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fevereiro 28, 2011

Não há como distribuir cultura sem o direito autoral por Rodolfo Borges, Istoé Dinheiro

Não há como distribuir cultura sem o direito autoral

Matéria de Rodolfo Borges originalmente publicada no caderno Economia da revista Istoé Dinheiro em 25 de fevereiro de 2011.

Nenhuma das trocas de ministro deste ano foi mais ruidosa do que a substituição de Juca Ferreira por Ana de Hollanda, no Ministério da Cultura.

Antes mesmo de tomar posse, a ministra, até então mais conhecida como irmã do compositor Chico Buarque de Hollanda, anunciou a revisão do anteprojeto da nova Lei de Direitos Autorais, que prevê maior acesso do consumidor à obra de autores e artistas.

A lei atual é de 1998 e está defasada diante de novidades como a profusão de músicas na internet. Por isso, a revisão da legislação começou a ser debatida ainda quando o cantor Gilberto Gil ocupava a pasta da Cultura (2003-2008) e se intensificou com Ferreira, recebendo contribuições nas sessões de consulta pública.

Uma das maiores polêmicas da proposta elaborada na gestão passada era a figura da licença não voluntária, que permitia ao presidente da República autorizar a autorizar o uso de obras artísticas sem a anuência da família do autor já falecido.

A criação da licença pretendia impedir que os herdeiros de artistas dificultassem a exposição ou reprodução de suas obras – o autor vivo não teria sua vontade questionada.

O anteprojeto também autorizava a dispensa de pagamento de direito autoral em alguns casos, especialmente para fins didáticos. Mas, para alguns representantes da área cultural, brechas como essa podem prejudicar os artistas.

“A democratização da cultura não pode passar por cima do direito autoral”, disse a ministra à DINHEIRO. Em 2009, último dado disponível, o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) arrecadou R$ 374 milhões só na área musical.

DINHEIRO – O anteprojeto que cria a nova Lei de Direitos Autorais foi fruto de 80 reuniões setoriais, sete seminários nacionais e do estudo da legislação de 20 países. Por que revê-lo?

ANA DE HOLLANDA – A discussão não se esgotou. Quando o Ministério colocou em sua página da internet uma proposta de lei, a maior parte das posições era de questionamento. O que foi enviado à Casa Civil pelo antigo ministro nos foi devolvido, como todas as propostas enviadas no fim do governo anterior. Tenho de rever o projeto e mandar de volta. Como o texto enviado à Casa Civil não era exatamente o mesmo que estava no site, eu não tinha como endossar a proposta. Vamos fazer essa análise.

DINHEIRO – Como vocês pretendem avançar na discussão?
ANA – Vou montar uma equipe de consultores e juristas com visões diversas. Que-remos chegar a uma proposta que atenda à demanda da área criativa, que é a que mais se mostrou insatisfeita com as mudanças apresentadas, e do resto da sociedade.

DINHEIRO – Há algo que a incomodava particularmente no anteprojeto?
ANA – Não. No geral, acho que o projeto merece uma discussão maior, porque só o fato de ter um percentual muito grande de insatisfação em relação a ele é suficiente para isso. Ainda nem consegui ler o texto que foi mandado pela Casa Civil, nem acho que seja o caso, porque não sou eu que vou analisar. Minha responsabilidade é de ministra.

DINHEIRO – Seu posicionamento foi encarado como tendencioso, favorável ao Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad), que arrecada os direitos de reprodução musical.
ANA – Isso não é justo. A Academia Brasileira de Letras, a Câmara Brasileira do Livro e outros setores que não têm ligação nenhuma com a música também rejeitaram o anteprojeto. Assim como muita gente das áreas de fotografia, design, cinema e artes gráficas reclamou da forma como estava a lei. O Ecad é uma dessas associações que reclamaram. Não represento o Ecad. Faço parte de uma associação de músicos e compositores porque isso é obrigatório. Qualquer pessoa que trabalha na área de música tem de estar ligada a uma associação, e o ex-ministro Gilberto Gil também estava.

DINHEIRO – Qual o objetivo prático da secretaria?
ANA – O primeiro objetivo é medir a economia criativa com mais clareza, para podermos dimensionar seu peso no PIB. Nossas medições são bem antigas. Um estudo da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro ( Firjan), de 2006, estima que a cadeia criativa responde por 16,4% do PIB local, mas esse dado se restringe ao Rio. Vamos fazer um estudo como esse para medir a economia como um todo, que ainda é muito informal. Imagino que tenhamos esse quadro mais claro dentro de um ano. Esse é um dado fundamental para o Estado redimensionar sua política em relação ao mundo da cultura. A informalidade é um problema. Já quando falamos da indústria criativa temos uma noção mais clara, porque o trabalho é formal. Nesse universo, arquitetura, moda e design são a maior parcela da cadeia, com 82,8% do mercado, 82,5% dos estabelecimentos e 73,9% da massa salarial. Isso representa um peso muito grande. São os setores mais bem organizados da economia criativa.

DINHEIRO – Como a sra. chegou ao nome de Cláudia Leitão para essa secretaria?
ANA – Ela tinha sido secretária de Cultura no Ceará, mas eu vinha acompanhando seu trabalho na área de economia criativa. Ela esteve na Austrália fazendo um trabalho muito interessante e realizou um estudo na região do Cariri, no interior do Ceará, nesse sentido. A secretaria vai ser transversal a todo o trabalho do Ministério da Cultura.

DINHEIRO – A retirada do selo Creative Commons, que disciplina a reprodução gratuita de conteúdo, do site do MinC causou polêmica no meio digital, porque foi visto como um retrocesso no estímulo ao compartilhamento de informações pela internet. O que baseou a decisão?
ANA – A questão do selo é administrativa. Não havia contrato ou licitação que justificasse a presença no site do ministério. Não é uma questão política. Eu respondo pela página oficial do ministério, que não é o mesmo que um blog.

DINHEIRO – O orçamento do ministério, de R$ 2,5 bilhões, é suficiente?
ANA – O orçamento é bem maior do que antes (em 2003, por exemplo, o orçamento era de R$ 287 milhões). Claro que o ministério cresceu muito nesses anos, mas as demandas são maiores. Existem as emendas parlamentares, que atendem a alguns projetos específicos. Mas só agora, que foram anunciados cortes, vamos lidar com a questão orçamentária.

DINHEIRO – O Programa Nacional de Fomento à Cultura (Procultura), que substitui a Lei Rouanet (dá incentivos fiscais a empresas que patrocinam cultura), ja foi encaminhado ao Congresso. Ele soluciona os gargalos identificados depois de 20 anos de Lei Rouanet?
ANA – No Procultura existe um favorecimento maior para o Fundo Nacional de Cultura (o fundo que recolhe os recursos da renúncia obtida pela Lei Rouanet). É uma grande vantagem em relação à legislação anterior. Representa uma possibilidade maior na forma de dedução para o fundo nacional, que vai ser gerido de uma forma mais democrática, passando pelas comissões de cultura. Tudo isso já está previsto para a seleção de projetos prioritários, uma evolução em relação à simples vinculação do patrocinador com o patrocinado, que deixava a seleção muito na mão dos patrocinadores. O ministério estava um pouco ausente, o que prejudicava as políticas culturais de áreas hoje menos favorecidas.

Posted by Cecília Bedê at 4:24 PM

De volta para casa por Nina Gazire, Istoé

De volta para casa

Matéria de Nina Gazire originalmente publicada na Istoé em 25 de fevereiro de 2011

Welcom e Home - gUI Mohallem/ Galeria Emma Thomas, SP/ até 19/3

Para um fotógrafo, uma câmera significa um prolongamento, uma extensão de suas capacidades. Seu olhar é ampliado pelo dispositivo e, consequentemente, aquilo que é visto se torna vulnerável aos critérios dessa lente. Mas é possível que os papéis se invertam neste jogo? Que o fotógrafo, de repente, se torne o alvo do objeto que pretende fotografar? Essas são algumas das questões que o artista gUI Mohallem coloca em sua recente série denominada “Welcome Home”. Em 2009, quando se encontrava nos Estados Unidos para uma série de trabalhos, gUI resolveu fazer um retiro e visitou um santuário queer no Tennessee. “O santuário é um lugar de retiro, de refúgio. O lugar não passa por um crivo institucional. E a palavra queer, originalmente, tem a ver com a ideia de ‘estranho’. Antigamente, ela era usada em um sentido pejorativo para definir homossexuais. Boa parte desse santuário é uma comunidade feita de pessoas que se consideram queer, mas não necessariamente são gays”, explica Mohallem.

Em 2010, ele retornou ao local com o objetivo de registrar um festival em comemoração ao início da primavera. O exercício proposto foi o de confrontar-se com o “estranho”, o que modificou o seu olhar diante da câmera. “Antes, eu fotografava pessoas que não sabiam que estavam sendo fotografadas. A fotografia era um gesto secreto e as fotos não eram necessariamente sobre as pessoas que nela apareciam. A experiência do santuário me trouxe uma postura de vulnerabilidade na fotografia. O que você faz quando a pessoa sabe que está sendo fotografada?”, se pergunta o artista. A resposta para a questão são as próprias fotos de Mohallem.

As imagens apresentam a comunhão de pessoas em um cenário bucólico e secreto, com enorme cautela e delicadeza, nos lembrando que fotografar nunca é um gesto de solidão e sempre um gesto duplo: no qual aquilo que é registrado também acaba por se oferecer ao olhar do fotógrafo.

Posted by Cecília Bedê at 3:16 PM

A quatro mãos por Paula Alzugaray, Istoé

A quatro mãos

Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na Istoé em 25 de fevereiro de 2011

A galerista Luisa Strina faz papel de artesã e vira assistente do artista Alexandre da Cunha na exposição "Fair Trade"

É certo que toda economia deveria ser regida por preceitos éticos de equilíbrio e sustentabilidade. No entanto, existe apenas uma modalidade específica de comércio internacional em que a regulação de preços garante ao produtor uma remuneração justa por seu trabalho. Trata-se do “comércio justo” (fair trade, em inglês), que também dá nome à individual do artista Alexandre da Cunha na Galeria Luisa Strina, em São Paulo.

O artesanato e os produtos agrícolas, duas das principais categorias contempladas pelo fair trade, são também a matéria-prima da recente série de trabalhos do artista. Para representar esse mecanismo que estrutura a economia sustentável, Cunha convidou ninguém menos que Luisa Strina para trabalhar como sua assistente na realização da série.

“Há alguns anos, descobri que a Luisa tinha o bordado como hobby e desde então isso sempre me intrigou”, conta ele. “Decidi então me apropriar da Luisa bordadeira e convidá-la a ser minha assistente.” Com o convite, Alexandre da Cunha exercita o que já vem praticando há mais de dez anos: a apropriação de objetos do cotidiano. Se em trabalhos anteriores ele se valia de vassouras, esfregões, garrafas pet, tecidos de barracas e cadeiras de praia para reinventar um mobiliário artístico, dessa vez foi mais fundo e voltou-se para o hobby de sua galerista. “Gosto muito de trabalhos manuais, me relaxa muito”, conta Luisa Strina. E foi assim que Cunha ofereceu para sua assistente Luisa uma série de pedaços de tecidos de juta – utilizados originalmente para ensacar produtos agrícolas de exportação – para serem por ela bordados.

“Ele me pagou por isso, deu um trabalho enorme”, continua Luisa. Como pagamento, a marchande recebeu uma das obras do artista. Mas, como as regras de um autêntico fair trade mandam, a relação entre artista e assistente foi se modificando e Luisa acabou por ser promovida ao status de “artista colaboradora”. Os trabalhos em exposição são, portanto, assinados por ambos. A parceria implica a divisão de 50% do preço da obra para cada “artista”, o que em realidade corresponde à divisão entre artista e marchande.

Na mostra “Fair Trade”, marchande e artista discutem as regras do mercado de arte. A presença de Luisa Strina na feitura das obras não modificou seu preço de mercado. Mas a assinatura da conceituada marchande, responsável pela mais antiga galeria de arte contemporânea de São Paulo, sem dúvida contribuiu para que as obras fossem vendidas antes mesmo da abertura da exposição, no sábado 19. “Nesses trabalhos, eu não sou artista, mas artesã”, insiste Luisa. “Estamos discutindo aqui de quem é a criação. Até onde o artesão pode infringir o trabalho do artista?”

Além dos tensionamentos entre os papéis do artista, do galerista e do artesão, a proposta de Alexandre da Cunha nesta exposição é também pensar outras inversões de papéis. Os quadros de juta bordada e as duas esculturas de chão expostas confrontam as consistências do duro e do mole, do masculino e do feminino, do doméstico e do industrial, do minimalismo e do artesanato.

Posted by Cecília Bedê at 1:44 PM

Muntadas ataca utopia de Alphaville por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Muntadas ataca utopia de Alphaville

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 26 de fevereiro de 2011.

Artista espanhol compara cidade controlada do filme de Godard a complexos imobiliários de metrópoles atuais

Em retrospectiva na Estação Pinacoteca, vídeos e instalações também refletem sobre a natureza da imagem

Alphaville é um lugar escuro, onde o amor é proibido. É também um mundo de felicidade e sonhos, onde a vida é cercada de tranquilidade.

Está no contraste entre a distopia cinzenta de Jean-Luc Godard e as promessas dos complexos imobiliários o ponto central do novo trabalho do artista Antoni Muntadas, tema de uma retrospectiva na Estação Pinacoteca.

Cenas do filme francês costuram comerciais de televisão dos condomínios fechados nos arredores de São Paulo, também em versão preto e branco. Muntadas contrasta sonho e pesadelo numa grande instalação, que estampa no chão uma vista aérea de Alphaville rodeada de grades e arame farpado.

Isso porque segurança, ou isolamento, parece ser a única promessa em comum entre os conjuntos imobiliários das metrópoles modernas e a cidade controlada do filme clássico da nouvelle vague.

No vídeo projetado no museu, algumas das cenas embaralham mesmo os dois espaços, que abusam de cercas e dispositivos de controle. É nesse ponto que o artista espanhol retoma suas ideias sobre o poder da imagem.

"Existe um paradoxo", diz Muntadas à Folha. "Imagens ajudam a acreditar, mas não quer dizer que estejam certas, podem ser construídas."

Num trabalho dos anos 70, que também está na mostra, Muntadas enviou fotografias publicadas na revista "Life" a críticos de arte espalhados pelo mundo, pedindo que descrevessem o que viam.

Transformou então fotografias em artefatos, inventando uma espécie de "museu antropológico da imagem", sublinhando a visão com o peso das palavras.

Na sala ao lado, uma nova versão de uma obra dos anos 80 reforça essa ideia. Uma espécie de estádio cenográfico faz par com imagens de estádios reais do mundo todo, entremeados de projeções de feitos históricos e esportivos.

Entre os fotogramas, enumera uma série de palavras. Muntadas faz aqui um paralelo entre a arquitetura dos espaços de espetáculo e o tecido semântico arquitetado na tensão entre palavra e imagem, signo e referente.

Em relatos nas fronteiras entre México e Estados Unidos e Espanha e Marrocos, também explora como a imagem pode estar a serviço da construção do medo, como as cercas de Alphaville.

Posted by Cecília Bedê at 1:44 PM

fevereiro 24, 2011

Duelo de compadres por Marcus Preto, Folha de S. Paulo

Duelo de compadres

Matérias de Marcus Preto originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 22 de fevereiro de 2011.

Em polos opostos , Caetano Veloso e Gilberto Gil encabeçam discussão sobre direito autoral que dividiu a MPB desde que o selo das licenças Creative Commons foi retirado do site do MinC

Caetano Veloso de um lado, Gilberto Gil do outro.

Parceiros na criação do movimento tropicalista, em 1967, os dois acabaram se tornando, nas últimas semanas, símbolos da polarização de opiniões dos artistas da MPB na discussão em torno da lei de direito autoral.

Em 20 de janeiro, a ministra Ana de Hollanda retirou o selo Creative Commons do site do MinC, colocado na gestão de Gil (2003-2008).

As licenças Creative Commons tornam mais flexível o uso de obras artísticas (como liberação prévia para uso em blogs ou remixes), em contraposição ao "copyright" (no qual o artista precisa autorizar caso a caso).

De um lado do ringue, Gil entende que as flexibilidades das licenças CC estão mais de acordo com a era digital, com o mundo pós-internet.

Do outro lado, Caetano, apoiado pela maior parte dos compositores que entraram na discussão -Roberto Carlos, Joyce, Jorge Mautner e outros- se posicionou contra as CC, dizendo que "ninguém toca em um centavo dos meus direitos autorais".

Em seguida, Gil criticou os opositores às CC de não levarem o diálogo para "uma dimensão esclarecedora".

Procurado pela Folha no começo da semana passada, Caetano disse, por e-mail, que vestia a carapuça tecida pelo velho companheiro.

"Visto. Mas não me causa incômodo", disse. "Eu não teria tocado no tema se a discussão, que o ministério Gil trouxe para dentro da política oficial, não me parecesse atraente e inevitável."

STATUS QUO

"Pois está na hora de ele tirar a carapuça", rebateu Gil, na quarta-feira passada, depois de fazer um show para internet. "De encarapuçados não precisamos. Todos têm que estar com suas feições claras, nítidas, à mostra, dizendo o que acham."

E seguiu. "Foi sempre assim: os que defendem o novo têm que ter argumentos mais nítidos. Os que reagem, porque estão defendidos pelo status quo, não precisam disso, precisam apenas reagir."

A reportagem retomou o assunto com Caetano, no dia seguinte. O músico chamou a paixão de Gil pelos avanços tecnológicos de "um pouco fascinada demais, tendendo para deslumbrada".

"Gil escreveu [a canção] "Pela Internet", mas, diferentemente de mim, não é uma pessoa de internet. Não é muito familiarizado, não anda muito nem no e-mail. Ele gosta mais é da ideia."

MUDANÇA

Segundo Gil, "a vida anda, a fila anda"

A seguir, os principais trechos da entrevista com Gilberto Gil.

Folha - Os opositores a licenças mais flexíveis, como é o caso das Creative Commons, estão apenas adiando o inevitável?
Gilberto Gil - É assim. É natural. Quando [Johannes] Gutenberg inventou a imprensa, os copistas também se revoltaram. Mas não teve jeito. Era o imperativo tecnológico que veio e varreu as coisas.

Folha - Os anti-CC argumentam que as licenças enfraquecem os direitos deles sobre a própria obra. Concorda?
É mentira. Ao contrário, [as CC] vão dar autonomia aos criadores de determinar como, quando e quais usos serão feitos de suas canções, de seus textos, de sua dramaturgia. E que consequências esses usos podem ter para quem usa e para os próprios autores.

E, vale lembrar, ninguém precisa usá-las se não quiser. As CC não são monopólio. Não está interessado em que você mesmo dê controle a suas obras? Prefere que isso se dê através de uma editora ou de uma gestão coletiva? Então fique com elas.

O que é preciso fazer para iluminar essa discussão?
A discussão precisa subir de patamar. Os opositores precisam apresentar um set de argumentos válidos. Não podem vir com conversa fiada. Quem é contra tende a ter uma reação mais emocional, típica do reativo. Esse estágio precisa passar e todos devem convergir para uma discussão de o que significam essas coisas de fato. O que significa transformar, atualizar leis, hábitos e acessos a novas condições tecnológicas. A vida anda, a fila anda. (MP)

PERMANÊNCIA

"Ecad é mesmo um mal?", quer saber Caetano

A seguir, os principais trechos da entrevista com Caetano Veloso.

Folha - Você mesmo afirma que os argumentos dos pró-Creative Commons são mais claros. Por que não se comove com eles?
Caetano Veloso - Há questões que não estão resolvidas, a respeito das quais os dois lados ainda não se confrontaram. Algumas coisas podem ser perguntadas a todos.

Folha - Por exemplo...
O Ecad é mesmo um mal? Os próprios defensores de CC reconhecem que o Ecad passou a arrecadar muito mais nos últimos anos. Ou seja, está mais eficiente. Tenho medo de acontecerem coisas como quando o Collor e seu ministro Ipojuca Pontes -com todos os argumentos aparentemente racionais e corretos para uma sociedade liberal- fecharam a Embrafilme.

Milhões de pessoas podiam dizer com razão que a Embrafilme era um monstro criado pela esquerda do Cinema Novo com os militares da ditadura. Que era um negócio estadista, confuso e, talvez, até corrupto. Porém, aquele gesto de simplesmente fechar a Embrafilme matou o cinema brasileiro por anos.

