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abril 29, 2011

Uma coleção em risco por Camila Molina, O Estado de S. Paulo

Uma coleção em risco

"Estou no escuro como você", diz Beatriz Pistrak Nemirovsky Moraes Leme, filha dos colecionadores de arte José e Paulina Nemirovsky, ambos já mortos. Hoje, ela e seus três filhos - os gêmeos Gabriel e Maria Carolina, de 20 anos, e Bettina, de 18 anos - são os únicos conselheiros da fundação que leva o nome de seus pais, depois da renúncia coletiva, na semana passada, dos outros quatro membros do conselho da entidade, até então presidida pelo arquiteto Jorge Wilheim (leia ao lado). Desestruturada por essa situação, que envolveu uma última briga judicial arrastada desde meados de março, a Fundação José e Paulina Nemirovsky, instituída na década de 1980 e detentora de uma coleção de arte avaliada em cerca de R$ 100 milhões, passa agora por um momento de indefinição até que seus novos conselheiros sejam nomeados pelo Ministério Público Estadual (MPE).

O caso chegou aos holofotes pois, mesmo que a fundação seja privada, a coleção que abriga tem caráter público. Paulina Nemirovsky assinou, em 2004, contrato de comodato, renovável, do acervo de arte com o governo do Estado de São Paulo. Assim, a entidade passou a ter como sede o segundo andar da Estação Pinacoteca, prédio do museu Pinacoteca do Estado, amplo espaço para que se fizessem mostras com obras da coleção, que tem como grande destaque o modernismo brasileiro. Também foi criada no local a reserva técnica para as 276 obras do acervo, escritório e biblioteca. No ano passado, o comodato foi renovado com a Secretaria de Estado da Cultura para até dezembro de 2020. No entanto, com essa atual situação de indefinição da entidade, algumas questões vieram à tona.

"É muito fácil falar que vou querer pegar os quadros para mim", diz Beatriz Nemirovsky. "Quero que a fundação seja vista pelo povo e quero dar mais luz a ela", continua a herdeira do casal, refutando que tenha a intenção de encerrar o contrato com a Secretaria Estadual de Cultura e tirar as obras da coleção da Estação Pinacoteca. Pelo estatuto da fundação, é possível que se desfaça o comodato caso a maioria do conselho vote essa questão. "Estão achando que vou vender os quadros, mas como vou tirar uma coisa que já é do Estado?"

Insatisfeita, segundo ela, com as atividades da fundação, Beatriz, entretanto, diz não ter ainda ideias sobre como "dar vida" à entidade. "Pensei em fazer eventos, estou estudando falar com amigos meus." A herdeira afirma que não era convocada para as reuniões do conselho e que, com a morte de sua mãe, teve a intenção de criar um fundo para a instituição, mas não foi adiante. "Contribuí com recursos, mas quando parei, senti que quiseram me afastar. Agora, com meus filhos no conselho, consegui ter uma voz", continua. Depois da nomeação dos novos conselheiros, o diretor executivo da instituição, Arnaldo Spindel, e a curadora da fundação, Maria Alice Milliet, assim como outros funcionários, garantem que também vão deixar a entidade.

"RENUNCIAMOS EM PROTESTO", DIZ WILHEIM

O curador de fundações do MPE, Airton Grazzioli, ajuizou, em março, ação de pedido de afastamento do arquiteto Jorge Wilheim e de Antonio Henrique Amaral e Antonio de Franceschi do conselho da fundação a partir de questão levantada pelos advogados de Beatriz Nemirovsky sobre a regularidade da permanência deles na entidade - segundo a representação, os conselheiros estariam no cargo há mais tempo que o permitido pelo estatuto.

"Renunciamos em protesto a uma manobra de colocar os membros natos a partir de afastamento de três conselheiros. Não concordamos com uma situação que contraria o intuito dos instituidores da fundação", diz Wilheim, referindo-se especialmente ao fato de que o estatuto da entidade não permite que a família seja maioria no conselho. Segundo o arquiteto, que também é conselheiro da Fundação Bienal de São Paulo, do Museu Lasar Segall e do Hospital Albert Einstein, a "imponderabilidade" das brigas judiciais poderia se arrastar por meses ou anos.

Wilheim também afirma que Beatriz e seus filhos sempre eram convocados às reuniões, mas não compareciam - participaram apenas no ano passado. Ele diz ainda que não concorda que o mesmo MPE que, nos anos anteriores, havia aprovado as atividades da entidade, tenha depois alegado ser o conselho ilegal. As decisões ficam para o MPE.

Posted by Cecília Bedê at 3:23 PM

abril 28, 2011

Reforma da nova sede do MAC deve acabar no final de maio poe Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo

Reforma da nova sede do MAC deve acabar no final de maio

Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 28 de abril de 2011.

Obra do antigo prédio do Detran está 85% pronta, diz engenheiro

Cerca de 300 homens trabalham intensamente para o término das reformas na nova sede do Museu de Arte Contemporânea da USP, no antigo prédio Detran.

Prometida para junho de 2009 e depois adiada várias vezes, a última para fevereiro passado, a entrega do prédio deve ser realizada no fim do próximo mês.

"Reformar um prédio dos anos 1950 e ainda tombado é muito difícil; para atender às novas regras de acessibilidade, por exemplo, precisamos realizar operações complexas, uma das razões do atraso", explica Osvaldo Padilha Júnior, engenheiro responsável pela obra na Secretaria de Estado da Cultura.
Ele estima que 85% do trabalho esteja pronto. "Dificilmente vamos ter novos atrasos", garante.

Anteontem, a Folha acompanhou uma visita do secretário de Cultura do Estado, Andrea Matarazzo, ao local. Ele e seus convidados precisaram subir a pé os oito andares do edifício, pois a eletricidade definitiva não havia sido conectada.

"Olha só essa paisagem. É um local privilegiado para ver o Ibirapuera. Será o melhor museu da cidade", disse o secretário.

A Secretaria de Cultura está gastando R$ 76 milhões na reforma do prédio, criado por Oscar Niemeyer nos anos 1950 e no qual funcionava o Detran. O próprio Niemeyer fez um projeto para o novo edifício, orçado em R$ 120 milhões, mas o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo vetou a proposta.

Foi preciso se manter fiel ao projeto original, o que levou, por exemplo, à instalação de brise-soleil (quebra-sol) em toda a fachada.

O diretor do MAC, Tadeu Chiarelli, disse à Folha que, após a entrega, serão necessários três meses para a ocupação do espaço. Com isso, a inauguração deve ocorrer em agosto ou setembro.

Posted by Cecília Bedê at 5:51 PM

Sofia Borges investiga a natureza de imagens fixas por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Sofia Borges investiga a natureza de imagens fixas

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 28 de abril de 2011.

Artista recupera fotos antigas numa reflexão sobre a construção do real

Fotógrafa faz individual na galeria Virgilio agora em São Paulo e tem obras em outras três exposições em cartaz

Sofia Borges inventava narrativas torpes em fotografias que pareciam pinçadas de um teatro absurdo. Ela mesma aparecia, os olhos verdes à espreita, em cenas suspensas, como se antes ou depois de um evento que ficava sempre além do quadro.

Nas primeiras obras que fez, a artista retratava cada objeto e personagem em condições de luz e velocidade distintas, anulando espaço e tempo reais em nome de uma fantasia agreste e calculada.
Suas novas imagens, espalhadas agora por quatro exposições, três em São Paulo e uma em Porto Alegre, voltam a pensar a fotografia não como índice do real, mas uma plataforma de construção.

Importa menos o assunto do quadro e mais o grão da imagem, os alicerces dessa construção. Quase afoga o objeto retratado, seja um almirante naval nos anos 40 ou um camelo no zoológico hoje, na textura da fotografia -linhas da impressão, o pó do negativo, falhas digitais.

Sai de cena o teatro de antes para dar lugar a um movimento quase pendular entre dentro e fora do quadro, uma imagem fixa e sua substância que brigam no mesmo plano.

Borges abandona a força da fotografia e mergulha em texturas sedutoras, como se buscasse o gesto da pintura, o grão do pigmento equiparado às transformações químicas de um quarto escuro.
"Essas coisas mais se apresentam do que se aprofundam, tudo se mostra, mas nada vai além", diz Borges, 27.

"São fotos para desestabilizar a leitura, deslizantes, que não se encaixam muito."
Na galeria Virgilio, onde faz agora uma individual, ela se apropria de uma imagem de duas pepitas de ouro, uma bruta e outra polida, que encontrou numa enciclopédia.

É como se desse ali a base para o percurso de ida e volta na arquitetura de suas imagens, do estado bruto ao lapidado.

Um garoto observando um cenário de bichos pré-históricos no Museu de História Natural de Nova York, imagem dos anos 40 fotografada agora, também dá a dimensão de construção em curso, como se importasse menos o autor da foto e mais seu contexto.

VINTAGE INSTANTÂNEO
Nesse ponto, Borges não está distante da onda vintage que varre o cenário da fotografia contemporânea, com filtros instantâneos até nos celulares para dar cara de anos 70 a flagras furtivos da balada ou da fila do banco.

Mas parece atravessar essa sintonia aparente buscando raízes nas convenções da pintura, ancestral da imagem fotográfica que volta a ganhar valor em tempos de Photoshop instantâneo.
Numa mostra que abre no Rio, no mês que vem, por exemplo, ela recorta pedaços da paisagem construída de um museu de história natural, reconfigurando tudo à luz do pré-impressionismo.
"Eu amoleço ou endureço as fotos, deixo que escapem", resume a artista. "Pego o material bruto, amoleço e tiro da narrativa possível."

Posted by Cecília Bedê at 5:41 PM

abril 26, 2011

Verba de obra de Barrio para mostra segue indefinida - Agência Estado, O Estado de S. Paulo

Verba de obra de Barrio para mostra segue indefinida

Matéria da Agência Estado originalmente publicada no caderno de cultura do jornal O Estado de S. Paulo em 26 de abril de 2011.

Ainda está indefinida a situação da obra do artista Artur Barrio na 54.ª Bienal de Veneza, a ser inaugurada em 1.º de junho. Barrio, escolhido para representar oficialmente o Brasil na mostra italiana, recebeu ontem comunicado dos produtores de sua obra dizendo que não havia previsão da Fundação Nacional de Artes (Funarte) para a liberação dos recursos para sua participação na Bienal.

"Estou atônito. Mais uma vez, na teoria as coisas acontecem, mas na prática, nada", disse o artista, que vive no Rio. Por sua previsão, conta, ele viajaria neste domingo para a Europa para realizar a instalação inédita (Ex) Tensões....y.....Pontos no Pavilhão Brasil nos Giardini de Veneza.

Em 29 de março, a Funarte anunciou que custearia diretamente a obra de Barrio devido a mudanças legislativas. Segundo nota da entidade, "o processo por meio do qual se dará o apoio já tramita internamente na Funarte". "No momento, a instituição aguarda documentação do artista para a formalização do apoio", diz ainda a Funarte. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.


Posted by Cecília Bedê at 11:41 AM

Após despejo, IAC vai levar acervo para prédio da PUC por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Após despejo, IAC vai levar acervo para prédio da PUC

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 26 de abril de 2011.

Museu deixa edifício da USP na rua Maria Antonia e deve ocupar depósito provisório até escolher novo local

Despejado do prédio da USP que ocupa desde 2007, o Instituto de Arte Contemporânea fechou um contrato com a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e já está de mudança para um imóvel do novo parceiro.

É um desfecho da crise na instituição desde que o reitor da USP, João Grandino Rodas, despejou o IAC de sua sede no prédio Joaquim Nabuco, na rua Maria Antonia, em novembro passado.

Desde então, o IAC buscava um novo endereço para abrigar seu acervo de 17 mil documentos históricos sobre artistas como Sergio Camargo, Amilcar de Castro, Willys de Castro e Mira Schendel.

Uma tentativa de transferir o museu para um casarão da Secretaria de Estado da Cultura na avenida Higienópolis não foi adiante por questões burocráticas e acabou sendo descartada pelo IAC quando a PUC confirmou seu interesse em receber o museu.

"Num primeiro momento, é um contrato de comodato sem maiores cláusulas e definições", disse o presidente do IAC, Pedro Mastrobuono, à Folha. "Foi para diminuir o atrito judicial com a USP e ter um novo endereço para destravar projetos paralisados."

Duas ações judiciais da USP contra o IAC ainda tramitam na Justiça. Desde que ficou sem sua sede oficial no centro de São Paulo, o museu teve seus projetos em análise suspensos no Ministério da Cultura e não pode acessar suas contas bancárias.

"Isso gerou um quadro de asfixia financeira, mas com o novo endereço podemos destravar os projetos", disse Mastrobuono. "A PUC já está disposta a nos abrigar em um depósito provisório, vamos sair imediatamente da USP."

No novo endereço, o IAC deve estreitar laços com o curso de preservação e restauro da PUC, concretizando um dos planos de Mastrobuono à frente do museu, que era tornar a instituição um centro de formação de profissionais de preservação.

Mastrobuono está tentando firmar convênios agora também com instituições estrangeiras especializadas em restauro, como a Universidade de Amsterdã, o instituto Amolf e o Museu Van Gogh.
Enquanto isso, a USP voltará a ocupar o prédio que foi reformado pelo IAC, um investimento de R$ 5 milhões financiados pela instituição.

