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março 15, 2019

O Tempo Mata - Imagem em movimento na Julia Stoschek Collection no Sesc Avenida Paulista, São Paulo

Exposição no Sesc Avenida Paulista, em parceria com Julia Stoschek Collection, reúne raro conjunto de filmes e vídeos produzidos por nomes consagrados, entre os quais Douglas Gordon, Rachel Rose, Chris Burden, Monica Bonvicini e Jack Smith

O espaço Arte I, localizado no 5º andar da Unidade, exibe obras selecionadas de uma das mais importantes coleções globais de arte temporal iniciada em 2007 pela colecionadora que lhe dá nome e sediada em Berlim e Dusseldorf, na Alemanha. Com curadoria de Rodrigo Moura, a exposição e uma programação integrada de exibições reúnem trabalhos de 17 artistas, em filmes e vídeos, cobrindo mais de seis décadas de produção audiovisual, um panorama dos mais representativos desde que o suporte se insere como linguagem contundente no circuito da arte contemporânea. A mostra O Tempo Mata - Imagem em movimento na Julia Stoschek Collection, com abertura para o público no dia 21 de março, terá duração de três meses.

Raça, cultura visual, identidade de gênero, o papel de artistas na sociedade e a circulação de imagens nos meios de comunicação são os temas que percorrem os trabalhos. Desta última questão surgiu o título da exposição, “O Tempo Mata” (Time Kills), extraído de uma das frases veiculadas por Chris Burden (Boston, 1946 – Canyon, EUA, 2015), em um de seus vídeos (1973-1977) que fazem parte de uma série de inserções comerciais criadas pelo artista e transmitidas em canais de televisão aberta, segundo ele para quebrar a hegemonia das emissoras e ao mesmo tempo fazer com que a arte alcançasse um público maior que o das instituições. Como aponta o curador, trata-se de um truísmo, uma frase que declara uma verdade incontestável, o tempo mata simplesmente porque ele passa, mas ainda assim ela serve para ativar outros sentidos no contexto da exposição. “Time-based art termo traduzido livremente aqui como ‘arte temporal’ são os trabalhos de arte produzidos em vídeo, filme, áudio ou tecnologias computadorizadas e que se apresentam ao espectador no tempo, tendo como dimensão principal a duração, e não o espaço”.

A autorrepresentação e a ficcionalização da vida aparecem em diversas obras e, segundo Moura, agem como possível fio condutor, unindo trabalhos da exposição, assim como a apropriação, a coleção e a montagem a partir de imagens de outras fontes. “Esses são dois possíveis enquadramentos temáticos que perpassam a mostra, servindo como polos conceituais úteis para navegá-la, mas que não esgotam as possibilidades de leitura das obras apresentadas e das relações entre elas”, ressalta.

Na primeira parte da exposição, três salas do quinto andar apresentam três grandes instalações imersivas dos artistas Arthur Jafa (Tupelo, EUA, 1960 – vive em Los Angeles), Rachel Rose (Nova York, 1986 – vive em Nova York) e Monica Bonvicini (Veneza, 1965 – vive em Berlim).

Jafa, segundo o curador, compõe uma colagem épica em torno da visualidade da cultura afro-estadunidense. O artista tem no cinema a origem de sua prática, já tendo colaborado como diretor de fotografia com os cineastas Spike Lee e Stanley Kubrick. Em APEX, 2013, compara a sua obra a um projeto utópico, relacionado ao Monumento a Terceira Internacional, de Tatlin, que nunca foi construído. Rose, artista que participou da 32ª Bienal Internacional de São Paulo, em Palisades in Palisades (Palisades em Palisades), 2014, visita seguidamente o parque Palisades, em Nova Jersey, fundado no século 19, como locação para o seu vídeo, onde desvela diferentes aspectos de sua história geológica e social. Bonvicini cria uma dupla projeção coreografada que articula noções como gênero e nostalgia em Destroy She Said (Destruir, diz ela), 1998 cujo título se refere ao filme e ao livro homônimo da escritora francesa Marguerite Duras.

Em torno desses espaços, nas áreas de circulação, outras obras estabelecem novas relações entre si. “Dois registros de performance dos anos 1970, de Eleanor Antin (Nova York, 1935 – vive em San Diego) e Hannah Wilke (Nova York, 1940 – Houston, 1993), ambos tendo a face das artistas como palco para acontecimentos complexos, são apresentados de frente um para o outro, num jogo de espelhamento”, explica Moura. Em The King (O Rei), 1972, Antin, tendo o feminismo como a sua principal interlocução, busca uma possível identidade masculina ao se transvestir usando uma barba, enquanto Wilke, em Gestures (Gestos), 1974, ao manipular seu próprio rosto, o transforma em matéria escultórica.

Em outras duas salas, artistas investigam o potencial de suas próprias imagens como fonte para a criação de suas obras. Em Lovely Andrea, (Amável Andrea), 2007, de Hito Steyerl (Munique, 1966 – vive em Berlim), obra comissionada pela documenta 12, o que parecia um ensaio autobiográfico, torna-se pretexto para uma série de associações inesperadas e abruptas entre imagens, dados e referências. Assim como Rachel Rose, Steyerl também participou da 32ª Bienal de São Paulo. Já Ryan Gander (Chester, 1976 – vive em Londres e Sufflolk) em seu Portrait of a Colour-Blind Artist Obscured by Flowers (Retrato de um artista daltônico obscurecido por flores), 2016, esconde atrás de aparente simplicidade um complexo jogo conceitual com a história da arte, o que envolve deslocá-la e repensá-la a partir de uma perspectiva lúdica e cáustica.