Folha - Acha que esse mesmo raciocínio vale para o Ecad?
Não acho. Mas tenho esse caso da Embrafilme como pano de fundo que me serve, por exemplo, para o Pelourinho e para o Ecad. São coisas muito diferentes, eu sei. Mas sinto que, às vezes, há uma tendência que, em alguma medida, aos meus olhos, se parece um pouco com o que o Ipojuca fez. Digo isso como uma espécie de caricatura do que eu temo. (MP)

Posted by Paula Dalgalarrondo at 6:29 PM

Creative Commons advoga cultura do autor sem direitos por Valério Bemfica, UMES

Creative Commons advoga cultura do autor sem direitos

Matéria de Valério Bemfica originalmente publicada no site da UMES em 24 de fevereiro de 2011.

Ao contrário do que afirmou o deputado Paulo Teixeira (SP), líder do PT na Câmara dos Deputados, a licença Creative Commons não está, felizmente, dentro de uma política de governo

O deputado Paulo Teixeira (PT/SP) acaba de ser guindado ao posto de líder do PT na Câmara dos Deputados. Precisa dar-se conta de que, quando se chega a um posto tão importante, é preciso manter os olhos bem abertos. Vai aparecer muita casca de banana no caminho do nobre parlamentar. Causas que, abaixo de uma fina – e falsa – embalagem libertária, escondem interesses tão escusos quanto poderosos. Preste atenção, deputado, pois o senhor já deu a primeira escorregada.

Trata-se do episódio recente em que a ministra da Cultura, Ana de Hollanda, retirou do site do MinC a acintosa propaganda de uma ONG norte-americana abertamente financiada pelos monopólios da indústria da internet (Google, Yahoo!, Facebook, entre outros) e por fundações para lá de suspeitas (Ford, Rockefeller, Soros, etc.). Um ato de soberania e de respeito às leis do país.

Mas eis que o deputado deu uma entrevista à Agência Carta Maior questionando a atitude da ministra. Vamos rapidamente esclarecê-lo, pois não pega bem o líder do partido da presidenta afirmar coisas que não têm a mínima sintonia com a realidade.

Comecemos pela afirmação de que “A licença Creative Commons está dentro de uma política de governo”, que abre a entrevista. Não, deputado, felizmente não está. Aliás, se os ditames de uma ONG suspeita fossem inseridos em políticas de governo, não passaríamos de uma república de bananas. E muito menos tem respaldo na política do Itamaraty, que foi conduzida nos últimos oito anos por dois profundos conhecedores das questões culturais: o ministro Celso Amorim e o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães. Pelo contrário, longe de criticar a Lei Brasileira de Direitos Autorais, nossa política externa, entre outras coisas, foi defensora intransigente da Convenção da Diversidade Cultural da UNESCO, que tem como um de seus pilares principais a proteção à criatividade dos povos e à figura dos criadores.

DIFERENÇAS

Em segundo lugar é importante salientar que embolar software livre com Direito Autoral e com Lei de Patentes apenas gera uma grande confusão que só beneficia os tipos que financiam ONG’s como a CC. A decisão do governo brasileiro em apostar no software livre é correta. Ao invés de depender de alguns grandes oligopólios estrangeiros, investe-se em formar profissionais brasileiros, criar tecnologia nacional. Em lugar de gastar milhões de dólares anualmente em licenças de enlatados gringos, investir no desenvolvimento, por parte do próprio governo, de programas de computador que atendam mais adequadamente as nossas necessidades. Até aí tudo bem.

Mas o deputado deveria dar-se conta de que a Lei que rege a “proteção de propriedade intelectual de programa de computador” é uma, a dos Direitos Autorais é outra. Ou seja, a Lei brasileira reconhece que o tipo de conhecimento plasmado em um programa de computador e a criação artística são coisas absolutamente distintas. É por isso que existe uma Lei do Software e outra de Direitos Autorais. No primeiro caso justamente o que some é a figura do criador – da mesma maneira que no caso das patentes, também citado pelo deputado. Tanto nos softwares quanto nos medicamentos quem detém direitos não são os autores, mas os encomendantes. Pouco interessa se trezentos técnicos estiveram envolvidos na criação do último produto da Microsoft ou da Apple: os donos do produto serão o Bill Gates e o Steve Jobs. Não importa se milhares de cientistas foram os responsáveis pelo desenvolvimento de um novo medicamento: a patente será do laboratório. Já no campo dos direitos autorais a conversa é outra: independente de produtores, o criador é quem deterá os direitos. Investir no Software Livre significa retirar receita de monopólios como a Microsoft e a IBM. Atentar contra os Direitos Autorais é retirar dos autores a justa remuneração por seu trabalho e permitir que gigantes como a Google, o Facebook, a Telefónica, o YouTube, entre outros, ganhem fortunas com o tráfego de conteúdo que não lhes pertence a custo zero.

EXEMPLO

Promover tal confusão só faz bem aos patrões do Sr. Lessig. É uma visão que rebaixa o artista criador. Será que o deputado precisa de um singelo exemplo para entender? Vamos lá.

O pacote para escritório da Microsoft lançado em 2007 – menos de quatro anos atrás, portanto – custava uma boa grana. Com todas as suas proteções, bloqueios e patentes, batia na casa dos R$ 1.200,00. Foram milhões de dólares gastos em seu desenvolvimento, centenas de técnicos trabalhando. Hoje não vale nada. Nem sequer é comercializado. O Copyright ainda existe, mas ninguém dá bola para ele, nem a própria companhia detentora. Existe, é claro, uma nova versão, custando cerca de R$ 1.400,00. Já “Garota de Ipanema” foi composta em 1962. Trabalharam nela apenas duas pessoas, e o investimento foi zero (salvo, talvez, o custo de algumas doses de “cão engarrafado”). Quase cinqüenta anos depois continua sendo uma das músicas mais tocadas do mundo, tem centenas de novas gravações a cada ano: artisticamente, não perdeu nada de seu valor em cinco décadas. Financeiramente, ganhou.

Tentar fazer com que as duas coisas se equivalham interessa a quem? Única e exclusivamente a quem não consegue enxergar Garota de Ipanema como uma obra de arte, como fruto da mais elevada forma de expressão humana. Só a quem quer transformá-la em uma mercadoria, quer considerá-la como bytes a serem transmitidos em alguma rede privada. A legislação brasileira – como a da maioria dos países – reconhece cada obra como singular, como “extensão da personalidade de seu autor”, para usar os termos da UNESCO. E é por isso que as licenças de uso são dadas caso a caso e exclusivamente pelo autor ou por quem ele determinar como procurador. Entre a propriedade industrial do Windows, a patente do Viagra e o Direito Autoral de Tom Jobim e Vinícius de Moraes não há nada em comum, a não ser a entrevista do deputado e os argumentos de alguns desqualificados.

E não adianta vir com a falsa argumentação de que a Lei brasileira criminaliza quem baixa uma música ou a copia para seu aparelho de MP3, ou ainda quem copia trechos de um livro para uso próprio. Sendo advogado, o deputado deveria ler a Lei, especialmente em seu Título VII – “Das Sanções às Violações ao Direito Autoral”. Verá, sem dificuldade, que há uma série de penalidades cabíveis a quem violar os Direitos Autorais na execução pública e com o intuito de lucro. Nem uma linha ou referência à punição de fãs que, domesticamente, copiam obras, ou a estudantes dedicados. Não bastasse isso, o Capítulo IV da Lei exclui da cobrança de direitos autorais as cópias em um só exemplar e para uso próprio e o uso de obras “no recesso familiar”. Para completar, o deputado poderia consultar a jurisprudência: não existe na história dos tribunais brasileiros um só caso de processo e muito menos de condenação por cópia privada. Se for um pouquinho mais curioso verá a profusão de empresas que ganham dinheiro transmitindo conteúdo alheio sem remunerá-lo entre os patrocinadores da ONG do Sr. Lessing. Empresas, aliás, que pelo volume de recursos que aportam ao CC tem inclusive o direito de indicar os membros da diretoria...

Aliás, para esclarecer o congressista em definitivo, precisamos dizer que a livre circulação de conteúdo na internet é possível sem alteração da lei e sem prejuízo dos autores. E que a “flexibilização à tucana” dos Direitos Autorais não significará maior acesso ao conhecimento. O deputado deve saber que para ouvir rádio ou para assistir à televisão ninguém paga Direitos Autorais. O responsável pelo pagamento (ainda que muitos dêem calote) é quem transmite. O consumidor final não paga nada. E assim deve ser também na internet. Dois terços do conteúdo “grátis” – e sem remuneração aos autores - disponível na internet (o que corresponde a 75% dos downloads) são colocados no ar por 100 usuários. Ou seja, 100 empresas que, através da cobrança de assinaturas ou da venda de publicidade vendem o que é dos outros e embolsam todo o lucro. O espírito de “livre circulação da cultura” na internet é uma falácia. Salvo raras exceções o que existe é um negócio – espúrio – que rouba o patrimônio dos autores para vendê-lo a terceiros. Por isso deve ser estabelecida no Brasil não a liberação dos direitos, mas a taxação dos provedores de acesso e conteúdo.

DIREITOS AUTORAIS

Mas é importante dizer que, por si só, a liberação das músicas mediante remuneração não garante a plena circulação de nossa cultura. Voltemos ao exemplo das rádios. Mesmo tendo o direito de – assumido o compromisso de remuneração – tocar qualquer uma das 1,75 milhões de obras registradas no ECAD, só tocam meia-dúzia. Ou, mais exatamente, cerca de 200 por mês. E qual o motivo? Pela criminosa associação entre os monopólios da indústria cultural e os radioteledifusores. Compram escancaradamente o espaço nas rádios e TV’s e colocam lá apenas o que lhes interessa. É por isso que o deputado Paulo Teixeira deveria dedicar seu precioso tempo a pensar no que é possível fazer para regular o monopólio das comunicações, ao invés de fazer-lhe o favor de atacar os Direitos Autorais.

Restam ainda algumas outras escorregadas do deputado em sua curta entrevista. Alega ele que o governo poderia, a partir da mudança da Lei, “contratar autores para produzirem obras didáticas e colocá-las à disposição de todos os professores brasileiros e da população em geral”. Poderia não, deputado, pode. Se o MEC não faz isso hoje em dia o senhor deveria perguntar ao ministro Haddad a razão. Não há nenhum impeditivo legal. Provavelmente os autores ficariam mais satisfeitos do que estão hoje, quando vivem submetidos ao tacão da Editora Abril, maior vendedora de livros didáticos do país. Aliás, fale com seu colega de Congresso, o senador Requião. Ele fez isso quando era governador do Paraná e não infringiu nenhuma lei.

Tampouco faz algum sentido dizer que o Estado está “atirando no próprio pé”, pois coloca dinheiro público em obras protegidas. O deputado deveria descobrir quanto de dinheiro público foi investido para que Vinícius de Moraes compusesse sua obra. Ou em Tom Jobim?

Quais recursos públicos alavancaram a produção teatral de Plínio Marcos? Que verbas do MinC transformaram João Cabral em poeta? Nem um só centavo. Ou que artista enriqueceu graças aos incentivos públicos. Isso é papo de quem acha que a cultura profissional deve ser entregue ao mercado e que só amadores merecem o subsídio público.

ECAD

Finalmente, comentemos a última das estultices repetidas à exaustão por alguns inimigos da cultura nacional e reproduzida pelo deputado: o papel do ECAD. Há tempos que o nome do escritório vem sendo transformado em palavrão. Qualquer notícia desfavorável é transformada em escândalo pela mídia – que não se conforma em ter de pagar o ECAD. E qualquer notícia favorável também é motivo de escarcéu. Ou seja, donos de meios de comunicação – principalmente rádios e TV’s – gostariam de não pagar pelo uso de músicas e fazem sistemática campanha contra o órgão encarregado pelos autores de fazer a cobrança. Mas vamos às afirmações do nobre congressista.

Em primeiro lugar ele considera que o ECAD é uma “instituição pública não estatal”. Não discutiremos aqui este conceito mais do que reacionário de “público não estatal”. Já foi diversas vezes espinafrado e desmascarado aqui no HP. Mas o fato é que o ECAD é uma instituição privada, assim definida por lei e estatuto. As relações por ele regidas – empresas majoritariamente privadas usuárias de obras produzidas por pessoas físicas – são de caráter absolutamente privado. Não há nenhum interesse difuso envolvido aí: há interesses econômicos concretos. Não há interferência do ECAD “na produção e na distribuição de bens culturais”. Só há cobrança por parte dele de obras já produzidas e distribuídas. Em momento algum o ECAD estabelece relação com os consumidores finais de alguma obra. A sua relação é com as empresas que se utilizam das músicas para ganhar dinheiro. O difícil papel de cobrar de quem acha que pode sustentar o seu banquete roubando o pão alheio.

O que o deputado no fundo ataca, mesmo que sem saber, é o conceito de Gestão Coletiva. Como o parlamentar conhece bem o movimento sindical, vamos propor um paralelo, para que ele entenda. Durante os anos do tucanato foi muito difundida a tese de que a regulação trabalhista era um entulho. Para que o trabalhador precisaria de uma série de leis e de entidades para protegê-lo? Muito melhor seria a “livre negociação”. Ou seja, um empregado do Bradesco, ao invés de juntar-se com todos os seus colegas e contar com a força do sindicato nas negociações, deveria é negociar sozinho com o seu patrão. Qualquer idiota é capaz de ver que, valendo a tese dos tucanos, férias, fundo de garantia, 13º salário e outras conquistas teriam virado coisa do passado.

Pois a tese do Creative Commons é a mesma. Ao invés de existir um único órgão de cobrança – o ECAD – onde todos os autores juntam sua força para negociar com os conglomerados de comunicação, o mais correto é registrar-se no site de uma ONG estrangeira. Se alguém quiser usar a música, pode negociar diretamente com o autor, sem passar por “intermediários”. Sem muito esforço é possível ver que, se cada autor for confrontado diretamente com os patrões da área, receberá muito menos. Não é à toa que em todos os países existem estruturas centrais de arrecadação e que elas nunca são controladas pelo Estado, mas pelos próprios autores. Na França, a Sacem; na Espanha, a Sgae; em Portugal, a SPA; na Alemanha, a Gema; nos EUA, a Ascap; na Inglaterra, a PRS; no Canadá, a Socan, etc.

Finalmente, algumas palavras sobre transparência. O deputado Paulo Teixeira deveria fazer uma pesquisa rápida na internet. Verá, no site do ECAD, todos os balanços da entidade desde 2004. Encontrará também todo o regulamento de Arrecadação e uma detalhada explicação dos mecanismos de distribuição. Também terá acesso ao ranking das músicas mais tocadas, dos autores mais executados, tudo isso dividido por região do Brasil. Terá também acesso ao banco de dados com todas as obras lá registradas e com os respectivos titulares. Anualmente o ECAD é auditado interna e externamente e precisa ter as suas contas aprovadas pelas dez associações autorais que o compõe. Pode também fazer uma visitinha rápida ao site do CC. Dá para encontrar os patrocinadores. Nenhum balanço ou auditoria. Dá para ver que os diretores são indicados pelos “supporters”, mas não para saber como a grana é gasta. A bem da verdade não dá nem para descobrir direito quem está registrado lá: a busca deve ser feita pelo Google, não por acaso um dos maiores benfeitores da ONG. Quem tem mais transparência? Quem esconde o jogo?

FISCALIZAÇÃO

O deputado deve lembrar que há pouco tempo o Congresso Nacional aprovou a lei que regulamentava as centrais sindicais. A direita mais reacionária incluiu um artigo que previa a fiscalização do dinheiro das entidades sindicais pelo Ministério Público. Foi preciso que o presidente Lula tivesse a coragem de vetar o esdrúxulo artigo. Quem deve fiscalizar o dinheiro dos sindicatos são os trabalhadores, disse ele. Aqui vale a mesma coisa: quem deve fiscalizar o dinheiro dos autores, decidir como ele será distribuído são eles mesmos.

A esta altura com certeza o líder do PT já compreendeu que existem dois lados na questão.

De um lado está a ministra Ana de Hollanda e os criadores da música que o mundo inteiro admira. Estão, entre outros, Hermínio Bello de Carvalho, Fernando Brant, Aldir Blanc, Carlos Lyra, Roberto Carlos, Antonio Adolfo, Marcus Vinícius, Nei Lopes e outros tantos que prestaram imediata solidariedade a ela. Do outro estão o Sr. Lessig, com seu séquito de twitteiros e blogueiros, que em sua imensa maioria não toca, não canta, não cria. De um lado estão organizações que há décadas lutam pelos direitos dos criadores e reúnem entre seus filiados centenas de milhares de compositores. Do outro está um tal de Ronaldo Lemos, defendendo a mesada que ganha da Fundação Ford para manter o CC no Brasil. De um lado está, enfim, a cultura brasileira. Do outro o Google, a Microsoft, o Yahoo!. Certamente um deputado que o partido da presidenta Dilma escolheu para ser seu líder saberá escolher o lado certo na batalha.

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Pinacoteca do Estado fica sem seu anexo planejado por Roberto Kaz, Folha de S Paulo

Pinacoteca do Estado fica sem seu anexo planejado

Matéria de Roberto Kaz originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 24 de fevereiro de 2011.

Concurso que elegeria projetos arquitetônicos para a criação de uma reserva técnica do museu foi cancelado

Participantes dizem que cancelamento foi "falta de respeito" e reclamam da falta de diálogo com a Associação Pinacoteca

No dia 9 de fevereiro, 12 escritórios de arquitetura receberam, por e-mail, um comunicado da Associação Pinacoteca Arte e Cultura, organização social responsável por gerir a Pinacoteca do Estado.

O texto, sucinto e sem assinatura, agradecia a participação no concurso para a reforma do Liceu de Artes e Ofícios -que serviria de reserva técnica à entidade- informando, no entanto, que "nenhuma das propostas endereçadas foi selecionada".

Os participantes haviam sido convidados em setembro de 2010, por meio de uma carta do diretor executivo da Pinacoteca, Marcelo Araújo. O documento, que exigia a apresentação de habilitações jurídicas, fiscais e técnicas, apontava que a Associação teria "o direito de julgar insatisfatórias todas as propostas, (...) sem que de tal ato decorra direito de reparação".

E assim se deu.

"Foi uma falta de respeito", diz Silvio Oksman, arquiteto que projetou o Instituto Criar de TV e Cinema, no bairro da Barra Funda. "Durante quinze dias trabalhamos como loucos."

Oksman reclama que o convite era vago. "Havia poucas especificações. Tanto que os projetos finais eram absolutamente diferentes. Acho difícil que nenhum deles atendesse às demandas."

Renato Dal Pan, que projetou o Sesc de Guarulhos, diz que a classe está "acostumada a ser mal tratada".
Ainda assim, decidiu participar: "Era um projeto estimulante, de magnitude, para criar um espaço expositivo e uma reserva técnica. Foi um mês de dedicação exclusiva no escritório."

Lua Nitsche, que assina casas de veraneio no litoral paulista, diz ter alocado "cinco arquitetos e três estagiários" no projeto: "Foi o primeiro convite que recebemos, por isso entramos."

Ela reclama da falta de diálogo com a Associação Pinacoteca. "Eles não se comunicavam por telefone.
Havia um endereço de e-mail para sanar dúvidas. Mas nunca recebíamos resposta de uma pessoa específica. Era sempre algo abstrato, em nome da Associação."

Em um e-mail, a arquiteta perguntou quem formava o júri responsável pela avaliação. "Não recebi resposta", reclama. (Até o fechamento desta edição, a Secretaria de Cultura do Estado tampouco respondeu a esta mesma demanda, feita pela Folha).

"Fica parecendo que não houve análise, que a decisão foi política", aponta. "Falta de qualidade não pode ter sido. Havia gente gabaritada. O Mario Biselli, por exemplo, venceu o concurso para projetar o Aeroporto Internacional de Florianópolis."

Biselli, que também desenhou o Teatro de Londrina, diz ter sido acometido de uma "frustração absoluta" quando do comunicado. "Já vi a coroação de projetos ruins, mas nunca o cancelamento assim, do nada", diz.

CRITÉRIOS
Precavido, o arquiteto Marcelo Ferraz -que projetou a Prefeitura de São Paulo com Lina Bo Bardi (1914-1992)-, preferiu, desde o início, não participar. "Convidaram mais de 20 escritórios. Trabalha-se muito e, normalmente, 90% vai para o lixo", disse, para em seguida completar: "Nesse caso, 100%.