Procurada pela reportagem, a USP não quis se manifestar sobre o assunto, mas declarou que pretende usar o edifício Joaquim Nabuco para "atividades de cultura e extensão da universidade", como exposições do acervo dos museus universitários.

Posted by Cecília Bedê at 11:23 AM

abril 25, 2011

Rafael Campos Rocha pede uma licença poética a Deus por Diana Moura, Jornal do Commercio

Rafael Campos Rocha pede uma licença poética a Deus

Matéria de Diana Moura originalmente publicada no caderno de cultura do Jornal do Commercio em 1 de abril de 2011.

Mostra de cartuns e vídeos do artista é inaugurada no Mamam no Pátio

Se você tivesse o poder de recriar Deus, como você o faria? Ou, melhor dizendo, qual a imagem que o Todo-Poderoso tem para você? Para o cartunista paulista Rafael Campos Rocha deus é uma negra, bissexual, totalmente liberada, casada com um cara cuca fresca chamado Carlos. Com personagens de caráter pouco convencional, para dizer o mínimo, os quadrinhos do artista são publicados no seu blog, no fanzine eletrônico O poder do pensamento negativo – Como destruir a sua vida e das pessoas que você ama em duas lições, na revista Piauí, na Folha de S. Paulo e em outros veículos Brasil a fora. Hoje, ele inaugura uma mostra no Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães no Pátio de São Pedro, com a exibição de cartuns e vídeos. Todos professam a liberdade de pensamento como matéria-prima para histórias tão divertidas quanto inusitadas.

Segundo o próprio artista, a exposição que acontece no Recife é um registro do seu trabalho, que, na verdade, acontece na internet. “A ideia é falar mal. Não tenho preferência por cor, credo, raça, preferência sexual. Detesto todos igualmente, inclusive a mim mesmo”, avisa Rafael, que é personagem de algumas de suas criações.

Para ver a exposição apresentada pelo cartunista, o público deve ir de espírito desarmado. Primeiro porque as histórias exigem desprendimento em relação às verdades que cercam o mundo e são incutidas nas pessoas desde o nascimento. Depois, porque senso de humor e vontade de se surpreender é algo essencial para aproveitar as criações de Rafael.

Sujeitos muito suscetíveis certamente vão ficar chocados. E também vão deixar de aproveitar os deliciosos vídeo-textos do artista sobre arte e futebol. Crítico de arte – ênfase no crítico –, Rafael consegue tecer relações inteligentes entre mestres da arte a gênios do futebol. De Lionel Messi, ele disse, comparando o jogador ao pintor polonês Wilhelm Sasnal: “Perto dele, a simplicidade de Volpi parece uma afetação. (...) Seus dribles têm a soberania do corpo sobre a mente, da técnica sobre a história”.

Posted by Cecília Bedê at 2:06 PM

Morre em Lisboa o curador de arte Paulo Reis por Mauro Ventura, O Estado de S. Paulo

Morre em Lisboa o curador de arte Paulo Reis

Matéria de Mauro Ventura originalmente publicada no caderno de cultura do jornal O Estado de S. Paulo em 25 de abril de 2011.

Um magnífico curador, um entusiasta da arte e um grande amigo. Assim Paulo Reis foi definido pelo crítico e curador David Barro, com quem fundou a revista "Dardo", na Espanha, dedicada à arte contemporânea. Uma opinião compartilhada pelo mundo das artes plásticas.

- Ele era um sujeito enorme - conta o artista plástico José Bechara, dizendo-se muito "chocado e comovido" com sua morte, aos 50 anos.

Desde 2005, o carioca Reis morava em Portugal, onde criou em 2009 em Lisboa com dois amigos o Carpe Diem - Arte e Pesquisa, uma instituição instalada no Palácio Marquês de Pombal direcionada para a produção e realização de exposições, além da organização de conferências e master classes. "Arte e pesquisa' é o mote de nosso projeto. Aliar a criação que deriva de um pensamento de arte ao pensamento sobre a própria arte", definia. Sobre a gratuidade das ações, justificava dizendo que recebia apoio do governo e, portanto, tinha dever ético com o dinheiro público. Achava estranho produtores e instituições receberem apoio estatal e cobrarem ingresso e lucrarem. "E, na primeira oportunidade que aparece, não se inibem de falar mal do Estado. É uma vergonha, é indecente, é imoral", disse ao site Artecapital.

Segundo o ensaísta António Pinto Ribeiro, ele era um "verdadeiro embaixador cultural entre os artistas e os curadores" de Brasil e Portugal. Seu trabalho foi importante para a internacionalização de vários artistas brasileiros na Europa, como foi o caso do próprio Bechara.

- Ele construiu um trabalho muito sólido. Gostava de abrir caminhos, expandir territórios. Era um investigador incansável da produção dos artistas, fossem eles jovens ou consagrados. Seu trabalho deu uma contribuição notável para a circulação pública e internacional dos artistas - diz ele. - Todo mundo perde muita coisa com Paulo. Era um homem bom e uma pessoa muito generosa e gentil.

A última grande exposição sob sua responsabilidade foi a "Paralela 2010", em São Paulo, no ano passado.

Professor, curador e crítico de artes plásticas, Paulo Reis morreu no fim da tarde de sábado, no Hospital Egas Moniz, em Lisboa. Em fevereiro último, teve uma pneumonia que se complicou com uma tuberculose. O funeral será nesta segunda-feira às 15h e a cremação, às 16h, em Lisboa.

Posted by Cecília Bedê at 1:46 PM

Nomes da nova geração recriam cotidiano bizarro em mostra por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Nomes da nova geração recriam cotidiano bizarro em mostra

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 25 de abril de 2011.

Coletiva na Millan tem pinturas, desenhos e fotos de 15 artistas

É um cotidiano atravessado o da nova geração de artistas no país. Numa exposição coletiva agora em cartaz na galeria Millan, parece surgir um mundo ao mesmo tempo banal e contraditório, um estado escorregadio das coisas.

São todos autores que despontaram no circuito depois da virada do século, mergulhados ainda num espírito de mudança longe de se fixar como uma escola ou estilo.

Têm em comum só a ideia de extrair da rotina os grãos de estranheza, sem grandes pretextos, só porque sim.

Nas pinturas de Rodrigo Bivar e Rafael Carneiro e nos desenhos de Tatiana Blass, parece haver uma investigação de imagens passageiras.

Enquanto Carneiro recria a cena de um filme a partir de um fotograma do vídeo, Bivar revê uma tarde na praia com ar grotesco e pegajoso.

Matheus Rocha Pitta, com sacos de sal grosso que lembram pacotes de cocaína, e Rodrigo Matheus, com aparelhos de ar-condicionado fake, questionam a violência entranhada na rotina morta e sem rumo das cidades.

Posted by Cecília Bedê at 12:28 PM | Comentários (1)

"Queremos uma renovação total", diz Bia Nemirovsky por Silas Martí, Folha de S. Paulo

"Queremos uma renovação total", diz Bia Nemirovsky

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 23 de abril de 2011.

Após renúncia de conselheiros, herdeira da coleção de arte moderna diz que era ignorada por gestão antiga

Nemirovsky pediu ao MP que afastasse o ex-presidente da fundação, Jorge Wilheim, que se "perpetuava no poder"

Dois dias depois da renúncia dos conselheiros eleitos da Fundação Nemirovsky, que tem uma das maiores coleções de arte moderna no país, a herdeira das obras disse à Folha que ficou "muito feliz" com a saída coletiva.

"Queremos uma renovação total, porque todos que estão lá faziam parte do complô para nos excluir", disse Beatriz Nemirovsky, 45. "Não conhecia os conselheiros, nem tinha voz. Não é justo, sou a herdeira, a filha de quem criou tudo isso, e não me consultam para nada."

Na última terça-feira, deixaram a fundação os conselheiros Antonio Henrique Amaral, Antonio de Franceschi e Jorge Wilheim, que presidiu a instituição por dois mandatos e acabara de se reeleger para um terceiro.

Nemirovsky pediu que o promotor Airton Grazzioli, curador de fundações do Ministério Público paulista, entrasse com ação judicial há dois meses pedindo o afastamento de Wilheim, alegando que, segundo o estatuto da fundação, conselheiros podem ter só dois mandatos.

No mês passado, foi concedida uma liminar determinando a saída do presidente e dos demais, que renunciaram agora a seus cargos.

"Jorge Wilheim queria se perpetuar no poder; estava quase querendo mudar o nome da fundação", disse Nemirovsky. "Ele quebrou as regras. É uma violação e uma falta de respeito comigo e com minha falecida mãe."

Paulina Nemirovsky, que construiu a coleção ao lado do marido José Nemirovsky, havia escolhido Wilheim para a presidência da fundação antes de morrer, em 2005.

Com a saída dele e dos demais conselheiros, Grazzioli e o juiz do caso, Luis Augusto de Sampaio Arruda, deverão indicar novos nomes para a fundação, que agora tem no conselho Beatriz Nemirovsky e seus filhos -gêmeos de 20 anos e uma jovem de 19.

Desde 2004, a coleção Nemirovsky, com cerca de 200 obras, está cedida em comodato à Secretaria de Estado da Cultura, que exibe os trabalhos em caráter permanente na Estação Pinacoteca.

Entre os destaques do acervo estão a tela "Antropofagia", de Tarsila do Amaral, e obras de modernistas brasileiros, como Alberto da Veiga Guignard, Alfredo Volpi e Ismael Nery. Trabalhos de Hélio Oiticica e Lygia Clark também integram o conjunto, além de duas obras do artista espanhol Pablo Picasso.

Posted by Cecília Bedê at 12:19 PM | Comentários (1)

Crise na Fundação Nemirovsky arrisca trabalho exemplar por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo

Crise na Fundação Nemirovsky arrisca trabalho exemplar

Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 22 de abril de 2011.

Renúncia dos conselheiros da instituição foi motivada por pedido de afastamento do presidente Jorge Wilheim

As obras da coleção cumpriram o objetivo de José e Paulina Nemirovsky de circular o mundo

É temerário o futuro da Fundação Nemirovsky. A renúncia dos cinco conselheiros eleitos, na última quarta, colocam em xeque um trabalho exemplar de preservação de uma coleção única do modernismo brasileiro.
Especialmente desde que se instalou na Estação Pinacoteca, em 2004, a Fundação, sob a presidência de Jorge Wilheim e a direção-executiva de Maria Alice Milliet, organizou não só excelentes mostras, como também catálogos referenciais -como "Mestres do Modernismo", da exposição inaugural do convênio com a Pinacoteca.

As obras da coleção ainda circularam o mundo, cumprindo o objetivo de José e Paulina Nemirovsky ao torná-las públicas.

A crise que se inicia agora parte de uma leitura do estatuto da fundação, segundo o qual os membros eleitos não poderiam ter mais de dois mandatos, o que Wilheim teria violado ao se tornar presidente pela terceira vez.

No entanto, a ação do promotor e curador de fundações do Ministério Público Estadual, Airton Grazzioli, em prontamente pedir o afastamento de Wilheim aparenta-se um tanto precipitada.

Afinal, foi ele quem manteve o então presidente da Bienal de São Paulo, Manuel Francisco Pires da Costa, que assumiu ter violado os estatutos da Bienal ao contratar parentes para prestar serviços à instituição, em 2007.

INCOERÊNCIA
Estranho, então, que um presidente, Pires da Costa, que assumidamente violou os estatutos, seja mantido no cargo, levando a Bienal para o buraco, enquanto com outro, Wilheim, sobre o qual não pairam dúvidas de má gestão, a ação tenha sido tão enérgica.

Na própria Bienal de São Paulo, há dois anos, quando Heitor Martins assumiu, o promotor conseguiu uma fórmula para manter a mulher do presidente, Fernanda Feitosa, utilizando o pavilhão da Bienal para sua feira de arte, o que contraria os estatutos da instituição.

Agora, com a renúncia coletiva, Grazzioli anuncia que pretende indicar os novos membros. Sabe-se que foi a própria criadora da fundação, Paulina Nemirovsky, quem indicou Wilheim e colocou Milliet na diretoria.
Os futuros nomes terão a mesma legitimidade? O Ministério Público corre o risco de, depois de quase acabar com a Bienal, colocar em risco uma da melhores coleções modernas do país.

Posted by Cecília Bedê at 12:09 PM

Projeto de Vik Muniz no Rio será estatizado por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Projeto de Vik Muniz no Rio será estatizado

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 25 de abril de 2011.

Artista deixa Semana de Arte e donos da marca repassam evento ao governo

Ideia original era levar obras de arte a pontos famosos do Rio, mas novo organizador não tem detalhes do projeto

Depois que desentendimentos entre empresas responsáveis fizeram naufragar a Semana de Arte do Rio, projeto de Vik Muniz que levaria obras de 16 artistas a lugares públicos da cidade, o detentor da marca tenta repassar o evento para o Estado do Rio.

"Cresceu demais aquele projeto, ficou grande demais e a gente achou que teria prejuízos", disse à Folha Guilherme Magalhães, diretor da Nau, a produtora que ficou com os direitos sobre a marca. "Estamos fazendo uma doação disso para o Estado para não ter sobressaltos nem confusão de verbas."

No caso, são R$ 20 milhões de orçamento para bancar uma megaestrutura, tentativa do Rio de fazer frente à Bienal de São Paulo, segunda maior mostra de arte no mundo e mais importante evento do tipo no país.

