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julho 26, 2011

Entrevista: Crítica de arte com Juliana Monachesi por Chris Valias, Paraty em Foco

Entrevista: Crítica de arte com Juliana Monachesi

Entrevista feita por Chris Valias originalmente publicada no blog Paraty em Foco em 6 de julho de 2011.

Um dos maiores gargalos da produção cultural é a crítica. O trabalho sensível produzido pelo homem, quando exposto, cria um diálogo, e a tradução desta percepção é melhor refletida no papel dos críticos: é do texto de um crítico que vem boa parte da compreensão de uma obra artística. Para entender um pouco mais sobre o assunto, fizemos uma entrevista com Juliana Monachesi, crítica, curadora e jornalista especializada em artes visuais, mestre em Comunicação e Semiótica. Ela nos conta um pouco sobre sua experiência e como funciona esse mercado.

Chris Valias Conte um pouco sobre sua experiência como curadora em exposições de fotografia.
Juliana Monachesi Das mais de dez curadorias que já assinei, todas nos anos 2000, nenhuma deixou de fora a fotografia. É uma linguagem absolutamente incontornável. E uma forma de expressão dos nossos tempos. Mas a exposição em que a fotografia foi protagonista absoluta entre as mostras de que fui curadora foi, sem dúvida, afotodissolvida, que aconteceu no Sesc Pompéia em 2004. Nesta curadoria, a intenção foi investigar como o advento da tecnologia digital estava modificando o dia-a-dia das redações de jornal, da produção artística em geral e, claro, do ofício dos fotógrafos.
Queria entender como a passagem hiper-veloz que eu estava vivenciando na redação do contato fotográfico em papel ao arquivo digital desmaterializado, e também do álbum fotográfico material à pasta de computador no cotidiano das pessoas, ou mesmo da imagem com referente real àquela completamente fictícia construída digitalmente pelos artistas, como essa passagem, essa dissolução da fotografia estava impactando a cultura contemporânea.

Foi uma exposição sobre fotografia, sobre o imaginário da fotografia, mas que reuniu obras nos mais diferentes suportes, e não apenas fotos. De pinturas e esculturas que incorporavam a imagem fotográfica (Adriana Rocha, Keila Alaver, Sandra Cinto) até vídeo (Gisela Motta, Kinoks), com pitadas de ficção fotográfica (Rochelle Costi, Leandro Lima) e até de fotografia tradicional (Caio Reisewitz, Gustavo Rezende).

Chris Valias Você tem uma longa formação em comunicação e artes visuais. Acha que isso é imprescindível para se tornar um bom crítico?
Juliana Monachesi Não necessariamente. Bons críticos têm formações as mais diversas; surgem em diferentes áreas de atuação e conhecimento. O que é necessário para se tornar um bom crítico é sensibilidade, curiosidade, muita leitura e, o mais importante, muita convivência com arte. A sensibilidade serve para tornar alguém disponível a “entrar na viagem” de cada artista sem preconceitos. A curiosidade serve para colocar na cabeça da pessoa aquela pilha de perguntas que convém endereçar a cada obra. A leitura e o olhar servem para criar e aprofundar o repertório.

Chris Valias Existe uma fórmula para se fazer uma crítica? Deve haver um equilíbrio entre sensibilidade e racionalidade?
Juliana Monachesi Há diferentes estilos de crítica, aquela mais pessoal, confessional; uma outra mais distanciada, “de gabinete”, como se diz. Eu não sou muito fã de nenhum destes dois extremos: um equilíbrio, como você afirma, me parece, sim, a melhor fórmula para se escrever uma crítica relevante. Talvez valha detalhar um pouco o motivo pelo qual estes dois extremos (o sentimental e o professoral) me incomodam: quando você escreve uma crítica do tipo “vi tal exposição, senti isso e aquilo, lembrei de não sei o quê etc.”, a não ser que você seja uma sumidade no assunto, os comentários não têm relevância nenhuma para o leitor; da mesma forma, quando a abordagem é apenas técnica, sem envolvimento algum com o objeto de análise, o leitor pode muito bem ficar com a impressão de que o mesmo texto valeria para outros vinte artistas e/ou trabalhos semelhantes. Então a dosagem entre envolvimento e distanciamento, entre impressões e contextualizações é que faz com que o texto crítico de fato acrescente alguma coisa para quem o lê.

Chris Valias O crítico tem o poder de validar uma obra de arte?
Juliana Monachesi Isso é uma das funções da crítica de arte, mas não é algo que o crítico faça sozinho: todas as instâncias do sistema da arte têm participação nos processos de validação, desde o curador ao eleger uma obra para ser exposta, até o colecionador que compra uma peça em detrimento de outra, passando pelas galerias, museus, mecenas, leilões, meios de comunicação etc. O papel do crítico nessa cadeia produtiva das artes é fazer a mediação entre a obra e o público: analisar a produção do artista desde suas características formais até o seu contexto social e histórico; inserir o artista na narrativa da maior história da arte, alinhavando as relações com outros artistas e outros contextos.

Portanto, o crítico tem, sim, o papel de validar uma obra de arte – para o bem e para o mal, no sentido de que pode também, por conta deste poder, arruinar uma carreira. Mas esta é uma descrição de um cenário que é mais concreto nos Estados Unidos, por exemplo, onde o meio de arte é bastante mais institucionalizado e profissionalizado do que no Brasil. Lá, a força destas engrenagens do sistema a que me referi antes (curadores, colecionadores, galerias, museus, mecenas, leilões, meios de comunicação), o fato de serem amplamente consolidados, contribui de modo mais decisivo no destino de uma obra, de uma carreira, de uma reputação.

Chris Valias Pra quem quem se interessar pelo tema, conte um pouco sobre como será o workshop “Fotografia: crítica e jornalismo cultural” que você irá ministrar no Paraty.
Juliana Monachesi Bom, no workshop acho que estas questões todas de que tratamos aqui serão contempladas, idealmente. Mas o mais saboroso da atividade vai ser um esforço de cobertura do Paraty em Foco; minha intenção é, depois de uma primeira conversa teórica, levar todos os participantes ao trabalho de campo: um corpo a corpo com as obras expostas, discussão in loco dos trabalhos apresentados nas diversas mostras, análise de obra à queima-roupa mesmo, e, finalmente, um exercício de produção de textos. Pretendo estimular os participantes do workshop a exercitar a crítica, da observação e discussão à escrita.

Posted by Cecília Bedê at 4:42 PM | Comentários(2)
Comments

Juliana, sou artista visual e gostei muito da matéria.
Diria que o assunto -desmaterialização da pintura / fotografia
poderia ser o tema de um assunto que procuro para iniciar um
projeto acadêmico na área de artes visuais.

Gostaria se possível de entrar em contato, poderia enviar-me
seu e mail pessoal?

Obrigado
Caio Franco

Posted by: caio Franco at fevereiro 14, 2013 8:43 PM

Caio,
Avisamos a Juliana sobre o seu comentário.
abs,
Patricia

Posted by: Patricia Canetti at fevereiro 15, 2013 11:10 AM
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