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dezembro 30, 2010

Dossiê MIS e Paço das Artes: A morte anunciada de um modelo de gestão

Matérias e respostas do episódio que levou a troca da direção executiva da Organização Social de Cultura gestora do Museu da Imagem e do Som de São Paulo e do Paço das Arte, por imposição do Secretário de Estado da Cultura Andrea Matarazzo.

Abaixo-assinado SOS MIS: Leia o documento e faça a sua adesão online no Petição Pública (depois confirme clicando na mensagem que lhe será enviada na sua caixa postal).

Andrea Matarazzo fala das controvérsias de sua gestão em entrevista exclusiva por João Luiz Sampaio, Maria Eugênia de Menezes e Ubiratan Brasil, www.estadao.com.br, 08/09/2011

Resposta do Secretário da Casa Civil do Estado de São Paulo sobre a intervenção no MIS, 16/06/2011

Dança das cadeiras por Paula Alzugaray, Istoé, 17/06/2011

Depoimento do conselheiro Rubens Machado sobre o MIS-SP a Paula Alzugaray, 17/06/2011

Governo Alckmin implode seu próprio projeto de Organização Social por Patricia Canetti, 17/06/2011

SOS-Museu da Imagem e do Som-SP por Lucia Santaella, 13/06/2011

Choque de gestão por Morris Kachani, Folha de S. Paulo, 05/06/2011

Secretaria diz que MIS é "equipamento" do governo de SP por Claudio Leal e Marcela Rocha, Terra Magazine , 01/06/2011

Diretora: "Matarazzo promove retrocesso de 30 anos no MIS" por Claudio Leal, Terra Magazine, 01/06/2011

As polêmicas mudanças no MIS-SP, falacultura.com, 31/05/2011

Dono do Cine Belas Artes é o novo diretor do MIS em SP por Morris Kachani, Folha de S. Paulo, 31/05/2011

Abaixo-assinado SOS MIS: Primeiras 1.400 assinaturas em ordem alfabética, 27/05/2011,

A cultura como palco de carreira política por Lucas Bambozzi, 27/05/2011

MIS para pessoas por Malu Andrade e Lara Alcadipani, 23/05/2011

Matarazzo indica André Sturm para comandar o MIS por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo, 19/05/2011

Em busca de público, MIS muda direção por Camila Molina, O Estado de S. Paulo, 19/05/2011

Secretaria da Cultura quer mudar foco de museu, Folha de S. Paulo, 17/05/2011

MIS abre exposição sobre a Folha na terça, Folha de S. Paulo, 15/05/2011

Belas Artes por Mônica Bergamo, Folha de S. Paulo, 14/05/2011

Esclarecimentos sobre o MIS e Paço das Artes à Folha de S. Paulo por Eide Feldon - 23/12/2010

Carta do Conselho de Orientação Artística e Cultural do MIS-SP - 23/12/2010

Crise no MIS por Lucia Santaella, Folha de S. Paulo 21/12/2010

Polifonia cultural em defesa do MIS e do Paço por Paula Alzugaray, Istoé Online - 21/12/2010

Jornalismo cultural sensacionalista baseado em estatísticas falsas por Patricia Canetti - 20/12/2010

A cultura no mundo de Caras por Thiago Carrapatoso, Trezentos - 20/12/2010

Sobre a matéria "Demissões revelam crise no MIS e Paço" (FSP.18.12.10) por Tadeu Chiarelli, Folha de S. Paulo - 20/12/2010

Jornalismo marrom? por Juliana Monachesi, merzblog - 18/12/2010

A despolitização da cultura por Giselle Beiguelman, DesVirtual - 18/12/2010

Demissões revelam crise no MIS e Paço por Silas Martí, Folha de S. Paulo, 18/12/2010

Posted by Patricia Canetti at 12:49 PM

Esclarecimentos sobre o MIS e Paço das Artes à Folha de S. Paulo por Eide Feldon

Esclarecimentos sobre o MIS e Paço das Artes à Folha de S. Paulo

Carta enviada ao Canal Contemporâneo em 23 de dezembro de 2010, endereçada ao jornal Folha de S. Paulo, em resposta a matéria "Demissões revelam crise no MIS e Paço de Silas Martí".

ATIÇANDO A BRASA
Leia os artigos, comentários e cartas em resposta à matéria no "Dossiê: MIS e Paço das Artes - respostas à matéria da Folha de S. Paulo".

A Associação dos Amigos do Paço das Artes Francisco Matarazzo foi criada em novembro de 2006 para gerenciar o Paço das Artes e passou, em outubro de 2007, a gerenciar também o MIS.

Nesses quatro anos de existência, a Associação, nas pessoas de seus conselheiros, diretores e competente corpo técnico, em parceria com o governo do Estado de São Paulo por meio da Secretaria de Estado da Cultura, tem garantido posição de destaque ao Paço e ao MIS no mapa cultural de São Paulo.

São, hoje, inquestionáveis referências na divulgação de trabalhos de artistas notáveis do cenário internacional da arte contemporânea e das novas mídias; na apresentação de artistas emergentes; na promoção da pesquisa e da formação continuada, por meio de workshops, simpósios, cursos, todos eles com suas vagas lotadas por um público ávido de conhecimento.

Foram muitas as contribuições da Associação para o enriquecimento cultural da cidade. Os espaços do MIS foram readequados, sem o que não seria possível devolvê-lo à cidade de São Paulo. Foi elaborado um Planejamento Estratégico, que se propõe a garantir coerência nas atividades das duas instituições, sempre com vista a potencializar seu caráter educativo. Foram montadas exposições de artistas de primeira grandeza, como Pipilotti Rist, Gary Hill, Yang Fudong, Ricardo Carioba, Miguel Rio Branco, Rejane Cantoni e Leonardo Crescenti; retomados os Festivais de Cinema do MIS (Mostra Internacional, Festival de Curtas, Festival de Cinema Latino americano); realizadas palestras dos fotógrafos Martin Parr, Steve McCurry; inventariados 180 mil itens do acervo do MIS; divulgado esse precioso acervo, em exposições que tiveram como curadores Arlindo Machado e Rubens Fernandes; realizado o Simpósio Internacional de Arte Contemporânea do Paço das Artes e o programa de residências LabMIS e suas mostras de resultados; publicados 25 títulos entre Paço e MIS...

Esse importante trabalho da Associação e da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo – assentado no genuíno compromisso de seus conselheiros com o engrandecimento das instituições, na competência de seus colaboradores e na larga experiência da diretora Daniela Bousso, que há mais de uma década atua no Paço das Artes – é ressaltado por consagrados artistas, curadores e teóricos, como Regina Silveira, Tadeu Chiarelli, Lucia Santaella, Gisele Beiguelman, Gilberto Prado, Arlindo Machado, entre outros. Profissionais que, enfim, qualificam a programação desenvolvida nas duas instituições como “avanço e nível cultural emparelhados com a cena artística do primeiro mundo” (vide trechos abaixo transcritos).

Tanto o MIS como o Paço têm cumprido suas finalidades como instituições destinadas a descobrir e a fomentar novas tendências culturais. A gestão de Daniela Bousso não só teve o mérito de reerguer, como o de consolidar as duas instituições como referência do que de melhor e mais atual se faz em matéria de arte contemporânea em São Paulo, em sintonia com outros pólos internacionais de produção cultural. Esse trabalho é reconhecido pelo público, pelos artistas e pelos críticos especializados. Não o desmerecem eventuais divergências de pensamento e de opinião - que, de resto, são perfeitamente normais na vida de qualquer grande organização.

Eide Feldon
Presidente do Conselho de Administração da Associação de Amigos do Paço das Artes Francisco Matarazzo Sobrinho


”... dois importantíssimos espaços culturais e expositivos de São Paulo que se dedicam aos campos experimentais da arte contemporânea. São anos de empenho na construção de um público, incentivando jovens artistas, produzindo e trazendo mostras relevantes de artistas já consagrados, além dos inúmeros seminários de discussão e reflexão...”
Gilbertto Prado, artista e professor da USP

“... Projetos sintonizados com os ventos vivos da arte e da cultura, incentivo a novos artistas, curadorias de renomados artistas internacionais, cursos inovadores, laboratórios de pesquisa e criação nas linguagens da arte, tudo isso coloca essas duas instituições no mesmo nível de instituições de países avançados. As críticas a que injustamente uma diretoria tão acima da média está sendo submetida não passa de um sinal evidente de que a cultura deste país incorrigivelmente não passa de uma cultura do Carnaval, do oba oba, da leviandade, da ação entre amigos e da corrupção cognitiva...”
Lucia Santaella, semióloga e professora da PUC-SP

“... Impossível ler qualquer coisa sobre Daniela Bousso, o MIS e o Paço das Artes (cujas comemorações recentes de seus 40 anos passaram praticamente despercebidas pela imprensa) e não lembrar o quanto Daniela, nessas duas instituições, vem fazendo para divulgar as vertentes mais radicais da arte brasileira e internacional, além de manter aberto esses espaços para a jovem produção artística brasileira...”
Tadeu Chiarelli, diretor do MAC - USP

“... a matéria da Folha personaliza a discussão, deixando de lado o debate institucional, o momento singular da implantação das OSs em São Paulo (e toda relação público-privado derivada) a aposta prospectiva do MIS/Paço das Artes, e mais: se há crise institucional, ela deve ser debatida e ampliada nesses termos...”
Renata Motta, diretora do Instituto Sergio Motta

“... Este trabalho ainda nem teve tempo para se consolidar e já começam as tentativas de inviabilizar a sua continuidade, sem que qualquer alternativa efetiva seja proposta. Num momento em que o país procura reconstituir suas instituições públicas, resgatando o poder de gestão do Estado, na área da Cultura continuam a prevalecer os interesses pessoais e as tramas de bastidor, que bloqueiam a consolidação institucional...”
Nelson Brissac, crítico e curador

”... A comparação entre o público da Pinacoteca e o público do MIS ou Paço é fake. São coisas diferentes, não podem ser comparadas. É como comparar a audiência do programa do Ratinho na TV com a freqüência de leitores na Biblioteca Nacional ou o número de leitores da Folha de São Paulo...”.”... O MIS e o Paço, infelizmente, pelas suas posições geográficas mais afastadas, ficam fora do circuito turístico dos caipiras do interior e dos compradores do atacado. Quem vai ao MIS ou ao Paço vai em busca de arte e cultura, não para cumprir um programa turístico...”
Arlindo Machado, crítico, curador e professor

“... Não há qualquer menção ao fato de ter sido a gestão de Daniela Bousso a responsável pela reforma e reabertura do MIS, pela inauguração do primeiro laboratório público de criação com mídias digitais e pela internacionalização desse equipamento cultural, a partir de intercâmbios com centros de excelência como o MidiaLab Prado.
Haveria que se mencionar ainda o destaque que várias mostras do MIS e do Paço tem recebido com frequência nos principais guias e cadernos de cultura e avaliar qualitativamente os impactos dessas instituições...”
Giselle Beiguelman, artista e curadora do Instituto Sergio Motta

“... Há oito anos sou colaboradora do Paço das Artes, como crítica de arte da Temporada de Projetos, e minha convivência profissional com a diretora Daniela Bousso sempre foi pautada por respeito e incentivo ao diálogo e à construção coletiva de projetos e de conhecimento....” “...mas posso afirmar, com base em minha experiência profissional, que as duas instituições que Daniela Bousso dirige têm como característica principal a escuta constante e atenta das demandas e inquietações do meio de arte contemporânea e de novas mídias em São Paulo...”
Juliana Monachesi, jornalista e crítica

“... o trabalho que Daniela desenvolveu nos últimos anos é maravilhoso e deveria servir de exemplo para outras instituições Brasil a dentro. Seria um bom inicio para transformarmos o Brasil realmente!...”
Marcio Botner, artista e sócio-diretor da galeria A Gentil Carioca

Posted by Patricia Canetti at 12:25 PM

dezembro 27, 2010

Carta do Conselho de Orientação Artística e Cultural do MIS-SP

Carta do Conselho de Orientação Artística e Cultural do MIS-SP

Carta enviada ao Canal Contemporâneo em 23 de dezembro de 2010, endereçada ao jornal Folha de S. Paulo, em resposta a matéria "Demissões revelam crise no MIS e Paço de Silas Martí".

ATIÇANDO A BRASA
Leia os artigos, comentários e cartas em resposta à matéria no "Dossiê: MIS e Paço das Artes - respostas à matéria da Folha de S. Paulo".

São Paulo, 23/12/2010

Prezados Senhores,

Na qualidade de membros do Conselho de Orientação Artística e Cultural do Museu da Imagem e do Som, ficamos muito preocupados com o artigo publicado na Folha de S. Paulo, em 18/12/2010, a respeito do trabalho de Daniela Bousso à frente do MIS-SP e do Paço das Artes. O artigo preocupou-nos por três aspectos:

1 – Por conter “denúncias” vagas e anônimas a respeito de uma categoria tão ambígua quanto “assédio moral”;

2 – Por demonstrar um desconhecimento total dos mecanismos que regem as leis de incentivo fiscal. Como instituições com “condução errática” poderiam captar patrocínios e implementar a própria programação? Como profissionais que acompanham com assiduidade o calendário de exposições de São Paulo, podemos afirmar com segurança que o Paço das Artes deu um salto qualitativo com a gestão de Daniela Bousso, que abriu um espaço de pesquisa e reflexão para a arte contemporânea em suas diversas manifestações. Esse mesmo tipo de trabalho está sendo realizado no Museu da Imagem e do Som, cujo perfil foi redefinido e está sendo adequado à nova proposta;

3 – Por propor uma comparação falaciosa entre o público da Pinacoteca do Estado e o do Museu da Imagem e do Som e do Paço das Artes. O excelente trabalho desenvolvido pela Pinacoteca do Estado não pode servir de parâmetro para a atuação do Paço das Artes e do Museu da Imagem e do Som, pois envolve uma concepção diferente de arte. As formas consolidadas de arte são sempre aceitas de maneira mais pacífica pelo público, enquanto as linguagens de ponta, por sua própria natureza, cativam, a princípio, uma audiência bem mais restrita. As diferentes modalidades de instituições culturais têm como objetivo contemplar o vasto panorama da produção artística e, dentro dele, o Paço das Artes e o Museu da Imagem e do Som desenvolvem uma tarefa fundamental.