Mas nada está decidido e desavenças entre organizadores jogam uma sombra de dúvida sobre o evento. Segundo a secretaria estadual da Cultura do Rio, "até o momento tudo que houve foram sondagens, as conversas estão muito embrionárias".

POUCOS DETALHES
Magalhães, vice-presidente da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, diz que está tentando integrar os espaços expositivos da escola e a Casa França-Brasil ao roteiro de sua Semana de Arte.

Mas se o plano original era montar instalações de artistas estrelados como o dinamarquês Olafur Eliasson, o sul-africano William Kentridge e as brasileiras Adriana Varejão e Beatriz Milhazes em pontos famosos do Rio, poucos detalhes sobre o novo projeto estão definidos.

"Tentei fazer isso e não consegui", disse Vik Muniz, autor do projeto original, à Folha. "Agora vão buscar outro curador e fazer do jeito que eles querem fazer."

Enquanto a nova Semana de Arte não sai do papel, Muniz e sua namorada, Malu Barreto, estão fundando uma organização de interesse social, a Arte em Trânsito, para produzir algo próximo do que seria a ideia original.

Chamada Mostra de Arte Pública do Rio, deve reunir os mesmos nomes nos mesmos moldes, mas ainda não tem data para acontecer.

Norman Foster fará maratona do artista no Rio

Enquanto não se concretizam os planos mais ambiciosos de Vik Muniz, já está confirmado para agosto, no Rio, um dos eventos que fariam parte de sua Semana de Arte.

Pela primeira vez no Brasil, o curador suíço Hans Ulrich-Obrist, da Serpentine, em Londres, fará uma de suas famosas maratonas de entrevistas.

Nos encontros que vem fazendo pelo mundo, Ulrich-Obrist reúne artistas, curadores e outras personalidades para entrevistas em série, chegando a durar 48 horas, em geral sobre um tema comum.
No Rio, ele vai falar sobre o futuro das cidades com o arquiteto britânico Norman Foster e também deve entrevistar a dupla de artistas Gilbert & George, um dos maiores nomes da arte do Reino Unido.
Serão 50 convidados no total, divididos entre 30 brasileiros e 20 de fora.

Muitas das entrevistas de maratonas passadas já estão publicadas no Brasil em livros que saíram pela editora Cobogó, que compilou suas conversas com Yoko Ono, Merce Cunningham, Robert Crumb, Jeff Koons e brasileiros como o curador Walter Zanini e o poeta Augusto de Campos.

Segundo Malu Barreto, namorada de Muniz e produtora do evento ao lado da espanhola Isabela Mora, os demais nomes da maratona carioca não estão confirmados, mas Ulrich-Obrist já tem em mente outros brasileiros que pretende entrevistar.

Entre os nomes dessa nova leva de conversas, estão o dramaturgo José Celso Martinez Corrêa, do Oficina, e os músicos Tom Zé e João Gilberto. (SM)


Posted by Cecília Bedê at 11:44 AM

abril 20, 2011

Certas desventuras por Ana Cecília Soares, Diário do Nordeste

Certas desventuras

Matéria de Ana Cecília Soares originalmente publicada no caderno 3 do jornal Diário do Nordeste em 20 de abril de 2011.

O 62º Salão de Abril tenta inovar, levando obras para o IPPOOII, mas na prática a ideia não funciona. Um dos problemas é o modo como ocorrerão as visitas no local.

Acompanhados por um bando de homens armados da Unidade de Apoio Penitenciário (UAP), trajados como "ninjas" negros de onde só se via os olhos, éramos conduzidos aos espaços onde estavam dispostos os trabalhos. O primeiro deles, "Jamba", uma plotagem com a imagem de um elefante, feito pelo artista Filipe Berndt, passaria despercebido aos nossos olhos se os mediadores não chamassem nossa atenção para sua localização. Do outro lado, fincada numa espécie de pátio, se encontra a instalação "Ventura" de Diego dos Santos. Ideia interessante (uma casa semisubmersa no chão), mas que poderia ser melhor aproveitada se o tamanho do objeto fosse maior. O impacto de sua poética, com certeza, seria muito diferente.

Caminhando presídio adentro, daqui acolá, deparamo-nos com olhares curiosos de presos que se esgueiravam entre si como gatos para ver o que acontecia. Muitos, inclusive, indignados com a atitude dos polícias (fortemente armados numa área destinada aos "presos pacíficos"), escondiam-se em suas celas como sinal de protesto. Uma vez que, em visitas "normais", o posicionamento dos guardas é outro. Hipocrisia?

Em um dos corredores, dos muitos que percorremos, meio escuros e silenciosos, há a série de fotografias "Intro-Espelho" da artista Celina Kostaschuk. Não consegui captar direito a obra, aliás, confesso que todas as que estão expostas no IPPOOII, pois a visita seguiu a passo acelerado, "tudo por medidas de segurança". Nesse ritmo efêmero, praticamente, correndo de uma obra a outra, sem intervalos, a visita foi sendo conduzida. Difícil imaginar que tenha permitido à curadoria tempo para uma análise mais profunda.

Presos "pacíficos"

Em alguns momentos, tivemos a chance de trocar poucas palavras com três detentos. O mais velho deles, Cícero Marlon da Silva Oliveira, 41, há seis anos preso, se diz muito feliz com os trabalhos de arte no presídio. "Nunca fui a um museu ou qualquer outra coisa desse tipo, nós todos estamos contentes com a arte aqui. É bom sermos lembrados. Nessa vivência onde estamos (um tipo de ala), só tem as pessoas que querem alguma coisa. Não admitimos badernas. Erramos sim, mas queremos mudar pra melhor", explica enquanto mostra uma das lindas casinhas de madeira que faz. Danatiel de Sousa, 28, há dez anos e nove meses na prisão, conta da alegria que teve ao ver o retrato do filho Ezequiel, sete anos, vestido de Papai Noel ser transformado em pintura a óleo, pela artista Clarissa Campelo, que realizou o trabalho "Retratos", onde reproduzia em telas, as fotos de familiares dos presidiários. "Foi uma emoção muito grande ver meu filho virado pintura. A artista me deu o quadro. Ezequiel ainda não viu, o aniversário dele é no dia 21 de abril, então, quando vier me visitar, vou dar o quadro de presente pra ele. Tenho certeza de que vai gostar muito", diz enquanto pousa ao lado da pintura do filho para uma foto.

Em outra ala dos presos "pacíficos", Hilton de Lima, 38, há 23 meses preso, também se revela feliz com a presença das obras no presídio. Principalmente de "O que a cortina esconde só se supõe, o que se põe na janela é o que se vê", de Leticia Kamada, onde se têm várias plotagens com fotos de janelas, exibindo diferentes paisagens. As imagens estão localizadas próximas de sua cela. "Eu, como a maioria dos meus colegas, nunca fomos a uma exposição. É bom ter isso aqui para alegrar mais o ambiente da gente e dar mais cor".

Depois de Hilton mostrar a paisagem que mais gostou (bem simbólica por sinal), um belo campo verde com árvores frondosas; caminhei lentamente, próximo das celas: pequenos cubículos descascados, quase todos, com recortes de jornais, revistas e desenhos feitos nas paredes, com nomes, números (talvez uma maneira de contar o tempo), corações flechados, fotos de familiares e referências aos times de futebol preferidos de cada um deles. Vi também lençóis amarrotados, tênis e tubos de creme dental jogados pelos cantos, e colchões envelhecidos... Ao observá-los, como os demais visitantes, senti, como se estivéssemos num grande zoológico humano, onde a atração principal, não era as obras em si, mas o homem encarcerado com sua culpa e solidão...

Questões

Há três anos, a organização do Salão de Abril vem refletindo sobre "Qual é o lugar da arte?", promovendo uma ampliação territorial de ocupação de seus espaços expositivos, tudo com o intuito de aproximar as produções artísticas do público não especializado. Depois de passar por alguns terminais de ônibus da cidade e ganhar algumas ruas do Centro, a edição deste ano chega ao IPPOO II.

A ideia não é ruim, contudo, na prática não funciona. A começar pela simples pergunta: como ocorrerão as visitas? Além doos presos e das visitas, quem poderá ver as obras?Respostas que nem mesmo os organizadores do evento sabem dar. Se um dos objetivos do Salão de Abril é democratizar o acesso à arte, a atual proposta é um paradoxo, caindo numa armadilha feita por si própria. Ao aproximar as obras de uns, afasta de outros. Outra questão é: será que todos os presos terão acesso aos trabalhos ou só a ala dos ditos "pacíficos"? Inclusive, tem alguns trabalhos que se encontram pertos do local de saída. E, ai?

Em conversa com os curadores Ana Valeska Maia e Andrés Hernandez foi detectado que alguns dos trabalhos tiveram seu formato original modificado, em virtude de não se poder mexer na estrutura arquitetônica do IPPOO II. O que prejudicou a visibilidade de certas produções. A edição deste ano, também, fortaleceu mais do que nunca seu caráter nacional. De 30 artistas selecionados, apenas dois são do Ceará: Diego dos Santos e o Grupo Acidum. Episódio nunca antes ocorrido em mais de 60 anos de Salão. Segundo os curadores, no momento da seleção não se sabia o lugar de onde vinham os artistas. "Tudo ocorreu naturalmente em virtude do próprio processo seletivo. O resultado foi uma surpresa para todos nós", explicam eles. Além dessas questões, para completar as desventuras do 62º Salão de Abril, um de seus curadores, Agnaldo Farias, não compareceu à visita as obras no presídio e nem a abertura do Salão para ver os demais trabalhos. Isso leva a crer que a decisão dos nomes dos dois artistas que irão receber da Prefeitura de Fortaleza, por meio de sua Secretaria de Cultura, bolsas de formação no valor individual de R$ 12 mil, ficará ao encargo só de dois curadores. Resta-nos agora aguardar os próximos capítulos deste evento que, embora tenha adquirido dimensão nacional, é algo que integra a história cultural do Ceará. (ACS)

Posted by Cecília Bedê at 4:01 PM

abril 18, 2011

Mostra 'O Mundo Mágico de Escher' chega a São Paulo por Agência Estado, Estadão.com.br

Mostra 'O Mundo Mágico de Escher' chega a São Paulo

Matéria da Agência Estado originalmente publicada no caderno de cultura do Estadão.com.br em 18 de abril de 2011.

Parte de um raro acervo com mais de 400 obras do Haags Gemeente-museum - que mantém o Museu Escher, na cidade de Den Haag, na Holanda - poderá ser visto, a partir de amanhã, no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), em São Paulo. As peças integram a mostra "O Mundo Mágico de Escher". Dedicada ao artista gráfico holandês Maurits Cornelis Escher (1898 - 1972), que ficou conhecido por trabalhos que exploravam efeitos óticos e de espelhamento, a exposição é composta por 95 obras, entre gravuras originais e desenhos, incluindo os trabalhos mais conhecidos do artista.

Para reunir os trabalhos mais significativos de Escher, o curador da exposição Pieter Tjabbes esteve no museu na Holanda e selecionou obras num recorte cronológico, que vai de 1919 a 1960. "É importante ressaltar que essa é uma oportunidade única do brasileiro conhecer o trabalho original do artista gráfico, já que após essa exposição, as obras não serão emprestadas pelo Museu Escher durante os próximos quatro anos". Pieter explica que, pela regra internacional, quando obras ficam expostas durante muito tempo, sofrem incidências de luz e podem perder intensidade de cores e por isso devem ser preservadas com maior cuidado nos anos seguintes.

O público que for ao CCBB vai passar por algumas experiências interativas para tentar desvendar os efeitos que geram impressionantes ilusões óticas - característica marcante dos trabalhos de Escher. Em uma de suas obras, por exemplo, o espectador olha pela janela de uma casa e vê tudo em ordem; em seguida, observa o mesmo trabalho de outra janela e vê tudo flutuando. Outra forma de experiência interativa será na exibição de um filme em 3D que possibilitará um divertido passeio por dentro das obras do artista gráfico holandês.

O curador explica que era justamente este o objetivo do artista com suas obras que representava construções impossíveis, preenchimentos regulares do plano, explorações do infinito e metamorfoses nas figuras que desenhava. "Ele queria que as pessoas parassem em frente à obra e se questionasse: Será que é isso mesmo que estou vendo?" As informações são do Jornal da Tarde.

O Mundo Mágico de Escher - Centro Cultural Banco do Brasil (Rua Álvares Penteado, 112, Centro). Tel. (011) 3113-3651. Abertura amanhã. De ter. a dom., das 9h às 20h. Até 17/7. Grátis.


Posted by Cecília Bedê at 12:46 PM

Abril de muitas formas por Júlia Lopes, O Povo

Abril de muitas formas

Matéria de Júlia Lopes originalmente publicada no caderno Vida & Arte do jornal O Povo em 15 de abril de 2011.

Começa hoje o 62° Salão de Abril. Este ano, o evento homenageia Zé Tarcísio e traz como tema Subjetividades das Formas do Eu. Apesar de nacional, o salão traz 30 artistas de cinco estados. Dois deles são cearenses

A subjetividade – elemento praticamente onipresente e indispensável em qualquer trabalho de arte –fundamenta o tema do 62° Salão de Abril. A mostra intitulada Subjetividades das Formas do Eu começa hoje, com abertura marcada para as 19 horas, na Galeria Antônio Bandeira (dentro do Centro de Referência do Professor). Com 30 artistas selecionados em todo território nacional, o salão traz um número minguado de cearenses em sua lista (apenas dois: Diego dos Santos e o Grupo Acidum) com trabalhos provenientes de apenas cinco estados (São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará, Rio Grande do Sul e Pernambuco). Ao todo, a curadoria recebeu 613 inscrições.

