Página inicial

Como atiçar a brasa

 


junho 2017
Dom Seg Ter Qua Qui Sex Sab
        1 2 3
4 5 6 7 8 9 10
11 12 13 14 15 16 17
18 19 20 21 22 23 24
25 26 27 28 29 30  
Pesquise em
Como atiçar a brasa:

Arquivos:
junho 2017
maio 2017
abril 2017
março 2017
fevereiro 2017
janeiro 2017
dezembro 2016
novembro 2016
outubro 2016
setembro 2016
agosto 2016
julho 2016
junho 2016
maio 2016
abril 2016
março 2016
fevereiro 2016
janeiro 2016
novembro 2015
outubro 2015
setembro 2015
agosto 2015
julho 2015
junho 2015
maio 2015
abril 2015
março 2015
fevereiro 2015
dezembro 2014
novembro 2014
outubro 2014
setembro 2014
agosto 2014
julho 2014
junho 2014
maio 2014
abril 2014
março 2014
fevereiro 2014
janeiro 2014
dezembro 2013
novembro 2013
outubro 2013
setembro 2013
agosto 2013
julho 2013
junho 2013
maio 2013
abril 2013
março 2013
fevereiro 2013
janeiro 2013
dezembro 2012
novembro 2012
outubro 2012
setembro 2012
agosto 2012
julho 2012
junho 2012
maio 2012
abril 2012
março 2012
fevereiro 2012
janeiro 2012
dezembro 2011
novembro 2011
outubro 2011
setembro 2011
agosto 2011
julho 2011
junho 2011
maio 2011
abril 2011
março 2011
fevereiro 2011
janeiro 2011
dezembro 2010
novembro 2010
outubro 2010
setembro 2010
agosto 2010
julho 2010
junho 2010
maio 2010
abril 2010
março 2010
fevereiro 2010
janeiro 2010
dezembro 2009
novembro 2009
outubro 2009
setembro 2009
agosto 2009
julho 2009
junho 2009
maio 2009
abril 2009
março 2009
fevereiro 2009
janeiro 2009
dezembro 2008
novembro 2008
outubro 2008
setembro 2008
agosto 2008
julho 2008
junho 2008
maio 2008
abril 2008
março 2008
fevereiro 2008
janeiro 2008
dezembro 2007
novembro 2007
outubro 2007
setembro 2007
agosto 2007
julho 2007
junho 2007
maio 2007
abril 2007
março 2007
fevereiro 2007
janeiro 2007
dezembro 2006
novembro 2006
outubro 2006
setembro 2006
agosto 2006
julho 2006
junho 2006
maio 2006
abril 2006
março 2006
fevereiro 2006
janeiro 2006
dezembro 2005
novembro 2005
outubro 2005
setembro 2005
julho 2005
junho 2005
maio 2005
abril 2005
fevereiro 2005
janeiro 2005
dezembro 2004
novembro 2004
outubro 2004
setembro 2004
agosto 2004
julho 2004
junho 2004
maio 2004
As últimas:
 

junho 19, 2017

O Sul é uma abstração por Cristiana Tejo, seLecT

O Sul é uma abstração

Artigo de Cristiana Tejo originalmente publicado na revista seLecT em 5 de junho de 2017.

A tímida presença numérica de artistas da América Latina e da África Subsaariana nos faz questionar a qual Sul se refere o conceito curatorial

O sociólogo Zygmunt Bauman, na abertura de seu livro Modernidade Líquida, dividia a humanidade globalizada em dois segmentos: um grupo que vive no tempo e outro que vive no espaço. A parcela da população que vive no tempo é a que se preocupa apenas com que seu voo transatlântico não atrase, para que seu compromisso de trabalho ou de lazer não seja prejudicado, já que seu trânsito pelo mundo do consumo global é autorizado e praticamente “sem fronteiras”. A outra parcela vive dolorosamente a concretude do espaço incorporado em muros, fronteiras minadas, polícias de imigração irascíveis, cujo deslocamento é cerceado e, em parte das vezes, mortífero. Essas condições em muitos casos não são imutáveis, variando em contextos históricos. Essa forma de enxergar a realidade do movimento dos corpos sociais pelo mundo, que poderia soar simplista, há dez anos parece tomar novos contornos no momento de novas incertezas geopolíticas, quando direitos de circulação são perdidos do dia para a noite, afetando populações inteiras que por algumas décadas assentaram-se como privilegiadas e “seguras”.

Essa citação de Bauman veio-me à cabeça na coletiva de imprensa da Documenta 14, ocorrida em 6/4, data que marcava o 76o aniversário da invasão nazista à Grécia. Muito foi dito e performado nas mais de duas horas de apresentação da primeira Documenta a acontecer massivamente fora da Alemanha, mas algumas colocações se sobressaíram como um contraste entre as várias colocações do time curatorial e a realidade que gritava fora do anfiteatro lotado por pessoas que muito provavelmente não tiveram sobressaltos para chegar em Atenas. Uma delas foi que o Sul é uma abstração, não uma geografia fixa.