Ferraz figurou, em 2008, entre os finalistas do concurso que escolheria a nova sede do Museu da Imagem e do Som, no Rio de Janeiro. "Então cancelaram tudo e recomeçaram do zero, com a presença do [escritório americano] Diller Scofidio, que acabou ganhando."

"Você nunca sabe quais são os critérios. Ainda bem que não participei desse último", conclui.

Posted by Paula Dalgalarrondo at 2:42 PM

fevereiro 23, 2011

Minc perde R$ 237 milhões de fundo por Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

Minc perde R$ 237 milhões de fundo

Matéria de Jotabê Medeiros originalmente publicada no jornal O Estado de S.Paulo em 23 de janeiro de 2011.

Corte foi nas emendas parlamentares para área artística, mecanismo que teve escândalo revelado no fim do ano

O Congresso Nacional cortou anteontem R$ 237 milhões em emendas parlamentares para o Ministério da Cultura, o que reduz drasticamente as verbas destinadas ao setor este ano no País (no total, as emendas vetadas em todo o governo federal somam R$ 1,86 bilhão).

Grande parte das emendas cortadas está agrupada em rubricas vagas, como "fomento a projetos de arte e cultura", sem a especificação de quais seriam esses projetos. Poucas tinham destino certo, mas essas devem comprometer planos de instituições e programas importantes pelo País. É o caso, por exemplo, de três emendas do deputado William Woo (PPS-SP), que destinariam R$ 900 mil para o Instituto Manabu Mabe, R$ 200 mil para o Instituto Tomie Ohtake e R$ 100 mil para o Museu Brasileiro de Escultura. Esse dinheiro não chegará mais.

O Ministério da Cultura esteve no centro de um escândalo no ano passado, quando o Estado revelou que diversas emendas parlamentares para a área artística, na verdade, foram destinadas a entidades fantasmas. O relator das emendas, Gim Argello, foi envolvido na destinação irregular de recursos e renunciou ao posto. A deputada Luciana Costa (PR-SP), que naquela ocasião também destinou recursos a entidade que os repassou a terceiros, tinha duas novas emendas sugeridas para o MinC, no total de R$ 1,5 milhão.

Os cortes atingiram situação e oposição indistintamente. O deputado Sarney Filho (PV-MA), filho do presidente do Senado, José Sarney, teve cortada uma emenda de R$ 2,7 milhões para "fomento a projetos de arte e cultura no Estado do Maranhão" .

O maior valor cortado foi de R$ 5 milhões, proposto para um plano de "preservação de bens culturais de natureza material" da Mitra Arquidiocesana de São Paulo, pelo deputado suplente José Carlos Stangarlini, do PSDB de São Paulo (autor do projeto que institui o Ensino Religioso como disciplina regular nas escolas públicas de São Paulo).

Outra instituição que vai sofrer um choque em seus projetos para o ano é a União Nacional de Estudantes (UNE). Caiu uma emenda de R$ 650 mil que tinha sido apresentada pelo deputado Osmar Júnior, do PC do B do Piauí. A Umes (União Municipal dos Estudantes Secundaristas) viu cair uma emenda de R$ 100 mil de Jilmar Tato (PT-SP).

O ex-candidato a vice-presidente da República, deputado Índio da Costa (DEM-RJ) teve cortada emenda que destinaria R$ 850 mil para atividades audiovisuais do Instituto Cultural Cidade Viva, no Rio. Marisa Serrano (PSDB-MS) teve cortadas emendas para Corumbá, Eldorado e Porto Murtinho, um total de R$ 1,650 milhão.

Fernando Gabeira (PV-RJ), já sem mandato, propôs R$ 1 milhão para a recuperação do Cine Teatro Vitória (Resende, RJ), e R$ 200 mil para o Museu Casa do Pontal. Ricardo Berzoini (PT-SP), ex-presidente do PT, propôs quatro emendas para São Paulo e Distrito Federal, no total de R$ 1,3 milhão. Bancadas sem partido de Minas, Rio e Mato Grosso propuseram emendas de R$ 76 milhões.

O Ministério da Cultura informou que ainda aguarda decisão sobre novos cortes para saber qual será sua estratégia de ação em 2011. Segundo ponderou o MinC, só após o Ministério do Planejamento e a presidência editarem o decreto com o contingenciamento global do orçamento é que seria possível saber o que será feito. Por enquanto, o ministério está em compasso de espera. O ministros Guido Mantega (Fazenda) e Miriam Belchior (Planejamento) anunciaram a disposição de reduzir as despesas em R$ 50 bilhões. O decreto com a programação orçamentária, em que constaria o bloqueio, poderia ser anunciado ainda ontem.

PREJUDICADOS

Instrumentos
Aquisição de instrumentos mu-sicais em Santa Maria da Serra (SP), emenda do deputado
Lobbe Neto (PSDB-SP)

Coros
Encontro internacional de Coros em Alagoas e restauração do Palácio Floriano Peixoto, em Penedo (AL), de João Tenório (PSDB-AL)

Hip hop
Associação Ala Urso do Poço de Santana (RN), de Fábio Faria (PMN-RN)
8º Festival Amazônico e Internacional de Hip Hop (Amapá), de Dalva Figueiredo PT-AP)

Letras
Reforma da Academia Paraense de Letras, de Lira Maia (DEM-PA)

Posted by Paula Dalgalarrondo at 3:02 PM | Comentários (1)

Alemão promete ser sensação no Brasil por Fabio Cypriano, Folha de S Paulo

Alemão promete ser sensação no Brasil

Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 23 de fevereiro de 2011.

Hans-Peter Feldmann é um dos artistas que inspira Luis Pérez-Oramas, curador da 30ª Bienal de São Paulo

Com quase 70 anos, o artista é desconhecido no país e só agora se tornou reverenciado no continente europeu

Em 1975, então com 34 anos, o artista alemão Hans-Peter Feldmann enviou a 30 pessoas do circuito artístico de seu país fotos suas e de sua mulher com outra garota em cenas de sexo explícito.

"Eu tenho vergonha de mostrar minhas práticas sexuais em espaços públicos...
mas há muitas outras coisas feitas em público, que a maioria das pessoas não se envergonham", escreveu ele.

Anos depois, a mulher pediu o divórcio e as imagens foram usadas pelo advogado dela como evidências de "crueldade psicológica".

Feldmann faz parte de um grupo de artistas que, nos anos 60 e 70, levou as experiências artísticas ao limite. E o caso acima exemplifica como tal atitude não conseguia prever sequer seus possíveis desdobramentos.

Pois é justamente esse limiar entre arte e não arte que terá na 30ª Bienal de São Paulo um de seus motes centrais e Feldman um dos artistas inspiradores para o curador venezuelano Luis Pérez-Oramas, responsável pela mostra intitulada "Retorno das Poéticas".

"Tanto o Arthur Bispo do Rosário como o Hans-Peter são artistas que me interessam porque trabalham com a invenção de um discurso e ambos têm como marca central a repetição e a serialização", disse Oramas à Folha, em Madri.

INSPIRAÇÃO
De fato, assim como Bispo do Rosário criou conjuntos impressionantes com placas de ruas, costuradas por ele mesmo, talheres ou barquinhos, Feldmann, em sua exposição no Reina Sofia, entitulada "Una exposición de arte", faz operações muito semelhantes.

Uma das mais impressionantes é "Capas de jornais, 12 de setembro de 2001", que reúne 161 capas de jornais de dezenas de países com as imagens dos ataques às Torres Gêmeas, inclusive a da Folha, único jornal brasileiro na seleção.

Grande parte da obra de Feldmann, segundo se percebe na mostra, tem uma relação de cunho biográfico, o que o aproxima novamente a Bispo do Rosário.

Há conjuntos de fotos de pratos de comida, retratos de uma mulher, tirados ao longo de 56 anos, entre 1943 e 1999, e as do livro "100 anos". Nesse conjunto, o artista apresenta fotos de cem pessoas, todas na mostra, cada uma com uma idade em sentido crescente.

Quase aos 70 anos, desconhecido no Brasil e possivelmente uma das sensações da Bienal, no próximo ano, Feldmann vem tornando-se só agora um nome reverenciado também na Europa.

"Estou realmente surpreso que, após 30 ou 40 anos de estar provocando confusões com fotografias, de repente as pessoas se tornam interessadas no que eu fiz no passado", conta Feldmann.

Com uma obra tão radical e em tempos tão mercadológicos, sua obra é mesmo uma forma de respiro.

Posted by Paula Dalgalarrondo at 1:59 PM | Comentários (5)

fevereiro 22, 2011

Arte em novo endereço por Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

Arte em novo endereço

Matéria de Antonio Gonçalves Filho originalmente publicada no jornal O Estado de S.Paulo em 22 de fevereiro de 2011.

Raquel Arnaud abre sua galeria em março, com a exposição da Série Negra, a obra mais radical de Waltercio Caldas

Há exatamente 40 anos ela estava trabalhando ao lado do professor Pietro Maria Bardi (1900 -1999), então diretor do Museu de Arte de São Paulo (Masp). Foi lá que a marchande Raquel Arnaud, após a morte do pintor Lasar Segall (1891-1957), seu sogro, hoje representado por ela, aprendeu lições de colecionismo e noções do comércio de arte. No dia 29 do próximo mês, Raquel, que mantém há 30 anos seu Gabinete de Arte, abre uma nova galeria com seu nome, na Rua Fidalga, 125, elegante endereço da Vila Madalena, bairro onde já funcionam galerias como a Fortes Vilaça e a Millan. E escolheu para abrir o espaço, projetado pelo arquiteto Felippe Crescenti, o escultor Waltercio Caldas, um dos principais artistas de seu time - que tem nomes como o venezuelano Cruz-Diez, Arthur Luiz Piza e ainda o escultor Sergio Camargo (1930-1990). "Hoje são 21 artistas, alguns trabalhando com novas tecnologias, o que justificou a ampliação e a mudança de endereço da galeria", diz a marchande.

O carioca Waltercio Caldas é, hoje, um dos artistas de maior prestígio no circuito internacional de bienais, graças a seu trabalho provocativo e ao mesmo tempo de inegável importância histórica na arte contemporânea. No ano passado, por exemplo, ele expôs esculturas e desenhos na exclusiva galeria de Denise Renée, em Paris, que lançou os grandes nomes da op art e vende os trabalhos de Mondrian na Europa. Na nova galeria de Raquel Arnaud, Waltercio, que expõe atualmente em Madri, vai mostrar cinco trabalhos da Série Negra, iniciada há cinco anos. Dessa série, mostrada anteriormente na Christopher Grimes Gallery de Santa Monica, Califórnia, um dos trabalhos foi vendido para o Museu do Texas e outro para um colecionador paulista.

De Paris, onde prepara novos trabalhos - entre eles um livro de artista para a centenária editora espanhola Polígrafa -, Waltercio falou com o Estado sobre a nova série, cujas obras têm os simples títulos de O Som, O Mar, O Espelho, A Paisagem, O Rio. São nomes apenas evocativos, pois se trata de uma das mais complexas séries do escultor, uma síntese de seu trabalho anterior em que o granito, o aço inoxidável, o vidro e fios de lã se relacionam em obras de grande impacto.

"A relação entre os materiais, como eles interagem, é o que me interessa", resume Waltercio. Se existe outro escultor ao qual pode ser comparado, este é o romeno Brancusi (1876-1957), por causa do caráter elusivo da obra de ambos. As peças de Waltercio resistem à classificação justamente por estarem amalgamadas com a história da arte. Na Série Negra, o título é quase um comentário irônico da proposta do artista, que usa o polimento do mármore negro para transformá-lo num espelho.

Nesse aspecto, Brancusi deve ser de novo evocado por ter igualmente criado esculturas em que elementos contraditórios buscam certa harmonia e o mármore reflete a luz. Também na obra do romeno a pedra não deixa de ser pedra por buscar a função do espelho, nem a base pode ser considerada apenas um elemento formal. Ela representa, como a mesa da Série Negra, uma forma evanescente, metafísica, a "alma" da qual emerge a matéria.

"Desde as primeiras experiências que fiz, nos anos 1970, com veludo negro, busquei a introspecção, reivindicando, de certa forma, uma subjetividade, mas não por meio da expressão", diz Waltercio, que teve agora a chance de exercitar seu lado Goeldi - vale dizer, intimista - ao ilustrar o livro A Alma Encantadora das Ruas, de João do Rio. "Foi uma experiência que me deu muita alegria, especialmente por ser uma obra centenária tão atual." Ele também destaca a tridimensionalidade das ilustrações - o aspecto morandiano e principal da obra de Waltercio Caldas, dedicada à eliminação da fronteira entre o bidimensional e o tridimensional.

Waltercio foi escolhido entre 15 artistas internacionais para realizar uma instalação na Feira de Basel, em outubro e, a convite da família do compositor Tom Jobim, projeta uma escultura que será instalada no Rio. Na nova galeria de Raquel Arnaud, o andar térreo (300 metros quadrados) será ocupado pelo acervo do escultor Sergio Camargo, com quem a obra de Waltercio dialoga, e o primeiro andar (200 metros quadrados) será ocupado exclusivamente pelos cinco trabalhos da Série Negra. O próximo escultor a expor na galeria será José Resende, em agosto.

QUEM É

WALTERCIO CALDAS
 ESCULTOR

Nascido há 65 anos, o artista carioca foi aluno de Ivan Serpa e começou sua carreira como cenógrafo, em 1968, numa peça de Ionesco. Expondo desde 1973, tem esculturas públicas no Uruguai e na Noruega. Sua obra se caracteriza pelo olhar erudito do autor sobre a história da arte, usada como matéria em esculturas alusivas a nomes como Mondrian e Morandi.

Posted by Paula Dalgalarrondo at 1:52 PM

fevereiro 21, 2011

Passado e futuro em alguns cliques por Paula Alzugaray, Istoé

Passado e futuro em alguns cliques

Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na Istoé em 18 de fevereiro de 2011

Tony Oursler inaugura museu de mídias digitais da Adobe e Google disponibiliza navegação por galerias de 17 grandes museus

VALLEY-TONY OURSLER/ www.adobemuseum.com
GOOGLE ART PROJECT/ www.googleartproject.com/

A visita virtual mostra um edifício de arquitetura arrojada, localizado em alguns dos maiores cartões-postais do planeta. Ele supera os arranha-céus de Nova York e contrasta com o casario renascentista veneziano.

Mas o recém-inagurado Adobe Museum of Digital Media (AMDM) é um espaço sem similar: existe apenas no ambiente digital e foi especialmente projetado para exibir obras artísticas realizadas em mídias digitais.

Bem-vindo ao museu online: ele tem entrada livre 24 horas por dia e expõe trabalhos que não poderiam estar em nenhum outro lugar além do seu computador.

Em cartaz desde o início de fevereiro, a mostra inaugural do AMDM conta com o projeto “Valley” do artista americano Tony Oursler especialmente concebido para o museu. O ambiente virtual é efetivamente o lugar ideal para entrar em contato com a obra desse artista que há 30 anos experimenta novas mídias para produzir seus seres fantasmáticos com indagações existencialistas. Em “Valley”, ele criou 17 áreas interativas. No segmento “Vídeo”, por exemplo, a Adobe pede permissão para ativar a webcâmera do usuário, que, ao aceitar, entra no trabalho de Oursler.

“Valley” é atualmente a única sala habitada desse museu que, se fosse construído no mundo real, teria 57.870 m2 de espaços expositivos. Mas o AMDM já conta com uma sala de discussão, na qual os visitantes podem deixar seus comentários. As redes sociais estão entre os maiores diferenciais dos museus online em relação aos espaços físicos. Com essa ferramenta, todo espectador é um crítico em potencial. A maior crítica que o AMDM já recebeu de seus usuários é em relação à sua falta de interatividade. O maravilhoso edifício do arquiteto Filippo Innocenti é uma construção que não pode ser navegada: é impossível escalar as torres que guardariam sua “coleção permanente”, por exemplo. Talvez porque o museu ainda não tenha um acervo? Ou porque ainda falte conteúdo ao site. “A maioria das pessoas esperava navegar com liberdade através do edifício, o que não é o caso”, postou o usuário PUSHINGUPPIXELS.

Ao contrário do AMDM, a navegação é o grande trunfo da galeria virtual Google Art Project. Desde o início de fevereiro, o site viabiliza passeios virtuais a galerias de 17 grandes instituições de todo o mundo. Ao alcance do internauta estão obras-primas da história da arte, como “O Nascimento da Vênus”, de Botticelli, na Galeria Uffizi, ou “The Night Watch”, de Rembrandt, no Rijksmuseum.

A escolha das obras expostas ficou a cargo das curadorias dos museus, que justificam a disponibilidade limitada devido aos direitos autorais dos artistas vivos (leia bate-papo). Em sua fase inicial, o projeto dispõe de 1.060 obras, com possibilidade de visualização em lentes de aumento que podem chegar à incrível resolução de 7 gigapixels. Mas a experiência do Google Art Project é puramente visual e não substitui o universo de possibilidades oferecidas por um museu online hoje: de vídeos com artistas a ferramentas de compartilhamento de dados. No entanto, o projeto pode aumentar consideravelmente a visita aos sites dos museus que estão participando. E isso é um grande feito.

Posted by Paula Dalgalarrondo at 3:34 PM

Bienal vai homenagear Bispo do Rosário por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo

Bienal vai homenagear Bispo do Rosário

Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 19 de fevereiro de 2011.

Luiz Pérez-Oramas, curador do evento de 2012 em SP, pretende evidenciar artista, que foi interno de hospital psiquiátrico

Venezuelano também quer diminuir número de participantes e ter mais trabalhos pensados para a mostra

Arthur Bispo do Rosário (1911-1989), marinheiro que foi interno de um hospital psiquiátrico e nunca produziu obras para o circuito das artes, será um dos artistas centrais da 30ª Bienal de São Paulo, em 2012, adiantou à Folha, anteontem, o curador Luis Pérez-Oramas.

"O que me interessa no Bispo do Rosário é que ele foi uma figura periférica, cuja obra está centrada na invenção da linguagem", disse Oramas, no café do Circullo de Bellas Artes, em Madri. Para ele, uma das questões centrais de sua Bienal será discutir os limites da arte.

"Retorno das poéticas" é o "motivo aglutinador" da Bienal paulista: "Eu sou poeta e gosto de poesia, mas por poética estou me referindo à capacidade retórica da arte".

Ao abordar o caráter discursivo da arte e seus limites, Oramas vai questionar uma das tendências importantes dos anos 1960 e 1970, liderados por Lygia Clark (1920-1988) e Hélio Oiticica (1937-1980). "Se formos observar, a Lygia, com suas propostas, chegou de fato ao fim da arte. Agora, é preciso revisar a ideia da arte, que não é um instrumento de emancipação, apesar de poder ajudar", diz Oramas.

Segundo o curador, um dos problemas da produção atual é que, ao se aproximar da vida, a arte "tem se afirmado mais como comentário da realidade, da sociedade e por isso não se questiona mais como discurso".

Com isso, a Bienal entra num velho debate, que se renova permanentemente, sobre a autonomia da arte, no modernismo, e seus desdobramentos no contemporâneo, para alguns chamado de pós-moderno, outros hipermoderno e mesmo altermoderno. "É preciso tomar cuidado com conceitos messiânicos", alerta o curador.

Outros artistas importantes na conceituação da mostra são o alemão Hans-Peter Feldmann, que atualmente está em exposição no museu espanhol Reina Sofia, e o brasileiro Waldemar Cordeiro (1925-1973). "Ele é um bom exemplo para pensar limites, pois vai do meio artístico para a informática", afirma.

CAMPO EXPANDIDO
Entre seus planos, o curador pretende reduzir pela metade, em relação à última edição, o número de artistas no pavilhão, chegando a cerca de 80. "Mas queremos ter muitas obras feitas especialmente para a mostra", conta. Espacialmente, o curador planeja que entre 12 e 15 dessas novas obras sejam de grande porte.

Oramas também reserva à arte latino-americana papel importante na mostra: "Devemos dar lugar a artistas latinos importantes que não tiveram ainda a atenção merecida, mas não penso em termos quantitativos". O curador refere-se à última edição que, entre seus 159 artistas, tinha 45% de latinos.

Até setembro, Oramas pretende apresentar a lista de artistas. Assim como vem ocorrendo desde 2006, ele planeja estender a Bienal no tempo, com debates durante todo o ano de 2012.

"Como grande parte dos trabalhos será comissionado, poderemos organizar encontros com os artistas."
A 30ª Bienal também deve ocorrer de forma mais sistemática fora do pavilhão.