Esta 62° edição presta homenagem ao artista Zé Tarcísio, que dispensa classificações (foi gravurista, cenógrafo, pintor...) e em fevereiro último completou 70 anos. Na ocasião, Zé vai ter sua série Pedras exibida (leia quadro ao lado). Acompanhando um movimento delineado já há três anos, o salão ramifica seu campo de ação para outros espaços, que não os expositivos, e desta vez, à exemplo do que fez nos terminais de ônibus e no Centro, leva obras de arte para o Instituto Penal Professor Olavo Oliveira II (IPPOO II). É a mostra Qual é o lugar da arte?. Maíra Ortins, coordenadora de artes visuais da Secretaria de Cultura de Fortaleza (Secultfor), que promove o evento, explica que a escolha do tema e o inusitado espaço de exposição são mais imbricados que se imagina.

“Fizemos um diálogo com o processo de mortificação do eu de (Irving) Goffman, que é um dos autores que nos baseamos pra escrever a teoria do salão desse ano”, explica. Por essa teoria, detalha Maíra, o sujeito “que entra num ambiente fechado, com determinadas regras fixadas, passa a perder a identidade”. O presídio, portanto, seria o lugar ideal para experimentar as novas ideias incorporadas ao evento. Diego dos Santos, por exemplo, descreve o trabalho que vai levar até o IPPO: uma casa metade submersa, metade acima da superfície. “Uma casa que não tem mais origem, que se desprendeu, viajando por fora e por dentro da terra. Ela precisava percorrer esses dois espaços, desprendida dos seus alicerces”. Diego não sabe onde a casa vai ficar, nem se os presos vão ter oportunidade de vê-la.

O artista foi um dos 30 escolhidos pelas mãos de Ana Valeska Maia, do Ceará, Andréz Hernandez, cubano radicado em São Paulo, e Agnaldo Farias, paulista, o grande nome do salão – ele foi o último curador da Bienal de São Paulo (a 29° edição) e é professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Os três ainda escolherão dois artistas nesse universo dos selecionados (já agraciados com R$ 2,5 mil) que receberão R$ 12 mil cada. “E ainda vamos fazer três livros a partir de três residências, que acontecerão em julho, setembro e novembro”, detalha Maíra, apesar de não saber ainda quem serão os convidados a ministrar as residências. As ações, segundo Maíra, apontam para a proposta de formação. Os projetos de formação, ela concorda, são precários na cidade.

Para quem vai à abertura do Salão de Abril hoje, espere mais um pouco, por favor: o Grupo Acidum só começa a atuar amanhã, com uma oficina sobre o trabalho que eles apresentam, a Ciclocor. “Lá vai ter um teaser com fotos da ação Ciclocor em outros lugares. É um convite pra que as pessoas venham aprender os mecanismos para pintar a rua”. No sábado, às 14 horas, em frente ao Centro de Referencia do Professor. “Na oficina, onde a gente explica de onde vem o projeto. No outro dia, 17, a gente chama o pessoal pra sair no flashmob”, descreve um dos membros. Eles não se identificam individualmente. Não há “eu” - mas “nós”.


O quê

ENTENDA A NOTÍCIA

Mais longevo salão de artes do Ceará, o Salão de Abril enfrentou problemas em seu curso, deixando de acontecer durante alguns anos. Em 2011, o Salão se amplia para mostras paralelas com o tema “Qual é o lugar da arte?”.

NÚMEROS
79 OBRAS INSCRITAS

Do total de 613 obras inscritas, o Ceará inscreveu 79 e classificou duas para a mostra

SAIBA MAIS

Zé Tarcísio é homenageado

Década de 70, quando o País vivia uma luta urgente de um mundo mais possível, a força da luta ecológica ainda era incipiente . O Zé, no entanto, já movia seu trabalho artístico nessa direção - ao mesmo tempo em que se posicionava politicamente. Pedras, série a ser exibida no lançamento do 62° Salão de Abril, vai nessa direção. A série ganhou o prêmio nacional do XXIII Salão Nacional de Arte Moderna , no Rio de Janeiro, em 1974.

Posted by Cecília Bedê at 11:08 AM

Salão das subjetividades por Ana Cecília Soares, Diário do Nordeste

Salão das subjetividades

Matéria de Ana Cecília Soares originalmente publicada no caderno 3 do jornal Diário de Nordeste em 14 de abril de 2011.

Salão de Abril chega amanhã a sua 62ª edição com o tema "Subjetividades das Formas do Eu". A mostra homenageia o artista cearense Zé Tarcísio, que terá um espaço exclusivo para exposição de seus trabalhos

A partir de amanhã, às 19 horas, na Galeria Antônio Bandeira, localizada no Centro de Referência do Professor (CRP), onde funcionava o antigo Mercado Central da cidade, será aberta mais uma edição do Salão de Abril. Em seu 62º ano, o evento traz para o debate o tema "Subjetividades das Formas do Eu" e presta homenagem ao artista plástico cearense Zé Tarcísio, que terá um espaço reservado para a exposição de suas obras.

Com ênfase na arte contemporânea, o Salão de Abril compartilha diferentes poéticas artísticas abrangendo pinturas, fotografias, instalações, intervenções urbanas, esculturas, desenhos, performances, objetos e vídeos. De 30 artistas selecionados, dos quais apenas dois são cearenses: Diego dos Santos e o Grupo Acidum. Fato nunca antes ocorrido nesses anos de trajetória do evento.

"Ao todo, foram inscritas 613 obras de artistas de 14 estados. 79 foram do Ceará. O maior número de inscritos foi de São Paulo. Acredito que os artistas locais não estão muito acostumados com o Salão de Abril, pois ficam com aquela expectativa de que o prazo de inscrição possa vir a prorrogar. Além disso, nesta a edição as inscrições foram on line , o que pode ter feito com que as pessoas confundissem as datas. Lembro que recebi muitas ligações de fora, artistas querendo tirar dúvidas, mas daqui quase nada", explica.

Presídio

A exposição, que segue aberta à visitação pública até o dia 31 de maio, abriga ainda trabalhos escolhidos participando de ações paralelas, como a mostra "Qual é o lugar da arte?", a ser desenvolvida em espaços públicos da cidade, como o Passeio Público e as ruas Senador Alencar e Major Facundo, no Centro. Uma novidade para essa 62ª edição é a apresentação de seis obras de arte na área interna do Instituto Penal Professor Olavo Oliveira II (IPPOO II), localizado em Itaitinga, Região Metropolitana de Fortaleza.

A ampliação das atividades do Salão, já trabalhada no projeto há três anos, é resultante das reflexões desencadeadas pela expansão territorial de ocupação de seus espaços expositivos, aproximando-se mais do público não especializado.

No caso específico do IPPOO II, a proposta é ocupar o cárcere, sob a perspectiva da arte, levando ações com plotagens, fotos e pinturas como as da artista carioca Clarisse Campelo. Tudo com o intuito de provocar inquietações, por meio do conhecimento do sistema operacional dos presídios. Levantar questões relacionadas diretamente ao cárcere, a partir de sua própria sistemática, o conceito de espaço, de ocupação, o dentro e o fora, de corpo e movimento. Além de servir para endossar as discussões inseridas no projeto do Salão, que tratam do espaço e do lugar da arte, consolidando a iniciativa como um lugar aberto e instigador de reflexões sobre o fazer artístico.

Segundo a coordenadora de Artes Visuais da Secultfor, Maíra Ortins, para esta ação, o evento conta com o apoio da Secretaria de Justiça do Estado do Ceará (Sejus) e da Defensoria Pública do Ceará. "Não vamos mais fazer a visita guiada como pretendíamos no início, pois a Sejus, por motivos de segurança, achou melhor que não tivesse. No entanto, para aqueles que se interessarem em ver os trabalhos no IPPOO II, aconselhamos que entrem no site do Salão (http://www.salaodeabrilfortaleza.com.br), e envie um e-mail para a coordenação de artes visuais, explicando os motivos da visita, junto ao seu currículo", diz.

Trabalhos

A programação de atividades do Salão de Abril tem sequência no sábado, das 14 horas às 17 horas, no Centro de Referência do Professor (CRP), com uma oficina aberta ao público sobre arte urbana, com o Grupo Acidum. Neste mesmo dia, também no CRP, às 10 horas, a artista plástica Ana Tomimori (SP) fará a performance "Bar".

Já no domingo, o Grupo Acidum retorna a programação com o trabalho "Ciclocor", das 14 horas às 16 horas, saindo da Praça do Passeio Público, seguindo em direção às ruas Senador Alencar e Major Facundo, chegando no Centro de Referência do Professor.

Cada um dos selecionados do Salão de Abril receberá um prêmio de incentivo à produção no valor de R$ 2,5 mil, conforme previsto no seu Edital. Além disso, os três curadores da mostra, Agnaldo Farias (SP), Andrés Hernandez (SP) e Ana Valeska Maia (CE), se reunirão na abertura da mostra para decidir o nome dos dois artistas que irão receber da Prefeitura de Fortaleza, por meio de sua Secretaria de Cultura, bolsas de formação no valor individual de R$ 12 mil (doze mil reais).

Posted by Cecília Bedê at 10:54 AM

abril 13, 2011

Lygia Pape total para os europeus por Camila Molina, O Estado de S. Paulo

Lygia Pape total para os europeus

Matéria de Camila Molina originalmente publicada no caderno de Cultura do jornal O Estado de S. Paulo em 13 de abril de 2011.

Grande mostra da artista será aberta em maio no Museu Reina Sofia, de Madri

Contemporânea e próxima dos artistas Lygia Clark e Hélio Oiticica e ainda tão experimental quanto esses dois criadores que se tornaram nomes brasileiros de projeção internacional nas últimas décadas, Lygia Pape (1927- 2004) vai conquistando agora o seu alcance para além do Brasil. O Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia de Madri, Espanha, uma das instituições mais vibrantes da Europa, vai inaugurar no próximo dia 24 de maio uma grande exposição individual de Lygia Pape, reunindo cerca de 250 obras. Com curadoria de Manuel Borja-Villel, diretor do museu desde 2007, e de Teresa Velázquez, a mostra é realizada em parceria com o Projeto Lygia Pape, associação cultural que mantém e divulga a obra da artista desde sua morte e é dirigida pela filha da criadora, a fotógrafa Paula Pape.

Na edição anterior da Bienal de Arte de Veneza, a 53.ª, em 2009, a instalação da Tteia (2004), de Lygia, foi um dos grandes destaques - e naquela edição, a brasileira foi homenageada com menção honrosa. Em Veneza, no Arsenale, o visitante dava de encontro com a beleza da Tteia abrigada em amplo espaço escuro, feita de fios de ouro que saíam de formas quadradas, transformando em poesia o local com feixes de luz de quase imaterialidade. A Bienal ainda apresentava o Livro da Criação (1959) da artista, trabalho de formas geométricas feitas em cartão e acompanhadas de breves escritos, é considerada uma das preciosidades do neoconcretismo brasileiro.

Agora, na mostra de Lygia no Reina Sofia, que ficará em cartaz até 12 de setembro e é considerada a primeira exposição monográfica de peso da brasileira na Europa, será possível ver Lygia Pape total, perpassando sua trajetória desde a década de 1950, quando participou do concretista Grupo Frente no Rio.

Ordem sensível. Estarão reunidos na mostra pinturas, relevos, xilogravuras, registros de suas performances, poemas, colagens, documentos e até sua produção cinematográfica, tanto de criações próprias como Eat Me (1975) e suas colaborações com o Cinema Novo brasileiro, já que desenhou, por exemplo, o cartaz do filme Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), de Glauber Rocha, e criou a programação visual de A Falecida (1965), de Leon Hirszman.

Entre os destaques da mostra, podem ser citadas as instalações Tteias (criadas a partir de 1977); as Caixa de Baratas e Caixa de Formigas, referindo-se à Nova Objetividade Brasileira (1967); os trabalhos políticos de 1968 como Divisor, O Ovo, Rodas dos Prazeres e Espaços Imantados; e ainda Livro da Criação e Livro da Arquitetura - passagem dos 1959/1960 - e o Livro do Tempo (1961/1965).

Certa vez, o crítico Mário Pedrosa afirmou que a artista e professora Lygia Pape era, dentre os criadores em circulação, a mais fértil. "As ideias não são nela conceitos ou preconceitos, mas antes fragmentações de sensações que conduzem Pape de um espaço a outro evento e deste a um estado em que bruxuleiam cores e espaços que se devoram, entre o interior e o exterior." O Reina Sofia a apresenta como criadora de uma obra em "constante mutação, buscando integrar as eferas ética, estética e política". "Seu abandono da geometria concreta e fundação do neoconcretismo em 1959 é considerado o início da arte contemporânea brasileira. Guiada pela ideia da escritura de um livro impossível, a mostra perpassa as tentativas da artista pela busca de uma linguagem de encontro a uma nova ordem sensível."

Posted by Alice Dalgalarrondo at 1:18 PM | Comentários (2)

abril 12, 2011

Laurie Anderson usa a tecnologia com delicadeza para transmitir sensações no CCBB por Marisa Flórido, o Globo

Laurie Anderson usa a tecnologia com delicadeza para transmitir sensações no CCBB

Matéria de Marisa Flórido originalmente publicada no Segundo Caderno do jornal O Globo em 11 de abril de 2011.