Estas considerações são ditadas pela confiança que depositamos neste projeto de trabalho, banalizado por um artigo que nos pareceu inconseqüente, que dá a impressão de responder a desígnios outros.

Atenciosamente,

Annateresa Fabris
Gilbertto Prado
Gina Gomes Machado
Rogério da Costa
Rubens Fernandes Jr. (Presidente)
Rubens Machado Jr. (Vice-Presidente)

Posted by Patricia Canetti at 3:39 PM

dezembro 22, 2010

Crise no MIS por Lucia Santaella, Folha de S. Paulo

Crise no MIS

Mensagem de Lucia Santaella originalmente publicada no Painel do Leitor da Folha de S. Paulo, em 21 de dezembro de 2010, em resposta a matéria "Demissões revelam crise no MIS e Paço de Silas Martí".

ATIÇANDO A BRASA
Leia os artigos, comentários e cartas em resposta à matéria no "Dossiê: MIS e Paço das Artes - respostas à matéria da Folha de S. Paulo".

O desfalque endêmico na cultura e na educação deste país parece ser para sempre irrecuperável. Uma das razões para isso encontra-se no fato de que, cada vez mais, está se tornando difícil, senão impossível, às pessoas diferenciarem a qualidade da quantidade. Sim, de quantidade estamos empanturrados: projetos culturais como nunca se viram tantos, novas universidades que se abrem, programas de pós-graduação lato e estrito senso sem fim, MBAs em cada esquina. Artistas brasileiros, há anos radicados na Europa, começam a voltar ao país para participar da grande feira borbulhante das quantidades. Estatísticas e gráficos eufóricos colocam o Brasil nos píncaros dos grandes números. De que valem os números quando faltam pessoas capazes de separar o joio do trigo? Pior ainda, quando não se pode totalmente confiar nesses números?

A matéria publicada na Folha -- alegando uma crise no MIS e no Paço das Artes em São Paulo e que, sem contar com qualquer pesquisa mais séria e cuidadosa, demoniza a diretoria dessas instituições-- não passa de um sintoma cabal de uma outra crise bem mais profunda: a crise do julgamento de qualidade na cultura e na educação no Brasil, aliás, campos em que a qualidade é quase tudo, pois é ela que tem o pulso e que dá o norte. Sem o valor da qualidade, tudo fica errático e se dispersa em festividades levianas, episódicas e desenraizadas.

O trabalho que vem sendo realizado por Daniela Bousso à frente dessas instituições é admirável pelo teor de qualidade que tem nele imprimido. Projetos sintonizados com os ventos vivos da arte e da cultura, incentivo a novos artistas, curadorias de renomados artistas internacionais, cursos inovadores, laboratórios de pesquisa e criação nas linguagens da arte, tudo isso coloca essas duas instituições no mesmo nível de instituições de países avançados. As críticas a que injustamente uma diretoria tão acima da média está sendo submetida não passa de um sinal evidente de que a cultura deste país incorrigivelmente não passa de uma cultura do Carnaval, do oba oba, da leviandade, da ação entre amigos e da corrupção cognitiva.

Posted by Patricia Canetti at 4:13 PM | Comentários (1)

Polifonia cultural em defesa do MIS e do Paço por Paula Alzugaray, Istoé Online

Polifonia cultural em defesa do MIS e do Paço

Matéria de Paula Alzugaray originalmente publicado na Istoé Online em 21 de dezembro de 2010, em resposta a matéria "Demissões revelam crise no MIS e Paço" de Silas Martí.

ATIÇANDO A BRASA
Leia os artigos, comentários e cartas em resposta à matéria no "Dossiê: MIS e Paço das Artes - respostas à matéria da Folha de S. Paulo".

“Duas instituições que nos últimos anos tem coberto, com qualidade e atualidade, os terrenos mais arriscados da arte contemporânea.”
Regina Silveira, artista.

“De que valem os números se faltam pessoas capazes de separar o joio do trigo?”
Lucia Santaella, semióloga.

“Dois importantíssimos espaços culturais e expositivos de São Paulo, que se dedicam aos campos experimentais da arte contemporânea”
Gilbertto Prado, artista.

“A gestão de Daniela Bousso é responsável pela reforma e reabertura do MIS, pela inauguração do primeiro laboratório público de criação com mídias digitais e pela internacionalização desse equipamento cultural, a partir de intercâmbios com centros de excelência.”
Giselle Beiguelman, artista e curadora do Instituto Sergio Motta.

“Foi pela constância de uma programação engajada nas discussões da arte contemporânea que Daniela Bousso inseriu o Paço das Artes no mapa, hoje um espaço de referência”
Juliana Monachesi, jornalista e critica de arte.

“Comparar o Paço e o MIS com qualquer outra instituição é não levar em conta que, ao assumirem posturas francamente prospectivas no campo da arte, essas instituições jamais terão resultados imediatos de público.”
Tadeu Chiareli, Diretor do MAC-USP.

“Quem vai ao MIS ou ao Paço vai em busca de arte e cultura, não para cumprir um programa turístico”
Arlindo Machado, critico.

“Por que discutir motivos concretos para o abandono do MIS, como a dificuldade de se chegar ao local ou a falta de divulgação dos trabalhos realizados por lá, se eu posso criar uma fofoca cultural usando as personas de diretores?”
Thiago Carrapatoso, jornalista.

“Se a questão é a estatística como informação seria louvável que a matéria levantasse outros números, como por exemplo, quantos funcionários foram contratados, quantas exposições, seminários, cursos, publicações e muito mais foi realizado sob a direção de Daniela Bousso.”

Kátia Maciel, artista.

“A matéria da Folha personaliza a discussão, deixando de lado o debate institucional, o momento singular da implantação das OSs em São Paulo.”
Renata Motta, Diretora do Instituto Sergio Motta.

“Num momento em que o país procura reconstituir suas instituições públicas, resgatando o poder de gestão do Estado, na área da Cultura continuam a prevalescer os interesses pessoais e as tramas de bastidor.”
Nelson Brissac, critico e curador.

A polifonia de vozes cruzadas nas redes e a diversidade dos profissionais que, em apenas dois dias, prontamente responderam à matéria “Demissões revelam crise no MIS e no Paço”, de Silas Martí, publicada na Folha de S.Paulo em 18 de Dezembro, (veja a matéria aqui) manifestando-se em defesa do Museu da Imagem e do Som e do Paço das Artes, reflete aquilo que é gerado pelas ações dessas duas instituições: a conexão entre espaços e pessoas a favor de amplo e vigoroso debate cultural.

Esses textos, publicados em sites, blogs e no Painel do Leitor da Folha de S.Paulo, apontam para fragilidade e a arbitrariedade dos argumentos do jornalista da Folha, que tenta disseminar uma idéia de crise institucional baseando-se em dados aparentemente distorcidos e em rumores não comprovados.

A artista Patrícia Canetti, diretora do Canal Contemporâneo, apurou junto ao Conselho de Administração da OS que administra as duas instituições, que a matéria está construída sobre estatísticas falsas. Segundo a autora, o levantamento feito junto aos funcionários concluiu que, na realidade, 25% consideraram a relação com a diretora Daniela Bousso “inadequada” e não 59% como publicado na matéria. O formulário ainda perguntava àqueles que haviam respondido essa opção, se a conduta poderia ser considerada “ofensiva”. Novamente a matéria informa erradamente o resultado: 14% responderam sim e não 54%. Com isso, de um total de 90 funcionários das duas instituições, apenas 3 responderam que a conduta da diretora seria “inadequada” e “ofensiva” (Fonte: tabela de resultados do Conselho de Administração da OS).

Essa ampla mobilização publica de agentes do meio cultural vem de encontro à necessidade de proteger espaços de excelência, que colocam São Paulo na linha de frente da pesquisa e da produção de arte contemporânea internacional. E de apontar para a necessidade de acertarmos o foco, quando o tema é crise institucional e políticas publicas.

Posted by Patricia Canetti at 3:55 PM

dezembro 20, 2010

Jornalismo cultural sensacionalista baseado em estatísticas falsas por Patricia Canetti

Jornalismo cultural sensacionalista baseado em estatísticas falsas

Texto de Patricia Canetti, artista e criadora do Canal Contemporâneo, em resposta a matéria "Demissões revelam crise no MIS e Paço" de Silas Martí.

ATIÇANDO A BRASA
Leia os artigos, comentários e cartas em resposta à matéria no "Dossiê: MIS e Paço das Artes - respostas à matéria da Folha de S. Paulo".

A matéria “Demissões revelam crise no MIS e Paço”, publicada na Folha de S. Paulo no sábado passado, já criticada pela atitude despolitizada (A despolitização da cultura por Giselle Beiguelman), pela falta de contexto sobre as instituições (Jornalismo marrom? por Juliana Monachesi) e pela abordagem “Caras” das políticas culturais (A cultura no mundo de Caras por Thiago Carrapatoso), comete erros graves mesmo para a linha jornalística assumida pelo autor, o jornalista Silas Martí.

A matéria fundamentada em um levantamento interno feito por funcionários das duas instituições, apesar de citar alguns nomes, se baseia exclusivamente em declarações anônimas. Portanto, as estatísticas do levantamento ganham importância de testemunho e deveriam, por isso, ter sido verificadas. Se o jornalista tivesse tido o cuidado de comparar versões, perceberia algo de estranho em suas fontes.

A tabela de resultados do levantamento consolidada pelo Conselho Administrativo da OS (Organização Social) responsável pelo MIS e Paço das Artes revelam outros números:

- No quesito “relação com a diretora”, 25% dos funcionários consideraram “inadequada”, e não 59% como foi publicado na matéria;

- O quesito em questão ainda perguntava àqueles que haviam respondido “inadequada”, se a conduta poderia ser considerada “ofensiva”. Novamente a matéria informa erradamente o resultado: 14% responderam sim e não 54% como afirma a matéria.

A matéria além de divulgar dados errados omite informações importantes na abordagem de pesquisas. A resposta “ofensiva” não resultou de pesquisa espontânea, mas induzida, e foi omitido o universo dos entrevistados: 85 funcionários responderam ao levantamento.

A análise dos dados revelados nesta tabela nos traz o seguinte resultado: De um total de 85 funcionários, 3 responderam que a conduta da diretora seria “inadequada” e “ofensiva”.

Mesmo em matérias de cunho sensacionalista, entendo que o público deva ser minimamente informado sobre o contexto do assunto, principalmente quando se trata de acusações anônimas. Aqui novamente o jornalista Silas Martí pecou em não revelar aos seus leitores o currículo da personalidade atacada e sua relação com as instituições em crise.

Portanto, faltou informar que Daniela Bousso, crítica e curadora de arte, ingressou no Paço das Artes em 1987 e tornou-se diretora em fevereiro de 1997, tendo sido convidada pela Secretaria de Estado da Cultura a assumir o reposicionamento do MIS em 2007, assim como a Direção Executiva da Organização Social de Cultura responsável atualmente pelas duas instituições.

E por fim, a matéria “esquece” de informar ao público que MIS e Paço das Artes comemoraram 40 anos de existência em 2010. Além de nada revelar sobre os perfis das instituições, novamente a matéria faz uso de números equivocados na comparação de visitação com a Pinacoteca do Estado. Como disse o curador e diretor do MAC-USP, Tadeu Chiarelli, em carta publicada hoje no Painel do Leitor na Folha: "Comparar o Paço e o MIS com qualquer outra instituição é não levar em conta que, ao assumirem posturas francamente prospectivas no campo da arte, essas instituições jamais terão resultados imediatos de público."

Posted by Patricia Canetti at 11:53 AM | Comentários (2)

A cultura no mundo de Caras por Thiago Carrapatoso, Trezentos

A cultura no mundo de Caras

Texto de Thiago Carrapatoso publicado originalmente no blog Trezentos em 20 de dezembro de 2010.

ATIÇANDO A BRASA
Leia os artigos, comentários e cartas em resposta à matéria no "Dossiê: MIS e Paço das Artes - respostas à matéria da Folha de S. Paulo".

Tudo é lindo, puro, branco e nada fede. Pelo contrário. Quer-se limpar o mais rápido possível a cultura que emerge em São Paulo. Recentemente, o cenário cultural da cidade presenciou ações políticas desastrosas quando o assunto se trata de arte na rua e preservação da história.