"Uma das perguntas que queremos fazer é qual a tensão da obra com seu entorno e, por isso, será muito importante que tenhamos trabalhos em museus da cidade, pois a Bienal, por seu caráter específico, pode muita coisa que eles não podem."

Agora, experiente, o curador sabe que tem pela frente um grande desafio: "Aqui no Bellas Artes tudo soa bonito", brinca.

Posted by Paula Dalgalarrondo at 1:38 PM | Comentários (1)

fevereiro 18, 2011

Después de ARCO por Rosa Olivares, Exit-express.com

Después de ARCO

Matéria de Rosa Olivares originalmente publicada no Exit-express.com em 18 de fevereiro de 2011.

No quería hablar más de ARCO. Pero parece que si no lo hago estoy faltando a un deber insoslayable. Todos los suplementos culturales, las revistas, los colorines de los diarios, los culturales televisivos, los periódicos de provincias, hasta los más lejanos y en ciudades en que la mayoría de sus lectores ni saben ni les importa que es eso de “arco”, le dedican todo el espacio dedicado a la cultura, al arte. Y todos decimos más o menos lo mismo, es decir apenas nada. Cada vez me recuerda más a esa información deportiva que se da antes y después de los partidos, que se infla de nada hasta que ya cansa, cuando lo único que realmente importa es, sería, el partido en sí mismo. Todos damos opiniones, como si importasen algo, igual que todo el mundo sabe más que el entrenador de turno de lo que habría que hacer para ganar. Y ARCO, como cualquier partido de fútbol, tiene una duración concreta, apenas cuatro o cinco días. Lo que dura una feria ¿Y después de ARCO, qué?

No conozco ningún país, ninguna ciudad en donde la existencia de una feria de arte sea tan importante. Parece que en España todo se centra en esos cinco días de febrero. Y eso es absolutamente falso. Ni el mercado español depende exclusivamente de ARCO, aunque sea ciertamente importante, ni mucho menos el arte español, para el que ARCO significa un encuentro coyuntural en el que puedes no encontrarte con nadie. Son muchos los artistas que no están en ARCO, son muchas las galerías que tampoco están en ARCO, y desde luego ni la teoría, ni la crítica, ni la creación dependen en absoluto de ARCO. Y la verdad es que cualquier profesional, aunque sea galerista, sabe que hay más vida, incluso que existe una vida mucho mejor y más interesante más allá de ARCO. Vamos, que ya está bien de dedicarle tantas páginas y tantos comentarios cuando pasados esos cinco días de febrero esas personas no van a interesarse por lo que les pasa a los museos, ni a los artistas, ni por nada que tenga que ver con el arte español. Aunque algunos no lo crean, no es el mercado lo único que mueve el mundo del arte. Después de ARCO los coleccionistas deberían seguir comprando, visitando galerías, leyendo revistas, y los artistas seguirán –sin duda– trabajando, exponiendo; las galerías haciendo sus exposiciones, intentando algo más que llegar hasta el año que viene al próximo ARCO.

Olvidamos lo más sencillo de todo: ARCO es una feria. En Basilea o en Londres, ni en México siquiera, los directores de los museos del lugar no se preocupan de si la feria es la adecuada o no; los políticos la visitan, pero ni salen en los periódicos; la vida cultural no se para durante las ferias en ningún lugar del mundo. Cada uno tiene sus funciones, y cumplirlas adecuadamente es lo que debería importarles. Y no querer decirle al entrenador de tu equipo que alineación debe poner. Al final, tal vez ARCO sea realmente importante, no se entiende si no, que todo el mundo quiera tener la solución, la última palabra, la verdad.

Dejemos que esos cinco días de feria pasen lo mejor posible, que los dados giren y que todos ganemos un poco o un mucho. Y hasta el año que viene, cada uno a lo suyo y todos a seguir adelante.

Posted by Paula Dalgalarrondo at 4:09 PM

Desentendimentos impedem a semana de arte do Rio por Catharina Wrede, O Globo

Desentendimentos impedem a semana de arte do Rio

Matéria de Catharina Wrede originalmente publicada no segundo caderno do jornal O Globo em 15 de fevereiro de 2010.

Vik Muniz pretende dar continuidade ao projeto sozinho

Anunciada com entusiasmo e recebida em forma de grande notícia para a cidade, a Semana de Arte do Rio, que aconteceria em maio, naufragou. Os sócios das empresas Prole, Nau e FAAP, responsáveis pelo projeto, que previa intervenções de grandes nomes brasileiros e estrangeiros pela cidade, seminários e um prêmio, e pretendia se firmar como o maior evento de arte do Rio, reconhecido pelo mundo, se desentenderam. Segundo Vik Muniz, o curador convidado, o problema não foi orçamentário.

— Fiz tudo para o projeto funcionar. Até conseguir o dinheiro eu consegui, mas estava na mão de outras pessoas. Eu não tinha ideia da complexidade que é trabalhar com a iniciativa privada. Eram pessoas de áreas muito diferentes, que achavam, num otimismo utópico, que teriam opiniões unificadas — diz o artista.

Malu Barreto, mulher de Vik e diretora da Prole, lamenta:

— É muito chato isso, porque já estava tudo pronto em termos de produção, trabalhamos um ano inteiro nisso. E falo como mulher do Vik mesmo, por conta do comprometimento dele com os artistas...

William Passos, um dos donos da Prole, diz, em nome de todos os sócios da Semana, não saber o que vai acontecer:

— Não sei se a sociedade vai se desfazer ou não. Estamos com tudo parado, vendo possibilidades do que pode ser feito.

Mesmo com o fim, Vik diz que quer dar continuidade à ideia:

— Fiquei muito triste, e isso me deu mais vontade de fazer. Isso tem que ser trabalhado de alguma forma, é só uma questão de achar as pessoas certas para trabalhar.

Posted by Paula Dalgalarrondo at 3:35 PM | Comentários (2)

Categoria originalidade por Nina Gazire, Istoé

Categoria originalidade

Matéria de Nina Gazire originalmente publicada na Istoé em 11 de fevereiro de 2011.

ABRE ALAS/ A Gentil Carioca, RJ/ até 19/3

Todo ano é a mesma coisa. Semanas antes do Carnaval, pipocam os sambas-enredos e as mulatas da hora requentam a programação das emissoras de tevê. Felizmente, em meio a tão pouca originalidade, aparecem as boas-novas. Como o time de 20 estreantes selecionados no projeto “Abre Alas”, a já tradicional exposição de abertura de atividades da galeria A Gentil Carioca. Entre os destaques da sétima edição do evento, os trabalhos da jovem fotógrafa carioca Julia Pombo e do músico experimental Siri (foto).

A curadoria este ano ficou a cargo do trio Daniela Name, Bernardo Mosqueira e Bob N., a partir de um método de seleção equivalente a um autêntico baile de máscaras: com a identidade dos candidatos mantida em segredo. “Decidimos trazer um mix de críticos, curadores e artistas, para que o crivo de seleção não passasse só pela galeria. Primeiro analisamos os trabalhos enviados, mas sem revelar a autoria. O artista correspondente só é descoberto depois que as obras estão selecionadas”, afirma Laura Lima, artista e uma das diretoras da galeria ao lado de Marcio Botner e Ernesto Neto.

Além de receber artistas brasileiros iniciantes ou sem representação em galerias, ao longo dos anos o projeto passou também a abrigar trabalhos de artistas estrangeiros. Questionada sobre a característica dessa nova geração que participa da exposição, Laura Lima é categórica: “Sentimos que os artistas estão menos dependentes e mais gestores de si mesmos. Sabem se apresentar e fazer um portfólio de qualidade.” A exposição “Abre Alas” já revelou nomes que hoje são destaques na arte brasileira e internacional, como Mariana Manhães, Gustavo Esperidião e a inglesa Rachel Reupke. Este ano, o evento terá uma novidade. No dia do lançamento do catálogo, em 7 de março, durante o Carnaval, a galeria irá promover um desfile, com direito a concurso de fantasias. Para participar, basta comparecer com sua fantasia mais original.

Posted by Cecília Bedê at 11:20 AM

Feira de arte moderna Arco faz 30 anos, Estadão.com.br

Feira de arte moderna Arco faz 30 anos

Matéria originalmenten publicada no caderno Cultura do jornal O Estado de S. Paulo em 18 de fevereiro de 2011.

Um dos principais eventos de arte contemporânea do mundo abre suas portas nesta sexta trazendo mais de 1200 obras de 26 países.

Uma das principais feiras de arte contemporânea do mundo, a Arco, abre suas portas ao público em Madri, na Espanha, nesta sexta-feira, celebrando 30 anos.

Uma retrospectiva especial com fotografias das três décadas da feira marca estas nova edição, que traz pinturas, esculturas, fotografias e instalações de 197 galerias de 26 países, inclusive o Brasil.

Os organizadores esperam superar a média de 150 mil visitantes de 2010.

A ARCO permanecerá aberta até o próximo domingo com ofertas a todo o tipo de colecionador. A peça mais cara da feira custa R$ 2,7 milhões e a mais barata R$ 700,00.

Dividida em três seções - Solo Projects Focus, Opening e Arco 40 -, a edição 2011 exibe mais de 1.200 obras que vão da chamada vanguarda histórica às performances ao vivo.

Entre os destaques deste ano estão galerias de países emergentes. A Rússia é a nação homenageada. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

Posted by Cecília Bedê at 10:48 AM

SP recebe olhar geométrico de Ródtchenko por Silas Martí, Folha de S. Paulo

SP recebe olhar geométrico de Ródtchenko

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 18 de fevereiro de 2011.

Primeira retrospectiva do artista russo no país, a partir de amanhã, mostra como sua obra transformou a fotografia

Ele abusou de ângulos tortos e inusitados e inventou retratos que juntam vários instantes em uma única imagem

Foi no sótão de um teatro que Aleksandr Ródtchenko nasceu. Descia uma escada íngreme e dava direto no palco. "Vi minha primeira paisagem ali", lembra o artista russo. "A vida do teatro era a vida verdadeira, e o que estava lá fora -eu não tinha ideia."

Ródtchenko começou moldando paisagens com flores artificiais que seu pai montava para os cenários das peças. Depois foi depurando sua estética até começar a fotografar e provocar a maior revolução na imagem capturada já vista até hoje.

Quando passou a ter alguma ideia do que se passava lá fora, alargou os horizontes do teatro onde nasceu para o palco da Rússia às voltas com a revolução iniciada em 1917.

Entendeu que a nova ordem política pedia outra ordem estética e deixou um receituário para retratar a vida na crueza de seus ângulos. Mais de 50 anos depois que fez sua última fotografia, essas manobras da objetiva, o rigor obsessivo e a métrica de uma poética visual que forjou a fotografia moderna estão juntas na retrospectiva com 170 de suas obras que a Pinacoteca do Estado abre amanhã em São Paulo.
"A arte do futuro não será a agradável decoração de apartamentos", escreveu o artista morto em 1956. "Até agora não percebemos este fato chamado vida, que só necessitaria ser organizado e depurado de ornamentos."

Já sem as flores do palco, Ródtchenko encarava o teatro da vida real, em desfiles cívicos, retratos de amigos e parentes, cartazes e fotomontagens, com forte rigor geométrico. Desafiava o olhar duro, o ponto de vista único, com sobreposições de imagens, a violação do negativo, e enquadramentos curtos, de baixo para cima.

"Quero fazer fotos incríveis, nunca feitas, da própria vida, reais", escreveu. "Fotos simples e complexas ao mesmo tempo, que espantarão e arrebatarão as pessoas."

Num de seus retratos mais célebres, enquadra a própria mãe com uma lente no olho se esforçando para ler -só muito velha é que começou a entender a palavra escrita.

Seu livro some e o rosto e os óculos ocupam todo o plano, num prelúdio à reinvenção do olhar que Ródtchenko começava então a montar. Também não deixa de encarnar ali certa vontade de desestruturar a ordem, um paralelo entre a leitura tardia da mãe, a Rússia em convulsão, e uma releitura da forma propalada pela fotografia.

CRISTALIZAR O HOMEM

Emprestou seus experimentos visuais para dar cara e carne aos versos de Vladimir Maiakóvski, poeta que retratou noutra de suas séries mais emblemáticas.

Ele rodeia seu retratado com a câmera, que surge em múltiplos ângulos, lápis no bolso e cigarro na boca. "Cristalize o homem não pelo retrato "sintético" mas de vários instantâneos em momentos e condições diferentes", escreveu. "Preze tudo que é real e contemporâneo."

E para essa realidade contemporânea, motor também dos filmes de Dziga Vértov e Sergei Eisenstein, ele olhou com os ângulos tortos do cinema. Uma escada vista de baixo destrói a perspectiva do quadro. De lado, ganha a textura contrastada que embala os passos de uma moça.

Sua "Moça com Leica", fotografada com a câmera deitada e alvejada de pontos de luz que atravessam a penumbra, também se transforma em imagem com pele. É o real transfigurado pelo olhar atento, aquilo de arrebatar e espantar que ele queria.

Posted by Cecília Bedê at 10:41 AM

fevereiro 16, 2011

Semana de Arte, retrospectiva de Louise Bourgeois e feira ArtRio vão movimentar circuito carioca em 2011 por Suzana Velasco, O Globo

Semana de Arte, retrospectiva de Louise Bourgeois e feira ArtRio vão movimentar circuito carioca em 2011

Matéria de Suzana Velasco originalmente publicada no jornal O Globo em 27 de dezembro de 2010.

RIO - O Rio está mesmo em alta e receberá alguns dos maiores nomes da arte contemporânea mundial em 2011. De 15 a 22 de maio, obras públicas de pesos-pesados como o dinamarquês Olafur Eliasson e o belga Wim Deloye serão espalhadas pela cidade, na Semana de Arte do Rio. O evento terá ainda uma individual do sul-africano William Kentridge, na Casa França-Brasil, além da participação de brasileiros como Tunga e Adriana Varejão. Também cotado para a Semana de Arte, o britânico Antony Gormley vai expor, em maio, suas esculturas no CCBB, que terá mostras de Mariko Mori e Tim Burton durante o ano.

Em junho, mais arte pública: uma das imensas aranhas de Louise Bourgeois - que completaria 100 anos em 2011, mas morreu este ano - será instalada no Aterro do Flamengo, antecipando a retrospectiva da artista francesa naturalizada americana que ocupa o MAM em setembro. O museu ainda terá individuais dos brasileiros Carlos Zilio, Luiz Zerbini, Fernanda Gomes, Roberto Cabot, José Resende e Elisa Bracher.

Em agosto, o Paço Imperial vai expor gravuras do britânico Lucian Freud. E, no mês seguinte, a cidade terá a primeira ArtRio - Feira Internacional de Arte Contemporânea do Rio, que, além de galerias nacionais e estrangeiras, terá projetos especiais, com curadoria de Agnaldo Farias, Eduardo Brandão e Marcos Dana.

Outras exposições internacionais programadas são as do americano Andy Warhol, do italiano Gabriele Basilico e de artistas contemporâneos iranianos, no Oi Futuro. Entre os brasileiros, o Rio verá Rubens Gerchman e Raymundo Colares, na Caixa Cultural, e Fayga Ostrower e Mira Schendel, no Instituto Moreira Salles.

Posted by Paula Dalgalarrondo at 5:33 PM | Comentários (1)

Impressões de Goeldi por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Impressões de Goeldi

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 15 de fevereiro de 2011.

Meio século depois de sua morte, maior gravurista do país segue como forte influência entre artistas

Quando chegou ao Rio em 1919, Oswaldo Goeldi não olhou para as amplas avenidas da cidade que tentava imitar Paris. Nem se deslumbrou com o sol dos trópicos que não via desde a infância.

Suas obras anularam a luz. Maior gravurista do país, Goeldi olhou com desconfiança para a ideia de progresso que tentava se firmar e retalhava em suas matrizes de madeira tipos marginais, sombras e desequilíbrios que políticos e artistas do momento ignoravam sem medo.

Faz 50 anos que Goeldi foi encontrado morto no quarto em que vivia de favor nos fundos de uma casa no Leblon, no Rio, hoje demolida.

Nenhuma grande exposição ou publicação está sendo planejada para relembrar a data, mas a atitude do artista que recusou a euforia vazia do período entre guerras é mais atual do que nunca.

Nascido no Rio em 1895, Goeldi passou infância e juventude na capital suíça. Trouxe de lá seus contornos angulosos, a fatura fibrosa da estética expressionista.

Eram contrastes de alta voltagem, quase sempre pendendo para o negro, que não encontraram acolhida fácil no Brasil e até hoje causam estranhamento no plano internacional, já que críticos estrangeiros não esperam esse peso do país do Carnaval.

"Ele alerta que as coisas são mais complicadas do que essa euforia nos faz crer", diz Moacir dos Anjos, curador que levou obras de Goeldi à última Bienal de São Paulo. "Nas gravuras dele, as pessoas são sempre solitárias, apressadas, criam uma tensão com o espaço público."

Nuno Ramos, artista que estava na mesma Bienal e construiu uma alusão à herança de Goeldi com urubus enjaulados sobre torres de areia socada no vão central do pavilhão, vê nas obras do artista uma
"vedação noturna para um sol excessivo".

"Goeldi tem um foco poético nítido, uma compreensão da vida como algo mais pesado, mais puro", diz Ramos. "É uma visão noturna, antitrópicos, algo de ordem alucinada, difícil, que está um pouco de costas para o país."

VISÃO NOTURNA

Essa recusa à alegria, que no plano formal se deu pela recusa à onda construtiva que Goeldi viu surgir, é hoje reenquadrada à luz de um país míope para as próprias mazelas, perdido na festa do pré-sal, trem-bala, Copa do Mundo, Olimpíada e afins.

Em cartas que escreveu a amigos na Europa, Goeldi dizia não ser capaz de "pegar um pouquinho do ardor deste sol lá fora". Em vez da orla cintilante, descrevia os subúrbios, com seus "portos abandonados, com navios encalhados, apodrecendo".

"Ele tem uma tristeza, uma melancolia", resume Noemi Ribeiro, pesquisadora que reuniu toda a correspondência de Goeldi. "É uma imagem de denúncia, de confronto com o progresso, a eletricidade, os carros, o rádio. Ele achava que não adiantava todo esse progresso."

E, na construção de suas imagens, Goeldi refreava essa mesma noção de avanço vertiginoso. É lenta a fatura dos traços, a dinâmica dos sulcos precisos na madeira.

Cada paisagem, vizinhança desarranjada tomava forma num ritmo alternativo à realidade, um descompasso já entranhando nas linhas arestadas de suas gravuras.

"Aquilo que a gravura demanda em termos de esforço, de tempo, media os embates intelectuais que ele tinha naquele momento", observa Dos Anjos. "Há um rigor ético e formal, como se ele tivesse tempo de meditar sobre o que estava vivendo na hora."

Dessa forma, Goeldi entrou para a história e se valoriza agora, por sugerir outro caminho. Foi o artista que soube começar pelo avesso, cavando formas a partir de uma "intuição muito forte".

Posted by Paula Dalgalarrondo at 5:19 PM | Comentários (1)

fevereiro 15, 2011

Bienal dos latinos por Camila Molina, O Estado de S. Paulo

Bienal dos latinos

Matéria de Camila Molina originalmente publicada no jornal O Estado de S.Paulo em15 de fevereiro de 2011.

Anunciado curador da 30.ª edição da mostra brasileira de arte, em 2012, o venezuelano Luis Pérez-Oramas detalha seu projeto

O Retorno das Poéticas é o título do projeto do venezuelano Luis Pérez-Oramas para a 30.ª Bienal de São Paulo, que ocorrerá em 2012. Definido pela instituição como o curador-geral da próxima edição da mostra, Oramas sai a partir de abril de licença temporária do MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova York), onde é curador de arte latino-americana, para se dedicar ao desenvolvimento da exposição brasileira. "Discute-se muito sobre o esgotamento do modelo Bienal, mas acho que com a de São Paulo é o contrário, porque ela tem uma história própria e um vínculo orgânico com a cidade", diz Oramas ao Estado, em entrevista por telefone.

Potencializar, como afirma o venezuelano, a relação entre o local e o internacional, com força na arte latino-americana, que vive seu "momento de ouro", vai ser o desafio de seu projeto para a 30.ª Bienal de São Paulo, programada para ser inaugurada em setembro do próximo ano no Pavilhão Ciccillo Matarazzo, no Parque do Ibirapuera. "Todas as ideias globais começam sendo ideias locais", continua Oramas. "A 30.ª Bienal será de revelação de artistas da América Latina que não foram suficientemente reconhecidos, sejam os de metade de carreira ou jovens", diz.

