tudo é corrupto. Tudo é profanado. Esses nostálgicos de uma utopia retrógrada. E cúmplices da posição anterior em seu niilismo passivo. Resultam daí o pesadelo, a covardia e a resignação. É a noite insuperável dos catastrofistas. Acuso-lhes sobretudo a falta de imaginação.

“A diferença entre reacionários e revolucionários está em que os primeiros negam a massiva vacuidade ontológica do mundo, enquanto os últimos a afirmam; os primeiros operam na retórica; os últimos, na ontologia. (…) somente estes apreendem o mundo na prática e podem exercer a sua crítica, porque reconhecem que fomos nós que fizemos este mundo, inumano como ele é.” [p. 22]

Terceiro, afirmar o vazio, e da borda do precipício preenchê-lo de novo ser. O comum preenche as formas vazias do capital. É o construtivismo radical do comum, da arte como trabalho vivo, antimercado e antiniilista. Tarefa de uma ontologia materialista: reapropriar-se positivamente da abstração. Construir o ser como ritmologia no silêncio, uma explosão que faz uso das abstrações dando-lhes outro sentido. Só reclama da falta de sentido da vida quem não é forte o suficiente para criá-lo (N.) — tarefa antes coletiva. Eis repetição com diferença: ritmo com estilo.

O abstrato enfim não é prerrogativa do capital. Não há classe sem uma abstração determinada pela rede de antagonismos, produtividades e diferenças reais. Só assim, na abstração potente de que o comum se apropria, o intempestivo rasga um novo ser no tempo-espaço mesmerizado. Essa também é uma ruptura na métrica homogênea do mercado. Se o biopoder opera no abstrato subsumindo a vida, a biopolítica age no outro sentido: é a vida subsumindo o abstrato. É a própria condição da multidão, um modo biopolítico imanente, cooperativo e liberto, que o trabalho vivo corporifica.

O confronto entre as forças organizadas do comum e as do capital se desenvolve sobre o deserto do próprio abstrato. Hoje, só no abstrato, — por onde passam as forças e se inscrevem os agentes no sistema produtivo contemporâneo, — a arte pode agir, e inclusive já age, como trabalho da multidão.

Posted by Patricia Canetti at 11:43 PM

Governo oferecerá intercâmbio a 500 profissionais de ciências humanas por Natalia Godoy, G1

Governo oferecerá intercâmbio a 500 profissionais de ciências humanas

Matéria de Natalia Godoy originalmente publicada no portal G1 em 31 de julho de 2014.

Edital foi lançado nesta quinta-feira (31) e inscrições já estão abertas. Cursos e estágios começam em novembro e vão até março de 2015.

O Ministério da Cultura anunciou nesta quinta-feira (31) a abertura de dois editais públicos para oferecer bolsas de estudo no exterior e patrocinar a participação em eventos culturais organizados fora do país a cerca de 500 profissionais de diversas áreas que não são atendidas pelo programa federal Ciência Sem Fronteiras.

Os editais do Conexão Cultura Brasil foram publicados nesta quinta no "Diário Oficial da União". A iniciativa é uma parceria entre os ministérios da Cultura, das Relações Exteriores e da Educação.

O governo federal custeará passagem de ida e volta e as diárias, que somadas chegam a até R$ 30 mil por aluno (para cursos de três meses). Segundo o Ministério da Cultura, o programa custará R$ 4 milhões aos cofres públicos. Os candidatos que forem selecionados irão viajar ao exterior a partir de novembro deste ano.

As áreas contempladas pelo programa são música, teatro, circo, artes visuais, cinema, animação, games, programação de softwares, literatura, TV, rádio, moda, design, arquitetura, publicidade, gastronomia, artesanato, turismo, dentre outras.

De acordo com o Ministério da Cultura, não há um pré-requisito definido e nem uma idade-limite para concorrer a uma vaga. Para se habilitar às bolsas de estudo, o interessado deve obter uma pré-aprovação de uma das universidades credenciadas.