Primeiro, o alvo foram os grafites que povoavam os pilares que sustentam o engodo urbanístico Minhocão. Donada, equipes contratadas pela prefeitura resolveram “limpar” a área raspando a tinta dos desenhos e passando uma camada de pintura bege. Os grafites, nesta área da cidade marcada pelo descaso e abandono, mostravam que a região ainda pulsa. Era um sinal avisando que não importasse quanto concreto caísse na cabeça de seus moradores, a cultura e a arte ainda estariam ali, latentes, crescendo entre os vãos. Existe demanda, existe vontade, só faltam espaços para que ela consiga ser preservada (e se não há oficialmente, eles mesmos, os artistas de rua, dão um jeito para criar lugares para seus projetos).

Agora, aquele monstro ilógico de concreto e suporte para o tão exigente tráfego veicular está bege, pronto para receber a poluição, a sujeira e todos os outros detritos de uma região abandonada. É tudo limpo! É tudo moderno! É tudo esteticamente novo!

(A tempo: há iniciativas que tentam correr contra os caminhões de tinta para registrar os trabalhos desses artistas de rua. Fazendo uma busca simples, achei o Museu do Minhocão e o Mapa de Graffiti)

Logo depois, soube da demolição de um casarão na rua Augusta com a avenida Dona Antônia de Queirós. Um palacete de 1913 que não foi tombado por nenhum órgão público de preservação, como o Condephaat, Iphan ou Conpresp. Nada. O casarão foi abaixo para que, no futuro, seja construído um prédio, em uma área em que o metro quadrado poderá chegar a R$ 6 mil. Para que preservar a arquitetura histórica da cidade se se pode destruí-la para construir prédios que dão lucro? Talvez seja por isso que o prefeito da cidade, pegando um gancho na falta de atuação dos órgãos de preservação, deseja acabar – isso mesmo, acabar! – com 30% da região da Luz, carinhosamente apelidada de cracolândia, para, hum, “revitalizar” e construir o projeto da “Nova Luz”. Vamos limpar tudo! Vamos colocar o que é velho abaixo! Dê espaço para o novo, para o progresso!

E é engraçado que, ao fazer isso, Kassab quer agradar a elite, aquela mesma que paga fortunas para visitar cidades como Paris, Nova Iorque e Londres, onde diversos prédios históricos fazem parte do cenário urbano. Mas, não!, aqui no Brasil nós devemos destruir a nossa história, ruim, velha, de terceiro mundo, para dar lugar ao novo, ao moderno, ao de ponta.

Ainda não satisfeito com esses anúncios e projetos que lembram em muito uma época nebulosa da democracia brasileira, vem o prefeito e decreta: não se podem mais artistas de rua na avenida mais representativa da cidade. Tirem esses vagabundos que poluem a Paulista, com suas estátuas vivas, guitarras distorcidas e saxes desafinados! Vamos deixá-la limpa da arte que emerge na rua, da rua, para a rua! Só vamos deixar que o público consuma arte dentro de museus, espaços caros, bonitos e brancos, no Jardim Europa, ao lado de Ferraris, Porsches, Mustangs e tudo mais que representa o progresso!

(A tempo novamente: diversos grupos se organizaram para fazer uma manifestação hoje, segunda-feira, às 12h, saindo do vão do MASP. Veja a página do evento no Facebook)

E por falar em museus, há ainda o descaso por parte da mídia em cobrar os órgãos competentes sobre as iniciativas. A prefeitura vai se esbaldar com políticas assustadoras enquanto jornais como a Folha de S. Paulo, por exemplo, discutem as políticas culturais como se escrevesse para a revista Caras. Recentemente, uma reportagem do jornalão anuncia a crise do Museu da Imagem e do Som (MIS) e do Paço das Artes porque a diretora é considerada, hum, “autoritária”. O dado para isso é uma pesquisa realizada internamente e vazada para o jornalista em que alguns funcionários apontam a falta de empatia com a diretora.

Por que discutir motivos concretos para o abandono do MIS, como a dificuldade de se chegar ao local ou a falta de divulgação dos trabalhos realizados por lá, se eu posso criar uma fofoca cultural usando as personas de diretores? Por que levantar tudo o que foi feito pela instituição para averiguar se, realmente, o aspecto autoritário de um funcionário poderia provocar a falta de público em uma instituição cultural?

Tudo parece uma brincadeira, um jogo, um mis-en-scène para deturpar ainda mais a identificação cultural do brasileiro. Estamos em uma época em que, como bem disse Giselle Beiguelman, a cultura está despolitizada! Não há motivos para preocupação, não há motivos para articulação. Vamos deixar tudo sumir, jogar tudo embaixo do tapete, e sorrir! Afinal, agora, está tudo limpo!

E burro.

Posted by Patricia Canetti at 9:35 AM | Comentários (1)

dezembro 19, 2010

Sobre a matéria "Demissões revelam crise no MIS e Paço" (FSP.18.12.10) por Tadeu Chiarelli, Folha de S. Paulo

Sobre a matéria "Demissões revelam crise no MIS e Paço" (FSP.18.12.10)

Mensagem de Tadeu Chiarelli originalmente publicada no Painel do Leitor da Folha de S. Paulo, em 20 de dezembro de 2010, em resposta a matéria "Demissões revelam crise no MIS e Paço" de Silas Martí.

ATIÇANDO A BRASA
Leia os artigos, comentários e cartas em resposta à matéria no "Dossiê: MIS e Paço das Artes - respostas à matéria da Folha de S. Paulo".

Impossível ler qualquer coisa sobre Daniela Bousso, o MIS e o Paço das Artes (cujas comemorações recentes de seus 40 anos passaram praticamente despercebidas pela imprensa) e não lembrar o quanto Daniela, nessas duas instituições, vem fazendo para divulgar as vertentes mais radicais da arte brasileira e internacional, além de manter aberto esses espaços para a jovem produção artística brasileira. Por outro lado, comparar o Paço e o MIS com qualquer outra instituição é não levar em conta que, ao assumirem posturas francamente prospectivas no campo da arte, essas instituições jamais terão resultados imediatos de público. O que não retira de ambas a importância singular que possuem no quadro das instituições de arte no Brasil.

Tadeu Chiarelli
Diretor do MAC-USP

Posted by Patricia Canetti at 8:58 AM | Comentários (1)

Jornalismo marrom? por Juliana Monachesi, merzblog

Jornalismo marrom?

Texto de Juliana Monachesi originalmente publicado no MerzBlog em 18 de dezembro de 2010, em resposta a matéria "Demissões revelam crise no MIS e Paço" de Silas Martí.

ATIÇANDO A BRASA
Leia os artigos, comentários e cartas em resposta à matéria no "Dossiê: MIS e Paço das Artes - respostas à matéria da Folha de S. Paulo".

A reportagem da página 3 do caderno Ilustrada de hoje me surpreendeu e me senti no dever de escrever rebatendo alguns pontos do texto que exigem esclarecimentos. Há oito anos sou colaboradora do Paço das Artes, como crítica de arte da Temporada de Projetos, e minha convivência profissional com a diretora Daniela Bousso sempre foi pautada por respeito e incentivo ao diálogo e à construção coletiva de projetos e de conhecimento. Por isso me chama a atenção que o documento a que a Folha teve acesso classifique a diretora como “desrespeitosa” ou “autoritária”; não conheço o teor deste levantamento interno que teria sido realizado a pedido do conselho do Paço e do MIS, mas posso afirmar, com base em minha experiência profissional, que as duas instituições que Daniela Bousso dirige têm como característica principal a escuta constante e atenta das demandas e inquietações do meio de arte contemporânea e de novas mídias em São Paulo.

Na qualidade de público que acompanha de perto a programação das duas instituições há dez anos, posso afirmar com absoluta certeza que supostas “indefinição de planos de trabalho e exposições” e “decisões erráticas” apontadas na matéria são inconsistentes e incoerentes, uma vez que a excelência do programa de exposições de ambas as instituições é reconhecida nacional e internacionalmente. Inclusive, foi pela constância de uma programação engajada nas discussões da arte contemporânea que Daniela Bousso inseriu o Paço das Artes no mapa, hoje um espaço de referência. Do mesmo modo como vem fazendo à frente do MIS, desde sua reforma e devolução do museu à cidade de São Paulo até a programação considerada de ponta no que diz respeito à conexão entre cinema, fotografia e novas mídias. Nos últimos anos, basta mencionar mostras de Chris Marker, Gary Hill, Yang Fudong Bill Seaman e Pipilotti Rist, no plano internacional, e de Letícia Parente, Vik Muniz, Luiz Duva, Cassio Vasconcellos e Miguel Rio Branco, nomes de altíssima relevância no contexto brasileiro.

Posted by Patricia Canetti at 8:36 AM | Comentários (1)

A despolitização da cultura por Giselle Beiguelman, DesVirtual

A despolitização da cultura

Texto de Giselle Beiguelman originalmente publicado no DesVirtual em 18 de dezembro de 2010, em resposta a matéria "Demissões revelam crise no MIS e Paço" de Silas Martí.

ATIÇANDO A BRASA
Leia os artigos, comentários e cartas em resposta à matéria no "Dossiê: MIS e Paço das Artes - respostas à matéria da Folha de S. Paulo".

Reportagem publicada hoje na Folha de S. Paulo afirma que existe uma crise no Paço das Artes e no MIS. A crise seria resultante de problemas de relacionamento de alguns funcionários com a diretora das duas instituições, Daniela Bousso.

O caráter – supostamente autoritário e centralizador– e a postura agressiva e desrespeitosa da diretora, de acordo com a reportagem, seriam responsáveis por problemas de gestão institucional.

As informações, em grande parte, provem de um formulário em que os funcionários puderam expressar suas opiniões sobre Daniela Bousso.

Pelo que se conclui a partir dessa reportagem da Folha, em nenhum momento foram colocadas em discussão e para avaliação questões relacionadas à política cultural do Estado.

É informado, brevemente, que há uma insatisfação da Secretaria de Estado da Cultura com os números de visitantes que o MIS recebe por mês.

Não há qualquer menção ao fato de ter sido a gestão de Daniela Bousso a responsável pela reforma e reabertura do MIS, pela inauguração do primeiro laboratório público de criação com mídias digitais e pela internacionalização desse equipamento cultural, a partir de intercâmbios com centros de excelência como o MidiaLab Prado.

Haveria que se mencionar ainda o destaque que várias mostras do MIS e do Paço tem recebido com frequência nos principais guias e cadernos de cultura e avaliar qualitativamente os impactos dessas instituições.

É preocupante que uma crise institucional em museus públicos tenha como gancho problemas de relacionamento pessoal, um documento preparado pelo conselho (e não por uma empresa ou serviço especializado em gestão de RH) e nenhuma reflexão sobre políticas públicas culturais.

Posted by Patricia Canetti at 8:27 AM | Comentários (3)

dezembro 18, 2010

Demissões revelam crise no MIS e Paço por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Demissões revelam crise no MIS e Paço

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 18 de dezembro de 2010.

ATIÇANDO A BRASA
Leia os artigos, comentários e cartas em resposta a matéria no "Dossiê: MIS e Paço das Artes - respostas à matéria da Folha de S. Paulo".

Pelo menos 70 profissionais deixaram os museus em três anos alegando dificuldade em trabalhar com diretora

Daniela Bousso diz que "não há nada que possa ser provado" e secretaria pede averiguação de denúncias recebidas

Uma onda de demissões, sendo três delas de alto escalão na última semana, trouxe à tona uma crise de gestão no Museu da Imagem e do Som e no Paço das Artes, ambos museus subordinados à Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo e sob tutela da mesma organização social.

Pediram demissão na semana passada Marcelo Bressanin, gerente técnico do MIS, Marcio Junji, coordenador de comunicação do MIS e do Paço, e Danilo Oliveira, gerente técnico do Paço.

São demissões que completam uma lista de mais de 70 profissionais que deixaram as instituições culturais nos últimos três anos, período que corresponde à gestão da diretora executiva do MIS e do Paço, Daniela Bousso.

Entre outros que optaram por abandonar seus cargos, estão a coordenadora de comunicação, Paula Kasparian, a ex-gerente técnica do Paço, Marcela Amaral, e o ex-gerente técnico do mesmo centro, Fernando Oliva.

Pelo menos quatro desses profissionais ouvidos pela Folha alegaram como principal motivo da saída de seus cargos a dificuldade em trabalhar com a atual diretora.

"Ela é uma péssima gestora", diz uma ex-funcionária que não quis ser identificada. "Saí de lá porque ou procurava um psicólogo ou um advogado para abrir um processo por assédio moral."

DENÚNCIA

Segundo apurou a Folha, uma denúncia anônima contra abusos de Bousso foi encaminhada a responsáveis pelos museus da Secretaria de Estado da Cultura, que então pediu ao conselho administrativo do MIS e do Paço que apurasse o ocorrido.

Um levantamento interno conduzido por um grupo de dez funcionários a pedido do conselho concluiu que 59% dos funcionários consultados consideraram "inadequada" a relação com Bousso, sendo que 54% desses apontam como "ofensiva" a conduta da atual diretora.

Em relatos resumidos nesse documento, obtido pela Folha, funcionários classificam Bousso como "desrespeitosa", "ameaçadora" e dotada de um caráter "autoritário" e "centralizador".

Ainda segundo o texto, "a referida diretoria exerce pressão coercitiva para que se corroborem relatos".

Segundo funcionários ouvidos pela reportagem, a dificuldade nas relações pessoais com a diretora também tem provocado problemas na gestão dos museus.

Relatos dão conta de dificuldade na hora de inscrever projetos em leis de incentivo, atraso no fechamento de catálogos e ações de divulgação e indefinição de planos de trabalho e exposições para os semestres seguintes.