Colocar um estrangeiro com o estofo de Luis Pérez-Oramas à frente da próxima edição do evento vai ao encontro da política de internacionalização engendrada pela atual direção da Fundação Bienal de São Paulo. Mais ainda, não é de agora a relação do curador, que vive em Nova York, com o Brasil. Nascido em Caracas, em 1960, em 1998, ele fez a curadoria de mostra do pintor venezuelano Armando Reverón (1889-1954) na 24.ª Bienal de São Paulo; em 2007, foi cocurador da 6.ª Bienal do Mercosul, em Porto Alegre; e recentemente foi o responsável pela exposição O Alfabeto Enfurecido, com obras da suíço-brasileira Mira Schendel e do argentino León Ferrari e que entre 2009 e 2010 foi exibida no MoMA, no Museu Reina Sofia (Madri) e na Fundação Iberê Camargo. Ainda, o trabalho de Oramas - que também já foi curador da Coleção Patricia Phelps de Cisneros - no museu de Nova York tornou-se fundamental para a entrada de obras de artistas brasileiros para o acervo da instituição norte-americana, uma das mais importantes do mundo.

Campos. Desde outubro a Fundação Bienal de São Paulo veio realizando o processo de seleção do curador-geral da 30.ª mostra, iniciado com a sugestão de um primeiro time de 20 candidatos. Ao chegar ao filtro de 3 nomes, a instituição pediu, em novembro, que fizessem projetos para avaliação. O de Luis Pérez-Oramas, escolhido pela diretoria da Bienal, já tem seu orçamento em torno de R$ 25 milhões, como afirma o presidente da Fundação Bienal de São Paulo, Heitor Martins. Também estão previstas itinerâncias da 30.ª mostra em 2013. Oramas ainda indicará a representação brasileira na 55.ª Bienal de Veneza.

Definindo ainda O Retorno das Poéticas, o curador, que escolheu como cocuradores o alemão Tobi Maier e o artista gaúcho André Severo, cita que a próxima edição vai ser uma exposição balanceada entre "o excesso e o escasso" - no ano passado, a 29.ª Bienal exibiu 850 obras de 159 artistas - e com número considerável de obras criadas especialmente para o evento. "Uma Bienal de articulações e não de individualidades", completa Oramas. Sua meta é anunciar a lista de artistas até setembro deste ano.

O curador indica quatro "zonas" importantes de seu projeto, como a questão da memória; o tema de "como as poéticas alternam formas conhecidas"; as derivas na arte contemporânea; e as "vozes" - das obras e do público de arte.

Nesse sentido, a 30.ª Bienal não vai se restringir à mostra no prédio da instituição, mas contemplar o que o curador chama de "campos expandidos", ou seja, atividades que envolvam internet, rádio, comunidades locais, museus e instituições e o projeto educativo, que mais uma vez será coordenado pela artista e educadora Stela Barbieri.

Números

25 milhões de reais é o orçamento prévio da 30ª Bienal de São Paulo, programada para ser inaugurada em setembro de 2012

700 mil reais é o montante usado para a representação nacional brasileira este ano na 54ª Bienal de Veneza, que terá uma instalação de Artur Barrio, artista português radicado no Brasil

12 a 15 itinerâncias da 30ª Bienal pelo Brasil, em 2013, já integram o projeto selecionado

Posted by Paula Dalgalarrondo at 2:14 PM

Privatizar ou politizar a cultura? por Giselle Beiguelman, DesVirtual

Privatizar ou politizar a cultura?

Matéria de Giselle Beiguelman originalmente publicada na revista DesVirtual em 13 de fevereiro de 2011.

Nem bem começou a gestão de Ana de Hollanda no Minc vem dando o que falar ( e o que protestar ). O primeiro ato de repercussão foi a retirada da licença Creative Commons do site do Ministério da Cultura.

O argumento inicial que coisas públicas são públicas e não necessitam lastro de licenças me parece absolutamente correto. Contudo, a alternativa de trocar a licença Creative Commons por uma advertência – “O conteúdo deste site, produzido pelo Ministério da Cultura, pode ser reproduzido, desde que citada a fonte”, conforme se lê no rodapé do site – é pior.

Sou muito mais Andre Gorz que Lawrence Lessig. Ou seja, interessa-me muito mais a anarquia potencial e corrosiva dos hackers – os dissidentes do capitalismo digital, como Gorz define em O Imaterial – que as estratégias de acomodação, dentro da legalidade, da cultura do compartilhamento.

Em síntese, minha posição é por deixar tudo aberto e copyleft, sem gradações e matizes que criam esferas do que é permitido e o que não é, e correr o risco de fomentar a dissidência e redirecionar os processos.

Se o Minc quiser apostar na ética do compartilhamento e da autorregulação que sempre imperou na Internet, limando a licença CC, tem todo meu apoio e certamente de muitos outros. Se for para direcionar a discussão para o âmbito da privatização da cultura estou/estamos fora.

Uma entrevista concedida pela Ministra Ana de Hollanda à Folha de S. Paulo justifica essa dúvida e corrobora a hipótese de Rodrigo Savazoni e de outros pensadores/ativistas que admiro muito (como Cícero Silva, Andre Lemos, Ronaldo Lemos, Ivana Bentes, Caribe, Sergio Amadeu, Erick Felinto, Henrique Antoun, entre vários outros que por algum lapso não cito), chamando a atenção, com diferentes enfoques, para o fato de que o “caso da licença CC” já indicava um deslocamento político que fazia jus ao ECAD e a uma visão comercial velhaguardista da cultura.

Confesso que insisti por um bom tempo em acreditar que essa era uma visão redutora do problema e que a Ministra estava mal assessorada no tema. Afinal as coisas públicas (especialmente conteúdos disponibilizados nos sites dos órgãos governamentais) são bens comuns e não demandam nenhuma licença de uso (muito menos advertências!) .

Mas a entrevista de Ana de Hollanda à Folha me obriga a repensar minha posição e convida a uma reflexão mais acurada. Nessa entrevista, a Ministra fala sobre a recém-criada Secretaria da Economia Criativa. Defende que “tratar a cultura como indústria vai permitir emancipar o mundo da criação e livrá-lo dos “vícios” das leis de incentivo.”

Ivana Bentes aponta com clareza as implicações desse racicíonio quando afirma “É claro que temos que repensar a Lei Rouanet, do Audiovidual e outras, mas não existe sustentabilidade sem financiamento nem muito menos Indústria. A questão não é criar nova mediação industrial e “profissionalizar” os artistas PARA a Indústria. Há uma inversão total. Ao invés de financiar o precariado/artistas, o autônomo, o novo Minc se propõe a financiar o Capital, a Indústria!”

A discussão sobre Economia Criativa é estratégica, ninguém discorda. Mas ela não pode ser feita sobre uma perspectiva tradicional, retomando velhos modelos de produção industrial. Tem que ser feita investindo nas possibilidades que se abrem nos circuitos de criação pós-industrial, como o mercado de apps tem demonstrado.

Nesse contexto, o que poderia ocupar o debate sobre Economia Criativa seriam outras políticas culturais (e não modelos industriais). Políticas comprometidas, por exemplo, com mais investimentos nos Pontos de Cultura, refletindo sobre eles como estratégias para fomentar as dissidências criativas e novas formas de politizar a cultura em todas as suas instâncias e vertentes.

Posted by Paula Dalgalarrondo at 2:01 PM | Comentários (1)

Ana de Hollanda, o Comando de Caça aos Commonistas e a transição conservadora? por Rodrigo Savazoni, Reforma Direito Autoral

Ana de Hollanda, o Comando de Caça aos Commonistas e a transição conservadora?

Matéria originalmente publicada no site Reforma da Lei de Direito Autoral em 31 de janeiro de 2011.

A opção pela retirada da licença Creative Commons do site do Ministério da Cultura é reflexo de um posicionamento político assumido pela ministra

A opção pela retirada da licença Creative Commons (CC) do site do Ministério da Cultura é reflexo de um posicionamento político assumido pela ministra Ana de Hollanda. Não se trata de medida menor ou ação isolada, e sim é parte de uma estratégia que resultou no estremecimento da relação do Ministério da Cultura com as forças defensoras do compartilhamento do conhecimento e da colaboração cultural.

Durante o governo Lula, a liberdade foi tônica: na política de valorização do software livre e no reconhecimento das novas formas de produzir e circular informação pelas redes interconectadas. O mundo, então, voltou seus olhos para o Brasil, país que em várias áreas do conhecimento voltou a apontar caminhos e produzir respostas globais – como ocorreu na época do surgimento da poesia concreta, da Bossa Nova e da arquitetura de Niemeyer.

No centro do capitalismo, as indústrias criativas (do copyright) produzem leis para restringir a livre circulação e vedar a inovação. Por aqui, o Ministro “Hacker” Gilberto Gil, com aval do presidente Lula, apontou a seta pra direção oposta. Esse embate segue em curso, e o Brasil agora irá aderir ao movimento conservador?

Entre 2003 e 2010, as licenças Creative Commons foram adotadas pelo Ministério da Cultura, pela Radiobrás (e segue sendo utilizada na EBC), no programa Café com o Presidente, na distribuição pela internet de A Voz do Brasil (!) e no Blog do Planalto, entre outros exemplos.

Gestores públicos sabem que os símbolos têm poder. Um site público com a marca de uma licença flexível é diferente de um site público que em seu rodapé exibe a marca do copyright seguida da mensagem “Licença de Uso: O conteúdo deste site, produzido pelo Ministério da Cultura, pode ser reproduzido, desde que citada a fonte”.

O primeiro exemplo é de um site que valoriza ativamente os commons (ou seja, os ambientes não comerciais que são utilizados em benefício de toda a coletividade). Trata-se, portanto, de uma ação afirmativa no sentido de construir ambientes de troca, de fortalecer o comum onde o padrão é ditado pelo individual. No outro caso, reconhece-se o império do comércio e abre-se uma exceção, frágil e inconsistente, na direção da liberdade.

No caso da decisão da ministra Ana de Hollanda, a retirada da logomarca do Creative Commons foi feita sem que nenhum dos atores ligados às políticas de cultura digital, dentro e fora do ministério, tivessem sido ouvidos.

A decisão foi tomada antes mesmo de seu secretariado ter sido formalmente nomeado, o que ocorreu na sexta-feira da semana passada, em meio às reações das redes culturais.

Por que a pressa? O que se queria demonstrar com isso? Fomos questionados sobre o que estaria por trás de nossa reação a essa decisão. O que está por trás da decisão da Ministra? Quem são seus assessores nessa escolha? Essas perguntas não foram respondidas.

Em sua resposta pública, o Ministério usa os mesmos argumentos historicamente expostos pelos advogados que defendem o ECAD. Em defesa da decisão da ministra, os primeiros a se manifestarem foram representantes das entidades mantenedoras do escritório de arrecadação. Músicos e compositores, em sua maioria com mais de 50 anos, detentores de uma obra ou uma herança saíram em defesa da Ministra, em uníssono, conformando o que dei o nome de Comando de Caça aos Commonistas (CCC).

Informações de bastidor dão conta de que ninguém dentro do novo Ministério da Cultura a assessorou nessa decisão. Suspeita-se que advogados ligados às entidades que mantém o ECAD sejam os conselheiros.

O novo secretariado do Ministério da Cultura esteve reunido em imersão este fim de semana. A conversa já terminou, conforme registrou Marta Porto no Twitter.

Resta saber se essa equipe, que conta com vários apoiadores dos movimentos pela liberdade do conhecimento e da cultura digital, se posicionou diante da decisão da Ministra e se há margem para um diálogo em outros termos a partir de agora.

Fato é que, nesses últimos dez dias em que o tema invadiu a blogosfera, a imprensa alternativa e a grande mídia, o assunto demonstrou ser de amplo interesse público, e não algo secundário, como o Ministério da Cultura chegou a acreditar ao tomar a decisão arbitrária de remover a licença CC do site.

A evolução da conversa para um bom termo deveria nos levar a uma discussão sobre quais políticas de cultura são as que devemos construir em contexto digital. É o que esperamos da presidenta Dilma.

Posted by Paula Dalgalarrondo at 1:48 PM

Leis de incentivo criam dependência, entrevista com Ana de Hollanda, Folha de S Paulo

Leis de incentivo criam dependência, entrevista com Ana de Hollanda

Matéria originalmente publicada no Mercado da Folha de S. Paulo em 14 de fevereiro de 2011.

Para a ministra Ana de Hollanda, tratar a cultura como indústria vai permitir emancipar o mundo da criação

Titular da Cultura afirma que economia criativa pode preparar ambiente para que produção seja difundida

Para a ministra Ana de Hollanda, tratar a cultura como indústria vai permitir emancipar o mundo da criação e livrá-lo dos "vícios" das leis de incentivo. Leia trechos de entrevista da ministra da Cultura concedida à Folha.

Folha - Por que criar uma Secretaria da Economia Criativa?

Ana de Hollanda - Essa é uma demanda do século 21. As áreas de design, arquitetura e moda representam a maior parcela da cadeia produtiva da indústria criativa e a Cultura não encampava como um assunto seu.

A moda está presente em outros ministérios, mas estava fora da Cultura. E moda é cultura, é criação. Aplicada na indústria. Como o design.

Estamos revendo a forma de tratar a criação artística e cultural. Existiam ações, iniciativas isoladas.

Falta uma política mais consistente...

As pessoas vivem muito de eventos, de produzir eventos pela Lei Rouanet. A lei foi criando certos vícios.

Não só no mundo artístico mas também no das empresas. Temos de pensar uma política mais organizada, sistemática, para que a cadeia produtiva possa trabalhar do começo ao fim, da criação até a distribuição e a venda.

A lei fez mal para a cultura?

A lei tem suas virtudes e é boa para eventos especiais. Mas um trabalho permanente ela não permite.

Os artistas vivem de elaborar "n" projetos para ver em qual edital emplacar. Uma exposição que vai durar um mês e o artista fica três em pré-produção, depois em pós-produção, fazendo aquilo render o máximo. Isso não é profissão.

A economia criativa pode preparar o ambiente para que isso flua, para que a produção seja difundida.

Como a secretaria trabalhará?

Precisamos profissionalizar o mundo da criação, que é muito informal. Do artesão ao escritor, músico, ator e artista plástico, as pessoas vivem na dependência de agentes intermediários e não se profissionalizam.

Vamos trabalhar com outros ministérios: Desenvolvimento, Trabalho, Justiça.

A sra. diria que a Lei Rouanet é como o Bolsa Família, e a economia criativa, uma porta de saída?

Acho radical a comparação. Há eventos grandes para os quais a lei é fundamental. Mas temos de trabalhar nesse sentido. Não será a curto prazo, mas temos de buscar caminhos para emancipar o mundo da criação.

Vai ter orçamento no ministério para apoiar também a moda, o design, o software?

Essas áreas já são mais sustentáveis, mais estruturadas. Não existe disputa de verba, vamos atrair muito mais recursos.

Posted by Paula Dalgalarrondo at 1:23 PM

fevereiro 14, 2011

Vida instantânea por Paula Alzugaray, Istoé

Vida instantânea

Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na Istoé em 11 de fevereiro de 2011

Exposição apresenta o realismo gráfico de Ródtchenko, o pintor que reinventou a fotografia na Rússia dos anos 20

Aleksandr Ródtchenko: revolução na fotografia/ Pinacoteca do Estado, SP/ de 19/2 a 10/5

Pintor, escultor e artista gráfico, o russo Aleksandr Ródtchenko (1891-1956) foi o primeiro a levantar a bandeira da fotografia instantânea, um recurso estético inovador nas primeiras décadas do século XX. É certo que Henri Cartier-Bresson se tornaria um dos mais geniais olhares do instantâneo, mas, quatro anos antes de o francês dar o disparo que se tornaria um dos maiores ícones do século XX – o salto suspenso sobre a poça d’água nos fundos da Estação de Saint-Lazare, em Paris –, Ródtchenko já havia clamado: “Não minta! Fotografe e seja fotografado. Cristalize o homem não pelo retrato ‘sintético’, mas de vários instantâneos feitos em momentos diferentes. Preze tudo o que é real e contemporâneo. E seremos seres reais, não de brincadeira.” Em 1928, Ródtchenko já era tão pioneiro quanto seus companheiros poetas e pintores construtivistas da vanguarda russa. Conhecer esse olhar realista que influenciaria gerações e gerações – entre as quais os artistas concretos brasileiros – é o privilégio possibilitado pela mostra “Aleksandr Ródtchenko: Revolução na Fotografia”, que antes de chegar a São Paulo passou por Paris, Berlim, Amsterdã, Londres e Rio de Janeiro.

Para Ródtchenko, ser contemporâneo na Rússia dos anos 20 era ser fotógrafo. A desconstrução da pose foi seu primeiro recurso para chegar a uma linguagem fotográfica que se tornaria universal. A fotografia de sua mãe, de olhos fechados, tirada em 1924, está entre seus primeiros instantâneos. A imagem seria capa da revista “Soviétskoe Foto”, assim como muitos retratos do poeta Vladimir Maiakóvski viraram capas de livros e o retrato de Lilia Brik, musa do poeta, estamparia diversos cartazes, sempre desenhados por Ródtchenko.

Com cerca de 300 obras, entre fotografias, fotomontagens, capas de livros, revistas e cartazes, a mostra elucida como o artista construiu uma identidade gráfica a serviço do socialismo soviético que seria idealizada para sempre. O último segmento da exposição mostra o trabalho fotojornalístico dos anos 30 e 40, que confirma seu olhar gráfico sobre o mundo. Especialmente nas imagens de esportes, Ródtchenko toma o partido de uma forte estetização da realidade, transformando operários e esportistas em semideuses. Uma postura que seria definitivamente apropriada alguns anos depois por Leni Riefenstahl, propagandista do Terceiro Reich.

Posted by Paula Dalgalarrondo at 6:26 PM

fevereiro 11, 2011

Domínio Público já reúne 187.533 obras digitalizadas, estadao.com

Domínio Público já reúne 187.533 obras digitalizadas

Matéria originalmente publicada no caderno Cultura do Estadão em 11 de fevereiro de 2011.

Durante as férias nas escolas, o site tem 500 mil visitas, e duplica a quantidade de acessos nas aulas

O portal Domínio Público (www.dominiopublico.gov.br), biblioteca digital desenvolvida em software livre e mantida pelo Ministério da Educação (MEC), atingiu em janeiro um total de 187.533 obras registradas no acervo digital em forma de textos, imagens, áudio e vídeos. O conjunto de produções cadastradas amplia-se em cerca de 3 mil obras a cada mês, desde agosto.

Em janeiro, foram catalogadas 3.471 obras. De acordo com o MEC, a grande quantidade de novas mídias é consequência da parceria com outros ministérios e bibliotecas do Brasil. "A intenção é de que o Domínio Público deixe de ser apenas um portal do Ministério da Educação para ser um portal de conteúdo de todo o governo federal", diz o diretor de Infraestrutura em Tecnologia Educacional do ministério, José Guilherme Ribeiro. A página foi formada em 2004, com conjunto inicial de 500 produções, para favorecer o acesso grátis a literatura, artes e ciências.

Durante as férias nas escolas, o site tem 500 mil visitas, e duplica a quantidade de acessos nas aulas. "O MEC quebrou um paradigma ao começar a oferecer material de qualidade, gratuitamente, sejam filmes, partituras, obras literárias ou animações", afirma. Os materiais mais buscados são as obras escritas, que tiveram até hoje quase 24 milhões de downloads. A Divina Comédia, do escritor, poeta e político italiano Dante Alighieri, poemas do português Fernando Pessoa e clássicos do dramaturgo inglês William Shakespeare e do escritor brasileiro Machado de Assis estão entre os mais acessados.

Entre as 11.906 imagens, as notáveis pinturas do artista plástico, cientista e escritor italiano Leonardo da Vinci, como a Adoração dos Magos, A Última Ceia e La Gioconda, ocupam a liderança na relação das mais procuradas. Uma nova versão do portal tem início ainda neste semestre.

Posted by Marília Sales at 2:05 PM

Resposta ao desleixo por Ana Magalhães, Cristina Freire e Helouise Costa

Resposta ao desleixo


Mensagem enviada à Folha de São Paulo e ao Canal Contemporâneo por Ana Magalhães, Cristina Freire e Helouise Costa em resposta a matéria Desleixo curatorial afeta mostra sobre acervo pioneiro do MAC na ditadura de Fábio Cypriano publicada pela Folha de São Paulo em 10 de Janeiro de 2011,

A iminente mudança do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo para a nova sede no Parque do Ibirapuera tem provocado um interesse crescente na mídia. O texto publicado pela Folha em 10/01/11 (“Desleixo curatorial afeta mostra sobre acervo pioneiro do MAC na ditadura”) nos incita a contribuir para que um debate crítico possa de fato ocorrer sem resvalar para julgamentos arbitrários de exposições pontuais.