Serão oferecidos cursos e estágios no Instituto Europeu de Design (Itália e Espanha), Federculture da Itália, Universidade de Bolonha (Itália), British Council (Reino Unido), Royal Shakespeare Company (Reino Unido), Barbican Centre (Reino Unido), SouthBank Centre (Reino Unido), The Global Centre (Reino Unido), BBC Scottish Symponhy (Reino Unido), Science Museum (Reino Unido) e o Festival de Edimburgo (Escócia).

De acordo com a ministra da Cultura, Marta Suplicy, não é necessário ter diploma, porém, será exigida experiência prévia na área escolhida.

“O pré-requisito é experiência na área, algumas áreas exigem diploma. O critério está na mão da universidade. Tem instituição que exige que saiba a língua e tem instituição que não exige”, explicou a ministra.

Após garantir a autorização da instituição de ensino estrangeira, o estudante será submetido a uma banca, no Brasil, composta por representantes de secretarias ligadas ao Ministério da Cultura.

Os interessados em cursos que começarem em dezembro, devem se inscrever até o dia 1º de outubro. Para cursos de janeiro a março, as inscrições vão até 7 de novembro.

Quanto aos eventos, serão três os oferecidos: a feira de música WOMEX 2014, em Santiago de Compostela, na Espanha, de 22 a 26 de outubro deste ano; o festival de artes cênicas Santiago a Mil, no Chile, de 3 a 18 de janeiro de 2015; e o ARCO Madrid, na Espanha, uma feira de arte contemporânea que vai de 25 de fevereiro a 1º de março do ano que vem. Esse edital levará delegações de até 60 empreendedores para participar dos eventos.

“É dar oportunidade para o jovem brasileiro se qualificar nas artes, porque hoje, no mundo moderno, as pessoas não querem fazer só advocacia e medicina, a economia criativa é o século 21”, completou a ministra da Cultura, Marta Suplicy.

O projeto piloto do programa Cultura Brasil foi o envio de 100 empreendedores culturais para o I Mercado de Indústrias Criativas dos Países do Mercosul (MICSUL) em Mar Del Plata, Argentina, em maio deste ano, informou o Ministério da Cultura.

“Bônus por UF”

Para “minimizar desigualdades e promover a descentralização das ações culturais”, segundo o texto do edital do governo, os projetos das regiões Norte, Nordeste, de alguns estados do Centro-Oeste e o Espírito Santo vão receber uma pontuação extra, um chamado “bônus pela unidade federativa”.

Vão receber 2,5 pontos extras os estados do Norte: Acre, Amapá, Amazonas, Rondônia, Pará e Roraima; do Nordeste: Alagoas, Maranhão, Paraíba, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe; do Centro-Oeste, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, além do Espírito Santo.

Ceará, Goiás e Pernambuco recebem 2 pontos; Distrito Federal, Paraná e Santa Catarina vão ganhar 1,5; Bahia, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, 1 ponto; e projetos dos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo 0,5.

Contrapartida

Segundo a ministra Marta Suplicy, vai haver um contrato que obrigue o bolsista a compartilhar no Brasil o que a pessoa aprendeu no exterior. Ainda não há definições sobre como vai ser isso, mas o governo é otimista de que não vai "ter problemas em direcionar" o retorno da pessoa contemplada pelo curso.

“Quando volta, vai dar uma oficina do que ele aprendeu lá, vai fazer um show, vai de alguma forma fazer essa contrapartida, porque ele recebeu do governo brasileiro uma oportunidade extraordinária […] Tem um contrato né. Ele tem um contrato de ida, de volta e de contrapartida. Ele tem um contrato que ele vai fazer essa prestação depois que ele voltar”, afirmou a ministra.

Para se inscrever nos editais, os interessados podem acessar aqui. Dúvidas podem ser esclarecidas pelos e-mails culturabrasilintercambios@cultura.gov.br (sobre o intercâmbio) ou culturabrasilnegocios@cultura.gov.br (sobre os eventos).