Funcionários ainda apontam decisões erráticas da atual diretoria como um dos motivos pela dificuldade em atrair público aos museus, que recebem cerca de R$ 13 milhões anuais do governo.

Em 2009, levantamento mostrava que o MIS recebia em média 3.600 visitantes por mês -a Pinacoteca tem 50 mil visitas em média.

OUTRO LADO

Para diretora, denúncias são apenas "fofoca"

Em entrevista à Folha, a diretora-executiva do Museu da Imagem e do Som e do Paço das Artes, Daniela Bousso, chamou de "fofoca" as acusações contra sua conduta, dizendo que "não há nada que possa ser provado".

Bousso disse não ter detalhes das cerca de 70 demissões ocorridas desde que assumiu a direção das duas instituições, mas sobre a saída dos três últimos profissionais, Marcelo Bressanin, Marcio Junji e Danilo Oliveira, que todos deixaram seus cargos por motivos pessoais.

Sobre as denúncias contra sua gestão, Bousso disse que nenhuma reclamação foi registrada em caráter formal.

"Não chegou a mim nenhuma denúncia formal, só sei de denúncias anônimas", afirmou Bousso. "É precipitado falar em denúncias, não tive notícias e fui surpreendida por isso. Não sei que tipo de denúncia é essa."

Ela confirmou que, após reclamações informais terem chegado à Secretaria de Estado da Cultura, o conselho de sua organização social prestou esclarecimentos e foi acionado pelo governo estadual a apurar os casos.

Procurado pela reportagem, o secretário estadual da Cultura, Andrea Matarazzo, não quis dar entrevista, mas enviou uma nota oficial.

"Nunca recebi denúncia formal de assédio ou má conduta na administração do MIS e do Paço, e sim comentários informais", diz o texto. "Mesmo assim reuni-me imediatamente com o conselho que administra os museus e pedi que averiguassem as questões levantadas." (SM)

Posted by Patricia Canetti at 9:45 AM | Comentários (11)

dezembro 15, 2010

Olhar de fotógrafo por Thiago Corrêa, Diario de Pernambuco

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 15 de dezembro de 2010.

Imagens de Lula Cardoso Ayres registram cenas do carnaval e paisagens do Recife

O ano de homenagens pelo centenário de nascimento de Lula Cardoso Ayres ficou restrito ao fim de 2010. A data redonda, que seria propícia para relembrar o legado de um dos nomes mais representativos da arte visual pernambucana, será marcada apenas pela exposição Olhar guardado: fotografias de Lula Cardoso Ayres, cuja abertura acontece hoje, às 19h, no Mamam - Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães (Rua da Aurora, 265, Boa Vista).

A mostra investe num lado pouco conhecido do trabalho de Lula Cardoso Ayres, que além de pintor, ilustrador e designer gráfico, explorou a fotografia como linguagem para desenvolver sua obra. ´A gente achava que a pintura ia ser explorada em outras exposições este ano e queríamos mostrar um lado desconhecido da obra de Lula`, justifica a diretora do Mamam, Beth da Matta. Além das fotografias, a mostra também contará com vídeo produzido pela TV Globo.

A exposição é composta por mais de 90 fotografias selecionadas por Georgia Quintas no acervo da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) e noarquivo pessoal de Lula Cardoso Ayres Filho. As fotografias - captadas nas décadas de 1930, 1940 e 1950 com as câmeras Leica e Roleflex - registram manifestações culturais, festas como o carnaval, paisagens do Recife, aspectos arquitetônicos das construções e a degradação do casario da capital.

A série que pertence à Fundaj remete ao ciclo do açúcar e traz imagens do canavial, referentes ao período em que o artista retornou da Europa para administrar o engenho do pai, em Rio Formoso. ´A gente percebe uma preocupação documental, até pela influência da Escola Regionalista por conta da sua proximidade com Gilberto Freyre`, explica Georgia Quintas.

Apesar desse interesse pelo registro, que se refletia no cuidado do artista com a preservação e organização desse material, a curadora ressalta que Lula Cardoso Ayres via a fotografia como uma prática artística.

Segundo Georgia, a preocupação estética do artista com a fotografia aparece no esmero dedicado à técnica e na composição das imagens. ´Se fosse só um esboço, ele não teria tanto cuidado. Como bom pintor, sabia o que funcionava numa cena`, observa a curador. ´Papai esperava a posição certa do Sol para a iluminação ficar do jeito que ele queria e poder fazer a fotografia`, confirma Lula Cardoso Ayres Filho.

Posted by Marília Sales at 3:46 PM

Artistas ocupam primeiro arranha-céu de São Paulo por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 15 de dezembro de 2010.

Edifício Sampaio Moreira, de 1924, abriga seis ateliês antes de receber a Secretaria Municipal de Cultura

Projeto está relacionado à revitalização do centro; artistas buscam transformar a vida nova no velho edifício

Um povo meio colorido tem subido e descido os elevadores suecos do Sampaio Moreira nos últimos meses.
Isso porque só três dos 12 andares do primeiro arranha-céu de São Paulo estão ocupados por seus ateliês -o resto, abandonado, é matéria-prima para esses artistas.

Seis deles estão trabalhando agora em estúdios criados nas salas do prédio construído em 1924, um "esquenta" bancado pela Red Bull antes que a prefeitura vá para lá com a Secretaria Municipal de Cultura, no ano que vem.

"Passo o dia inteiro andando pelos andares vazios", diz a artista Sofia Borges, tomando a segunda latinha de energético do dia. "Está em pleno processo de ruína, isso me interessa, é um desafio que acaba engolindo as obras."

Ela colou duas de suas fotografias -uma imagem da irmã feita há 20 anos e um camelo no zoológico- numa sala vazia da cobertura. Fica um grande silêncio observado por essas criaturas que destoam do estilo eclético de quase 90 anos atrás.

"Isso acontece pela força que esse espaço tem", diz Luisa Duarte, curadora que escolheu o grupo de artistas que ocupam o prédio. "Acaba gerando trabalhos que não são espetaculares, porque isso não tem a ver com o lugar, essa plataforma que causa invisibilidade."

Tanto que o projeto de Jaime Lauriano, jovem artista que começou a carreira mostrando suas obras num porão da Vila Mariana, agora gira em torno dos sons, e não de imagens, do prédio vazio.

"Vou andando por aí com um gravador", conta Lauriano. "É o silêncio da casa que me interessa, que traz essas possibilidades plásticas."

Silêncio e pó. Guilherme Peters, outro artista que se aventura pelo gigante abandonado no centro, teve a ideia de juntar a poeira acumulada nas salas para recriar imagens históricas do prédio ainda em funcionamento.

REVITALIZAÇÃO
Mas obras e marketing à parte, é um projeto em sintonia com a alardeada revitalização do centro paulistano.

Não muito longe dali, a Faap mantém uma residência artística na praça do Patriarca. Um prédio vizinho recebeu o acervo de um colecionador que pretende abrir o espaço para visitação.

Na São João, desembocando no Anhangabaú, uma galeria de arte africana e um hotel de Ramos de Azevedo recebem mostras temporárias.

Enquanto isso, muda a rotina do Sampaio Moreira. O artista Marcos Brias não terminou de criar sua obra, mas costuma comprar doces dos monges no mosteiro de São Bento e se encanta com o badalar dos sinos das igrejas.

No estúdio ao lado, Clara Ianni também pensa ainda em como transformar a vida nova no velho arranha-céu em alguma obra de arte.

"Tem toda essa memória, tem um resto de carpete, uma cortina, as marcas dos lustres", observa. "É o centro de São Paulo, um prédio abandonado. Deixo essa experiência informar o trabalho."

Posted by Marília Sales at 2:40 PM

dezembro 14, 2010

Carlito Carvalhosa enche uma galeria de luz em nova mostra por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 14 de dezembro de 2010.

Carlito Carvalhosa quer dissolver os espaços. Depois de erguer um imenso véu no vão central da Pinacoteca do Estado, ele enche de luz uma galeria no centro paulistano.

São lâmpadas fluorescentes, brancas, coladas nas paredes, no teto e no chão. Uma vibração elétrica ofusca a arquitetura e delimita o espaço com fortes traços luminosos.

"Existe um princípio básico de encher o lugar", diz o artista à Folha. "É como se agarrar ao lugar onde está."

Na Pinacoteca, sua instalação cobria com um manto a área central do prédio. Philip Glass fez um concerto na obra, mas não podia ser visto, já que o pano desviava o olhar para o resto do acervo.

Talvez seja esse o sentido de se agarrar ao lugar. No caso da Soso, onde expõe agora, uma overdose de luz desbanca as paredes da galeria, como se perdessem a função de conter o espaço e virassem monocromos que oscilam entre branco, cinza e negro.

Querendo ou não, Carvalhosa remete aqui aos experimentos do minimalista americano Dan Flavin, que usou as mesmas lâmpadas em construções escultóricas.

Mas, enquanto o minimalismo queria uma arte independente do espaço, obras absolutas -o branco total, o negro total-, Carvalhosa parece preferir a indefinição. E nunca independe do espaço. Se já fez árvores flutuarem num palácio em Salvador e fez sumir o miolo da Pinacoteca, agora replica a estética banal das lojas do centro num antigo hotel projetado por Ramos de Azevedo.

"São elementos comuns, essas lâmpadas, a relação com a rua", diz o artista. "É um lugar igual aos outros."
Isso porque ele tem aversão ao cubo branco, que chama de "lugar terrível". Sua obra não sobrevive em espaços neutros ou subverte qualquer ideia de neutralidade.

Depois das lâmpadas, sua próxima obra vai encher de postes de luz um galpão do novo Museu de Arte Contemporânea da USP, que se muda para o antigo Detran no ano que vem.

Posted by Marília Sales at 3:02 PM

Bienal de SP escolhe seu próximo curador por Fabio Cypriano , Folha de S. Paulo

Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 14 de dezembro de 2010.

Presidente reeleito hoje quer indicar a curadoria de 2012 o quanto antes

Entre os cotados estão os brasileiros Rodrigo Moura e Suely Rolnik e três estrangeiros, entre eles Hans-Ulrich Obrist

Com a reeleição certa de Heitor Martins, hoje, pela primeira vez, na última década, o novo presidente da Fundação Bienal é reeleito tão logo a mostra seja encerrada e sem ter apresentado sua prestação de contas.

A pressa tem um só sentido: Martins e a Fundação Bienal pretendem anunciar o curador da 30ª edição, de 2012, o mais rápido possível, para que ele ou ela tenham um prazo mais adequado para uma mostra desse porte.

Os curadores da edição que foi encerrada no último domingo tiveram pouco mais de um ano para tanto, prazo exíguo para uma exposição que ocupa cerca de 30 mil m2.

Martins, ao conseguir recuperar a instituição do ponto de vista financeiro, se tornou um consenso dentro da fundação.

Pouco antes da abertura da própria Bienal, numa reunião do conselho, sua reeleição chegou a ser proposta, mas só não se concretizou porque, para que ela ocorresse, seria necessária a convocação de uma reunião com esse fim, o que não tinha sido o caso.

Isso, contudo, foi a carta branca que o empresário precisava para já iniciar a escolha do novo curador e, com poucos membros da diretoria, entre eles os colecionadores Justo Werlang e Miguel Chaia, começou a realizar encontros e pedir projetos.

SONDADOS
Segundo a Folha apurou, cinco curadores foram procurados nesse meio tempo.

Entre eles, os brasileiros Rodrigo Moura, de Inhotim, e Suely Rolnik -que fez a exposição de Lygia Clark, na Pinacoteca, em 2006.

Os nomes estrangeiros incluem o venezuelano Luis Pérez-Oramas, curador de arte latino-americana do MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova York), o suíço Hans-Ulrich Obrist, diretor da Serpentine Gallery, em Londres, e o espanhol Agustin Perez Rubio, diretor do Museu de Arte Contemporânea de Leon y Castilla.

Obrist já está organizando uma mostra sobre arte brasileira, com apoio de Martins, mesmo antes de sua reeleição, que será exibida paralelamente à 30ª Bienal de São Paulo, junto com Paulo Herkenhof, entre outros.

Por já ter participado de várias outras bienais, entre elas a de Veneza, e por já estar envolvido com arte brasileira, Obrist seria o favorito do grupo, mas seu excesso de compromissos é um empecilho à sua escolha, embora ele tenha manifestado interesse em organizar a mostra

Entre os demais, segundo a Folha apurou, Pérez-Oramas, que também é muito envolvido com arte brasileira -ele foi o curador da mostra de Mira Schendel e León Ferrari no MoMA e na Fundação Iberê Camargo-, seria o favorito.

Ele já esteve, aliás, envolvido com a Bienal de São Paulo, em 1998, como um dos curadores convidados.

DECISÃO
No entanto, hoje à noite, Martins precisa convencer o conselho de que a decisão será apenas sua, já que alguns conselheiros queriam que o processo fosse mais democrático, por meio de uma comissão, como a que escolheu a curadora Lisette Lagnado, em 2005.

"Segundo o estatuto, essa é uma função da diretoria", defende Martins, que não confirma os curadores já citados como candidatos.

Martins apenas comenta, de forma sucinta: "São todos bons nomes". O anúncio, contudo, não deve demorar. "É nosso interesse decidir o mais rápido possível", conta o presidente.