“Um dia terá que ter terminado, 1969/74” é a segunda de uma série de três exposições que visa investigar a constituição do acervo do Museu de Arte Contemporânea da USP, tendo como foco a arte brasileira produzida durante a ditadura militar (1964-1985). O protagonismo do MAC USP na cena artística contemporânea brasileira é apresentado em documentos e obras. O trabalho pioneiro de Walter Zanini, diretor do MAC USP no período, pode ser acompanhado pelo programa de exposições por ele implementado e que esta mostra busca reavaliar.

Antes de mais nada cabe observar que a falta de contexto reclamada pelo articulista está presente no seu próprio artigo. Sem citar que a mostra faz parte de uma série, monta o seu discurso valendo-se das informações disponibilizadas pela curadoria como se fossem já conhecidas. Além disso, parece que a história da arte contemporânea, que se pauta pela história das exposições, é desconhecida pelo jornalista. Tal abordagem coloca em questão a obra de arte na dinâmica, sempre renovada, de sua apresentação pública, para onde convergem todos os contextos de uma maneira complexa e não linear. Assim, não pensamos em contexto no sentido limitado de “pontuar o que se vivia naquele momento”, como foi reclamado.

O que se apresenta na mostra são traços da trajetória do primeiro museu de arte contemporânea brasileiro na busca de uma autocrítica institucional a partir da história de suas próprias exposições. Nessa medida não basta reafirmar a indiscutível excelência do acervo do MAC USP. É necessário ir além de uma abordagem patrimonialista e estática que reforça a autonomia da obra de arte a exemplo da visão modernista há décadas vigente em nosso meio.

“Um dia terá que ter terminado” não é apenas “uma sucessão de obras na parede”, mas o resultado de um pensamento mais amplo que vem sendo desenvolvido há anos e tornado acessível por meio de edições, livros, exposições, cursos, conferências e disciplinas acadêmicas. Por último, mas não menos importante, vale ressaltar que tal trabalho curatorial vem logrando conferir existência pública a muitas obras que nem mesmo constam no catálogo oficial do Museu.

O caráter opinativo da manchete do texto da Folha desdobra-se diretamente numa conclusão premeditada e autoritária. Sugerir que o MAC USP não terá condições de ocupar a contento a nova sede é no mínimo uma arbitrariedade. Se nas décadas abordadas pelas mostras o enfrentamento do MAC USP era com a truculência do regime ditatorial, hoje fica evidente, tomando como medida o artigo em questão, que os desafios para um museu público de arte e universitário são de outra ordem, mas não menos contundentes.

Posted by Marília Sales at 10:46 AM | Comentários (1)

fevereiro 10, 2011

Embalagem de arte por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Embalagem de arte

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 9 de fevereiro de 2011.

Museus valorizam o design antes de ele ser design, com mostras de anúncios dos antigos bondes , rótulos de cachaça e papéis de bala

Nos carros sobre trilhos que cortavam São Paulo antes de ela ser metrópole, cartazes anunciavam de tudo, dos milagrosos rum Creosotado e colírio Lavolho ao forte café Paraventi, passando até pelas notícias da recém-lançada "Folha da Tarde".

Dos anos 1940 aos 1970, a Companhia de Annuncios em Bonds, grafada assim mesmo, inventou cerca de 9.000 anúncios em cartaz, num ateliê comandado pelo polonês Henrique Mirgalowski na rua do Carmo, atrás da praça da Sé.

"Ele era mãe de todos lá", lembra Wilson Limongelli, último cartazista sobrevivente da velha companhia. "Todos os meninos começavam pequenos, não tinha escola de desenho nem de publicidade, tinha que ter o dom."

E, com esse dom, não seguiam a estratégia agressiva do marketing atual, nem pesquisas de comportamento.

Eram desenhos de influência soviética, art déco e futurista, com textos um tanto singelos. Quase tudo estava à venda nas "boas casas do ramo", e clientes eram chamados de "ilustre passageiro".

Mas tudo isso se perdeu quando os bondes deram lugar aos ônibus e o ateliê foi despejado de seu endereço.

Cartazes que sobreviveram foram passando de mão em mão até serem expostos agora pela primeira vez, numa mostra que o Instituto Tomie Ohtake abre hoje à noite.

No mesmo museu, outra exposição reúne rótulos de cachaça feitos no pais entre as décadas de 1950 e 1960.

"É um retrato arqueológico de uma época que mudou", resume Milton Cipis, designer que organiza as mostras. "Nunca se juntou tanto material, e a gente começa a valorizar o que houve. Fica claro que a gente não é só filho do modernismo."

Ou seja, houve design no Brasil antes da escola construtiva de desenho, que surgiu nos anos 1950 e dominou os traços de tudo no país -do mobiliário à publicidade.

Passada a febre concreta, é esse pré-design que ganha espaço nos museus agora. Talvez na esteira do estardalhaço provocado por mudanças recentes nos clássicos.

Casou certa choradeira entre designers a aposentadoria das embalagens concretistas que a artista Lygia Pape fez para os biscoitos Piraquê.

No plano internacional, a Campbell's demorou mas também reformou a lata da sopa celebrizada pelas serigrafias de Andy Warhol.

GLICOSE

Prevendo o mesmo destino para esse design popular, museus estão entrando numa onda de preservação.
Junto do Instituto Tomie Ohtake, o Museu Paulista tem agora uma exposição de papéis de bala, com embalagens e rótulos de chicletes e doces mais e menos clássicos -estão lá Ping Pong, balas Chita, entre outras guloseimas com alto teor de glicose.

"Tem um acervo iconográfico muito grande que ainda não foi descoberto", diz o designer Egeu Laus, que levou seus rótulos de pinga ao Tomie. "Isso mostra que há design antes do concretismo; é possível contar uma parte da história com esses rótulos."

Entre as pin-ups, tema mais tradicional das garrafas de caninha, bichos e nomes estranhos, havia também homenagens a grandes sambistas, jogadores de futebol e acontecimentos históricos.

Não fosse um pedido do próprio astro, Pelé seria até hoje nome de aguardente. Pixinguinha não se acanhou e seguiu firme nas garrafas.

Designers dizem que, com o resgate dessa memória gráfica, muitas releituras já estão em curso, basta olhar a cerveja que estampa no rótulo pin-ups turbinadas, designadas pela cor dos cabelos.

Posted by Marília Sales at 2:51 PM

Artista egípcio vê "história sendo reescrita" por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Artista egípcio vê "história sendo reescrita"

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 5 de fevereiro de 2011.

Khaled Hafez, que participa de mostra em SP, desiste de vir ao Brasil para participar de protestos contra ditador

Para ele, levante contra os 30 anos de poder de Hosni Mubarak provoca também revolução cultural no Egito

Miragens, Instituto Tomie Ohtake, São Paulo, de 10/02 a 03/04/2011

Desde que viu e filmou o assassinato do presidente egípcio Anwar El Sadat há 30 anos, o artista Khaled Hafez, 47, perdeu o interesse por líderes de qualquer tipo. Fez disso mote central de sua obra, interrompida pela fúria que abala o Egito há dez dias.

Ele transformou seu ateliê nos arredores da praça Tahrir, no Cairo, epicentro do levante contra o ditador Hosni Mubarak, numa espécie de barricada contra a violência, já que ruas e avenidas estão bloqueadas por tanques. Agora, lidera uma campanha por doações de sangue.

Também trocou o dia pela noite, passando o tempo todo acordado, ao lado de vizinhos, na tentativa de proteger suas casas e famílias.

Mas parte do esforço foi em vão. Anteontem, Hafez enterrou o corpo de Ahmed Bassiouny, videoartista e professor da Universidade Helwan, morto no confronto.

"Ele foi sufocado na multidão pelo gás lacrimogêneo", contou Hafez à Folha, por telefone, do Cairo. "Depois acabou sendo atropelado por um carro de polícia."

Hafez acredita, como uma série de analistas políticos e mesmo a ONG Repórteres sem Fronteiras, que o recrudescimento da violência nos últimos dias, com manifestantes pró-Mubarak invadindo a praça a cavalo e camelo, está sendo coordenada por agentes do próprio governo.

É com essa sombra de dúvida que enxerga o poder no Egito desde que viu ruir uma série de promessas oficiais, culminando no ataque fatal a Sadat, de quem o atual ditador era vice-presidente.

EXPOSIÇÃO

Ele esquadrinha parte dessa história nas obras que expõe no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, a partir de quarta-feira. Hafez viria para a abertura da mostra, mas desistiu de viajar.

"Não é um bom momento para deixar o país", diz o artista. "Por motivos ideológicos e porque estamos vendo a história ser reescrita."

Em "Revolution", vídeo que estará na mostra paulistana, Hafez ironiza as promessas do golpe militar de 1952, que tentou erradicar a presença britânica no país. Também prometiam maior igualdade social e distribuição de riqueza, liberdade e respeito a crenças e etnias.

Na tela dividida em três, um mesmo ator encarna os três pilares da velha revolução. Em trajes militares, empunha uma arma, sublinhando uma vontade bélica por trás da nova ordem.

Depois, vestido como muçulmano, bolina bonecas e decepa suas cabeças com o facão usado por egípcios para cortar carne, em alusão ao fundamentalismo religioso.

De terno e gravata, remete à abertura econômica do país. Ele martela pregos na superfície de uma mesa, ação rítmica que tenta ilustrar a estafa dos trabalhadores.

Mas agora, diante da revolução em curso, Hafez diminui a própria obra. "Isso tudo é só um vídeo", diz ele. "Tenho inveja desses jovens que lideraram o levante por não ter pensado nisso há 15 anos. Essa batalha é chocante e inesperada, faz tudo que a minha geração fez no plano político parecer uma piada."

REVOLUÇÃO DIGITAL

Muitos desses jovens, alguns alunos de Hafez, articularam manifestações contra o governo usando Facebook, Twitter e outras redes sociais, no que ele chama de uma "total revolução digital".

"Minha geração nunca foi tão organizada, venho de um momento em que artistas egípcios só lutavam pelo reconhecimento internacional", lembra Hafez. "Agora esses artistas estão lutando por algo que é muito maior."

E quase toda essa luta foi documentada pelas câmeras de seus telefones celulares, por bem ou por mal.

"Vamos ver muitas obras em vídeo e fotografia registrando o que ocorreu nos últimos dias", diz Hafez. "A arte no Egito nesses próximos anos vai ser tão surpreendente quanto a revolução, nunca mais será a mesma. Essa também é a primeira revolução cultural na história do país."

Posted by Patricia Canetti at 12:57 PM

fevereiro 9, 2011

MinC: a parte que nos cabe desse latifúndio, Quadrado dos Loucos

MinC: a parte que nos cabe desse latifúndio

Artigo originalmente publicado no blog Quadrado dos Loucos em 5 de fevereiro de 2011.

No governo Lula, o ministério da cultura (MinC) ocupou uma posição central. Com os ministros Gilberto Gil (2003-08) e Juca Ferreira (2009-10), contribuiu incisivamente para o aprofundamento da democracia do país. Com políticas públicas inovadoras, não governou apenas para uns, mas para todos os cidadãos, ampliando o escopo da indústria e da "classe artística" para o vasto espectro de trabalhadores culturais do Brasil, em todas as regiões, até os rincões mais afastados. Nos últimos oito anos, a cultura deixou de ser assunto secundário, acessório, "perfurmaria", para se instalar no cerne de um projeto global de democracia, que produz renda no processo mesmo em que a dissemina.

O coração programático do MinC foram os Pontos de Cultura. Hoje, já são cerca de 4.000 pontos em mais de 1.100 municípios. Cada Ponto recebe R$ 180 mil, em parcelas semestrais, para remunerar as pessoas, comprar equipamento, divulgar a arte e a cultura.

O investimento gira na ordem das centenas de milhões de reais e contempla diversos âmbitos: audiovisual, música, literatura, grafite, circo, teatro, dança etc. Num processo dinâmico, a partir dos Pontos, coordenam-se as demais ações do Programa Nacional de Cultura (Cultura Viva), tais como a Cultura Digital (redes na internet, software livre, multimídia etc) e vários editais públicos de fomento.

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Pela primeira vez, o foco do MinC passou a ser quem genuinamente precisa de incentivo. Os Pontos atendem principalmente à população de baixa renda, nas periferias das metrópoles e no interior pobre. Assiste minorias indígenas e quilombolas, o artista e o produtor iniciantes, os midialivristas e jornalistas-internautas. Alcança também os pesquisadores e formuladores político-culturais, nas universidades e institutos. Num cenário cultural dominado pela grande indústria de entretenimento, os Pontos qualificam socialmente o investimento cultural.

Tome-se o exemplo do cinema. As majors, grandes produtoras e distribuidoras norte-americanas, abocanham quase 90% dos lucros, graças a duas dezenas de blockbusters anuais. Dos outros 10%, a Globo Filmes --- que também é grande indústria --- engole a maior fatia, com suas produções de linguagem televisiva.

Enquanto isso, segundo o relatório Cultura em Números (MinC, 2010), somente 8% dos municípios brasileiros têm salas de cinema, e risíveis 13% dos cidadãos costumam freqüentá-las. Produções pequenas e novas, fora do cinemão (americano ou "global"), dificilmente ultrapassam um ou dois mil espectadores. Isso quando tem a rara felicidade de chegar ao circuito comercial (em poucas salas). Além disso, as grandes linhas de crédito não se abrem à cauda longa de pequenos produtores, ficando justamente com quem já dispõe de bons dividendos.

Os Pontos de Cultura deslizam dessa lógica verticalizada e desigual. Abrem a arte e cultura para um estamento até então segregado dos meios de produção e difusão. Se a indústria cultural tem dono e divide os lucros entre acionistas, empresários e (quando muito) um punhado de medalhões, os Pontos remuneram direta ou indiretamente 8,4 milhões de pessoas (dados do IPEA).

A vida cultural não se faz somente com grandes produtoras, empresários empreendedores e artistas consolidados. Este grupo não responde sequer por 1% do universo de trabalhadores da cultura. Refiro-me aos inúmeros técnicos, fotógrafos, maquiadores, roteiristas, blogueiros, designers, músicos, dançarinos, assistentes, montadores, sonoplastas, atores e tantos outros que (sobre)vivem de bicos e contratos temporários. Não recebem um tostão em direitos autorais e são obrigados a se submeter a um regime exploratório e injusto de remuneração, como subempregados das majors. Quantos jovens talentos não abandonam a atividade por falta de renda e condição humilhante?

Esse precariado produtivo só começou a ser efetivamente contemplado no governo Lula, graças principalmente aos Pontos e editais transversais (democráticos) da Cultura Viva.

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Além da renda, há outros fatores importantes. Os Pontos abraçam uma organização política não-hierárquica e colaborativa. Funcionam em rede, na base da articulação, da remixagem, do mash-up. O jovem produtor não tem que se submeter a empregos ou subempregos. Ele é livre, autônomo, constituinte de sua produtividade.

Mas o sistema não é anárquico. Para coordenar (e não comandar) a rede, foram implantados mais de 100 Pontões. Atuam como rótulas do sistema e são granjeados com infraestrutura mais robusta e repasse mais generoso (R$ 500 mil cada). Os nós equipotenciais reúnem-se em fóruns, teias (encontros) e numa Comissão Nacional. Vibram em conjunto, difundindo a produção horizontalmente e retroalimentando a cadeia criativa.

Na sociedade pós-industrial, a circulação por si só agrega valor aos conteúdos. Quanto mais "viral" a produção, mais interage, captura a atenção e constitui públicos. Tudo isso valoriza o processo mesmo da comunicação. Com efeito, a cultura livre se dá na partilha de mundos, onde cada um pode afirmar seus sentidos, desejos, modos de olhar e sentir. E não no esquema monológico da indústria nacional. A esquerda hoje é pelo compartilhamento, enquanto a direita quer tirar da circulação, botar preço, vedar, criminalizar.

Os Pontos e as políticas associadas não consistem, portanto, tão somente em modo de remunerar a "massa" de precários da cultura, como técnica de governo. Mas sobretudo empoderar o cidadão e concitar um ciclo microeconômico com valor democrático. Reconhecer que todos podemos gerar e divulgar conteúdo, que podemos participar ativamente da democracia como sujeitos, como elos da vida cultural, como mídia.

Está em jogo uma concepção de cultura muito além do entretenimento ou do negócio, como na visão da indústria --- nacional ou estrangeira. No século 21, cultura e conhecimento situam-se no cerne da produção de valor. E implicam a cidadania: o produtor cultural é imediatamente sujeito político.

Por tudo isso, o sociólogo Giuseppe Cocco, da UFRJ, em artigo a jornal paulista, pôde concluir que "o Bolsa Família é a maior política cultural do governo Lula, e os Pontos de Cultura são a melhor distribuição de renda deste governo."

uer dizer, assim como o programa Bolsa Família excita microeconomicamente as regiões contempladas, e gera excedentes para o acesso a bens culturais; os Pontos remuneram os trabalhadores e potencializam a produção de valores, sentidos, afetos... de riqueza --- o que, no pós-industrial, tem automaticamente efeito econômico. Daí, o intelectual ítalo-brasileiro defende a integração do Bolsa Família aos Pontos de Cultura, pois juntos acionam todo um círculo virtuoso de renda, cidadania e liberdade.

Isto posto, preocupam as primeiras movimentações da ministra Ana de Hollanda e de sua equipe. Decerto, uma tentativa de desmantelar as realizações do governo Lula, com Gil e Juca, seria a mais deslavada traição do voto. A eleição de Dilma significou a vitória do projeto de continuação e aprofundamento do governo anterior. Ao que parece, conquanto não haja sinais de ruptura frontal, o "acerto de contas" com a ousadia lulista pode ocorrer de maneira mais discreta e traiçoeira.

Duas expressões estão em voga na boca do ministério: "economia criativa" e "indústrias criativas". Já divulgada na grande imprensa, a idéia da economia criativa se institucionaliza com uma nova secretaria. A bem da verdade, parece uma iniciativa oportuna, que reconhece o caráter imaterial da new economy, da dita "economia da cultura e do conhecimento".

Assim, em vez de preocupar-se apenas com a venda de CD, livros e filmes, a economia criativa engloba outras atividades: a moda, o marketing, a gastronomia, o videogame, a cosmética etc. Explode o esquema "duro" de arte-de-artista, como alfa e ômega da cultura, e abarca a constituição de mundos: afetos, valores, modos de sentir.

Até aí tudo bem. Preocupa o que pode vir junto no pacote da economia criativa. Qual o sentido que será conferido a esse discurso aparentemente interessante. Para isso, valem analisar declarações da nova equipe e estudos-chave desse programa (como o e-book Economia Criativa como Estratégia de Desenvolvimento).

O primeiro problema pode surgir com o discurso técnico de otimização e eficiência. Essa linha argumentativa pode ser manejada (e já está sendo), para subtilmente atribuir aos Pontos de Cultura a pecha de desorganizado, precário, "ingênuo". Isso significaria a retração de editais e redes colaborativas, em proveito do mais "organizado" esquemão, o empreendedorismo "sustentável" da indústria cultural e dos players dominantes do mercado. O velho conto do vigário: por razões tecnocráticas, muda-se uma política de esquerda.

O segundo problema surge na forma como as indústrias criativas serão viabilizadas. Porque "sustentabilidade" nem sempre significa democracia. O social (os Pontos?) não pode matar a cultura, porque a cultura é social em primeiro lugar (diverso o pensamento de uma das secretárias do MinC). Por exemplo, a Globo Filmes está perfeitamente sustentável, mas mantém a lógica concentrada, hierárquica, vertical, monotônica (televisiva). O MinC, um órgão público, promotor da justiça social e da democracia cultural, não pode servir para apascentar ainda mais as poucas e grandes empresas do setor. Com muito menos razão, num governo de esquerda, com seu devir anti-histórico. Se, de alguma forma, a economia criativa privilegiar o modelo velho, onde o cidadão é só consumidor e o grosso da renda vai para as majors, se torna golpe camuflado de desenvolvimento.

