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outubro 9, 2012

Edital para negros divide meio cultural por Lucas Nobile e Matheus Magenta, Folha de S. Paulo

Edital para negros divide meio cultural

Matéria de Lucas Nobile e Matheus Magenta originalmente publicada na Ilustrada do jornal Folha de S. Paulo em 2 de outubro de 2012.

Medida anunciada anteontem pela ministra da Cultura deve criar seleções públicas para criadores afro-descendentes

Marta Suplicy pediu propostas para Funarte, Biblioteca Nacional e Ancine até o Dia da Consciência Negra

O anúncio do lançamento de editais exclusivos para criadores e produtores negros, feito anteontem pelo Ministério da Cultura, dividiu opiniões entre acadêmicos e artistas brasileiros.

Enquanto parte defende os editais, que devem ser lançados no Dia da Consciência Negra (20/11), outros os consideram preconceituosos.

"É um absurdo. Se eu fosse negro, ficaria muito puto. É uma coisa de demência, ligada à culpa cristã de classe média branca. É só um passo a mais pelo ódio racial que está sendo potencializado desde que o PT entrou no poder", disse o cantor Lobão.

Para o autor de "Cidade de Deus", Paulo Lins, a medida anunciada pela ministra Marta Suplicy é boa e necessária.

"O negro tem que ter privilégio e inclusão em tudo. Ele foi sacrificado durante 400 anos de escravidão no país."

KL Jay, do Racionais MC's, concorda com Lins sobre a dívida que o Brasil tem com os descendentes de escravos. "O país me deve muito mais."

Já o cineasta Zelito Viana, que produziu "Terra em Transe" (1967) e "Cabra Marcado Para Morrer" (1985), considera a medida "racista". "Agora haverá editais também para anão e para mulher?"

Para o professor de ciência política da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) João Feres Júnior, a medida é importante porque a cultura brasileira é "extremamente branco-cêntrica".

"Os produtores de narrativas são quase que exclusivamente brancos ou falam de uma perspectiva da qual a questão do racismo e da discriminação é invisível."

O compositor, pesquisador e escritor Nei Lopes concorda com Feres Júnior.

"Há uma grande 'invisibilização' da produção do povo negro nos circuitos da ação cultural", afirmou Lopes.

Danilo Miranda, diretor do Sesc-SP, disse ter inicialmente se assustado com o anúncio. "Achei que seria inadequado para um país que respeita a igualdade. Mas, depois, achei que se tratava de algo adequado para tornar o Brasil um país mais justo."

LEGALIDADE

Para o sociólogo Demétrio Magnoli, a medida é discriminatória porque viola a igualdade constitucional entre os cidadãos, mas hoje "infelizmente" é legal graças à decisão do Supremo Tribunal Federal a favor das cotas raciais no vestibular da universidade de Brasília (UnB).

Em agosto, a presidente Dilma Rousseff aprovou um sistema cotas sociais, mas não raciais, na rede federal de ensino superior.

Sobre o edital anunciado pelo MinC, o advogado Sebastião Ventura da Paixão Jr disse que a medida pode ser "inconstitucional" caso o critério de seleção seja racial.

"O governo deve ter muito cuidado para que, na ânsia de resolver um problema social, não faça um ato despido do necessário equilíbrio constitucional", afirmou.

Gisele Jordão, responsável por um estudo sobre a produção cultural no Brasil, diz que o debate é anterior ao de raça: 63% dos produtores do país não conseguem viver da profissão. Segundo ela, projetos com tema afro-brasileiro têm mais dificuldade em captar recursos via Lei Rouanet que a média do país.

Posted by Marília Sales at 10:54 AM | Comentários(2)
Comments

Concordo com Gisele Jordão, responsável por um estudo sobre a produção cultural no Brasil, quando ela diz que o debate é anterior ao de raça: 63% dos produtores do país não conseguem viver da profissão. E concordo mais ainda quando ela frisa que ”projetos com tema afro-brasileiro têm mais dificuldade em captar recursos via Lei Rouanet que a média do país.”
Mais de três vezes dois curadores aplicaram com a obra que venho desenvolvendo desde 1970 inspirada em nossas raízes afro-brasileira para o CCBB e eu mesma tentei por outras vias leva-la a outras instituições brasileiras oficiais com ajuda oficial e demos contra um muro.
Acontece de apesar da pele clara certamente sou miscigenada como grande parte dos brasileiros. O irônico que no meu próprio pais mulato não só sou vista de soslaio por muitos temerem de que o que faço é “macumba” como a classe artística/intelectual tende a me “classificar’ de Carmem Miranda,por préjulgar que me valho de ‘exotismo’ para me projetar internacionalmente (quando esta obra veiculada as nossas raízes eu já a fazia bem antes de sair do pais.
E lá fora o segmento cultural negro, me vê com certa estranheza pois não entende porque esta artista ‘branca’usa em sua linguagem criativa metáforas extraídas da cultura africana.
Creio que em minha teimosia continuarei alimentando o impasse...
Regina Vater

Posted by: reginavater at outubro 11, 2012 10:56 PM

O racismo aqui impressiona. PAIS RACISTA! Seja de pessoas de pele mais escura ou mais clara... E émais uma questão social e tradição milenar do uso de dinheiro.Desconhece-se a História, sempre escamoteada. Análises antropológicas, linguísticas e investigação histórica praticamente inexistentes. Alem disso os brasileiros de geração mais recente foram lobotomizados pelas estratégicas reformas no ensino. Daí que não conseguem investigar, apreender os fenômenos culturais que levam séculos em formação. E esses politicos no governo não possuem preparo acadêmico. As universidades do Brasil são as piores e o ensino básico está em 85º lugar no mundo...

Posted by: evany fanzeres at outubro 12, 2012 9:22 AM
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