Posted by Marília Sales at 2:50 PM | Comentários (2)

Hora de reflexão por Gustavo Fioratti, Folha de S. Paulo

Matéria de Gustavo Fioratti originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 14 de dezembro de 2010.

Com teor conceitual, mostra de viés político é contraponto ao vazio , mas não atinge meta de público

"Há sempre um copo de mar para um homem navegar": a frase sugerida como tema acabou descrevendo um presságio. O verso do poeta alagoano Jorge de Lima deu norte para uma Bienal de São Paulo de navegação não muito palatável.

Até anteontem, último dia do evento, 159 artistas expuseram na mostra avessa ao olhar instantâneo, com obras que demandavam até meia hora de atenção.

Encontros fundamentaram plataformas de diálogo. E 80 dias para assimilar a curadoria de forte inclinação conceitual de repente pareceram curtos.

Resultou que cerca de 530 mil pessoas passaram pelos corredores do pavilhão, o que destronou a expectativa do um milhão. Os números também foram impulsionados por um programa de educação que atendeu 300 mil.

"De qualquer forma, houve um salto em relação a edição passada, que trouxe somente 180 mil visitantes", defende o presidente da fundação, Heitor Martins.

Num mundo que pende para a alienação, o viés político deu as cartas. Os excessos provocaram instituições públicas e privadas. A Justiça censurou uma obra que panfletava em época de eleição. A OAB-SP quis vetar representação de assassinatos fictícios. Ambientalistas suspenderam o voo dos urubus.
Tudo em nome de um bem-estar normativo. Tudo pela sobriedade, justamente num lugar onde a embriaguez desvenda caminhos para a lucidez. "Acho que essa foi a contribuição dessa Bienal, seus problemas precisam ser revistos", defende a artista Graziela Kunsch, que apresentou trabalhos em vídeos e também debates.

Para ela, o sistema de vigilância ostensivo empregado desde a pichação de duas obras confronta um ambiente destinado à reflexão. "Os visitantes deviam ficar à vontade. Para participar de uma Bienal, o artista precisa permitir que seu trabalho corra riscos, inclusive de ser pichado ou destruído", diz.

EXCESSOS
O zelo dos seguranças acompanhou outros excessos. "Acho que tem trabalho demais, não precisava tanto", diz a servidora pública Janaína Castoldi, 33, que se diz "fã da Bienal do Vazio", em referência à controversa edição de 2008. O vazio, justamente ele, que nesta mostra serviu de contraponto.

Para o engenheiro Fabio Beivelis, 67, que já viu "mais de 15 bienais", a fartura está longe de ser um ponto negativo. "Acho que foram muito recorrentes as obras que precisaram vir com um manual de explicações", diz. "Mas isso não é necessariamente ruim. Isso também é arte."

O ajuste, para Beivelis, devia ser feito na climatização do edifício. O último dia, anteontem, foi desconfortável. O calor prejudicou sobretudo os visitantes interessados em vídeos, exibidos em salas apinhadas de gente.

A boa movimentação deu impulso à apresentação do grupo Tablado de Arruar em um dos chamados terreiros, o que contrastou com parte da programação.

Durante a temporada, performances e debates minguaram com a falta de público. Como a primeira apresentação da peça "Two Drawings" (dois desenhos) de Guy de Cointet (1934-1983), por Mary-Anne Duganne-Glicksman, vista por um grupo de educadores, apenas.

Mas houve também momentos bastante calorosos de "happenings". Rosângela Rennó foi aplaudida demoradamente por seu leilão de objetos antigos retrabalhados. O Núcleo Bartolomeu de Depoimentos também festejou a presença do movimento hip-hop na Bienal com uma plateia superparticipativa.

Posted by Marília Sales at 2:24 PM

O empresário mineiro Bernardo Paz se prepara para ir ao Fórum Mundial de Davos discursar sobre o Instituto Inhotim por Karla Monteiro, Globo.com

Matéria de Karla Monteiro originalmente publicada no segundo caderno do Globo.com em 12 de dezembro de 2010.

O empresário mineiro Bernardo Paz se prepara para ir ao Fórum Mundial de Davos, na Suíça, discursar sobre o Instituto Inhotim, segundo ele ‘a maior obra social que qualquer pessoa no mundo já fez’

BERNARDO PAZ: o mecenas, sócio de mais de 20 empresas de mineração e siderurgia e maior produtor independente de ferro-gusa do país, abriu em 2006 o museu de arte contemporânea com jardins de Burle Marx

Difícil enquadrar Bernardo Paz: postura de monarca e discurso anárquico. O homem intriga. Por um lado, ele é acusado pelo Ministério Público de sonegação de impostos e de receber, através da empresa Horizontes Ltda., dinheiro oriundo de paraísos fiscais. Por outro, ergueu um patrimônio para a Humanidade: Inhotim, o incrível museu de arte contemporânea semeado numa fazenda em Brumadinho, pequena cidade da região metropolitana de Belo Horizonte. O lugar é — de fato — um reino, avaliado em US$200 milhões.

São cem hectares de jardins botânicos com uma imensa coleção de espécies tropicais raras. O paisagista Burle Marx foi amigo de Paz e ajudou a orquestrar tal exuberância. Inhotim abriu as portas em outubro de 2006 e, de lá para cá, só ganha magnitude. Entremeando os jardins e lagos, são 17 pavilhões dedicados à arte contemporânea produzida entre os anos 1960 e hoje. Muitos dos nomes mais importantes estão lá: Tunga, Cildo Meireles, Miguel Rio Branco, Hélio Oiticica, Adriana Varejão (mulher do empresário), Doris Salcedo, Victor Grippo, Matthew Barney, Rivane Neuenschwander, Valeska Soares, Janet Cardiff & George Bures Miller, Doug Aitken. Nesse cenário vive o mecenas. Paz, sócio de mais de 20 empresas de mineração e siderurgia — e o maior produtor independente de ferro-gusa do país —, mora no casarão da fazenda, com Inhotim como quintal.

Na manhã da última quarta-feira, feriado em Belo Horizonte, ele se encontrava na parte externa do restaurante do museu, atrás de cinco caixinhas de água de coco e um maço de cigarros Carlton. Quando começa a falar, a voz é quase inaudível. Em janeiro, Paz vai viajar em missão diplomática. Foi convidado a sentar-se numa das mesas de discussão do Fórum Mundial de Davos, encontro anual que reúne na Suíça líderes da economia, de empresários a presidentes de banco. Está na mesma mesa da presidente do conselho dos museus do Qatar, Sheika Mayassa, e dos artistas plásticos Jeff Koons e Olafur Eliasson. O tema: arte contemporânea e filantropia.

O empresário, irmão do publicitário Cristiano Paz, sócio de Marcos Valério na SMPB, agência envolvida no escândalo do mensalão do PT, é bom de papo. Não tem travas na língua. Gosta de falar, embora raramente conceda entrevistas e não comente nada da vida pessoal ou dos negócios. Paz nunca eleva o tom da voz. Só quando solta um “puta que o pariu” para o celular que toca insistentemente. Entre soberbo e simpático, arrogante e elegante, defende a arte contemporânea como “a mais poderosa organização não governamental”. Diz que Inhotim é um exemplo único de projeto social no mundo. Mete o pau na elite brasileira. E desdenha do encontro em Davos.

BERNARDO PAZ: Tudo o que avança no sentido cultural é importante. Mas eu não gosto de ir a Davos, porque tenho dificuldade de me expressar para pessoas importantes. Elas se julgam tão importantes que não ouvem. O que precisamos é de atitude de quem tem dinheiro. Inhotim é uma fábrica de cidadãos, a maior obra social que qualquer pessoa no mundo já fez. Mas, ao mesmo tempo, não é nada. Bastaria os ricos entenderem que quem está do seu lado é gente. O DNA é o mesmo. Só falta treinamento. Eu quero que Inhotim se transforme em exemplo. Por isso falar em Davos talvez seja interessante. Bater na mesma tecla é bom.

O que o senhor pretende dizer em Davos?

Com sinceridade, eu estou indo para Davos porque me convidaram. Não sei nem quem me convidou. Quando chegar lá, vou olhar para a cara daqueles bundas-moles e mandar todo mundo para a puta que os pariu. E, se encontrar pessoas legais, vou tentar falar alguma coisa. O fórum que importa não é esse. O fórum está no governo de cada país, de cada estado, de cada cidade.

Inhotim é uma obra social?

Sim. É um treinamento. É mais fácil aprender aqui do que com um livro ou numa escola aborrecida. A curiosidade e a vontade de chegar lá vêm do exemplo. As pessoas, quando estão no museu, se sentem estimuladas, orgulhosas, porque entram em contato, se comunicam com gente pretensamente mais educada.

Vamos começar do começo: o senhor iniciou a sua coleção de arte contemporânea em 1980. Como surgiu o interesse pela arte? Comprar arte já era um “projeto social”?

Nunca tive ideologia. Minha filosofia de vida sempre foi humanista. Sempre apostei nisso. As pessoas, de forma geral, juntam um monte de dinheiro. E aí dão dinheiro para a Aids, dão dinheiro para isso, para aquilo... Mas nunca vão ao lugar para ver a cultura da população, para ver o que se pode tirar de proveito das pessoas inteligentes daquela comunidade. O ponto mais importante em qualquer sociedade é o treinamento. E o treinamento não é baseado na educação formal, mas em princípios. Ele traz à tona a curiosidade. A curiosidade talvez seja — e eu acho que é — a forma mais fácil de ensinar. A partir do momento em que você desperta a curiosidade, a pessoa quer saber, quer ir além.

Posted by Marília Sales at 1:56 PM | Comentários (1)

dezembro 13, 2010

Um apelo à simplicidade por Camila Molina, estadao.com.br

Matéria de Camila Molina originalmente publicada no caderno Cultura do Estadao.com em 8 de dezembro de 2010.

Marina Abramovic, estrela da performance art, exibe obras recentes e históricas em São Paulo

Em De Volta à Simplicidade (Back to Simplicity), mostra que Marina Abramovic exibe atualmente na Luciana Brito Galeria, há duas fotografias em que a artista segura uma margarida e lágrimas escorrem por seus olhos. São imagens sentimentalistas, afinal. Porque, como já diz o título da exposição, a sérvia, que se tornou uma representante histórica da performance art desde a década de 1970 - principalmente, de uma vertente de ações radicais com seu corpo - faz agora um apelo para que se "aproveite a vida ao máximo, já que temos a consciência de nossa morte". "Há lágrimas que são de entendimento", afirma ainda Marina, em entrevista ao Estado, por telefone, de Nova York, onde vive.

Segundo ela, alguma coisa mudou em sua vida depois que realizou a performance O Artista Está Presente (The Artist Is Present), o destaque de sua retrospectiva, de mesmo nome, este ano, no MoMA (Museum of Modern Art) de Nova York. Além de fotografias, vídeos, documentações de seus trabalhos, a própria Marina ficava sentada em uma cadeira no museu encarando, em silêncio, quem se sentasse a sua frente.

Para a artista, que nós últimos tempos tem seu interesse voltado apenas a performances de longa duração, foi um desgaste sua ação, mas ainda assim a revelação de que "não precisamos mais ter tantas coisas". "Era muito estranho voltar para meu apartamento - que é lindo - e pensar: Não quero tudo isso, é muito grande, muito sofisticado, quero uma coisa monástica, uma coisa que possa refletir meu estado interior...", ela conta também na entrevista ao curador Jacopo Crivelli Visconti em entrevista reproduzida no catálogo de sua atual mostra em São Paulo.

No caso das obras recentes de Back to Simplicity, foi uma paisagem na Itália que se tornou o refúgio de Marina Abramovic. Em fotografias de grande formato, vemos retratos da artista em comunhão com ovelhas e carneiros. Na primeira delas, ela leva nas costas uma "ovelha negra" entre um rebanho de ovelhas brancas. Depois, numa sequência de imagens, entre elas, a que ilustra esta página, Marina, vestida de branco, levanta um carneiro em meio a montanhas.

Na série, ainda, ela dorme pacificamente com os animais, os segura. Existe, assim, alguma referência a algum tipo de ritual? "O simbólico pode ser visto por cada um de uma maneira", diz a artista, que em uma mostra em 2006 no Sesc Pinheiros exibiu videoinstalação baseada na história dos rituais de fertilidade dos Bálcãs. Para fechar o primeiro conjunto de obras de Back To Simplicity, um vídeo apresenta Marina deitada sob uma árvore. Ela descansa.

Morte. Marina Abramovic esteve em novembro em São Paulo para a abertura dessa que é sua segunda individual na Luciana Brito Galeria. Na mostra anterior no local, em 2008, Objeto Transitório para Uso Humano ela apresentou uma série do que chama de "objetos" - e não esculturas - de motivo terapêutico feitos com pedras brasileiras. Mas agora, Back to Simplicity mistura o presente e o passado reunindo tanto séries novas e alguma parte inédita da artista - representada por fotografias e vídeos - quanto uma passagem por trabalhos históricos.

Há uma sala dedicada à série A Cozinha (The Kitchen), de 2009, que Marina diz ter se baseado em Santa Teresa de Ávila. Realizada na cozinha de um monastério da Ordem dos Cartuchos, local em que freiras faziam comida para oito mil órfãos, a obra ganha ares surreais com aparições da artista, vestida de preto, a flutuar pelo local.