Deitamos a cabeça em um travesseiro e logo uma voz feminina e inebriante nos sussurra: “Você sabe quando, às vezes, você escuta alguém gritando e entra por um ouvido e sai pelo outro? E às vezes, quando você escuta alguém gritando, o grito penetra no meio da cabeça e fica lá para sempre?” Um dúbio sentimento então nos assalta: por um lado, o amparo de almofadas e palavras, a cadência da voz que nos acalenta em ondas e flutuações, a afirmação prosaica e poética. Por outro, a vertigem e a queda, a afirmação que de tão prosaica ressoa estranha, o estremecimento do sentido: é a dissipação das palavras, o grito que perfura a linguagem, que vaza o feliz desenrolar das histórias e dos sonhos. O grito de alguém que nos atravessa, o grito que teima em permanecer como se fôssemos uma câmara de ecos, repetindo o eterno e lancinante golpe do outro em mim. E não seria esse o corpo — transparente e opaco — da palavra? Ser atravessada para que o outro fale, repetir seu vazio: “Não sou eu quem fala, em meu silêncio, é o outro que fala em mim”. Dar existência ao outro é sua condição de existência?

‘Uma contadora de histórias’
“I in U — Eu em tu” mostra de Laurie Anderson no CCBB com curadoria de Marcello Dantas, reúne trabalhos de 40 anos de produção. “Ainda nos anos 1970 em Nova York, suas obras, espetáculos, performances, livros, filmes, vídeos, instalações e poemas definiram a linguagem que foi seguida durante as últimas quatro décadas por artistas de todo o mundo. Ela é uma artista seminal, que abriu a fronteira de possibilidades para que todo um espectro de expressão fosse aceito”, escreve o curador.

Para esquivar-se das rotulações fáceis, Laurie Anderson se enuncia como “uma contadora de histórias”: “quero contar uma história sobre uma história”. E, para fazê-lo, para que as palavras saiam de sua invisibilidade e ganhem voz, corpo, imagem, som, a artista transitaria pela performance, pela música, pela literatura, pelas artes visuais, pelo filme, pelos eletrônicos, pelos instrumentos. São histórias autobiográficas, narrativas míticas ou teorias insólitas, relatos de sonhos ou de acontecimentos cotidianos. Frases que se repetem aqui e ali, para recombinar-se com outras imagens e sons, outros lugares e corpos. Condensações e dispersões poéticas que extraem desses relatos e frases — que a princípio nos parecem tão corriqueiros e familiares — o inesperado, o desfecho intempestivo, o desvio imprevisto e sobressaltado. É a delicadeza desse susto que faz essa exposição única e imperdível.

É o susto de um duplo movimento: um que retira a palavra de seu “achatamento”, como diz a artista, para multiplicá-la, dar-lhe timbres e tonalidades, direções e fugas, memórias e sentidos; outro que corrompe a língua e a linguagem, que produz amnésias e balbucios, mas cujo golpe abre frestas para retê-la como energia e potência. Pois a palavra é tão capaz de criar mundos como de apagá-los, “de fazê-los desaparecer”.

Vemos a artista distorcer a voz por dispositivos eletrônicos, alterá-la de várias formas, proliferá-la em incontáveis vozes, colocá-las para conversar. Vemos seus duplos, suas marionetes eletrônicas, seus disfarces em vídeos. Como se fosse preciso diluir a fonte e a semelhança original — o suposto “Eu” que se enunciaria e se refletiria idêntico a si mesmo — no estranhamento com o outro. Empréstimo de seu corpo, imagem, voz para fazer o outro ecoar ali, para fazer o outro transitar e existir através de si. Como as palavras, talvez.

Assistimos ao vídeo da artista transformando o próprio corpo em instrumento de percussão, extraindo sons, por movimentos elegantes e secos, de uma bateria eletrônica sob o macacão. Ouvimos sua música em vídeos e instalações, por vezes entre a fala e o canto extraído do violino, o instrumento que a acompanha desde muito jovem, e cujo som, para ela, assemelha-se à voz humana e feminina. Vemos esse instrumento, essa espécie de seu alter-ego, como o definiu, passar pelas mutações que submete a si própria: como o Viophonograph, misto de toca-discos e Violino, o Self Playing Violin, o violino que toca sozinho, o Arco Neon.

Sons que viram vibrações
“I in u — Eu em tu ”, que dá título à mostra, foi extraído do verso de George Herbert, poeta do século XVII: “Agora eu em você sem nenhum movimento do corpo”. Em “Handphone table”, vozes, sons e melodias viajam por uma enorme távola redonda e são transmitidos por conversores de energia à superfície da mesa. Ao encostarmos os cotovelos e tapar os ouvidos em determinados pontos, sentimos a sonoridade que vibra através dos ossos de nossos braços. O corpo torna-se assim uma câmara de ecos, de ressonâncias da artista nele, condutor de sua alteridade. Agora você em mim.

Posted by Alice Dalgalarrondo at 4:59 PM

Marcar presença por Paula Alzugaray, Istoé

Marcar presença

Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada no caderno de Cultura da revista Istoé em 8 de abril de 2011.

Presenças / Zip Up, Zipper Galeria, SP/ até 23/4

Inaugurada em setembro de 2010 em São Paulo, com a louvável missão de focar em artistas em início de carreira, a Zipper galeria acaba de abrir a Zip Up, uma nova sala expositiva com a também apreciável e não menos ousada função de abrir-se a projetos de jovens curadores convidados, especialmente desenhados para o local. A primeira fase do projeto conta com o jornalista Mario Gioia, que desde 2009 vem realizando vários projetos curatoriais.

Cinco obras, confeccionadas em cinco técnicas, marcam a coletiva “Presenças”, que inaugura o espaço. O curador detem-se aqui nas tensões não apenas entre técnicas, mas também entre os elementos que ele aponta como “ausentes” dos trabalhos e do espaço expositivo. O desenho de Tatiana Dalla Bona, por exemplo, demarca a ausência dos corpos infantis em roupas e em cenários onde normalmente se retratariam crianças brincando. O vídeo “Considerações no Meio da Noite”, de Angela Varela, coloca-se como um registro da falta de controle e segurança a que o artista se expõe durante o ato performático. Já as fotografias que Ilana Lichtenstein tirou em viagem ao Japão antes do terremoto (foto) são menos sugestivas dentro da proposta conceitual da exposição.

O trabalho que tensiona com mais força a linha entre ausências e presenças é a pintura de Betina Vaz Guimarães, que funciona como o rastro de um acontecimento. Pintada no mesmo local em que está agora exposta, a tela de Bettina registra um histórico da incisão da luz no local. Registra também os móveis que ocupavam a sala que, antes de ser a sala Zip Up, era um dos escritórios da galeria. Essas mesas e cadeiras são hoje uma lembrança, documentada na tela de Betina. O espaço foi generosamente cedido para o exercício da curadoria, demonstrando o entendimento de que, assim como um trabalho artístico, uma curadoria é uma maneira de materializar ideias. Mais que isso, é uma forma de discernir conexões e distâncias entre artistas. Ações que só ganham presença se tiverem espaço disponível.

Posted by Alice Dalgalarrondo at 2:09 PM

As pinturas cegas de Tomie por Camila Molina, O Estado de S. Paulo

As pinturas cegas de Tomie

Matéria de Camila Molina originalmente publicada no caderno de Cultura do jornal O Estado de S. Paulo em 12 de abril de 2011.

Pela primeira vez, obras dos anos 50 e 60 são mostradas em conjunto

Houve uma época em que Tomie Ohtake resolveu vendar seus olhos para criar obras que ela mesma chama de "pinturas cegas". Era o fim dos anos 1950, começo dos 60, quando a artista se lançou a essa experimentação, num "momento capital de Tomie na vanguarda", como diz o curador Paulo Herkenhoff - é que a artista pintava "sem olhar para o real" e inominando suas imagens. Por muito tempo, os quadros dessa fase ficaram como que guardados, vez ou outra figurando em exposições, mas, isolados. Somente agora, aos 97 anos, Tomie apresenta pela primeira vez um conjunto reunido de cerca de 32 de suas obras dessa série, em exposição a ser inaugurada hoje para convidados e amanhã para o público em uma das salas do instituto que leva seu nome.

"O objetivo primordial do esforço crítico e historiográfico é tornar visível esse corpus de "pinturas cegas" para sua mais efetiva inscrição na história da arte", afirma Herkenhoff, curador da mostra. Ele, que vem conversando com Tomie há anos para realizar essa exposição, considera que exista algo até de radical na atitude da artista no contexto em que criou essas obras. "Ela rompe com a dualidade entre o abstracionismo geométrico e o informal", diz ainda Herkenhoff.

Mais ainda, a experiência das "pinturas cegas" indicam o interesse de Tomie pelo zen-budismo e pelas questões da fenomenologia de Merleau-Ponty - ou seja, a experiência da percepção do mundo através da passagem para os sentidos, como a busca da plena experiência.

Foi o crítico Mário Pedrosa, grande admirador e incentivador da artista, que na época sugeriu a ela que lesse Merleau-Ponty e também, como já afirmou Tomie ao Estado, que pintasse com os olhos fechados. A artista, nascida em Kyoto, voltou-se à pintura apenas aos 39 anos, já vivendo no Brasil. Criou, primeiramente, obras figurativas. Mas seu caminho para o que ela chama de "simplicação", ou sintetização, que a levou ao abstracionismo de formas e gestos puros - linhas, círculos, por exemplo -, unida ao desempenho da cor em sua obra, também incorporou a experiência das "pinturas cegas": a partir do não-ver, ir atrás do "sentido do olhar". "Fiz uma dessas pinturas e quando abri os olhos, uma imagem apareceu e não era uma forma certa", já contou a artista.

Oceano. Certa vez, Tomie chorou ao ver uma de suas obras da série "pinturas cegas", de predomínio do branco, em uma das salas da 24.ª Bienal de São Paulo, em 1998. Na ocasião da mostra, com curadoria do próprio Herkenhoff - e considerada uma das melhores edições da história das Bienais -, a tela de Tomie estava ao lado de obras brancas de criadores como o russo Kasimir Malevich, de Lucio Fontana, Yves Klein, Soto, Robert Rauschenberg e Robert Ryman. Esse segmento, afirma o curador, "correspondia a um mundo sem centro, constituído depois da Segunda Guerra e formado por herdeiros do branco sobre o branco da pintura suprematista".

Agora, Herkenhoff resgata uma teoria, a do ponto cego (punctum cecum), "região no campo visual do disco ótico no qual a visão entra em colapso", para analisar as obras de Tomie, que, na mostra, são as realizadas entre 1959 e 1962. "Esses trabalhos colocam a relação entre artes visuais e cegueira", diz o curador. Acompanhando as "pinturas cegas" da exposição, Herkenhoff colocou um mapa do ponto cego para os visitantes entenderem a analogia.

A montagem da mostra prima por um caráter de interioridade, colocando as telas em ambiente escuro. São obras de formas livres, como um "oceano", em predomínio de brancos, pretos e cinzas - mas há também o marrom, que remete à cor das primeiras abstrações de Tomie; o vermelho, azul, verde. Por vezes, é como se víssemos um certo grafismo nos trabalhos o que, inevitavelmente, é a referência à formação do desenho (e do ideograma) no Japão de Tomie.

Posted by Alice Dalgalarrondo at 1:52 PM

Valie Export expõe seu teatro feminista em Belo Horizonte por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Valie Export expõe seu teatro feminista em Belo Horizonte

Matéria de Silas Martí originalmente publicada no caderno Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 12 de abril de 2011.

É a primeira mostra da performer e videoartista austríaca no país

Em 1968, Valie Export saiu para a rua com uma caixa preta amarrada ao busto.

Qualquer um podia meter as mãos e tocar os seios da artista por 30 segundos, sem ver.

Essa performance, registrada em vídeo, projetou a artista austríaca como um dos maiores nomes da arte feminista do século 20, movimento que teve expressão em ações viscerais, a descoberta do corpo como suporte e o uso exaustivo das novas técnicas de registro de imagem.

Export, alcunha que copiou de uma marca de cigarros, lançou com seu teatrinho uma dicotomia que pautou sua obra, como mostra a individual agora no Centro de Arte Contemporânea e Fotografia, em Belo Horizonte.

No caso, dizer sem mostrar, deixar tocar sem ver, a negação da imagem como uma prática emancipada, espécie de arte do vestígio.

"Sem a imagem, pensamos no que é um signo, na codificação do corpo", diz Export à Folha. "Fiquei interessada na anatomia da voz."

Vídeos na mostra exibem as contrações musculares de uma garganta enquanto diz: "O poder da linguagem é medido pelo traço que fica mesmo bem depois do silêncio".

Nas paredes laterais, fotogramas de um vídeo esmiúçam aquela imagem, como se prolongassem sua permanência. Outra série mostra a artista em poses que mimetizam elementos arquitetônicos de prédios históricos.

"É atitude política e formal", diz. "Queria estender a arquitetura, trazendo a mulher para dentro dela."

Posted by Alice Dalgalarrondo at 1:29 PM

Luz e sombras marcam retrospectiva de Regina Silveira por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo

Luz e sombras marcam retrospectiva de Regina Silveira

Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada no caderno Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 12 de abril de 2011.