O terceiro problema reside num nacionalismo mal-disfarçado e totalmente anacrônico (do tipo que a Microsoft ama). Quando se fala em indústrias criativas, há o risco disso traduzir indústria criativa... nacional, numa reedição obsoleta de nacional-desenvolvimentismo (progresso e soberania prioridades, democracia e justiça efeitos). Isto significa, mais uma vez, a idéia de cultura como parque formal de geração de empregos brasileiros e valores brasileiros. Volta-se à passeata contra a guitarra elétrica de 1967.

O caso não é se proteger da cultura americana ou européia. É pegar tudo, não pagar nada, usar à vontade e remixar. Eis a antropofagia. A história da agitação cultural brasileira do século 20, --- desde os modernistas nas décadas de 1920 e 1930, e dos tropicalistas em 1960 (tendo Gilberto Gil como expoente), --- foi a luta simultânea contra nacionalistas-integralistas e colonizados-modernizantes. Foi sair pela tangente desse falso problema.

Porque o problema não está em ser estrangeiro, mas em ser indústria, no trabalho explorado e na desigualdade social. Paramount ou Globo Filmes são igualmente expropriantes, antidemocráticas e monopolistas. Enquanto um filme independente de Seattle ou um CD gravado pelos índios sioux da América do Norte podem vibrar produtivamente com as redes daqui.

Em suma, os Pontos de Cultura foram tão transformadores, --- e tão sintonizados na verve democrática no governo Lula, --- por começar uma ruptura com a divisão técnica e social do trabalho cultural, com a concentração de renda em empresas monopolistas, com o viés mercadológico e privatista do investimento público, descolado das demandas sociais e políticas. Se a economia criativa e o novo MinC que a propugna vierem para sabotar as mudanças, será uma guinada menos do que conservadora. Será ardilosamente reacionária.

Portanto, ao movimento compete articular-se para que não aconteça. Lutar desde já pelos direitos constituídos em conjunto, ao longo de oito vibrantes anos, com Lula, Gil e Juca. Cabe-nos, cidadãos mobilizados política e culturalmente, recusar a parte que nos cabe desse latifúndio.

Post Scripta:

Vale a pena conferir também o excelente estudo de Andréa Saraiva, Economia Viva e Solidária..., com opção de download em pdf.

Também recomendo, como exemplo de como pode ser traiçoeira a indústria criativa, o artigo de Bárbara Szaniecki e Gerardo Silva ao Outras Palavras, sobre política aplicada recentemente ao Rio de Janeiro.

Finalmente, para a conceituação mais rigorosa da nova economia, sugiro o livro Capitalismo Cognitivo: trabalho, redes e inovação (vários autores, DP&A ed., 2003).

Posted by Marília Sales at 3:50 PM

fevereiro 8, 2011

Cocurador da mostra que é uma das mais inovadoras do mundo, o brasileiro Adriano Pedrosa critica o espetáculo das exposições por Suzana Velasco, globo.com

Cocurador da mostra que é uma das mais inovadoras do mundo, o brasileiro Adriano Pedrosa critica o espetáculo das exposições

Matéria de Suzana Velasco originalmente publicada no Segundo Caderno do O Globo em 6 de fevereiro de 2011

Há um ano, o curador Adriano Pedrosa passa uma semana por mês em Istambul, na Turquia. De lá, ele ruma para Ramallah, Jerusalém, Beirute, Cairo, Buenos Aires, Chile, Peru e às vezes para em São Paulo, onde mora. Nas voltas pelo mundo, Pedrosa trabalha na curadoria da 12ª Bienal de Istambul — que será realizada entre 17 de setembro e 13 de novembro deste ano —, reforçando seu vínculo com a arte latino-americana e descobrindo artistas do Oriente Médio. Não há, porém, qualquer cota regional na exposição. Pelo contrário. A Bienal de Istambul foi, em 1997, uma das primeiras a abolir as representações nacionais — extintas pela Bienal de São Paulo em 2006, e ainda mantidas pela de Veneza —, firmando-se como uma das mais críticas e experimentais bienais do mundo. Foi também a primeira entre as grandes a convidar um não europeu para seu comando — a japonesa Yuko Hasegawa, em 2001. E, pela primeira vez, terá latino-americanos como curadores: Pedrosa e o costa-riquenho Jens Hoffmann.

Participantes não serão anunciados

Nomeada “Untitled (12ª Bienal de Istambul), 2011”, a exposição será inspirada no artista plástico Félix González-Torres, que nomeava suas obras de “Sem título”. O objetivo dos curadores é manter a tradição política da mostra. Mas, contrapondo-se ao ativismo do coletivo croata WHW — What, How & for Whom —, que advogava pelo comunismo na bienal de 2009, Pedrosa e Hoffmann buscam resgatar os aspectos conceitual e formal da arte política, e o artista cubano-americano é emblemático nesse sentido. Serão cinco seções inspiradas em obras de González-Torres (que não estarão fisicamente presentes), com cinco pequenas mostras coletivas e espaços para 45 artistas individualmente, numa disposição pensada pelo arquiteto japonês Ryue Nishizawa, vencedor do Prêmio Pritzker de 2010 junto com sua sócia Kazuyo Sejima.

Mas “Untitled” tem um duplo sentido. O nome serve ainda à vontade que os curadores têm de apagar o vínculo com um tema ou tipo de mostra determinado. A lista de participantes, por exemplo, não será anunciada. Só se conhecerão de fato todos os artistas incluídos quando a bienal começar.

— Há um número perverso de bienais circulando, e a maneira de consumi-las é ver o título, o nome dos artistas, os curadores. No circuito curatorial, a Bienal de Istambul tem uma atenção excepcional, e a gente quer que ela seja vista, e não consumida — diz Pedrosa, que, numa coletiva de imprensa, em 2010, apresentou um cartaz com os nomes das centenas de bienais que existem hoje.

Apesar de não divulgar uma lista, Pedrosa não faz segredo. Entre os brasileiros, estarão na Bienal de Istambul trabalhos de Leonilson, Jonathas de Andrade, Rosângela Rennó e Renata Lucas, cuja obra “Falha” certamente ficará na seção “Untitled (Abstraction)”, que deve ter ainda um ou mais “Bichos” de Lygia Clark. Em suas viagens pela América Latina, o curador vem buscando fundos para financiar a participação de alguns artistas na bienal, que tem um orçamento de 2,5 milhões (o investimento da última Bienal de São Paulo foi de R$30 milhões), para uma exposição num espaço entre oito e dez mil metros quadrados (no Pavilhão do Ibirapuera são 30 mil). Sua próxima parada de negociações será Brasília, no Ministério das Relações Exteriores.

— É uma exposição importante que nunca tem financiamento de sul-americanos. No Peru, o governo nunca apoiou seus artistas, esperamos que apoie agora a Flavia Gandolfo, que participará de uma das coletivas — diz o carioca radicado em São Paulo, que causou polêmica em 2009, quando organizou a tradicional mostra “Panorama da arte brasileira”, no MAM-SP, apenas com artistas estrangeiros.

Por sugestão de Pedrosa, seu nome foi submetido ao conselho da Fundação para Cultura e Artes de Istambul junto com o de Hoffmann, que ele já convidara para trabalhar junto na Trienal de San Juan, da qual o brasileiro foi diretor artístico. No ano passado, Hoffmann lançou a revista “The exhibitionist” (“O exibicionista”), nome que indica, mais uma vez, uma crítica à espetacularização da arte mundo afora. Numa de suas edições, Pedrosa escreveu o artigo “Sinking Venice” (“Afundando Veneza”), uma crítica feroz à Bienal de Veneza, a mais famosa exposição de artes visuais do mundo.

— A Bienal de Veneza é a bienal mais importante, que dá mais visibilidade. Mas não tem cunho crítico nenhum, não tem experimentação. Eu vou a todas, mas virou um espetáculo — diz ele, que foi curador adjunto e editor de publicações das bienais de São Paulo de 1998 e 2006. — São Paulo se mantém entre uma coisa e outra, porque tem uma história muito errática. A gente ficou quatro anos sem bienais e depois teve o mesmo curador duas vezes seguidas. Isso já é ruim, ainda mais com o Alfons Hug (alemão radicado no Brasil, curador das bienais de SP de 2002 e 2004).

Trabalho com tempo e liberdade

Em novembro de 2010, Pedrosa e Hoffmann organizaram a conferência “Lembrando Istambul”, em que falaram artistas turcos e os curadores de quase todas as bienais. Para o brasileiro, foi importante ouvir as experiências passadas e questionar padrões estabelecidos, como, por exemplo, a ausência de curadores turcos desde a quarta edição da bienal.

— A memória das exposições é importante para a gente. O catálogo, por exemplo, só vai ficar pronto depois da abertura. Não vou trabalhar com o arquiteto do Pritzker e depois não ter imagens da montagem — diz. — A bienal não tem tanto dinheiro, mas está nos dando tempo e liberdade. A gente está selecionando a moldura do trabalho, pegando o artista pelas mãos.

Posted by Marília Sales at 2:31 PM | Comentários (1)

Oiticica lidera lista dos artistas mais expostos da década por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo

Oiticica lidera lista dos artistas mais expostos da década

Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 08 de fevereiro de 2011

Depois dele, nomes que se contrapõem ao neoconcreto foram os mais vistos de 2001 a 2010, segundo estudo do Itaú Cultural

Cildo Meireles e Regina Silveira são segundo e terceiro lugares em levantamento de 7.010 exposições compiladas

Na primeira década do século 21, artistas que se contrapõem aos neoconcretos Hélio Oiticica (1937-1980) e Lygia Clark (1920-1988) foram os que tiveram maior visibilidade no Brasil.

A conclusão é de Tadeu Chiarelli, diretor do Museu do Museu de Arte Contemporânea da USP, a partir de um levantamento de 7.010 exposições compiladas pelo Itaú Cultural entre 2001 e 2010.

A partir de seu banco de dados, o Itaú Cultural gerou listas dos artistas mais vistos na última década e das instituições e dos curadores que mais organizaram mostras.

"Esse banco de dados existe há 24 anos e nós mesmos vamos atrás das informações das mostras, seja em jornais, catálogos ou por correspondência", diz Selma Cristina da Silva, gerente do Centro de Documentação e Referência do Itaú.

É a primeira vez que a instituição faz tal compilação. "Essa é uma forma de contribuir para uma reflexão sobre a cena das artes visuais. No fim do ano, vamos organizar uma mostra em sentido inverso, que pense o que deve vir na próxima década", conta Eduardo Saron, superintendente da instituição.

No total, o Itaú tem registradas cerca de 30 mil exposições de arte brasileira ou ligada ao Brasil, desde algumas realizadas no século 18, em Paris. Esses dados alimentam a Enciclopédia de Artes Visuais na internet.

"Nossa pretensão é ter registro de todas as mostras, mas, quanto mais distante, mais difícil é a compilação", explica Tânia Rodrigues, gerente das enciclopédias virtuais do Itaú.

A instituição ainda reúne dados de arte e tecnologia, literatura, teatro e super-8. "Em breve, todas estarão reunidas", diz Saron.

IRÔNICOS
A pedido da Folha, Chiarelli, que ficou na quarta posição como curador que mais organizou exposições, analisou os dados.

"Primeiro, acho importante dizer que, com essas informações, podemos entender melhor o que se passa aqui e muitos pesquisadores vão ter material importante para análise", diz o diretor do museu universitário, que neste ano deve inaugurar sua nova sede no Ibirapuera.

Ter Oiticica como artista que obteve mais visibilidade na década passada significa, segundo Chiarelli, "um esforço coletivo para mostrar suas obras a partir do reconhecimento delas no exterior". Já a sétima posição de Clark "talvez reflita as dificuldades em expor suas obras", diz o curador.

A enciclopédia virtual do Itaú não apresenta obras de Clark ou Oiticica por dificuldades com os herdeiros. O mesmo não acontece com os demais artistas mais vistos.

São esses outros artistas, aliás, que, segundo Chiarelli, indicam a superação das propostas de Oiticica e Clark -exceção feita a Amilcar de Castro (1920-2002).

"Ambos tinham uma visão romântica e libertária do artista, como se não existisse o circuito da arte. Já nomes como Cildo Meireles, Nelson Leirner e Regina Silveira são mais irônicos e geram suas poéticas sem negar as instituições." Mesmo assim, não deixa de ser notável que os dez mais vistos sejam artistas vinculados à arte conceitual.

Posted by Marília Sales at 2:06 PM

fevereiro 7, 2011

Obras de Guignard se deterioram em BH por Marcelo Bortoloti, Folha de S. Paulo

Obras de Guignard se deterioram em BH

Matéria de Marcelo Bortoloti originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 06 de fevereiro de 2011

Painéis feitos pelo artista em paredes e tetos de amigos sofrem com rachaduras e infiltrações e não podem ser movidos

Pintor realizava obras para agradecer quem o hospedava nas fases em que ele não tinha renda suficiente para moradia

Entre os anos 1940 e 1960, o pintor fluminense Alberto da Veiga Guignard (1896-1962) morou de favor em casas de amigos.

Sem família, alcoólatra e com uma fissura congênita no palato que o impedia de se alimentar e falar corretamente, ele usava o expediente não só por falta de dinheiro, mas em busca de convívio.

Como retribuição à hospedagem, Guignard pintou portas, janelas, biombos e armários com motivos florais ou paisagens. Deixou também em tetos e paredes ao menos uma dezena de painéis, mais representativos de sua obra.

As pinturas, hoje extremamente valiosas, podem ser encontradas no Rio, em Belo Horizonte e em Ouro Preto e enfrentam problemas.

Nenhuma pode ser transportada. Algumas foram destruídas e outras estão se perdendo por causa de infiltrações ou rachaduras.

"Uma infiltração do vizinho está prejudicando terrivelmente o mural. Já fizemos várias restaurações caríssimas", diz Clara de Andrade Alvim, filha de Rodrigo Melo Franco, criador do Iphan.

A pintura tem cerca de dois metros de altura e foi feita em 1946 na casa de seu pai, em Ouro Preto. Hoje, a residência está alugada.

Guignard não utilizava a técnica do afresco, que permitiu, por exemplo, que o teto da Capela Sistina, pintado por Michelangelo no século 16, chegasse aos dias de hoje. Ele pintava com tinta a óleo sobre a parede, o que tornou as obras vulneráveis.

O mural "Paisagem Colonial Mineira", com quatro metros de largura, da década de 1940, no apartamento de Redelvim Andrade, em Belo Horizonte, está com vários trechos descolando.

Um antigo morador, incomodado com os visitantes, pintou por cima da obra, mas, em 1985, especialistas removeram a tinta.

O empresário Mário Dantés, atual proprietário, diz que pretende alugar o apartamento. "Gostaria de levar a pintura para o meu sítio, mas fico com medo de retirá-la."

Há 25 anos, ele pagou US$ 60 mil (R$ 100 mil) pelo imóvel. Segundo o diretor da Bolsa de Arte, Jones Bergamin, se pudesse ser vendida, a pintura valeria R$ 2 milhões.

Para retirá-la, contudo, seria preciso arrancar toda a parede. "É muito arriscado. Ninguém com critério profissional faria isso", diz o restaurador Edson Motta.

Já a obra "Visão de Minas", com 11 m2, está num local em Belo Horizonte onde hoje funciona uma loja. Um livro já foi escrito a seu respeito, mas quem entra ali mal vê o painel, coberto por cabides de roupas.
Existe uma única obra do gênero em prédio público, da prefeitura do Rio, mas está fechada à visitação. É uma paisagem imaginária de Olinda feita no teto de uma residência que pertenceu ao senador Barros de Carvalho.

Guignard nunca foi a Pernambuco, mas pintou a partir de descrições feitas pelo senador, pernambucano.
A casa foi cedida pela prefeitura para que a ONU Habitat montasse uma representação no Brasil. O cômodo em que o teto foi pintado funciona como sala de reunião.

Um bom exemplo de preservação é a pintura de 1946 no teto da casa em que morou a artista plástica Leda Gontijo, em Belo Horizonte.

"Ele se ofereceu para fazê-la e, uma semana depois, chegou com malas lá em casa. Acabou morando conosco quatro meses", diz Leda.

Quando ela vendeu a residência, estipulou em contrato que o painel não poderia ser destruído. Um edifício foi erguido no local mantendo apenas o teto, que hoje é a cobertura do salão de festas do prédio.

Posted by Marília Sales at 6:22 PM

Mostra reúne artistas do mundo árabe em conflito por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Mostra reúne artistas do mundo árabe em conflito

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 5 de fevereiro de 2011.

Miragens, Instituto Tomie Ohtake, São Paulo, de 10/02 a 03/04/2011

Enquanto manifestações de revolta se alastram pelo mundo árabe, da Tunísia ao Iêmen, passando pelo Egito em convulsão, uma coletiva no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, reúne obras de artistas da zona conflagrada.

No calor dos confrontos na praça Tahrir, a obra de outra artista egípcia ganha uma leitura mais forte na exposição. Susan Hefuna incorpora as venezianas tradicionais das janelas do Cairo, que deixam ver o lado de fora sem deixar o olhar da rua penetrar nos ambientes, para construir suas mensagens.

Escreve, no caso, "art" e "Cairo", coisas que neste momento não parecem andar juntas, com saques ao Museu Egípcio e violência nas ruas, embora seu conterrâneo Khaled Hafez veja ali uma possível revolução cultural.

Nesse jogo de ver sem ser visto, ou dizer o não dito, Hefuna parece ecoar anos de eleições duvidosas e promessas não cumpridas na história recente de seu país.

É o mesmo silêncio violento que a iraniana Shirin Neshat vem denunciando em sua obra. Vencedora do Leão de Ouro na Bienal de Veneza e depois também premiada com o troféu no festival de cinema da cidade, ela está na mostra que será aberta na quarta com cinco fotografias.

Uma delas mostra um revólver com inscrições árabes, outra tem uma espingarda entre os pés de uma mulher, enquanto uma terceira traz o cano de uma arma como se fosse um brinco. É uma violência calada que está ali, algo que só se deixa entrever.

Talvez daí o título da mostra, "Miragens", que tenta reunir a produção contemporânea de um lugar marcado por uma realidade às vezes só insinuada, de camadas do que só parece ser e não é.

Daí também a máquina de escrever do argelino Kamel Yahioui, com balas de revólver no lugar das letras.

Posted by Paula Dalgalarrondo at 5:57 PM

Google põe acervo dos maiores museus do mundo na web por Ana Vaz, Folha de S. Paulo

Google põe acervo dos maiores museus do mundo na web

Matéria de Juliana Vaz originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 07 de fevereiro de 2011

Projeto digitaliza galerias de 17 instituições de arte e torna pinturas mais acessíveis

Está bem guardada na National Gallery de Londres a tela "Os Embaixadores" (1533), de Hans Holbein, o Jovem. Mas não é mais preciso tomar um avião à Inglaterra para vê-la em detalhes.

Desde a semana passada, um novo site (www.googleartproject.com) do Google disponibiliza imagens em altíssima resolução dessa e de outras obras dos principais museus do mundo.

O projeto, denominado Google Art Project, foi lançado com cerimônia na Tate, uma das 17 galerias participantes, e se assemelha ao Google Street View.

O visitante pode navegar pelos corredores virtuais, "passear" pelas salas, aproximar as pinturas e saber mais sobre elas. A qualidade hiperreal das mais de mil reproduções impressiona, deixa identificar minúcias nas pinceladas, marcas da ação do tempo sobre a matéria.

Mas nem todas as salas estão lá, e muito menos, todas as obras. A parceria com as megainstituições se deu de tal modo que cada museu escolheu exatamente o que de seu acervo mostrar.

Entre as galerias participantes estão, até agora, quatro americanas (MoMA, Metropolitan, Frick Collection e Freer Gallery of Art), duas britânicas (National Gallery e Tate), uma tcheca (Kampa), as berlinenses Alte Nationalgalerie e Gemäldegalerie, as espanholas Reina Sofía e Thyssen-Bornemisza, a italiana Uffizi, o Palácio de Versalhes, duas holandesas (Rijksmuseum e Van Gogh) e duas russas (Museu Hermitage e Tretyakov).

Posted by Marília Sales at 5:43 PM

Mostra sugere discussão sobre poder do colecionador por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo

Mostra sugere discussão sobre poder do colecionador

Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 07 de fevereiro de 2011

"Das Coisas em Geral" está em cartaz no espaço Coleção Particular, em SP

Aberto há quase um ano, o espaço Coleção Particular, que guarda o acervo do colecionador Oswaldo Costa, apresenta sua terceira mostra, a mais arrojada e provocadora até aqui.