Essa imagem está em um dos vídeos, mas em outro, Marina circunda com suas mãos um crânio. É a referência explícita à morte, com o símbolo que representa, na tradição da história da arte, o tema da "vanitas" (vaidade) - a mensagem de que todo ser é mortal. "Não que seja uma menção pessimista. A morte faz parte de um processo natural do ser humano. É um fato da vida", afirma a artista.

Entretanto, é curioso como a questão adentrou outro projeto de Marina Abramovic, o de fazer a cada seis anos, desde 1989, uma encenação sobre sua vida em parceria com diretores teatrais. A próxima peça, com estreia prevista para 2011 em Londres, vai ser dirigida pelo diretor e dramaturgo americano Robert Wilson. "Nesta, vou fazer minha mãe e eu mesma. Será sobre toda a minha vida, incluindo, agora, a morte, com dois funerais. Nunca havia feito isso", conta Marina.

Preservação. Conservar a memória de trabalhos emblemáticos - no balanço entre simplicidade e radicalismo - como a performance Rhythm 0 (1974), em que ficou durante horas em uma galeria de Nápoles disponível para que os presentes abusassem ou não de seu corpo ao colocar sobre uma mesa instrumentos diversos como navalhas e até um revólver, é uma preocupação para a artista. Tanto que o Instituto Marina Abramovic de Preservação da Performance Art em Hudson (NY) está previsto para ficar pronto em 2012, ela conta. Mas, enquanto isso, é possível ver na atual exposição em São Paulo vídeos e fotografias históricos de performances dos anos 1970 - entre elas, as famosas feitas com seu ex-parceiro Ulay. O catálogo bilíngue da mostra tem um caráter retrospectivo, mencionando todos seus trabalhos e ainda apresentando texto do filósofo e crítico americano Arthur C. Danto.

QUEM É
MARINA ABRAMOVIC
ARTISTA E PERFORMER

Nascida em Belgrado, em 1946, Marina, que vive e trabalha em Nova York, ficou conhecida a partir da década de 1970 por performances em que, muitas vezes, se colocava em situação de risco, dor e exaustão. Recebeu em 1997 o Leão de Ouro na 47.ª Bienal de Veneza, prêmio dedicado à sua carreira.


Posted by Marília Sales at 4:05 PM

Obras polêmicas são excluídas da Bienal itinerante por Fabio Cypriano, Folha de S. Paulo

Matéria de Fabio Cypriano originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 12 de dezembro de 2010.

Apesar de fechar as portas hoje com quase metade do público esperado, a 29ª Bienal de São Paulo ainda pode chegar ao um milhão de visitantes anunciado, graças à itinerância da mostra, que seguirá, no próximo ano, por 12 cidades do país.

"A itinerância reforça a ideia que criamos uma exposição que se pretende mais próxima do público", diz Heitor Martins, presidente da Fundação Bienal. "Como ela irá ocorrer em 12 pontos, se a média de cada um for 50 mil, conseguiremos ultrapassar o um milhão", contabiliza.

Ainda não estão definidas todas as obras para cada etapa da mostra. "Isso está sendo acertado entre os curadores da Bienal [Agnaldo Faria e Moacir dos Anjos] e os de cada instituição", diz Emílio Kalil, que foi o produtor do evento, mas desde quinta passada é o secretário de Cultura do Rio de Janeiro.

Segundo dos Anjos, por problemas técnicos, duas das obras mais polêmicas da mostra, "Bandeira Branca", de Nuno Ramos, e "A Alma Nunca Pensa sem Imagem", de Roberto Jacoby, que fazia campanha por Dilma Rousseff, não serão exibidas em outras cidades.

"Já o trabalho de Gil Vicente ["Inimigos'] poderá ser exibido em outras circunstâncias sem problemas técnicos e sem prejuízo para o seu significado", diz dos Anjos.

A itinerância da Bienal começa em Belo Horizonte, no dia 18 de janeiro, no Palácio das Artes; em março, ela ocupa o Museu de Arte Moderna do Rio e o de Salvador; em abril, o Museu Oscar Niemeyer, de Curitiba; em maio, estão agendadas exposições no Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Porto Alegre) e no Museu Nacional de Brasília; e em julho, encerra-se a turnê nacional no Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, em Recife.

No interior de São Paulo, a Bienal será vista em unidades do Sesc, nas cidades de Campinas, Santos, Araraquara, Ribeirão Preto e Piracicaba, entre os meses de abril e junho.

Posted by Marília Sales at 2:54 PM

Bienal de São Paulo chega hoje ao fim por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 12 de dezembro de 2010.

Mostra no Ibirapuera atraiu cerca de 530 mil pessoas até agora para ver obras de 159 artistas e 300 atividades

Saiba o que priorizar em visita rápida no último dia para não perder as obras mais clássicas e trabalhos polêmicos

Foram mais de 80 dias de exposição, obras de 159 artistas, algumas centenas de performances, exibições de filmes, palestras e debates.

Também dois ataques de pichadores e uma dramática retirada de três urubus do pavilhão, na calada da noite.

É com saldo meio positivo e negativo que termina hoje a 29ª Bienal de São Paulo. Até agora, cerca de 530 mil pessoas visitaram a mostra.

Se ainda não chegou à marca de 1 milhão de visitas que planejava, essa edição conseguiu devolver o público à mostra esvaziada de dois anos atrás, quando um andar inteiro ficou sem obras em protesto pela crise política e financeira da instituição e ainda foi alvo de pichadores.

Dessa vez convidados a participar, membros do grupo Pixação SP reivindicaram autoria do ataque à obra de Nuno Ramos, que mantinha três urubus num viveiro dentro do pavilhão, retirados depois por ordem do Ibama.

Em todo caso, foi uma mostra de retomada, com caráter museológico. Quem fizer uma visita derradeira hoje pode aproveitar para ver alguns clássicos da arte brasileira, como os "Ninhos" de Hélio Oiticica, a reedição em vídeo da performance "Divisor", de Lygia Pape, e a documentação das performances do artista Flávio de Carvalho.

Entre os contemporâneos, a instalação "Bandeira Branca", de Nuno Ramos, mesmo sem os urubus que faziam parte da obra, é um dos trabalhos mais fortes da Bienal.

Junto dele, "Abajur", instalação de Cildo Meireles em que homens escondidos sob um cenário movimentam o desenho de uma paisagem idílica, é outro ponto alto.

Ramos e Meireles, já consagrados, encontram eco na poética de jovens revelações, como Jonathas de Andrade e Henrique Oliveira, que falam de um Brasil menos ufanista, mais soturno em suas obras.

Entre os estrangeiros, destaque para os painéis do artista conceitual Joseph Kosuth e a obra audiovisual de Chantal Akerman, Nan Goldin, Steve McQueen, Apichatpong Weerasethakul e Harun Farocki. Todos refletem sobre a natureza da imagem num momento em que o Brasil repensa a sua cara.

Posted by Marília Sales at 2:47 PM

dezembro 8, 2010

8ª Bienal do Mercosul começa a ser definida, Estadão.com

Matéria originalmente publicada no caderno Cultura do Estadao.com em 8 de dezembro de 2010

Mostra vai levar o título de Ensaios de Geopoética e acontecerá em Porto Alegre entre setembro e novembro de 2011

A 8ª edição da Bienal do Mercosul irá tratar da territorialidade e sua redefinição crítica a partir de uma perspectiva artística. A mostra vai levar o título de Ensaios de Geopoética e acontecerá em Porto Alegre entre setembro e novembro de 2011.

Os artistas convidados partem das perspectivas geográfica, política e cultural para discutir noções de localidade, nação, identidade, território, mapeamento e fronteira.

Já confirmado, o chileno Eugenio Dittborn é o homenageado nesta edição. Em sua obra é marcante a presença do trânsito entre territórios, modo nômade e meios de percorrer fronteiras com isenção. A riqueza iconográfica das Pinturas Aeropostais, mistura de desenho, costura, pintura e colagem, poderá ser vista no Santander Cultural.

O curador-geral será José Roca. Integram a curadoria a historiadora Aracy Amaral como convidada e Pablo Helguera (México) como curador pedagógico. Participam também como curadores adjuntos Alexia Tala (Chile), Cauê Alves (Brasil) e Paola Santoscoy (México). Por fim, Fernanda Albuquerque (Brasil) será a curadora assistente.

A previsão dos organizadores é que na segunda semana de dezembro, esteja no ar um blog voltado à 8ª edição do evento para contar o dia-a-dia da concepção e produção.

Posted by Marília Sales at 1:00 PM

dezembro 7, 2010

"Conseguimos fazer uma boa Bienal" por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 6 de dezembro de 2010.

Presidente da fundação, Heitor Martins nega frustração com resultado de público e exalta recuperação da imagem

Curador-chefe Moacir dos Anjos reclama que "polêmica rasa" ofuscou obras importantes e diz querer mostra "enxuta"

Não foi aquele sucesso retumbante alardeado antes do início nem um fracasso de qualquer natureza.
Quando fechar as portas no próximo domingo, com metade do público que pretendeu atrair, a 29ª Bienal de São Paulo terá provado que reverteu o quadro de falência da mostra, visto na edição vazia de dois anos atrás.

Mas não sem tropeços. No lugar de 1 milhão de visitantes, as bilheterias devem encerrar os três meses de exposição com público de 553 mil, mesmo patamar de visitação da 27ª Bienal, em 2006.

Fora isso, foi uma Bienal ofuscada por uma série de polêmicas, desde o início.

Logo na abertura, pichadores convidados da mostra atacaram a instalação de Nuno Ramos, que então abrigava três urubus vivos. Ambientalistas e, mais tarde, o Ibama forçaram a retirada das aves, com base em laudo que julgava o pavilhão impróprio para os animais.

Também na abertura da exposição, a curadoria antecipou uma possível repreensão da Justiça Eleitoral e censurou a obra do artista argentino Roberto Jacoby, que fazia campanha pela então candidata Dilma Rousseff.

Desenhos do artista Gil Vicente, em que líderes políticos como Lula e George W. Bush aparecem assassinados, também despertaram a revolta da Ordem dos Advogados do Brasil, que pediu a retirada da obra, ao ver ali uma incitação ao terrorismo.

Mas nada disso parece azedar a avaliação do presidente da Fundação Bienal de São Paulo, Heitor Martins.

"Começamos atrasados, com um prazo bastante curto e um grau de incerteza grande", lembra Martins em entrevista à Folha. "Conseguimos reverter a trajetória declinante, e o fato de não chegarmos aos números colocados não é uma frustração."

Eleito há dois anos com a missão de recuperar a imagem da instituição e pôr as contas em ordem, Martins arrebanhou amigos do mercado financeiro para injetar dinheiro na mostra, sanou um rombo de R$ 4 milhões e fez uma edição da Bienal com orçamento de R$ 25 milhões.

"Havia uma série de pendências da edição anterior e uma dívida bancária", diz Martins. "Agora vamos fechar este ano com um balanço muito limpo, o patrimônio vai ser positivo e vamos ter uma reserva de caixa."

Também já começou um processo de reforma do pavilhão desenhado por Oscar Niemeyer nos anos 1950.
Chega ao fim agora a primeira etapa da readequação, que consumiu R$ 5 milhões, sendo 80% do valor repassado pelo Ministério da Cultura, para atualizar dispositivos de segurança do prédio.

Martins também trabalha para tornar permanente parte da estrutura usada nessa edição da Bienal, como o projeto educativo. Quase metade do público da mostra, aliás, foi de alunos e professores atendidos pela equipe de educação da exposição.

Enquanto superou expectativas ao treinar 30 mil professores, em vez de esperados 20 mil, não chegou a bater a meta de 350 mil alunos.

"Esse número ficou um pouco aquém", disse Martins, que culpou a falta de ônibus para o transporte dos estudantes. "A logística se tornou muito desafiadora."

ESPETÁCULO
Tão desafiadora que parece ter assustado Moacir dos Anjos, um dos curadores-chefes da mostra, ao lado de Agnaldo Farias. À frente de sua primeira exposição desse porte, Dos Anjos disse à Folha que não pretende fazer outra Bienal de São Paulo.

"Foi uma experiência única em dois sentidos, de ser a primeira e a última vez que trabalho nessa escala", diz o curador. "Não é mais o meu foco nem o modelo que eu quero trabalhar no futuro."

Dos Anjos falou do paradoxo que é organizar uma exposição gigantesca que não fosse refém do próprio gigantismo e admite que teria feito uma mostra "mais enxuta" se tivesse tempo.

"É como fazer um grande espetáculo sem sucumbir à lógica de espetáculo", diz. "Não sei qual é a solução."
Ele também lamenta o fato de a polêmica em torno de algumas obras ter ocupado o centro do debate e ofuscado outros trabalhos. "Isso fez com que pessoas não prestassem atenção a uma série de trabalhos muito importantes, que passaram batidos", diz Dos Anjos. "Essa polêmica se deu de maneira muito rasa, superficial."

Inovação da Bienal, os terreiros, pontos de encontro para teatro, cinema e dança espalhados pelo pavilhão, também foram criticados.

Embora Dos Anjos tenha elogiado a ideia de misturar vertentes artísticas, disse que houve uma "vizinhança complicada" com outras obras, por causa do barulho causado pelas atividades.

Posted by Marília Sales at 1:41 PM

dezembro 3, 2010

Pioneiro da gravura em metal tem mostra em São Paulo por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Matéria de Silas Martí originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 3 de dezembro de 2010.