Posted by Patricia Canetti at 11:36 PM

agosto 6, 2014

Eugenio Valdès Figueroa, o cubano que movimenta a Casa Daros por Ruben Berta, O Globo

Eugenio Valdès Figueroa, o cubano que movimenta a Casa Daros

Matéria de Ruben Berta originalmente publicada no jornal O Globo em 27 de julho de 2014.

‘Acho muito bacana quando jovens vêm aqui para namorar mesmo. Adoro quando vejo um casal se beijando no pátio'

RIO - Diretor de Arte e Educação de espaço cultural em Botafogo traz na bagagem os ensinamentos de Paulo Freire e rechaça o conceito de museus como lugares distantes, voltados apenas para pessoas que já têm conhecimento

Eugênio Valdès Figueroa era um jovem de seus 20 e poucos anos, concluindo os estudos na Faculdade de Artes e Letras da Universidade de Havana, em Cuba, sua terra natal, quando teve o primeiro contato com um brasileiro que mudaria seu jeito de ver a vida. No pé de um texto do filósofo francês Paul Ricoeur, leu uma breve referência ao educador Paulo Freire e a um de seus livros mais conceituados: "A pedagogia do oprimido". A partir dali, começava uma paixão que o seguiria até o Rio de Janeiro, muito tempo depois. Convidado em 2001 pelo alemão Hans-Michael Herzog, curador e diretor artístico da Coleção Daros Latinamerica - sediada na Suíça e com 1.200 obras de 119 artistas da América Latina -, para ajudar na elaboração da Casa Daros em terras cariocas, Figueroa tornou-se diretor de Arte e Educação da instituição, que abriu as portas de sua sede em Botafogo em março do ano passado. Com os ensinamentos de Freire a tiracolo, o cubano é hoje um dos grandes responsáveis pelo sucesso de público do espaço, que já recebeu mais de 155 mil visitantes no restaurado prédio neoclássico, construído em 1866.

- Desde que conheci sua obra, Paulo Freire impactou meu pensamento para sempre. Mudou minha maneira de entender a arte, de dar aulas e de me conduzir como indivíduo, de tão profunda que foi a influência que ele me trouxe. Entendi que deveria estar pronto para entender as múltiplas práticas culturais e que não havia estética num só caminho - comenta Figueroa, que é curador, crítico e historiador de arte.

Não à toa, o cubano de 50 anos inspirou-se em Freire para buscar seu grande objetivo na Casa Daros: torná-la um espaço atrativo para todos, inclusive para os que têm muito pouco ou mesmo nenhum contato com a arte. Então, esqueça aquele museu tradicional - o nome museu causa arrepios em Figueroa -, onde há visitas guiadas e tudo é muito certinho.

- Normalmente, o museu é visto como algo distante, para entendidos. Temos que trabalhar para que o espaço da arte vença essa barreira e seja um lugar para as pessoas se divertirem, para namorar, por exemplo. Acho muito bacana quando jovens vêm aqui para namorar mesmo. Adoro quando vejo um casal se beijando no pátio. É o máximo que você utilize para seu namoro um espaço de arte! E os museus não costumam ser vistos como lugares para isso. Mas como espaços onde não se pode fazer nada, não se pode tocar em nada, onde tudo está controlado - diz.

Para cada exposição planejada pelo curador Hans-Michael Herzog, o diretor tem a tarefa de elaborar uma série de atividades educativas, que sempre são pensadas de forma criativa, para atrair públicos de todas as idades. Há ateliês de criação, oficinas, seminários, cursos e mostras paralelas. E um bom exemplo disso está prestes a acontecer: para encerrar um semestre com o tema pinturas, Figueroa convidou o artista também cubano René Francisco Rodriguez para não só participar de um simpósio no início do mês que vem, como para acompanhar nove jovens artistas em uma experiência inusitada.

- Faremos uma "oficina de pintura por encomenda grátis". Os participantes sairão na rua com os seus cavaletes e terão que abordar as pessoas para fazerem uma pintura exatamente como elas pedirem. O René acompanhará tudo com uma planilha e os jovens terão que subordinar seus estilos ao que aquele cliente quiser. Quem for abordado na rua e topar, ganhará um tíquete, com dia e hora para um reencontro na Casa Daros. E então faremos uma exposição que durará menos de uma hora, porque todos vão levar os seus quadros embora para casa.