Sob o ponto de vista conceitual, essa afirmação é compartilhada por pessoas de pensamento mais progressista, mas quase todas privilegiadas de alguma forma. A noção de Sul pode até ser relacional, ou seja, a subalternidade muitas vezes é uma questão do que ou quem está em relação ao que ou quem. Entretanto, quando a declaração parte de um agente social legitimado pelo mais alto grau institucional da arte contemporânea mundial num evento que escolheu se inserir num contexto tão complexo como a Grécia atual, numa clara relação de assimetria de poder, as boas intenções podem soar como cinismo. O choque entre as pessoas que vivem no espaço e as que vivem no tempo nunca ficou tão evidente na Documenta como nesta edição em Atenas.

Se o projeto não se apoiasse nas prerrogativas da decolonialidade e no desejo de “aprender com Atenas” e desaprender o que se sabe, talvez pudéssemos transitar com menos incômodo pela exposição que se estende por vários espaços culturais e pontos da capital grega. Entretanto, muitas perguntas nos perseguem nesse percurso. Se a desconstrução almejada pelo decolonial é estrutural, por que notamos que a via traçada pelos curadores é de mão única? A revista grega South as a State of Mind virou a publicação oficial da Documenta desde 2015, mas nenhuma revista alemã virou a publicação oficial de pensadores e críticos gregos, por exemplo. A tímida presença numérica de artistas da América Latina e da África Subsaariana nos faz questionar a qual Sul se refere o conceito curatorial. O que significa desaprender para a elite do mundo da arte? Propositalmente há poucas informações sobre os artistas nas fichas técnicas e isso obriga os visitantes a pesquisarem por si próprios o que lhes interesse: onde nasceu, se ainda está vivo, onde mora, qual o contexto da extensa pesquisa que está sendo apresentada na mostra. A ausência dessas informações que contextualizam os artistas baseia-se no interesse de tornar esse processo de construção do conhecimento ativo ou de “desinfantilizar o público”, ou ainda de potencializar “subjetividades radicais” em contraposição ao antigo mundo em que se encontrava arraigado “nos conceitos de pertencimento, identidade e enraizamento”, nas palavras do curador-geral, Adam Scwymczyk. Como muitos dos trabalhos são novos, não há como conseguir mais detalhes de alguns dos processos artísticos sem consultar o site da Documenta, tarefa possível apenas para aqueles que possuem internet em seus celulares. Além disso, a má sinalização também causa confusão na hora de saber de quem são os trabalhos. O que significa então aprender e desaprender para o público não especializado da mostra?

Apesar de ser uma edição muito menos empolgante do que a anterior, a primeira etapa da Documenta tira por vezes bom partido dos espaços existentes na cidade e cruzar ruas, adentrar em bairros e se deparar com a vida urbana acontecendo é a parte forte do projeto. Talvez o lugar expositivo mais potente seja o Conservatório de Atenas, onde estão localizadas pesquisas que costuram incríveis experimentações entre música e artes visuais em vários momentos do século 20, a exemplo dos objetos sonoros e das pinturas musicais de Guillermo Galindo, das proposições de deep listening da recém-falecida compositora Pauline Oliveros e dos móveis sonoros da artista Nevin Aladag ativados na abertura da mostra. Numa outra parte do Odeom encontra-se a comovente instalação sonora de Emeka Ogboh, em que cantos de lamentos ecoam numa espécie de anfiteatro, enquanto um painel em néon mostra em tempo real a Bolsa de NY.

No Benaki Museum, a mostra entra no espaço cubo branco e seu vigor arrefece. Justamente no local onde se poderia questionar as disciplinas e agentes que contribuíram para a máquina da colonialidade encontramos poucos trabalhos que problematizam essa engrenagem, a exemplo da instalação Biafra Time Capsule, de Olu Oguibe, em que um vasto arquivo material sobre o conflito em Biafra é disposto em vitrines. No térreo, a instalação/performance de Beau Dick, artista indígena da etnia Kwakwaka’wakw do Canadá, recém-falecido, conecta-se com uma série de fotografias feitas do antropólogo Franz Boas reencenando o ritual do Hamat’sa da mesma tribo, que se situa no primeiro andar. Aqui, objeto de estudo e sujeito contrapõem-se e dialogam numa espécie de continuum. O vídeo Tripoli Cancelled, de Naeem Mohaiemen, é um tocante e envolvente experimento cinematográfico filmado no antigo aeroporto de Atenas, desativado há mais de 15 anos. Um homem vagueia por semanas pelas ruínas do edifício abandonado, forjando um cotidiano e fazendo de casa o que de fato foi um lugar de passagem. Na Escola de Artes, encontra-se outro núcleo cativante de trabalhos, onde se destacam Bouchra Khalili, Angelo Plessas, Amar Kanwar, Alan Sekula e Anna Kay/Lawrence Halprin.

Serviço
Documenta 14
Atenas, de 8/4 até 16/7
Kassel, 10/6 até 17/9
www.documenta14.de/en

Posted by Patricia Canetti at 12:21 PM