Por sua vez, as obras de Ulay (Solingen, Alemanha, 1943 - vive em Amsterdã) There is a Criminal Touch to Art, (Há um toque criminoso na arte), 1975–76, e de Lutz Bacher (vive em Nova York) James Dean, 1986 / 2014, tratam, respectivamente, de quadros roubados e fotografias apropriadas, dando novas conotações para ícones da história da arte e da cultura de massa.

No sexto andar, o curador explica que as projeções de Douglas Gordon (Glascow, Escócia, 1966 – Vive em Berlim) New Colour Empire (Novo Empire Cor), 2006–2010, e de Cyprien Gaillard (Paris, 1980 – vive em Berlim e Nova York), KOE, 2015, são apresentadas numa espécie de díptico, fazendo referência à paisagem de arquiteturas corporativas do entorno do edifício e revisitando o papel narcísico das imagens na construção dos ícones urbanos. Finalmente o vídeo Büsi, 2001, da dupla suíça Fischli & Weiss (Fischli, 1952, Weiss, 1946, ambos nascidos em Zurique) encerra as obras do circuito expositivo.

Completam O Tempo Mata quatro exibições públicas no térreo (Praça). São apresentações comentadas por críticos e curadores de filmes assinados pelos norte-americanos Barbara Hammer, nascida na Califórnia em 1939, pioneira do cinema queer; Charles Atlas, que ao chegar a Nova York, em 1970, desenvolveu com Merce Cunningham nova linguagem em filmes de dança e performances; Dan Graham, notabilizado por obras marcantes em torno da função social da arquitetura; e Jack Smith, falecido em 1989, um dos pioneiros do cinema underground.

Como programação integrada à exposição, o Sesc Avenida Paulista também realizará o curso “História da Videoarte”, com o artista Luiz Roque, que terá início em abril, e, em maio, a diretora de cinema Fernanda Pessoa ministra curso prático “Arqueologia de Imagens”, sobre como construir narrativas visuais a partir de arquivos imagéticos.

PROGRAMAÇÃO DE EXIBIÇÕES
Praça (térreo), 20h30

26/03
DAN GRAHAM
Sessão comentada por Tiago Mesquita, crítico de arte e pesquisador
Rock My Religion, 1982–84 [Rock minha religião]

23/04
CHARLES ATLAS
Sessão comentada por Luiz Roque, artista visual
Hail the New Puritan,1985–86 [Salve o novo puritano]

28/05
BARBARA HAMMER
Sessão comentada por Fernanda Brenner, curadora
I Was / I Am, 1973 [Eu era / eu sou]
X, 1975
Double Strength, 1978 [Força dupla]
Sanctus, 1990

11/06
JACK SMITH
Sessão comentada por Patrícia Mourão, crítica, curadora e pesquisadora de cinema
Scotch Tape, 1959–1962 [Fita adesiva]
Jungle Island, 1967 [Ilha da Selva]
Overstimulated, 1959–1963 [Superestimulado]
Song for Rent, 1969 [Música para alugar]
Flaming Creatures, 1962–1963 [Criaturas flamejantes]
Hot Air Specialists, d. 1980 [Especialistas em ar quente]

Sobre Julia Stoschek Collection

Esta parceria com o Sesc São Paulo é a primeira da Julia Stoschek Collection com outra instituição cuja exposição é formada exclusivamente por um recorte de seu acervo no Brasil. A coleção com mais de 850 obras de 255 artistas de todo o mundo está sediada em Dusseldorf, onde foi fundada em 2002, e em Berlim, desde 2007. Seu foco é reunir, conservar e exibir obras de arte baseadas no tempo: vídeo, cinema, instalações de imagens em movimento de canais simples e múltiplos, ambientes multimídia, performance, som e realidade virtual. Fotografia, escultura e pintura complementam esse enfoque da arte baseado no tempo.

As obras da coleção vêm sendo exibidas em grandes mostras individuais e coletivas e os espaços da Julia Stoschek Collection em Düsseldorf e em Berlim são abertos ao público nos fins de semana e mediante hora marcada. Um amplo conjunto de programas públicos englobando itinerâncias, performances, projeções, palestras, publicações, encontros com artistas e oficinas, promove a interação entre visitantes e acadêmicos.

Sobre Rodrigo Moura - Curador

Rodrigo Moura é curador, editor e crítico de arte, ocupando atualmente o cargo de curador adjunto de arte brasileira no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP). Seus projetos recentes de exposições incluem Djanira: a memória de seu povo (MASP, 2019), Mauro Restiffe: Álbum (Pinacoteca do Estado, 2017), Quem tem medo de Teresinha Soares? (MASP, 2017) e Doubles, Dobros, Pliegues, Pares, Twins, Mitades (The Warehouse, Dallas, 2017). Atuou como curador e diretor do Instituto Inhotim (Minas Gerais, Brasil) entre 2004 e 2015.

Posted by Patricia Canetti at 2:33 PM