Espalhar a arte da Casa Daros pela cidade sempre foi uma meta de Figueroa, mesmo quando o espaço ainda não existia fisicamente. O cubano chegou ao Rio em 2006 e criou um programa de formação de jovens artistas que, com o auxílio de consagrados nomes latino-americanos, fez projetos em comunidades como a Favela Tavares Bastos e o Morro do Banco. Suas experiências na união entre educação e arte já o tornaram referência para além das divisas do Rio de Janeiro.

- O trabalho do Eugênio é extremamente cuidadoso. Não é uma educação como algo transmitido, mas compartilhado, que leva a gente ao imprevisível e ao imponderável. Todo visitante na Casa Daros é um protagonista - diz Carlos Barmak, ex-coordenador de ensino da Bienal de São Paulo e que dirige atualmente o setor educacional do Museu da Casa Brasileira, também na capital paulista.

Luiz Camillo Osório, curador do Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio, destaca a importância do trabalho de Figueroa mesmo antes da inauguração da Casa Daros:

- Antes de o espaço estar pronto, eles (Herzog e Figueroa) já vinham fazendo uma série de atividades, tendo uma relação com a comunidade carioca. E o Eugênio foi uma figura central nessa articulação, que consolidou o trabalho educativo e cultural como uma marca muito forte da Casa.

Apesar de estar há mais de oito anos no Rio, Figueroa não esconde os fortes laços que ainda tem com Cuba. Em mais de três horas de entrevista, quase sempre estava tragando um cigarro de seu país, que confessa trazer aos montes sempre que volta lá. Faz questão de dizer que mesmo nos períodos de maior crise econômica, na década de 1990, manteve-se como um dos curadores da Bienal de Havana, o que considera ter sido fundamental para a sua formação. Com Hans-Michael Herzog, ele tinha a ideia inicial de fazer uma Casa Daros também na capital cubana, mas a instabilidade política minou o projeto. Então, escolheram o Rio, onde Figueroa veio cumprir sua missão. E morar no estado das novelas.

- Em Cuba, a principal referência do Rio são as novelas. Quando cheguei no Brasil, estava passando no meu país uma que tinha cenários na Baixada Fluminense, "Senhora do Destino". Aí, meus parentes cubanos sempre me perguntavam: "você já conhece o Cristo Redentor, o Corcovado? Mas e a Baixada? Você não foi à Baixada? Como assim, não conhece?". Depois, quando passou uma novela do Manoel Carlos, e souberam que eu estava morando no Leblon, aí foi uma loucura! - lembra.

Atualmente, Figueroa mora em Copacabana, no Lido, onde gosta de acompanhar os personagens que circulam pela região. Até brinca que um dia quer fazer uma exposição com os sapatos dos travestis, "verdadeiras obras de arte". Um dos lugares que mais gosta de ir é o Arpoador, mas admite que não sai mesmo é da própria Casa Daros. Seu próximo projeto é uma exposição sobre Rubens Gerchman, com foco no trabalho realizado pelo artista na Escola de Artes Visuais do Parque Lage durante a ditadura. No fim da entrevista, o cubano não esquece de deixar um convite para o repórter:

- Venha para a Casa Daros dar uns beijos em sua namorada!

Convite aceito.

Posted by Patricia Canetti at 8:13 PM

agosto 5, 2014

Braços abertos sobre a Guanabara por Paula Alzugaray, Istoé Dinheiro

Braços abertos sobre a Guanabara

Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na revista Istoé Dinheiro em 29 de julho de 2014.