Mostra "Mil e Um Dias e Outros Enigmas" reúne 29 trabalhos da artista gaúcha na Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre

O edifício translúcido e claro projetado pelo arquiteto português Álvaro Siza, sede da FIB (Fundação Iberê Camargo), em Porto Alegre (RS), está escurecido e cheio de sombras, obra da artista gaúcha Regina Silveira, que ganha sua maior retrospectiva na terra natal.

Em três anos de existência da nova sede, é a intervenção mais radical no projeto do arquiteto português, já começando da fachada do edifício.

Lá, Silveira instalou a palavra "luz" em letras espelhadas que alcançam os quatro andares da sede, transpondo a paisagem da capital gaúcha para o prédio.

"Essa obra tem a ver com minhas memórias, com a minha relação com o local", disse Silveira à Folha. O título da intervenção, "Atractor", foi dado justamente por sua capacidade de capturar o entorno da fundação, com vista para o rio Guaíba.

"Mil e Um Dias e Outros Enigmas" é o título geral da mostra, que ocupa três pisos da FIB. No último há ainda uma seleção de obras de Iberê Camargo (1914-1994), de quem Silveira foi aluna, em 1961, e amiga.
"Ele era muito bravo, muito rigoroso", recorda-se. Como referência à relação com o pintor e seu início de carreira com os pincéis, a artista apresenta no átrio duas obras que se baseiam em cavaletes, o suporte tradicional para se pintar.

Com curadoria do colombiano José Roca, responsável pela Bienal do Mercosul, prevista para ser aberta em setembro, também em Porto Alegre, "Mil e Um Dias e Outros Enigmas" apresenta 29 obras, realizadas por Silveira a partir de 1983.

Esses trabalhos, em sua relação com a arquitetura do edifício, buscam traçar uma genealogia de Silveira com o pintor Giorgio de Chirico (1888-1978), de quem Camargo foi aluno em 1948 e 1949.

"Meu grande desafio aqui foi como ocupar esse edifício, que tem poucas paredes. Eu precisava conseguir uma escala para dominar o prédio", conta Silveira.

Uma das estratégias da artista foi apagar as luzes do edifício, ressaltando especialmente alguns trabalhos de grandes dimensões, como "Paradoxo do Santo", exposto no Guggenheim de Nova York, em 2001.
Com isso, Silveira conseguiu transformar a mostra em uma instalação.

Posted by Alice Dalgalarrondo at 1:18 PM | Comentários (2)

Mostra reúne série de "pinturas cegas" de Tomie Ohtake por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Mostra reúne série de "pinturas cegas" de Tomie Ohtake

Matéria de Silas Martí originalmente publicada no caderno Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 12 de abril de 2011.

Na virada dos anos 50 para os anos 60, artista japonesa radicada no Brasil fez quadros com os olhos vendados

Série ilustra dissolução do vigor construtivo na hora em que artistas passaram a buscar uma dimensão espiritual

Escotoma, da palavra grega para escuridão, é o ponto cego natural do olho. Na passagem dos anos 50 para os anos 60, Tomie Ohtake exaltou esse ponto, negando a visão, e fez uma série de quadros com os olhos vendados.

São abstrações um tanto atmosféricas, tempestades de cores primárias ou numa paleta reduzida de ocres, cinzas e negros que despontam num vendaval fuliginoso.

Juntas agora numa exposição no Instituto Tomie Ohtake, essas telas atestam a evolução de estados da cegueira, a imagem construída e arquitetada no escuro, sobre os lampejos de sua ausência.

"Há um inconsciente ótico, mas com um plano, um projeto", resume Paulo Herkenhoff, curador da mostra. "É entre o olhar e a cegueira."

E nesse intervalo, Ohtake parece plasmar o pó nervoso da escuridão. No quadro, sulcos na tinta feitos com o cabo do pincel imitam as marcas fincadas na retina que sobram como rastro da luz.

Mas qualquer violência desses raios está subjugada à placidez dessa tormenta residual, ecos de luz que se articulam como se guiados pela memória, resquícios de um projeto que afogam o impacto do gesto no peso da tinta.

Também cria pontos de gravidade com manchas negras, que atraem mais do que repelem o olhar, como se exacerbassem na cor a potência abstrata da ausência.

Ohtake ilustra, querendo ou não, esse embate do momento, a queda de braço entre a razão orquestrada e os devaneios de um corpo vivo.

Passado o vigor construtivo do começo da década, o neoconcretismo ganha vulto roçando pulsões metafísicas, a liberdade no traço, a busca de uma dimensão espiritual e ao mesmo tempo carnal.

Ecos desses gestos livres da visão, dessa caligrafia zen de Ohtake, depois ressurgem, como relembra Herkenhoff, nos trabalhos de Mira Schendel e nos experimentos com haicais dos irmãos Haroldo e Augusto de Campos.

Na Bienal de São Paulo, em 1998, uma de suas pinturas cegas, toda branca, estava ao lado de monocromos de minimalistas, pautados pela ordem e não pela figura.

"É sobretudo uma passagem do tempo, ela não figura nada", diz Herkenhoff. "Tem uma dimensão do vazio."

Posted by Alice Dalgalarrondo at 1:08 PM

abril 11, 2011

Cinema navegável por Paula Alzugaray e Nina Gazire, Istoé

Cinema navegável

Matéria de Paula Alzugaray e Nina Gazire originalmente publicada no caderno de Cultura da revista Istoé em 8 de abril de 2011.

Parceria entre São Paulo e Buenos Aires gera exposições simultâneas que abrangem novas formas de cinema interativo

PERCEPTUM MUTANTIS/ Museu da Imagem e do Som, SP/ até 8/5
INFINITO PAISAJE/ Fundación Telefónica, Buenos Aires/ até 11/6

Cinemas do futuro, estética da transmissão, pós-cinemas, cinema ao vivo, cinema interativo, transcinemas. São muitos os termos que procuram designar um campo que não para de mudar e expandir. Cinema é sétima arte, sim, com direito a sala escura, narrativa linear e final feliz. Mas o cinema do século XXI também lida com dispositivos robóticos, programação numérica, sensores e outros recursos tecnológicos, investigados por artistas que experimentam nos limites da linguagem. Alguns deles ocupam hoje todo o Museu da Imagem e do Som, em São Paulo, na exposição “Perceptum Mutantis”, que reúne obras de quatro artistas argentinos e dois brasileiros cuja motivação gira em torno de recursos fílmicos e maquínicos.

Portas que se abrem e se fecham quando o espectador se aproxima ou se distancia, leds que articulam imagens a partir do corpo em movimento, dispositivos de interação e sensores de presença são alguns dos recursos utilizados nas 11 obras dessa exposição. “A intenção é a de trabalhar em várias direções, articulando um grupo de artistas que lidam com diferentes dispositivos de interatividade”, afirma Daniela Bousso, curadora e diretora do MIS-SP. As instalações dos brasileiros Katia Maciel e André Parente representam bem a tese dessa exposição: atentar para como os meios audiovisuais estão em mutação e servem para alterar nossos modos de percepção. “Circuladô”, de Parente, faz uma releitura em grandes dimensões do zootrópio, aparelho criado em 1834 pelo relojoeiro inglês William Horner, um tambor giratório que, ao rodar, cria a ilusão de movimento das figuras presentes no seu interior. Em “À Sombra”, o visitante que se senta no banco do jardim audiovisual de Katia Maciel é o protagonista da ação. Cercado da paisagem de uma praça pública, é a sua presença no espaço que detona a movimentação da cena. Já o argentino Mariano Sardón aborda a interatividade implícita à literatura. Sua instalação “Libros de Arena” relaciona o movimento das mãos do interator sobre um cubo de areia com textos do escritor Jorge Luis Borges.

A exposição é realizada em parceria com a Fundación Telefónica de Buenos Aires, que, concomitantemente, apresenta uma exposição panorâmica de obras de Katia Maciel e André Parente. O projeto sela o saudável encontro entre duas instituições antenadas aos mesmos propósitos de promover a investigação e o desenvolvimento de projetos inovadores.

Posted by Alice Dalgalarrondo at 1:59 PM

Tatiana Grinberg oferece placebo artístido no MAM por Suzana Velasco, O Globo

Tatiana Grinberg oferece placebo artístido no MAM

Matéria de Suzana Velasco originalmente publicada no Segundo Caderno do jornal O Globo em 9 de abril de 2011.

Público da mostra que o museu inaugura hoje poderá experimentar um aparelho que transmite sons pela boca

Como nas experiências médicas, o efeito do placebo de Tatiana Grinberg depende da disposição do usuário para sentir seus efeitos. O falso remédio vem envolto por um molde descartável de silicone, parecido com os usados em aplicações de flúor nos dentes. Quem quiser tomá-lo pode ir ao Museu de Arte Moderna (MAM), a partir de hoje, às 16h, e testar sua eficácia até o dia 5 de junho, nos limites do foyer do MAM. É só pôr o molde na boca. Os efeitos colaterais esperados são falas fragmentadas de um homem sobre sensações do corpo — sons ouvidos por meio de uma transmissão óssea de vibrações.

— É uma voz, mas não há uma narrativa. Você pode levar um tempo até ouvir o que se diz, pode demorar. Temos que nos calar para ouvir o outro — diz a artista. — A técnica não é novidade, é usada por pessoas sem audição que perderam o ouvido externo, mas não o nervo. Meu interesse é chamar a atenção para esses sentidos que a gente não nota.

São dois minutos, em loop, da voz captada por Tatiana numa entrevista de duas horas, e editada por ela. A artista tem mais sete entrevistas como a que deu origem ao trabalho, com pessoas que vivenciaram experiências extremas com o corpo, como operações e falta de sensibilidade, e ainda planeja fazer mais, para usar em outros projetos. Tatiana começou a pensar na obra em 2002, mas só em 2008 conseguiu os recursos para torná-la real, num edital da Secretaria estadual de Cultura. Com os R$40 mil do patrocínio, ela pôde montar uma equipe com fonoaudióloga, engenheiros, designers e técnicos de som. E finalmente apresentar sua experimentação artística como parte da mostra “Placebo”, que o MAM inaugura hoje.

O projeto só foi para a frente com o apoio do Instituto Nacional de Tecnologia, que executou cinco aparelhos. Eles serão alternados em dois mil invólucros de silicone, que, na boca dos visitantes, vão captar os sons por meio de um transmissor FM localizado no foyer. Apesar de dar nome à mostra, o “Placebo” é parte de um conjunto de peças que segue esse princípio de deslocar os sentidos e pensar em sua memória corporal. Frequentemente, a artista usa o próprio corpo para criar. Uma das obras da exposição, “Cálculos” é composta por espécies de conchas de porcelana espalhadas pelo chão, feitas a partir do molde da mão da artista sobre as partes de seu corpo. Outra delas, “Musa”, é formada por duas cuias de plástico com um gel de alta viscosidade, no qual se pode colocar as mãos. As impressões no gel, porém, somem em 25 segundos.

— De um lado, há essas formas congeladas. Do outro, uma impossibilidade de guardar a memória do corpo. Um é osso, o outro é um corpo-pele — diz Tatiana, que não gosta da palavra interação para definir seu trabalho. — Em algumas obras se toca, em outras não. A gente tem que confiar um tanto no instinto para saber no que mexer.

Desde que começou a estudar gravura, com 12 anos, Tatiana já tinha um interesse forte pela materialidade, e se preocupava em experimentar novas técnicas de impressão — que se transformaram no que hoje ela chama de “pequenos dentro fora”, de “corpo sobre corpo”. Em meados dos anos 1990, a artista começou a trabalhar com áudio, mas já interessada em suas relações com o espaço.

— Quis falar do espaço através do corpo, pensar nele como um abrigo não sufocante — diz a artista.

Som e corpo
A união de som e corpo está em outras duas obras da exposição, além de “Placebo”. Em “Apertos”, objetos feitos de látex branco emitem frases — também retiradas das entrevistas de Tatiana — quando as pessoas se aproximam, ativando um aparelho eletrônico. Em “Amasso”, sons que saem de um objeto são captados por outro, no próprio momento da exposição, sem gravação prévia. Além de desenhos e escritos que acompanharam a evolução do projeto “Placebo”, Tatiana expõe ainda “Espaço em branco entre quatro paredes”, uma grande caixa com buracos nos quais as pessoas podem pôr os dedos, as mãos, os braços ou quase o corpo todo, e que deu origem ao espetáculo de dança “Falam as partes do corpo?”, criado numa parceria com a coreógrafa Dani Lima, em 2003. No interior iluminado, podem-se ver formas pintadas de negro. Mas o espectador tem que optar por olhar ou se movimentar:

— Se você põe seu corpo, não consegue mais ver nada. Você precisa fazer uma escolha.

Posted by Alice Dalgalarrondo at 1:45 PM

abril 8, 2011

Lei Rouanet ainda mostra força por Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

Lei Rouanet ainda mostra força

Matéria de Jotabê Medeiros originalmente publicada no caderno de Cultura do jornal O Estado de S. Paulo em 8 de abril de 2011.

Balanço de 2010 ilustra atrativos da legislação, prestes a ser extinta no Congresso, em especial para o setor privado

Dando seus últimos suspiros, a Lei Rouanet ainda segura a onda do financiamento cultural no País. O balanço de 2010, recém-concluído, mostra que as principais instituições culturais brasileiras dependem fundamentalmente do estímulo da lei para consolidar suas agendas - no ano passado, a captação foi recorde, mais de R$ 1,2 bilhão (em 2009, por conta da crise econômica, houve queda).