Cerca de 60 obras de Carlos Oswald, artista que retratou Florença e o Rio do início do século 20, estão em cartaz na Caixa Cultural

Uma mulher reclina a cabeça e fecha os olhos. Foi esse sonho que o artista Carlos Oswald retratou na primeira gravura que fez no Brasil depois de começar a carreira na Itália, em que passou certo tempo desenhando bois movendo blocos de mármore.

Das paisagens cruas da Toscana, e mesmo cenas urbanas de Florença, onde nasceu, Oswald fez no Rio paisagens bucólicas da então capital da República, donzelas ao piano e uma série de alegorias religiosas que inventou. Esses dois lados da produção do pioneiro da gravura em metal no país, morto em 1971, estão agora em mostra com cerca de 60 obras na Caixa Cultural, em São Paulo.

Filho de uma italiana e um brasileiro, o artista começou em Florença a técnica que depois difundiu no Liceu de Artes e Ofícios do Rio. Na fase italiana, que ocupa metade da galeria, estão ciprestes ao vento, a célebre ponte dos ourives florentinos e animais arrastando todo o mármore de Carrara.

Quando chega ao Rio, dá viés mais lírico à produção.
Usa cor em cenas da praia e registra também a aleia do Jardim Botânico. Inova na composição de cenas religiosas, deslocando Cristo e a luz que recai sobre ele para o canto de duas composições.

Sua irmã aparece tocando piano noutra gravura. Oswald dá ao vestido da moça, à sua pele e ao plano de fundo da composição uma textura mais difusa, que parece abraçada pelas cores.

Talvez pela influência do pai, o músico Henrique Oswald, ele também tenha feito uma série de retratos de grandes compositores, como Bach, Chopin e o maestro brasileiro Carlos Gomes.

Posted by Cecília Bedê at 2:20 PM

Brasil tem mercado com maior potência, diz diretor de feira por Lucrecia Zappi, Folha de S. Paulo

Matéria de Lucrecia Zappi originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 3 de dezembro de 2010.

À frente da Art Basel há 3 anos, Marc Spiegler reforça papel latino e diz que vendas do setor estão aquecidas

Nona edição americana do maior evento das artes segue até o próximo domingo com mais de 250 galerias

"Fundamental é visitar as galerias, além dos 45 minutos que antecipam os lances, quando posso conversar com as pessoas", diz Marc Spiegler, apertando o passo em Chelsea, bairro de Nova York que concentra o maior número de galerias da cidade. Estamos na semana de leilões de arte contemporânea.

É a última parada do codiretor da Art Basel antes de ir a Miami para a nona edição americana da maior feira de arte do mundo, a Art Basel Miami Beach, que vai até domingo, com mais de 250 galerias participantes.

Será que a trinca Sotheby's-Christie's-Philips empolga pelas compras ou o impulso dos colecionadores assusta, por gastar tudo em Nova York e se conter mais em Miami?

"Só nesta semana foram US$ 650 milhões [R$ 1,1 bilhão] de vendas nos leilões", afirma Spiegler, otimista, ao que o galerista Andrew Kreps reage, rindo: "A coisa está indo tão bem que vão voltar a falar em fundo de arte".

Mesmo que o ex-jornalista Marc Spiegler, 42, seja codiretor da feira há três anos -ele é responsável pelo conteúdo, enquanto Annette Schönholzer cuida do design-, é difícil não compará-lo a seu antecessor.
Sam Keller não só reinventou Miami ao criar a Art Basel Miami Beach em 2000 como fez da feira o maior polo da arte latino-americana.

Resta a Spiegler, natural de Chicago, que mora em Zurique -além do inglês, fala francês e alemão-, reforçar o sangue latino da feira. Para o comitê que seleciona as galerias, do qual a galerista Luisa Strina participa desde o início, Spiegler convidou Márcio Botner, de A Gentil Carioca, no Rio, e o mexicano José Kuri, da Kurimanzutto.

BRASIL
"Nossa relação com o Brasil é intensa. É o mercado com a maior potência, temos muitos colecionadores e galerias aí", afirma Spiegler.

E por que não fazer uma extensão da feira no Brasil? "Iríamos canibalizar o que já temos. Muitos colecionadores latinos têm família, casas e negócios em Miami, se sentem em casa lá."

Ao entrar na exposição de Robert Rauschenberg, na galeria Gagosian, ele se impressiona: "Outra exposição com qualidade de museu".

As pessoas têm deixado de ver exposições individuais para frequentar as feiras? Spiegler acha que sim, mas frisa que o objetivo da feira é fazer contatos.

"Crucial na equação é que se descubram obras e galerias novas. Ao desenhar o espaço, criamos vizinhanças com estéticas parecidas que atraem colecionadores semelhantes", diz ao entrar na galeria Yvon Lambert.

Nas paredes, há réguas disformes, feitas a partir de fotos de silhuetas de prédios destruídos pelo terremoto de 1985 na Cidade do México. "É uma direção nova que o artista Carlos Amorales está tomando? Caos com rigor é muito latino-americano."

Miami transpira arte com 20 eventos paralelos

Não dá para ver tudo.
A feira Art Basel Miami Beach é só a ponta do iceberg -no sol. Na cidade, há mais de 20 eventos do gênero acontecendo ao mesmo tempo, além dos museus, das coleções particulares e de outros projetos.
Especialmente em Miami, arte e excesso são lugar-comum: na recuperação da crise, há quem veja isso como otimismo.

Até domingo, é esperado que mais de 40 mil pessoas circulem pela nona edição da feira, a maior do segmento dos EUA, com mais de 250 estandes com 2.000 artistas de todo o mundo.

As galerias de maior destaque estão na Art Galleries, como a nova-iorquina Marian Goodman ou as paulistanas Luisa Strina e Millan.

Mas há também a Art Kabinett, com 20 mostras, a Art Nova, com 50 artistas emergentes, e a Art Positions, na qual 14 galerias jovens mostram projetos especiais.

EXPERIMENTALISMO
O segmento mais ambicioso da feira neste ano é o Oceanfront Nights, curado pela Creative Time, de Nova York, que faz projetos públicos. A ideia é destacar o teor experimental de quatro cidades: Detroit, Cidade do México, Berlim e Glasgow.

A Art Basel Conversations promove mesas-redondas com curadores, colecionadores e artistas, e a Art Public, também da Art Basel, apresenta esculturas e instalações externas.

Além da Art Basel Miami Beach, há as outras feiras importantes como a Design Miami, a Scope a Pulse, além dos museus e das coleções privadas como a Rubell e a Margulies.


Posted by Cecília Bedê at 2:11 PM

dezembro 2, 2010

Entre águas e segredos por Ana Cecília Soares, Diário do Nordeste

Matéria de Ana Cecília Soares originalmente publicada no Caderno 3 do jornal Diário do Nordeste em 2 de dezembro de 2010.

Os artistas visuais Caetano Dias e Meire Guerra apresentam uma prévia de sua arte, a partir de duas individuais, em cartaz até esse mês, no MAC

Símbolo da dinâmica da vida, a água é o lugar das transformações e dos renascimentos. Seu movimento, segundo Jean Chevalier e Alain Gheerbrante, no "Dicionário de Símbolos", conduz a um estado transitório entre as possibilidades ainda informes as realidades configuradas. Uma situação de ambivalência que, ao mesmo tempo, refere-se aos mundos da vida e da morte.

Numa referência quase mística ao sentimento onírico que brota da água, o baiano Caetano Dias deixou-se contaminar por essa atmosfera para compor os vídeos de sua primeira individual em Fortaleza. A exposição, que fica em cartaz no Museu de Arte Contemporânea (MAC) do Dragão do Mar, até 12 de dezembro, apresenta alguns trabalhos que o artista desenvolveu numa residência artística no Laboratório de Novas Mídias do Museu da Imagem e do Som ("LabMIS"), de São Paulo, em 2008.

Um dos vídeos mais interessante é o "1978 - Cidade Submersa", com duração em torno de 15 minutos. A partir de uma linguagem mesclada entre o documentário e a ficção experimental, o artista narra visualmente a soberania da água represada para a fundação da hidrelétrica do Lago de Sobradinho, no rio São Francisco, que fez submergir parte da cidade de Remanso, no sertão da Bahia.

As próprias imagens guardam em si a tensão e a poesia de uma cidade engolida pela água em virtude de um suposto progresso social. Outro trabalho que chama atenção pelo seu teor experimental, é o vídeo-instalação "Mar".

Projetado em uma daquelas "pedras d´água", que encontramos na beira da praia, o vídeo traz imagens de um homem nadando nu em alto mar. Embora, nos transmita uma sensação de delicadeza, a angústia também se faz presente, uma vez em que a personagem aparece, por ora, meio que preso entre rochas. Mas, a poesia é visível nesse trabalho.

Ser Mulher

A artista visual Meire Guerra também está com exposição aberta no MAC, até 19 de dezembro. Inspirada no livro "Água Viva", de Clarice Lispector, a artista fez vir à tona "Segredos".

A mostra traz como tema central de sua pesquisa poética visual, o "ser mulher", com sua presença, particularidades, inquietações, leveza, violência, medos, angustias, alegria, ou simplesmente, o seu existir.

"Passeando em uma obra literária dialogando a interdisciplinaridade artística, uma vez que me aproprio dos trabalhos ou das vidas dessas mulheres, artistas ou não, para falar de mim utilizando minha mala e pedindo o auxílio de uma mediadora chamada Clarice. A partir de um trecho solto no texto, busco descobrir os segredos delas e mais do que isso, penso que a minha caminhada é a procura de saber dos meus próprios segredos".

Por meio de vídeos e objetos, Meire Guerra apresenta ao espectador, mulheres diferentes, em locais e situações diversas, ligadas a uma espécie de recipiente de imagens, uma mala antiga, "onde tudo pode acontecer, onde se pode habitar. Porém deve-se imprimir sua marca, refletir sobre esta e presenteá-la ao infinito eternizando-a nos espelhos construídos por narradoras e personagens".

A artista conclui: "Vejo-me em todas essas mulheres. Vejo-me na própria Clarice que propicia tudo isso. Estou encantada com a possibilidade de todas elas permanecerem para sempre na minha malinha. Viajante, malinha que já não é mais só minha mais sim de todas nós".

Posted by Cecília Bedê at 3:44 PM

A formação de volta ao Dragão do Mar por Ana Cecília Soares, Diário do Nordeste

Matéria de Ana Cecília Soares originalmente publicada no Caderno 3 do jornal Diário do Nordeste em 2 de dezembro de 2010.

O Núcleo de Formação em Arte e Cultura do Dragão do Mar vem desenvolvendo um importante trabalho educativo ao investir em cursos, oficinas e seminários críticos nas mais diferentes linguagens artísticas. Um dos destaques é a palestra "Novas políticas estéticas", ministrada, amanhã, pela crítica literária Heloísa Buarque de Hollanda

Dentre as ações mais significativas que o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura vem realizando, recentemente, está o trabalho de rearticulação de seu Núcleo de Formação em Arte e Cultura. Com a coordenação pedagógica de Andréa Bardawil e Enrico Rocha, as ações têm proporcionado ao público em geral, uma variedade de cursos, oficinas e seminários críticos nas áreas de dança, teatro, artes visuais, literatura, fotografia, música, audiovisual, design e patrimônio.

A iniciativa é um esforço raro em Fortaleza, quase sempre, um cenário desolado, quando se trata do estímulo à criação e a formação no campo das artes. Os cursos são gratuitos e ministrados por profissionais cearenses e de outros estados brasileiros. Os participantes também recebem certificação destinada a cursos livres.

Segundo Enrico Rocha, essa é a oportunidade de reunir experiências e de discutir questões importantes aos segmentos artísticos. Ampliando o conhecimento e proporcionando aos participantes outras leituras e reflexões críticas.

"Andréa e eu assumimos, em julho desse ano, a coordenação pedagógica do Núcleo de Formação. O Seminário ´Arte, Invenção e Experiências Formativas´, realizado em agosto passado, foi que deu início a essa série de atividades. Acreditamos que a formação é fundamental para o desenvolvimento intelectual e artístico das pessoas", diz.

Rocha destaca que o projeto de rearticulação do Núcleo de Formação em Arte e Cultura, coordenado por ele e Andréa Bardawil, encerra-se no dia 17 de dezembro, mas a expectativa é que continue com ações permanentes a partir do próximo ano. "Temos o desejo de retomar a ideia dos cursos técnicos que existiam no Dragão do Mar, em seus primeiros anos de atuação. Atualmente, só temos o técnico em dança, coordenado pela Andréa, com a parceria do Senac. O curso já está em sua terceira turma, e tem duração de dois anos. O ideal é que todas as áreas sejam contempladas".

Em sua maioria, as oficinas promovidas pelo Núcleo estão sendo realizadas no antigo prédio da Capitania dos Portos (rebatizado de Capitania das Artes). "Esse espaço é maravilhoso, e em breve o Núcleo de Formação funcionará lá junto com uma parte do setor administrativo do Dragão do Mar. É interessante pensar o Núcleo e suas ações como um ambiente de encontro e debate. Além de permitir a troca e a partilha das experiências entre participantes e facilitadores", constata Rocha.

Embora venha realizando um bom trabalho, o futuro do Núcleo de Formação, ainda, é incerto. Contudo, espera-se que o próximo Governo dê continuidade a iniciativa. Não seguindo o velho hábito (nã só do Estado), de não aproveitar os projetos que dão certos de uma gestão para outra.