Abertura da galeria Nara Roesler em Ipanema sinaliza movimento de expansão do sistema de galerias paulistanas para o Rio

Marcos Chaves - Academia, Galeria Nara Roesler, Rio de Janeiro, RJ - 08/08/2014 a 07/09/2014

“Chegamos para somar e não para disputar”, garante Daniel Roesler, que na sexta 8 de agosto inaugura para o público uma filial da Galeria Nara Roesler no Rio de Janeiro, com uma individual do artista carioca Marcos Chaves. A galeria se instala em um imóvel de 200 mts2 na Rua Redentor, em Ipanema, e traz na bagagem a representação de 40 artistas nacionais e estrangeiros e 25 anos de atividades em São Paulo, onde se consagrou entre as cinco maiores galerias do país.

O clã Roesler – formado pela matriarca Nara e os irmãos Daniel e Alexandre – chega à cidade maravilhosa na esteira de um movimento de restauração da vida artística e institucional local, iniciado em 2009 com as transformações urbanas, especialmente na zona portuária e no entorno da histórica Praça Mauá. Com a instauração da ArtRio, a Feira Internacional de Arte Contemporânea do Rio de Janeiro, em 2011; a construção de museus como o Museu de Arte do Rio (MAR); a Casa Daros, em Botafogo; e as futuras inaugurações do Museu do Amanhã e do Museu da Imagem e do Som (MIS), em Copacabana; o Rio ostenta um novíssimo percurso cultural.

O vigor desse momento institucional é reforçado pela nova Oca-Lage, Organização Social sob direção do galerista Marcio Botner e da critica e curadora Lisette Lagnado, que injeta vida nova a espaços tradicionais da cidade.

A expansão da galeria paulistana para o Rio acontece em meio a essa efervescência toda. Especula-se que a Fortes Vilaça tenha os mesmos planos, embora ainda não confirme oficialmente. A questão é se há mercado que justifique um êxodo. “Há três anos participamos da ArtRio e vemos um mercado viável”, garante Daniel Roesler. “Além disso, boa parte de nossos artistas são baseados no Rio e queríamos estar mais próximos deles e de nossos clientes locais. A maioria de nossos artistas não tinham representação no Rio e queriam ter uma presença lá”.

Quanto aos artistas que eram representados por galerias cariocas, alguns tomaram a iniciativa de ficar só com a Nara Roesler. Outros, como Raul Mourão, do elenco da galeria Lurix, divide-se entre as duas. Isso requer uma política de boa vizinhança. Quanto a possíveis desconfortos gerados com essa situação, o galerista atenua: “Cada um tem o seu mercado. Mas não faremos por enquanto individuais desses artistas que tem representação no Rio. Apesar do Rio ser uma cidade que presa seus valores locais, tem abertura para receber coisas novas. A gente tem recebido um input muito positivo, a cidade está nos recebendo de braços abertos.”

Ainda que o Rio de Janeiro gere um volume de negócios inferior a São Paulo, tem um mercado em ascensão que não é de se jogar fora. Segundo a Pesquisa Setorial Latitude, a SP-Arte é considerada por 59% das galerias brasileiras pesquisadas a feira mais importante do ponto de vista do volume de negócios gerados. Mas a ArtRio é o segundo mercado mais forte das galerias brasileiras, movimentando 13,5 % de seus negócios em feiras. O terceiro lugar fica com a Art Basel Miami Beach, para onde há migração em massa, em Dezembro.

“O Rio de Janeiro nos parece um lugar longe o suficiente para gerar uma estrutura nova e perto o suficiente para podermos dar uma atenção muito grande”, continua Daniel. “É um experiência de crescimento: se a gente conseguir atender bem, funcionar bem nesse ‘longe perto’ que é o Rio, a gente pode no futuro crescer até onde desejar”, diz ele.

O Rio representa o segundo estágio de uma fase de crescimento que começou há dois anos, quando a Nara Roesler ampliou suas instalações em São Paulo com um anexo de 700 mts2. A Europa seria o próximo destino, ainda no horizonte.

Mas esse terceiro tempo dá sinais de ter começado, com a editora Alexandra Garcia agora representando a galeria em Nova York, onde fará um trabalho institucional de formatar redes colaborativas com instituições da Big Apple.

Posted by Patricia Canetti at 1:24 PM