O governo trabalha com a possibilidade de aprovação, no segundo semestre, da nova legislação de incentivo cultural, um híbrido de estímulo direto e renúncia fiscal, o que sepultaria o atual sistema. Anteontem, a ministra Ana de Hollanda pediu, no Congresso, empenho na votação da nova lei e do Vale Cultura.

Mas a demanda da lei só faz crescer. Segundo Henilton Menezes, secretário de Fomento e Incentivo do Ministério da Cultura, cresceu mais de 50% por mês o número de projetos inscritos para obter renúncia fiscal - mais de 1 mil por mês, e 80% deles são aprovados. Menezes atribui o fato ao que chama de "governança", a desburocratização do sistema e facilidades eletrônicas de apresentação dos projetos. Em 2010, um projeto levava em média 88 dias para ser analisado. Hoje, leva em média 28 dias.

Como já virou tradição na Lei, o Instituto Itaú Cultural lidera entre os maiores captadores de recursos de 2010, com R$ 26 milhões. A Fundação Bienal de São Paulo captou R$ 17 milhões; a H Melillo Comunicação, R$ 13 milhões; e o Masp, R$ 12 milhões.

Em 2011, a captação registrada até agora mantém o Itaú Cultural no topo, com R$ 10 milhões, e inclui novos grandes captadores no clube, como a Fundação Ricardo Franco (R$ 5 milhões), a Fundação CSN (R$ 5 milhões ) e a Escola de Samba Acadêmicos do Grande Rio (R$ 2 milhões).

A captação ilustra as virtudes, mas também os vícios da legislação. Empresas que visam lucro e cujos ingressos das atrações têm preços elevados, como a Time for Fun (que realiza megashows) estão entre os 10 maiores captadores de 2010. Segundo Menezes, os empresários do entretenimento que buscam a lei têm de mostrar qual será o impacto no preço dos ingressos.

Um exemplo que deve causar debate é o do Rock in Rio, que será realizado em setembro. O Rock in Rio, com um custo estimado em R$ 50 milhões, usará cerca de R$ 6 milhões da Lei Rouanet. Nesse momento, o governo debate com os organizadores a forma como esse incentivo impactará o preço das entradas.

O maior captador de 2010, o Itaú Cultural, se utiliza do incentivo fiscal, mas tem como norma a gratuidade para seus projetos subsidiados pela renúncia fiscal. Também usa só o artigo 26 da lei de incentivo, que exige contrapartida - em 2010, foram R$ 20 milhões em recursos próprios, cerca de 50% do total. Eduardo Saron, superintendente do Itaú Cultural, defende a Lei Rouanet, mas acha que ela pode ser aperfeiçoada e sofrer alguns ajustes. Dá como exemplo o estímulo à criação de fundos de longo prazo, e o instrumento que possibilita a empresas de menor faturamento terem percentual de incentivo fiscal maior em relação às de faturamento mais elevado.

"Em virtude do perfil macroeconômico do País, é natural que esse tipo de empresa passe a estar mais presente e a entrada desses novos patrocinadores resultará em aumento expressivo dos recursos, melhor distribuição territorial desses recursos, e, em consequência, os menores captarão mais".

OS DEZ MAIS (VALORES CAPTADOS EM 2010)
Itaú Cultural
R$ 26,6 milhões

Bienal de São Paulo
R$ 17 milhões

H Melillo Comunicação
R$ 13,3 milhões

Masp
R$ 12,7 milhões

Teatro Municipal do Rio
R$ 12,3 milhões

Sinfônica Brasileira
R$ 12,1 milhões

Sinfônica do Estado de SP
R$ 10,5 milhões

T4F Entretenimento
R$ 10,1 milhões

Associação Pró-Música
R$ 9,7 milhões

Fundação Vale do Rio Doce
R$ 9,3 milhões

Posted by Alice Dalgalarrondo at 1:41 PM

abril 7, 2011

Em audiência no Senado, ministra Ana de Hollanda nega relação com o Ecad e confunde natureza do Creative Commons, O Globo

Em audiência no Senado, ministra Ana de Hollanda nega relação com o Ecad e confunde natureza do Creative Commons

Matéria originalmente publicada no caderno de Cultura do jornal O Globo em 7 de abril de 2011.

RIO - A ministra da Cultura, Ana de Hollanda, esteve no Senado nesta quarta-feira para falar sobre os projetos de seu ministério, envolvido em questões importantes - e algumas polêmicas - como o Procultura e as reformas da Lei de Direitos Autorais (LDA) e da Lei Rouanet , entre outros. Ela participou de uma audiência pública na Comissão de Educação, Cultura e Esportes e foi arguida por vários senadores sobre esses pontos. Lembrando que recursos públicos foram investidos nos estudos de revisão da LDA, o senador Paulo Bauer (PSDB-SC) questionou se a simpatia da ministra por "argumentos do Ecad" pode influenciar na reforma.

Ana de Hollanda admite que a reforma esteve em consulta pública "por anos", mas argumenta que "uma área não se sentiu contemplada", a dos autores. A ministra agora pretende buscar um "consenso maior". Para isso, o texto está disponível para consulta na internet e sendo estudado pela equipe de direitos intelectuais do ministério. Ela acredita que provavelmente será preciso fazer uma nova consulta pública para se chegar a um texto final.

"Eu não poderia endossar um documento, um projeto de lei, como sendo meu - porque foi devolvido para o Ministério da Cultura para eu aprovar ou não - que não tivesse um mínimo de consenso. Claro que isso vai ser sempre polêmico, nunca vamos agradar a todos, são interesses antagônicos nessa questão, como em várias outras", disse ela.

Ministra confunde natureza do Creative Commons

Ela nega a ligação com o Ecad e argumenta que a presidente Dilma "não aceitaria que uma entidade ligada a um grupo indicasse uma ministra". Ana de Hollanda concorda que o Ecad tem problemas, mas reclama do que vê como uma "demonização" do órgão.

"Há grupos muito insistentes querendo me taxar de ser ligada ao Ecad. Por acaso a presidenta Dilma Rousseff iria aceitar uma indicação do Ecad? Não ia. Esta é uma relação que eu acho absurda", afirmou, antes de elogiar a instituição, uma sociedade civil de natureza privada, criada por lei federal de 1973, e que é responsável por recolher os valores devidos aos artistas pela execução de suas obras, "Antes do Ecad existiam várias associações. Acabava o espetáculo e vários fiscais, de várias associações, iam lá brigar pelos direitos, ninguém sabia para quem pagar."

O Ecad está no centro de uma das principais polêmicas da reforma da LDA. Vários setores , inclusive muitos músicos, pedem uma maior transparência nos critérios de arrecadação e distribuição da entidade. Uma das propostas é a criação de uma entidade pública que fiscalize o Ecad, nos moldes das agências reguladoras.

- Na maioria dos países as sociedades arrecadadoras têm algum tipo de fiscalização pública. Aqui não há nenhuma fiscalização - questiona Ronaldo Lemos, diretor do Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas e representante do Creative Commons no Brasil.

O Creative Commons , aliás, foi um ponto confuso no depoimento da ministra. Respondendo a pergunta do senador Eduardo Suplicy (PT-SP), ela confunfiu a natureza da ferramenta, um modelo de licenciamento que permite a qualquer um determinar as formas de utilizações pré-autorizadas de uma obra. Ana de Hollanda voltou a dizer que o selo do Creative Commons foi retirado do site do ministério por fazer propaganda de "uma entidade privada que oferece um serviço".

"Era uma marquinha, uma propagandinha de um serviço que uma entidade promove", disse.

Para Ronaldo Lemos, a definição não faz sentido pois o selo do Creative Commons apenas indica que aquele conteúdo está licenciado de acordo com um modelo de licença jurídica.

- Não faz propaganda pois ele não vende serviço nenhum. O Creative Commons é uma entidade sem fins lucrativos que funciona hoje em 70 países através de voluntários e parcerias com instituições acadêmicas que trabalham voluntariamente no projeto. No Brasil, é a Escola de Direito da FGV.

O argumento da ministra se complica quando ela define Twitter, Facebook e Flickr como "redes livres para se comunicar" e diz que não são serviços. Essas redes sociais têm seus logos estampados no site do ministério e são empresas privadas comerciais, com fins lucrativos. O Facebook deve abrir capital no início de 2012 e está avaliado em US$ 50 bilhões. O Twitter ainda não tem previsão de lançar ações no mercado, mas já foi avaliado informalmente em US$ 10 bilhões, apesar dos números oficiais ficarem em "apenas" US$ 3,7 bilhões.

Usando o selo do Creative Commons, similar ao conhecido símbolo de "copyright", o autor informa se permite (ou não) o uso comercial de sua obra e se ela pode (ou não) ser modificada. Dessa forma ele padroniza a forma como o licenciamento é feito, assim não é preciso procurar um advogado toda vez que se queira utilizar, copiar ou reproduzir um texto ou foto na internet, por exemplo.

Em coluna no GLOBO publicada em fevereiro, na qual explica o conceito, o sociólogo Hermano Vianna deu o exemplo da rede Al Jazeera, que licenciou as imagens das manifestações do Cairo em Creative Commons, autorizando sua exibição em todas as TVs do mundo, contato que a fonte fosse informada..

A ministra, no entanto, diz que a Constituição já prevê formas de se autorizar a distribuição livre de obras artísticas e que o Creative Commons seria "uma das formas" de se fazer isso. A LDA prevê em seu artigo 30 que "O titular dos direitos autorais poderá colocar à disposição do público a obra, na forma, local e pelo tempo que desejar, a título oneroso ou gratuito". Lemos diz que o Creative Commons é baseado na LDA e só existe por causa desse artigo e de outros similares, servindo apenas como uma complementação da lei.

- O Creative Commons não é contrário ao direito autoral, ele é uma ferramenta pela qual o autor pode exercer seu direito na forma do artigo 30 - explica.

Ministra vê desequilíbrios na Lei Rouanet

Ana de Hollanda se define como uma "defensora da cultural digital" e afirma que a internet é fundamental como novo meio de acesso à cultura. Ela ressalta que é preciso pensar em formas de prever o pagamento dos artistas para que a população tenha o acesso gratuito à bens culturais.

"Se isso for possível, será muito bom, temos de estudar isso. Ninguém quer guardar seu trabalho na gaveta, não. A grande frustração do artista ou do criador é quando ele não consegue difundir seu trabalho. Então, tenho essa preocupação. A Internet é importante, esses novos meios de acesso à cultura são fundamentais".

Fechando o cabedal de polêmicas, a ministra falou sobre a Lei Rouanet. Ela vê desequilíbrios e afirma que a lei está sendo reformulada para dar mais espaço a estados com pouco acesso, garantindo uma melhor distribuição dos recursos.

Comentando o caso do blog de poesias de Maria Bethânia, que recebeu autorização para captar R$ 1,3 milhão pela Lei Rouanet, a ministra admitiu que a cantora "tem capacidade de obter recursos", mas ponderou que "a iniciativa privada está muito viciada nas leis de incentivo"

"Ela quer fazer um projeto para 365 gravações para colocar no blog. Serão gravações de poesia - e há um vasto leque de poesias que a Bethânia foi recolhendo, estudando. Isso vai ser oferecido gratuitamente. O preço é caro? É, mas temos que pensar também na avaliação feita porque não compete ao ministério avaliar qualidade, se é bom ou se não é bom. Não está dentro da Lei Rouanet esse mérito. Acho que o projeto - se todo mundo tiver acesso a 365 gravações da Bethânia, lendo poesia, ainda mais hoje em dia que a poesia está tão esquecida -, eu considero o projeto interessante. O valor, isso não vou discutir, foi analisado por comissões específicas para isso.

Além da Lei Rouanet, ela lembra que está sendo preparado o ProCultura que vai gerar recursos para o Fundo Nacional de Cultura, também de isenção fiscal. Um conselho formado por representantes da área artística e cultural vai definir a distribuição desses recursos, que seriam focados em "projetos culturais menos interessantes para o mercado".

Ana de Hollanda pediu mais orçamento para a cultura, com a aprovação da PEC 150, que fixa o orçamento da área em 2% na esfera federal, 1,5% nos estados e 1% nos municípios.

Posted by Alice Dalgalarrondo at 4:12 PM

abril 6, 2011

Funarte garante presença brasileira na Bienal de Veneza por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo

Funarte garante presença brasileira na Bienal de Veneza

Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada no caderno Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 6 de abril de 2011.

Após impasse, instituição irá repassar verba de R$ 400 mil diretamente a Artur Barrio, que representará o país na mostra de arte

Acabou o impasse e está garantida a participação do representante do Brasil na Bienal de Veneza, o artista Artur Barrio.

Impossibilitada por uma lei recente de repassar verbas a instituições privadas, a Funarte enfrentava dificuldade para liberar os R$ 400 mil acertados com a Fundação Bienal de São Paulo, entidade encarregada da escolha do representante do país.

A saída foi entregar o dinheiro da produção da obra de Barrio na Bienal de Veneza, que será inaugurada no dia 4/6, diretamente a ele.

"Ao conceder apoio direto ao artista (...), a Funarte garante a participação do país em uma das mais tradicionais exposições de arte e cumpre sua missão institucional de promover a circulação de bens culturais brasileiros", disse o presidente da instituição, Antonio Grassi.