Crítica literária

A escritora e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Heloísa Buarque de Hollanda estará na cidade, amanhã, a partir das 18h30, para ministrar a palestra "Novas políticas estéticas". No sábado, ela vai realizar, das 9 horas às 12 horas, a oficina "Crítica hoje". As duas ações acontecem no Auditório do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura.

Na palestra, a pesquisadora discutirá a estética como política afirmativa nas culturas da periferia. Considerando os movimentos minoritários que sempre se valeram de estratégias discursivas para se expressar.

"Isso ocorreu com a literatura e a criação artística das mulheres, com a cultura negra e com a cultura gay. Atualmente, entretanto, a estética como política de afirmação e transformação é o lema das culturas de periferias e favelas. Um exemplo é o hip hop, que une criação artística e política e utiliza a cultura como recurso", explica a professora.

Heloísa Buarque de Hollanda observa que a função social da arte está mostrando sinais de alterações estruturais. "Mais uma vez, é função do crítico não rejeitar estas transformações ou reduzi-las a ´retrocessos´ na história da arte, mas investir no exame dos sintomas emergentes, acompanhando os caminhos das novas políticas e estéticas com o mesmo vigor com que o impulso criador das manifestações artísticas contemporâneas vêm respondendo aos desafios deste novo milênio".

Na oficina, a discussão será voltada para a crítica literária hoje. A professora apontará os novos sujeitos, vozes e dicções que emergem com força substantiva na cena artística e literária, que vem acontecendo, principalmente, na internet. Além de procurar "saídas emergenciais" para a compreensão dos novos fenômenos culturais pós-globalização.

"Quando a crítica literária vai para a internet, ela se reconfigura. Isso interfere na criação e cria novos hábitos de leitura. Você, por exemplo, não guarda mais o poema na gaveta. Com a internet o ficcionista e o poeta dispõem de vários recursos para incrementar seu texto: áudio, imagens e hiperlinks. A ideia de autor está mudando. Particularmente, não chamo de literatura aquilo que se faz no meio digital, mas sim de práticas literárias, uma vez que tem outro sentido e uma outra dinâmica", diz.

Mais ações

Outras oficinas previstas para dezembro são: "Rádio, Loucura e Arte - Oficina de Rádio", ministrada pelo professor Mauro Sá Rego Costa (RJ) e Deisimer Gorczevski; "Modos de Fazer Arte Pública de Intervenção Comunitária" (Módulo II), pelo artista visual David da Paz; "Beuys, Lygia Clark, Oiticica, mudando o lugar da arte", também, ministrada por Mauro José Sá Rego; "Bataille e Pasolini: propostas eróticas para diálogos malditos", idealizada pela professora cearense Flávia Bezerra Memória. Além desses cursos, o projeto prevê outros, até o encerramento das ações de 2010.

A programação completa, com horários e datas pode ser acessadas através do blog do Núcleo de Formação em Arte e Cultura do Instituto (http://formacaodragaodomar.blogspot.com/).

Fique por dentro
Perfil

Heloisa Buarque de Hollanda, nascida em Ribeirão Preto (SP), em 26 de julho de 1939, é formada em Letras Clássicas pela PUC-RJ, com mestrado e doutorado em Literatura Brasileira na UFRJ e pós-doutorado em Sociologia da Cultura na Universidade de Columbia, Nova York. É coordenadora do Programa Avançado de Cultura Contemporânea, diretora da Aeroplano Editora e Consultoria e curadora do Portal Literal.

Seu campo de pesquisa privilegia a relação entre cultura e desenvolvimento, dedicando-se às áreas de poesia, relações de gênero e étnicas, culturas marginalizadas e cultural digital. Nos últimos cinco anos, vem trabalhando com o foco na cultura produzida nas periferias das grandes cidades bem como no impacto das novas tecnologias digitais e da internet na produção e no consumo culturais. É uma das principais autoridades na obra da cearense Rachel de Queiroz.

Fonte: http://www.heloisabuarquedehollanda.com.br

Posted by Cecília Bedê at 3:32 PM

Direito autoral nas artes é tema de debate no MAM-SP, O Estado de São Paulo

Matéria originalmente publicada no caderno de cultura do jornal O Estado de S. Paulo em 2 de dezembro de 2010.

Polêmicas recentes relacionadas à questão do direito autoral no campo das artes visuais, como a que envolveu a família do artista Alfredo Volpi (1896-1988) e o Instituto Moreira Salles ou ainda a de Lygia Clark (1920-1988) e a Fundação Bienal de São Paulo, certamente estarão nas discussões das duas mesas-redondas que o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) vai realizar amanhã no evento Jornada de Direito Autoral.

Afinal, este ano, o Ministério da Cultura (MinC) levou a cabo anteprojeto, com consultas públicas, que reformula e moderniza a Lei de Direito Autoral (9.610/1998) para as mais diversas áreas, incluindo a esfera digital. Atualmente, a proposta está no Congresso.

A Jornada de Direito Autoral começa às 10 horas, no auditório do MAM, com a mesa-redonda sobre Direitos Autorais e Arte Contemporânea: Proteção x Acesso. O debate será mediado pela advogada do museu, Mariana Valente, e contará com a participação do professor e advogado Guilherme Carboni, mestre e doutor em direito civil pela USP e autor do livro Função Social do Direito de Autor; da artista e criadora do site Canal Contemporâneo, Patrícia Canetti; e de Salvador Ceglia Neto, sócio principal da Ceglia Neto Advogados, que representa a família de Volpi.

Já a segunda mesa do dia começará às 14 horas e será voltada ao tema Direitos Autorais nas Artes Visuais: Um Campo em Desenvolvimento? A medição ficará por conta do curador-chefe do MAM, Felipe Chaimovich, e a mesa terá como integrantes a historiadora, museóloga e curadora Vanda Klabin; a advogada, Fabiana Garreta, também artista plástica e diretora da Associação Brasileira dos Direitos de Autores Visuais (Autivis); e de Marcos Alves de Souza, diretor de Direitos Intelectuais da Secretaria de Políticas Culturais no MinC e organizador da consulta pública pela modernização da Lei de Direito Autoral. O evento tem entrada gratuita. O MAM fica no Parque do Ibirapuera (Av. Pedro Álvares Cabral, s/n.º, portão 3). Mais informações pelo tel. (011) 5085-1300. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Posted by Cecília Bedê at 2:36 PM

Urubu estreia com pé esquerdo na Bienal por Fred Melo Paiva, Folha de S. Paulo

Matéria de Fred Melo Paiva originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 2 de dezembro de 2010.

Lodo, filho de Carniça e Fedor, fez primeira participação em evento artístico; já Sujeira é "ator mais que principal" em longa

Artista Nuno Ramos manda recado para as aves retiradas de sua obra: "Amor impossível é que é amor"

Quando no futuro se prestar homenagem à 29ª Bienal de São Paulo, que termina no próximo dia 12, será obrigatória uma deferência a Carniça, Lodo e Sujeira.

Durante os 14 dias em que dormiram, comeram e obraram na instalação de Nuno Ramos, obscureceram as demais obras.

Retirados por ordem da Justiça, deixaram uma lacuna no pavilhão -e a sensação de que fomos injustos com suas pessoas, tratadas sempre genericamente por "urubus da Bienal".

Não é porque o sujeito é urubu que ele não tem uma história particular. Carniça, por exemplo, viveu entre o céu e o inferno. Com um tendão atrofiado, decolava tipo uma galinha -uma galinha preta.

Dessa forma, ao invés de ser atingido por um Boeing, foi atropelado por uma moto em Aracaju.
Levado à casa do criador de aves de rapina José Percílio Mendonça, 35, o animal chegou completamente escangalhado.

Percílio, que é fundador do Parque dos Falcões, em Itabaiana (SE), tinha lá um outro urubu -a Fedor.
Chegara em situação penosa: achando-se perseguida por uma pipa que enroscara no seu pé, voou até acabar o combustível. Apesar da afinidade de seus dramas pessoais, e a despeito do que sugerem seus nomes, Carniça não se dava com Fedor.

MOTELZINHO
Para reverter o anticlímax, Percílio foi para a mata observar como nascem os bebês Cathartes burrovianos, o urubu de cabeça amarela.

Determinado a "pôr esses dois pra namorar", preparou "um motelzinho" a partir de sua experiência de voyeur.

Fez um ninho de pedra e um "poleiro da dança". Foi nesse aí que a Fedor se encontrava quando o Carniça atacou pela retaguarda.

Carniça passou a viver, então, numa trepantina danada. Aos 15 anos, já produziu oito filhos -e não deixou de fazer sexo nem durante a primeira versão de "Bandeira Branca", apresentada por Nuno Ramos no CCBB de Brasília em 2008. Sempre com a Fedor, porque o urubu, como o gavião, é fiel.

Dessa filharada vieram Lodo e Sujeira, além de Romualdo e cinco anônimos.

Sujeira, 10, é o mais proeminente. Já fez ponta em documentário japonês, e acaba de gravar um longa com Matheus Nachtergaele -"Na Quadrada das Águas Perdidas", direção de Wagner Miranda e Marcos Carvalho.

"Ele é ator mais principal do que o Matheus", aumenta Percílio.

ESTRELA DE CINEMA

O filme tem também a participação de Lucinha, uma coruja de orelhas que vive no Parque dos Falcões. Ela precisava latir (latiu) e pousar sobre o umbral de uma casa.

O script de Sujeira era mais complexo: tinha de seguir Matheus, trocar olhares, "comer" um jegue sedado, uma cabra, um cachorro.

Para o diretor Marcos Carvalho, trata-se de "uma estrela do cinema nacional".

Sujeira já fez trabalho mais sujo. Em uma ocasião, foi levado a um curtume para espantar outros urubus. Deu certo até que sobrou um, com quem fez amizade. Quando está solto, costuma retornar na companhia de estranhos.

Durante exercícios para manter o peso, engana a si mesmo buscando uma corrente em que possa planar sem esforço. "Desce aqui, Sujeira", grita Percílio, "DESCE JÁ!".

Lodo é mais novo que Sujeira. Aos 6 anos, foi preparado para ser solto na natureza, e por isso nem deveria ter nome próprio. Com esse tipo evitam-se maiores contatos, de forma que o trabalho na Bienal foi o primeiro emprego de Lodo.

Percílio olhou para um, olhou para outro, "a Fedor enrolada com o filho que tinha arranjado em Brasília". E foi no impulso "que se deu o escolhimento".

No caso dos urubus, falar em mau agouro é chover no molhado. Então digamos que Lodo estreou com o pé esquerdo, alijado que foi da exposição. Não se abalou.

Conserva "aquele ar de quem parece que está falando da gente", diz Nuno Ramos. "A sabedoria de quem olha as coisas de cima."

Quando Nuno soube que a Folha iria até Sergipe rever os "urubus da Bienal", escreveu à reportagem: "Dê um abraço cordial nos meus bichinhos. Diga que sinto falta deles. E que amor impossível é que é amor".

Criador desenvolveu técnica para lidar com as aves de rapina

Aos pés da Serra de Itabaiana, a 45 km de Aracaju (SE), o Parque dos Falcões abriga 330 aves de rapina, uma casa simples e viveiros rústicos.

Sujeira, Lodo, Carniça e Fedor moram em 16 metros quadrados (na Bienal, desfrutavam de 2.500). Até agosto do ano passado, dividiam o espaço com o urubu albino Michael Jackson. Michael foi roubado e assassinado. Três pessoas foram presas.

A população do parque é formada por animais apreendidos pelo Ibama ou resgatados em más condições de saúde.

Cerca de 70% das aves são aleijadas ou mutiladas. Ninguém tem vida mansa e quase todas participam de palestras para educação ambiental. Fora os treinamentos físicos -segundo o fundador do parque, José Percílio Mendonça, "para não infartar".

Há uma "equipe de segurança" formada por uma coruja buraqueira, um carcará e um gavião mirim. O gavião chama-se Psicopata e pode atingi-lo na carcaça craniana ainda que esteja na companhia de Percílio.

Mulambo e Bronquite, galinhas d'angola, são responsáveis por chocar ovos de falcões, gaviões e corujas, o que já garantiu a reprodução de 26 espécies.

O criadouro conservacionista Parque dos Falcões existe há 10 anos. Percílio, 35, lida com os animais há 27.

Tem a ajuda do parceiro Alexandre Correia e do veterinário Willian dos Anjos, mas, embora tenha feito apenas o ensino fundamental, desenvolveu toda uma técnica para lidar com as aves.

Basicamente, trata todo o mundo igual cachorro: faz carinho, coça a barriga, chama pelo nome. Usa a linguagem do animal (pia).

Descobriu que, passando alecrim no corpo, podia disfarçar o próprio cheiro em incursões na mata para observar a vida selvagem. Se o ovo trinca, ele põe um esparadrapo. Se a pena quebra, coloca superbonder.

"É por isso que digo: conheço meus urubus. O que estava incomodando eles na Bienal eram os protestantes retardados", diz, em referência aos que protestaram contra a presença dos animais.

Como as aves de rapina têm territórios próprios e muitas ficam soltas no Parque dos Falcões, é possível encontrar Percílio explicando às corujas: "Olha, daqui pra cá, é seu; de lá pra cá, é da Lucinha".

Outras coisas estranhas acontecem. É o caso da relação entre Virgulino, um pavão, e Bronquite, a galinha. Dessa cruza nasceu o Mutante. O Percílio jura.

Posted by Cecília Bedê at 1:38 PM