"Das Coisas em Geral", organizada por Costa, reúne obras de 30 artistas de sua coleção, como Andy Warhol e Sherrie Levine, e objetos de sua própria história. Estão lá guitarras em que ele tocou, placas de taekwondo monocromáticas, como as que utilizou quando praticou o esporte, selos com a estampa de seu avô, o ministro e embaixador Oswaldo Aranha (1894-1960), e uma foto de seu pai, o embaixador Sergio Corrêa da Costa, feita pelo fotógrafo Cecil Beaton.

Com isso, Costa fixa um outro patamar para discutir o colecionismo: em vez de tender para o acervo, colocando as obras em primeiro lugar, privilegia a afetividade.
Essa discussão é cabível, ética e esteticamente, num espaço particular como esse, que não usa leis de incentivo.

No entanto, a mostra, que parte da problematização das fronteiras entre arte e não arte, chega a outra questão: o poder do colecionador.

Afinal, a exposição não ocorre em sua casa, mas num espaço com função pública.

Sendo assim, seria correto colocar um tapete com listas ao lado de desenhos similares de Cássio Michalany? Não seria rebaixar o valor de um trabalho com temática construtiva de Geraldo de Barros postá-lo ao lado de mesas de centro com motivos geométricos pregadas na parede? Essas aproximações formais seguem ao longo da exposição, como igualar as garrafas de Coca-Cola da série "Inserções em Circuitos Ideológicos", de Cildo Meireles, a vasos em vidro de Murano.

Mesmo assim, "Das Coisas em Geral" revela-se uma ótima reflexão sobre os limites e a responsabilidade do colecionador sobre as obras que estão sob sua guarda.

Posted by Marília Sales at 5:26 PM

Mestres pirotécnicos por Paula Alzugaray, Istoé

Mestres pirotécnicos

Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicada na Istoé em 4 de fevereiro de 2011

Da engenharia popular brasileira à arte cinética de Abraham Palatnik, exposição promove encontro de tecnologias

Máquinas poéticas, Museu Casa do Pontal, Rio de Janeiro de 05/02 a 05/06/2011

Artistas populares costumam se apresentar como mestres, donos de uma inteligência e de uma arte cultivadas sem estudo e sem leitura. O artista contemporâneo, ao contrário, é letrado até em teoria estética. Hoje, grande parte faz pós-graduação. Com o abismo cultural que se costuma cavar entre esses dois mundos, é surpreendente a relação que a antropóloga Angela Mascelani tece entre Abraham Palatnik e os artistas populares Adalton Lopes, Laurentino, Nhô Caboclo e Saúba. Eles foram pipoqueiros, pescadores, motoristas, soldados, engenheiros. Em comum, o gosto por roldanas, motores elétricos, engrenagens, arames, alavancas. “A principal diferença talvez esteja nas histórias mirabolantes que uns aprendem nas escolas e outros no cotidiano. Palatnik e os artistas populares tiveram formações distintas, mas deram um salto para o desconhecido. Eles criaram algo que não existia antes”, afirma Angela.

Em cartaz na Casa do Pontal, “Máquinas poéticas” aproxima as composições abstratas de Palatnik e as encenações animadas de escolas de samba, lutas de Lampião, rodas de ciranda, casas de farinha, jongo, procissões, presépios e circos com os quais os artistas populares costumavam viajar o Brasil, contando histórias para plateias admiradas. Com esse inusitado encontro, os curadores afirmam que Palatnik, além de precursor da arte cinética, é também um mestre dos autômatos. Por que não? Os títeres de Palatnik são, no entanto, composições construídas segundo os padrões da abstração geométrica que vigoraram nos circuitos da arte brasileira nos anos 50.

De Palatnik, cinco “objetos cinéticos”, realizados entre 1951 e 1991, e um “cinecromático”, de 1960, obras que causaram estupor por onde passaram e acabaram por fazer a história da arte brasileira, dividem a cena com objetos tão surpreendentes quanto “Extração de Ouro no Garimpo de Serra Pelada”, de Adalton Fernandes Lopes (1938-2005), que reproduz o cenário da mineração com homens carregando cascalhos. O mítico Nhô Caboclo, falecido em 1976, tem duas peças antológicas na mostra, “Guerreiro Equilibrista” e “Equilibrista com Duas Cabeças”. Laurentino (1937-2009), natural do Paraná, que instalava seus bonecos como “sinaleiros de vento” em seu carrinho de pipoca, terá seu “Índio do Futuro” apresentado após delicado restauro. O único artista popular ainda vivo e em atividade, o pernambucano Saúba, mostra “A Volta do Cangaço”, cujo motor reproduz o tropel de cavalos. As peças de arte popular, todas pertencentes ao acervo do Museu do Pontal, são mostradas após nove anos de restauro.

Posted by Paula Dalgalarrondo at 5:15 PM

O concorrente anônimo de Vik Muniz por Nina Gazire, Istoé

O concorrente anônimo de Vik Muniz

Matéria de Nina Gazire originalmente publicada na Istoé em 4 de fevereiro de 2011

Exit through the gift shop / Diretor: Banksy /sem data de estreia no Brasil

É possível disputar o Oscar quando sua identidade é desconhecida? Autor de “Exit Through the Gift Shop”, indicado ao Oscar de melhor documentário, o notório artista britânico Banksy, cuja verdadeira identidade é um mistério, foi um dos poucos a cruzar a ponte entre a arte de rua e a das galerias. Ele é conhecido por seus stencils, (técnica de ilustração com aerossol, aplicada em superfície através de uma máscara recortada em papel ou acetato), mas também realizou diversos objetos artísticos. Banksy é acima de tudo um pregador de peças e isso pode ser visto tanto em seus trabalhos de temática pacifista e iconoclasta quanto no uso de símbolos de consumo capitalista. Após atuar como um justiceiro das artes, ele consegue ser o primeiro diretor anônimo indicado a um Oscar.

Mas Banksy não protagoniza esse seu primeiro trabalho como diretor, produtor e distribuidor. Seu foco de interesse não está nem mesmo em outros artistas de rua, mas na figura peculiar de Thierry Guetta, francês, ex-proprietário de uma lojinha de presentes baratos em Los Angeles. Durante anos a fio, Guetta documentou exaustivamente a atividade de artistas de rua, reunindo um material precioso para uma possível história da street art. Seu sonho era registrar em vídeo o Santo Graal da arte de rua em ação: o próprio Banksy. De fato, o francês se tornou o primeiro cinegrafista a realizar imagens do artista anônimo trabalhando.

O filme poderia ser entendido como um documentário sobre as proezas de Thierry Guetta como cinegrafista oficial da arte de rua. Mas é mais imprevisível que isso. Após declarar que a figura do francês “acabou tornando-se mais interessante” do que fazer um filme sobre si mesmo, Banksy pede que Guetta edite o documentário. O resultado é desastroso e então o britânico aconselha Guetta a se tornar um artista. Da noite para o dia, o francês se transforma em Mr. Brainwash, um artista amador que metralha sua arte em Los Angeles. O filme é um forte concorrente do documentário “Lixo Extraordinário”, sobre a obra de Vik Muniz. Poderia, no entanto, ter sido indicado ao Oscar de melhor filme, já que tudo nesse documentário parece tratar-se de ficção – a serviço de uma ácida crítica aos sistemas de consumo culturais.

Posted by Paula Dalgalarrondo at 5:07 PM

fevereiro 3, 2011

Google cria ferramenta para visitação virtual de museus em 360 graus, O Globo

Artigo originalmente publicado no caderno Tecnologia do jornal O Globo em 1 de fevereiro de 2011.

RIO e LONDRES - A Google lançou nesta terça-feira uma ferramenta on-line que permite a visitação virtual de 17 importantes museus em todo o mundo e a visualização de suas mais de mil obras de arte. Por meio da tecnologia Street View e de um veículo exclusivamente desenvolvido para o projeto, o Google Art Project fotografou em 360 graus o interior de lugares como o MoMA, de Nova York, o Museu Van Gogh, em Amsterdã, a Tate Britain e a National Gallery, de Londres. O resultado é que pode-se andar pelas galerias assim como se passeia pelas ruas com o Google Street View, pelo qual também é possível acessar o Google Art Project.

"O projeto começou quando um grupo (de funcionários da Google) apaixonado por arte se juntou para pensar quando poderíamos usar nossa tecnologia para ajudar museus a tornar sua arte mais acessível" afirmou Amit Sood, chefe da nova ferramenta.

Além disso, cada um dos 17 museus escolheu uma única obra de arte de seu acervo para ser fotografado com câmeras de altíssima resolução, ou "gigapixel" (veja a lista completa no fim desta matéria). As imagens contém cerca de 7 bilhões de pixels, o que significa, segundo a Google, que é mais de mil vezes mais detalhada do que uma foto comum de câmera digital. Por meio da tecnologia do Picasa, serviço de fotos da empresa, um zoom especial permite que se esmiuce esses quadros em microdetalhes.

Todas as obras de arte listadas no Google Art vêm acompanhadas de informações como títulos originais, os anos em que foram criadas, suas dimensões e a quais coleções já pertenceram. Os usuários também podem criar suas próprias coleções e compartilhá-las pela web.

Embora a maioria das grandes galerias há anos venha promovendo a divulgação on-line de seus acervos, especialistas disseram na cerimônia de lançamento realizada nesta terça-feira na Tate Britain que o site da Google buscaria levar a experiência da arte on-line a um novo patamar.

- O serviço pode mudar o jogo - disse Julian Raby, da Freer Gallery of Art, parte da Smithsonian Institution, em Washington, uma das 17 galerias participantes.

Amit Sood, chefe do projeto, disse que o objetivo é acrescentar mais museus e obras de arte à ferramenta. Mas, segundo o jornal britânico "The Telegraph", a Google enfrenta dificuldades para expandir a funcionalidade. Certos museus seriam contrários à ideia de ter um carrinho circulando e fotografando tudo entre seus corredores e disponibilizando as imagens on-line. O jornal cita o Prado de Madri e os museus do Vaticano, em Roma. A publicação listou outros problemas do serviço :

"É um problema filosófico denso, mas meu instinto me diz que eu preferiria visitar a National Gallery e ver 'Os Embaixadores' de Holbein com meus próprios olhos a examiná-lo por meio do prisma de "super-alta resolução" da Google. Sempre. O Google Art Project é uma fonte maravilhosa, mas não substitui a experiência de olhar de verdade para uma obra de arte."

Mesmo admitindo que um site não substitui os museus de verdade, a Google está confiante nos horizontes abertos pela ferramenta. O brasileiro Nelson Mattos, vice-presidente de engenharia da gigante de buscas, disse que o site do Art Project permitiria que crianças de América Latina, Índia e África, com pouca chance de ver os originais, tivessem experiência próxima à real por meio da internet.

- Isso na verdade representa um grande passo adiante na maneira pela qual as pessoas vão interagir com esses belos tesouros da arte de todo o mundo - disse, acrescentando que o Google planejava expandir o site ao longo dos anos. - Obviamente não acreditamos que essa tecnologia levará as pessoas a não virem a museus Esperamos que o oposto venha a ocorrer.

Julian Raby, da Freer Gallery of Art, acredita que o Google Art Project venha a oferecer uma nova experiência de fruição da arte on-line:

- Os museus até o momento eram obcecados com informação, e o que o Google Art Project permite é a criação de uma experiência emocional. Não vejo a ideia como alternativa a visitar um museu, e sim como estímulo para que as pessoas venham e vejam as obras ao vivo.

Segue a lista completa das obras capturadas em ultra-alta resolução:

- Alte Nationalgalerie, Berlim - "No conservatório" / Edouard Manet

- Freer Gallery of Art, Smithsonian, Washington DC - "A princesa da terra da porcelana" / James Whistler

- The Frick Collection, Nova York - "São Francisco no deserto" / Giovanni Bellini

- Gemaldegalerie, Berlim - "Retrato do O mercador Georg Gisze" / Hans Holbein the Younger

- Museu Kampa, Praga - "A Catedral" / Frantisek Kupka

- The Metropolitan Museum of Art, Nova York - "A colheita" / Pieter Bruegel, o Velho

- MoMA, Museu de Arte Moderna, Nova York - "A noite estrelada" / Vincent van Gogh

- Museo Reina Sofia, Madrid - "A garrafa de anis do mono" / Juan Gris

- Museo Thyssen - Bornemisza, Madrid - "Jovem cavaleiro numa paisagem" / Vittore Capaccio

- Galeria Nacional, Londres - "Os embaixadores" / Hans Holbein, o jovem

- Palácio of Versailles, France - "Marie-Antoinette de Lorraine-Habsbourg, rainah da França e seus filhos" / Louise Elisabeth Vigee-Lebrun

- Rijksmuseum, Amsterdam - "Vigília noturna" / Rembrandt

- Museu Hermitage, São Petersburgo - "Retorno do filgo pródigo" / Rembrandt

- Galeria Tretyakov, Moscou - "A Aparição de Cristo diante do Povo" / Aleksander Ivanov

- Tate Britain, Londres - "Nenhuma mulher, nenhum grito" / Chris Ofili

- Galeria Uffizi, Florença - "O nascimento de Vênus" / Sandro Botticelli

- Museu Van Gogh, Amsterdã - "O quarto" / Vincent van Gogh

Posted by Paula Dalgalarrondo at 2:26 PM

"Art Project", a iniciativa do Google que leva a arte para todos por Fernando Puchol, Exame.com

Matéria de Fernando Puchol originalmente publicada na Exame.com em 1 de fevereiro de 2011

Site lançado pelo Google permite visitar o arcevo de 17 dos principais museus do planeta

Londres - Os amantes da arte terão uma ferramenta imprescindível chamada "Art Project", iniciativa do Google, que permite que qualquer utilizador descubra e visualize virtualmente mais de mil obras de 17 dos principais museus do mundo, com uma qualidade de imagem excepcional e com a possibilidade de interagir com todas elas.

O Metropolitan Museum of Art, Hermitage, Palácio de Versalhes, Rijksmuseum, Tate, Reina Sofía e o Thyssen estão entre as instituições que colaboraram com este projeto, que propõe também um percurso virtual de 360 graus pelas galerias dos museus graças à tecnologia street-view.

Obras como "Noite estrelada" de Van Gogh, do Moma de Nova York, "A aparição de Cristo ao povo" de Alexander Ivanov da Galeria Tretyakov de Moscou, ou "O nascimento de Vênus" de Sandro Botticelli da Galleria degli Uffizi poderão ser vistas com um detalhe minucioso.

O Google conseguiu as obras com uma resolução de 7 bilhões de pixels (uma qualidade de imagem mil vezes superior à das câmaras digitais convencionais), o que permite ver com visão microscópica os detalhes do traço das obras.

As imagens são acompanhadas das explicações em vídeos do YouTube, de uns três minutos de duração, com especialistas da arte.

O projeto foi apresentado na galeria Tate Britain, cujo diretor Nicholas Serota destacou que o "Art Project" "dá uma oportunidade sem igual de aproximação às grandes obras de arte".

O vice-presidente tecnológico do Google para a Europa, África e o Oriente Médio, o brasileiro Nelson Mattos, considerou que se trata "de um grande passo adiante na maneira na qual as pessoas interagem com estas maravilhosas peças de arte" e ressaltou que facilitará o acesso à arte para milhões de pessoas que não podem visitar um museu.

Mattos afirmou ainda que o "Art Project" nasce com a vocação de chegar a outros museus importantes que não estão na lista, como os renomados Louvre e Prado.

Amit Sood, diretor do projeto, não quis entrar em detalhes sobre as razões que impediram que estes museus estivessem na lista, mas afirmou que "a porta segue aberta".

O procurador de internet, que financia integralmente este programa, conseguiu colocá-lo em andamento em um ano e meio, graças à participação de um grupo de trabalhadores do próprio Google que embarcou no que a empresa chama de "projetos 20%".

Trata-se de programas de incentivos aos empregados da companhia, que passam a dedicar um quinto de sua jornada de trabalho a pensar em iniciativas que potencialmente poderão se transformar em um produto, como ocorreu com o "Art Project".

Miguel Ángel Recio, diretor-gerente do Thyssen, se mostrou muito satisfeito com o produto e convencido de que, longe de afastar os visitantes dos museus, este projeto servirá para estimular novas visitas e atrair "outro tipo de usuário".

"Para nós é muito positivo, porque servirá para atrair pessoas que até agora não conhecem nada", disse Recio.

A página que os internautas poderão visitar é www.googleartproject.com.

Posted by Paula Dalgalarrondo at 2:04 PM

Google leva acervo de grandes galerias para a internet, Folha de S. Paulo

Matéria de Reuters/Londres originalmente publicada na Tec da Folha de S. Paulo em 1 de fevereiro de 2011.

O Google quer levar o mundo das grandes galerias mundiais de arte aos lares, com um novo site que oferece visitas virtuais usando a tecnologia do serviço Street View aliada à capacidade de construir coleções privadas e imagem de altíssima resolução.

Embora a maioria das grandes galerias há anos venha promovendo a divulgação on-line de seus acervos, especialistas disseram na cerimônia de lançamento realizada terça-feira na galeria Tate Britain, de Londres, que o site do Google buscaria levar a experiência da arte online a um novo patamar.

"O serviço pode mudar o jogo", disse Julian Raby, da Freer Gallery of Art, parte da Smithsonian Institution, em Washington, uma das 17 galerias participantes.

Nelson Mattos, vice-presidente de engenharia do Google, disse que o site do Art Project permitiria que crianças da América Latina, Índia e África, que teriam pouca chance de ver os originais, tivessem experiência próxima à real, por meio da Internet.

"Isso na verdade representa um grande passo adiante na maneira pela qual as pessoas interagirão com esses belos tesouros da arte de todo o mundo", disse, acrescentando que o Google planejava expandir o site ao longo dos anos.

Mattos e os curadores de arte presentes no lançamento disseram estar confiantes em que, não importa o quanto a tecnologia avance, o novo site jamais substituirá as visitas a museus.

"Obviamente não acreditamos que essa tecnologia levará as pessoas a não virem a museus", acrescentou. "Esperamos que o oposto venha a ocorrer."

Raby acredita que o Art Project venha a oferecer uma nova variedade de experiência no que tange a observar arte on-line.

"Os museus até o momento eram obcecados com informação, e o que o Google Art Project permite é a criação de uma experiência emocional", disse.

"Não vejo a ideia como alternativa a visitar um museu, e sim como estímulo para que as pessoas venham e vejam as obras ao vivo", acrescentou.

Entre as galerias participantes estão a Uffizzi, em Florença; o Palácio de Versalhes, na França; o Museu Kampa, em Praga; o Museu Van Gogh, em Amsterdã; e o Museu Estatal Hermitage, em São Petersburgo, Rússia.

Posted by Paula Dalgalarrondo at 1:33 PM

fevereiro 2, 2011

Com vendas pífias, feira de arte on-line não substitui tradicionais por por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada da Folha de S. Paulo em 31 de janeiro de 2011.

Sistema do site travou nas primeiras duas horas do evento virtual

Parecia simples e sofisticado, mas a realidade da esfera virtual impôs alguns obstáculos à realização da VIP Art Fair, primeira feira de arte on-line, encerrada ontem.

Mesmo com as maiores galerias do mundo, como Gagosian e White Cube, e as poderosas brasileiras Fortes Vilaça, Luisa Strina e Nara Roesler, a feira teve vendas pífias.

Isso porque o sistema travou nas primeiras duas horas do evento virtual, impedindo a comunicação entre muitos colecionadores e galeristas.

"Desde o minuto um o site não funcionou", reclama Mariana Carvalho, da Luisa Strina. "As pessoas se decepcionaram, perderam o tesão", acrescentou Fernanda Figueiredo, da Nara Roesler.

Com estandes virtuais vendidos entre US$ 3.000 e US$ 20 mil, valores de feira do mundo real, a VIP amealhou galerias participantes de olho na economia que fariam sem sair de casa, sem transportar obras e sem as festas.

À DERIVA
Mas muitos negócios ficaram à deriva. "Nós tivemos alguma procura, mas não foi um sucesso", diz Alexandre Gabriel, da Fortes Vilaça. "Não tem o frisson do real, ninguém se sente pressionado a fechar uma compra."

Daí que o Viewing in Private, ver em segredo, que dá nome à feira acabou virando "Viewing in Pajamas", na ironia de um crítico, ou seja, ver de pijama, não de Prada.

"Isso não vai substituir as feiras tradicionais, até porque nós também gostamos das festas", diz James Cohan, diretora da VIP. "Mas acreditamos nessa plataforma."

Posted by Paula Dalgalarrondo at 3:08 PM