Segundo a assessoria da Funarte, é comum a instituição efetuar o pagamento diretamente ao artista.
Barrio, agora, deverá designar uma entidade que irá administrar os R$ 400 mil.

Ele irá criar uma obra no pavilhão orçada em R$ 150 mil. O restante será gasto com os custos do catálogo e o transporte do artista, segundo a assessoria da Fundação Bienal. Ele foi selecionado pelos curadores Moacir dos Anjos e Agnaldo Farias, também responsáveis pela 29ª Bienal de São Paulo.

A Fundação Bienal indicou o representante brasileiro por conta de um acordo com o Itamaraty, que é o proprietário do pavilhão nacional, na Bienal italiana.

Segundo declarou à Folha no mês passado o presidente da Fundação Bienal e comissário da representação nacional em Veneza, Heitor Martins, a instituição já gastou cerca de R$ 250 mil, que não faziam parte do convênio, no cachê dos curadores e na preparação do catálogo.

Além de Barrio, os brasileiros Neville d'Almeida, Cinthia Marcelle e Rivane Neuenschwander irão participar de mostras na cidade, mas em eventos paralelos.

Posted by Alice Dalgalarrondo at 12:59 PM

abril 4, 2011

Exposições e documentário celebram artista por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Exposições e documentário celebram artista

Matéria de Silas Martí originalmente publicada no caderno Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 4 de abril de 2011.

Enquanto Frans Krajcberg parece se isolar cada vez mais no sítio Natura, em Nova Viçosa, exposições e um documentário exaltam a trajetória do artista que chega agora aos 90 anos.

Mesmo avesso a festas, Krajcberg abre nesta quinta em Salvador uma mostra no Palacete das Artes Rodin Bahia com 13 esculturas, oito relevos e 16 fotografias. Sua produção atual, aliás, é quase toda fotográfica.

Ele registra árvores, insetos e flores de toda sorte que podiam estar na "National Geographic" ou no Discovery, mas, nas artes visuais, vêm sublinhadas pelo manifesto ecológico que é o trabalho de Krajcberg.
Outras duas mostras, com esculturas e fotografias, também estão marcadas para maio em Paris.

Também em Salvador, no dia seguinte à abertura da mostra, estreia o documentário "O Grito Krajcberg". No longa, com narração da cantora Maria Bethânia, Krajcberg aparece em seu dia a dia no sítio Natura.

"Viajei para Nova Viçosa, conheci o Krajcberg e me apaixonei pelo trabalho dele", conta a cineasta estreante Renata Rocha, que dirigiu o filme. "Fiquei 15 dias lá e também viajamos para o mangue onde ele fez seus primeiros relevos."

Mas além da figura isolada de Krajcberg, Rocha registrou no filme depoimentos de personalidades que conviveram com ele, como o artista Carlos Vergara, a atriz Christiane Torloni e o diretor do Museu Afro Brasil, Emanoel Araújo.

Depois de terminar o filme, Rocha agora está escrevendo uma biografia de Krajcberg, que deve jogar luz sobre pontos mais obscuros da vida e da carreira desse artista ermitão.

Posted by Alice Dalgalarrondo at 3:26 PM

"Fugi do homem para morar na floresta" por Silas Martí, Folha de S. Paulo

"Fugi do homem para morar na floresta"

Matéria de Silas Martí originalmente publicada no caderno Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 4 de abril de 2011.

Prestes a fazer 90 anos, Frans Krajcberg se isola cada vez mais na mata que plantou em sítio no sul da Bahia

Artista que perdeu família no Holocausto fez de sua produção um manifesto contra a destruição da natureza

Ele está sozinho na mata. Frans Krajcberg aparece com o rosto e a mão sangrando numa clareira, único ponto onde os raios do sol atravessam o verde denso das copas das árvores. Não se incomoda com as feridas na pele frágil nem com o ataque feroz dos insetos no cair da tarde.

"Eu plantei todas essas árvores, agora elas cresceram e nem vejo mais o mar", diz o artista. "Só aqui eu me sinto feliz. Essa é a minha família."

E a casa é um sítio em Nova Viçosa, povoado no sul da Bahia, onde o artista polonês, radicado no país desde os anos 50, vive há quase quatro décadas. Ele mora numa construção de madeira equilibrada sobre um tronco.

Tem vista para o que sobrou da mata atlântica, onde copas frondosas cobrem o horizonte e afogam o mar num rugido surdo. Verde é a cor dominante na paleta.

"Já de criança, eu ia à floresta, abraçar árvores e beijar as folhas", lembra Krajcberg, que faz 90 anos na semana que vem. "Depois, queria fugir do horror e do homem e morar nessas florestas."

No caso, o horror são as atrocidades dos homens na Segunda Guerra. Sua mãe morreu enforcada por nazistas, e ele não teve notícias do que aconteceu com o resto da família. Sozinho, Krajcberg pegou um navio para o Brasil, nome de país que achou estranho a princípio, e nunca mais quis voltar à Europa.

Num lugar longe dos homens, no que seria um projeto cultural do arquiteto José Zanine Caldas, que desenhou sua casa na árvore, Krajcberg começou a fazer sua obra. Não chama o que faz de trabalho artístico, mas de "memória da destruição".

BELEZA SELVAGEM
Suas esculturas articulam restos de madeira queimada, o rastro ilegal da indústria madeireira, em composições que lembram desenhos orgânicos. São objetos estruturados em primeiro e segundo planos -na frente, o que seria um tronco ou galho e atrás a pegada, a sombra escura ou faiscante da planta.

Krajcberg encontra uma beleza estranha, de torções selvagens, na evidência do descaso. Figura com frequência em mostras que denunciam o aquecimento global, o estado desconjuntado do planeta e temas afins.

E, nisso, parece se importar pouco com o rótulo que dão ao trabalho ou com avaliações dos críticos. Krajcberg segue a agenda de encontros mundiais de ecologistas com mais afinco do que o roteiro de bienais e feiras de arte. Já falou até no Fórum Econômico Mundial, na Suíça, sobre desmatamento.

"Nem quero saber se é arte o que estou fazendo, quero só mostrar os pedaços, mostrar que as árvores foram queimadas", esbraveja. "Não me fala em artista, super-homem, não é o caso. A única coisa que quero defender até o fim da minha vida é a vida."

PÔR DO SOL
Mas Krajcberg começa a perder a esperança. Tem se refugiado cada vez mais no silêncio da mata. Vive isolado, não tem herdeiros e dispensa visitantes. Sai sozinho pela manhã para fotografar flores e plantas e vai dormir na hora do pôr do sol.

Desde que invadiram seu sítio -foram quatro ataques, nas contas dele-, homens armados e cachorros vigiam as terras num silêncio inquieto. Há dois anos não faz mais desenhos ou novas esculturas e interrompeu a construção do museu que estava criando no sítio vizinho.

Dos cinco prédios planejados, só dois saíram do papel. Estão atulhados de esculturas antigas. Do lado de fora, assistentes cuidam dos restos de madeira que chegam ao sítio. Ossadas de baleia, que o artista comprou de pescadores locais, também esperam um destino incerto, assando sob o sol baiano.

"Sou muito humilhado aqui, não vale a pena construir um museu num lugar que me machucou tanto", lamenta ele. "Não tenho mais o espírito para ficar aqui."

Também não vê para onde ir. Ainda trava uma briga com a cidade de Curitiba, que acusa de destruir as obras que doou para o agora desativado Espaço Frans Krajcberg, e desistiu de instalar outras de suas esculturas no Ibirapuera, em São Paulo.

Ele se retira agora, dias antes de completar 90 anos, para restaurar o que pode de velhas obras e juntar as raízes que sobraram da limpeza dos terrenos perto do sítio.

Talvez possam virar novas esculturas, agora que a paisagem ao redor recebe plantações de eucalipto para esverdear a terra estorricada.

Posted by Alice Dalgalarrondo at 2:53 PM

abril 1, 2011

As mais escuras noites por Paula Alzugaray, Istoé

As mais escuras noites

Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na Istoé em 1 de abril de 2011.

A portuguesa Paula Rego, que pinta o sofrimento humano, ganha sua primeira retrospectiva na América Latina

Paula Rego/ Pinacoteca do Estado, SP/ até 5/6

ATIVISMO

Tríptico de Paula Rego contribuiu para debate em torno da descriminalização do aborto em Portugal

A descriminalização do aborto foi aprovada em Portugal em fevereiro de 2007, depois de dez anos de intenso debate público, do qual a artista Paula Rego participou ativamente. Sua série “Tríptico”, de 1998, foi criada como forma de protesto político. Sustenta-se que a exibição, nesses três trabalhos em pastel sobre papel, das duras condições a que as mulheres são submetidas em sessões clandestinas de aborto teve seu peso na campanha pela revisão da lei. O firme posicionamento de Paula em relação à defesa dos direitos da mulher é apenas um capítulo do histórico ativista e questionador dessa artista nascida em Lisboa em 1936 e residente em Londres a partir dos 16 anos de idade. Paula nunca se calou diante das atrocidades da vida contemporânea. Na tela recente, “War”, 2003, ela responde à invasão do Iraque pelos EUA e Grã-Bretanha. Seus trabalhos são como berros, muitas vezes guturais e violentos, em resposta ao mundo. Eles podem ser ouvidos até 5 de junho na Pinacoteca, em São Paulo, na primeira retrospectiva de Paula Rego na América Latina.

Dos primeiros trabalhos, realizados no final da década de 50, até hoje, a vida doméstica, a infância e as fases da vida da mulher são representadas em seus traços mais rudes e em suas cores mais soturnas. Não raro, suas personagens deformadas, entristecidas e penalizadas são comparáveis às aberrações pintadas e gravadas por Goya na Espanha oitocentista. A animalidade da raça humana é um traço presente de sua iconografia desde seus primeiros bestiários, pintados em linguagem primitivista. Nos anos 80, quando assume um figurativismo dramático, suas cenas são sempre assistidas por animais.

Cães, gatos, porcos, javalis, garças e raposas presenciam todo tipo de atividade doméstica, como se espreitassem a ingenuidade da vida, ameaçando sua normalidade.

A aberração domina definitivamente a temática de Paula a partir da série “Avestruzes Bailarinas do Filme Fantasia, de Walt Disney”, de 1995, em que corpos que deviam ser lindos, leves e soltos ganham o peso e a consistência de rochas. Nessa escalada em direção aos lugares mais escuros da vida cotidiana, a obra de Paula libera todo tipo de monstruosidade. Situações singelas se transformam em dramas viscerais. Atos banais como pentear os cabelos, vestir-se, despir-se, amarrar os sapatos ou engraxar as botas ganha contornos dramáticos. Como a mulher que atira com um revólver contra o próprio macaco de pelúcia, na litografia “A Sala
de Shakespeare”.

Seu comprometimento com o sofrimento humano dá matizes especiais a Paula Rego.
E a aproximam do olhar agudo de grandes artistas, como Goya.

Posted by Marília Sales at 1:53 PM

Corpo contorcionista por Paula Alzugaray, Istoé

Corpo contorcionista

Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na Istoé em 1 de abril de 2011.

O corpo barroco - Carlos Mélo/ Moura Marsiaj, SP/ até 30/4

SER OU NÃO SER

Em performance, Carlos Mélo encara temas como morte, animalidade e nudez

Para demarcar terreno e afirmar forte identidade, Carlos Mélo foi o artista escolhido pelas galeristas Laura Marsiaj, do Rio de Janeiro, e Mariana Moura, do Recife, para inaugurar o novo espaço que abrem juntas em São Paulo. Essa é a primeira mostra individual do artista pernambucano na capital paulista, depois de ele ter participado de diversas e importantes exposições coletivas em todo o Brasil e ter ganho o Prêmio CNI Sesi Marcantonio Vilaça, em 2006.

Com curadoria de Cristiana Tejo, a exposição articula três núcleos de obras: o desenho, a performance e o trabalho com palavras. Em cinco fotografias e um vídeo, Mélo afirma o corpo como protagonista de sua obra estética. Mesmo em seu desenho, feito de gestualidade demarcada a grafite, subentende-se a atuação de um corpo enérgico, vibrátil e intenso.

O desenho é, afinal, o vestígio de um corpo em performance. O mesmo ocorre com o texto, diagramado em um anagrama de neon, instalado na vitrine da galeria. A obra que dá título à exposição reescreve a frase “o corpo barroco”, invertendo palavras e dando origem a outras, como oco e barro. “Gosto desse contorcionismo semântico”, assume o artista.

Mélo afirma que o barro é matéria seminal na sua trajetória, mesmo sem nunca ter trabalhado com ele. Isso porque nasceu em Riacho das Almas, perto de Caruaru, que, além de ser conhecida como a capital do forró, é uma das capitais internacionais do artesanato com barro. “Por ter também uma das mais famosas feiras do mundo, Caruaru se estragou muito. Por isso mesmo, acho que é uma cidade com potencial para ter uma bienal”, diz Mélo, que tem “a Bienal do Barro” entre os próximos projetos a realizar.
Com a mostra de Mélo, a nova galeria paulistana sinaliza um vigoroso repertório de artistas nascidos em várias cidades brasileiras, especialmente no Nordeste, como Alice Vinagre, Amanda Melo e Bruno Vilela, entre tantos outros.

Posted by Marília Sales at 1:50 PM