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agosto 20, 2018

Berna Reale na Nara Roesler, São Paulo

Em sua primeira individual em São Paulo, com curadoria de Agnaldo Farias, Berna Reale aprofunda sua investigação sobre a violência. Suas performances, que renderam vídeos, fotografias e instalações, tornaram-na conhecida nacional e internacionalmente, do que é exemplo o convite para representar o Brasil na Bienal de Veneza de 2015. Tudo isso aconteceu em poucos anos. É que Berna chegou com uma obra madura, toda ela focada nesse que é um dos aspectos mais sensíveis do nosso país. Fixada em Belém, lá, como em qualquer outra grande cidade brasileira, os jornais trazem cadernos policiais cada vez mais minuciosos; os noticiários televisivos transformaram-se em relatórios de barbaridades; fome, assassinatos e as insurreições fazem parte do cotidiano; as pessoas compartilham imagens de violência pelas redes sociais. Perita Criminal, a artista testemunha intestinamente a naturalização crescente, exponencial, da violência na vida das pessoas.

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Protagonizadas por ela mesma, suas performances tocam abertamente nesses temas e problemas afins, mas de um modo capaz de renovar nossa indignação, medo e tristeza. Em Gula, sua primeira exposição na Galeria Nara Roesler, Berna Reale, mantendo o mesmo eixo de questionamentos, mudou de direção, tornou-se menos explícita, menos literal, exigindo do espectador a decifração de signos mais sutis.

Composta por seis séries fotográficas e uma instalação, a artista abre a exposição com um conjunto de imagens (Sobremesa) nas quais policiais devidamente paramentados, atacam com voracidade pedaços de bolos enfeitados, um desses bolos de festa, decorados por grossas camadas de cobertura. O uniforme de policiais são, como é de lei, como os assistimos ostensivamente desfilando nas nossas ruas, camuflados. Apenas mais um símbolo da guerra civil na qual nos metemos, mas que hesitamos em assumir. Os signos se chocam. O eventual riso do inusitado da cena, rapidamente cede espaço a uma pergunta: a que se refere a gana com que comem, esse devoramento ávido?

Sim, tem algo a ver com a marcha incessante do entredevoramento entre camadas sociais, o canibalismo mútuo, respingado de sangue, de que faz parte a arrogância dos responsáveis pela ordem que, mesmo do alto de suas baixas patentes, não hesitam em atirar no meio de comunidades, acertando inocentes, a voluptuosa repressão da legião de desvalidos, as revistas humilhantes aos membros da ralé, essa classe tratada como se não fosse gente, a qual, a maior parte deles, policiais, pertence.

O perigo de armar o poder decorre do prazer que isso gera. Uma ânsia que rapidamente se converte em sadismo mais ou menos explícito, como os que aplicam alguns daqueles que se colocam como porta vozes das divindades, os funcionários de igrejas responsáveis pelo comprometimento da infância (Comida batizada), como as meninas imberbes que são entregues a homens adultos (Comida caseira), como os que miram as mulheres como pedaços de carne (Comida de lobo), como os que atacam os travestis movidos pelo ódio, crentes de que esses não merecem existir, porque sequer são gente (Comida de Leão).

Merece destaque as duas imagens que compõem a série Comida de rua: três garotos (homens?), um branco, um negro, um mulato, vestidos apenas com calções, todos eles com o rosto voltado para a parede, mãos espalmadas para o alto, de costas, impossibilitados de encarar as faces de quem os constrangem. Um detalhe não deve escapar: cada um dos calções está decorado com uma estampa: pipoca, o branco, cachorro quente, o negro, batata frita, o mulato. Pipoca, cachorro quente e batata frita, três das comidas vulgares, rápidas e baratas com que se alimentam os desfavorecidos. Três exemplos da assim chamada junk food, própria para o saciamento rápido, como também são os rapazes que cometem o crime de serem pobres, aos olhos dos profissionais da ordem que, em suas batidas rápidas, frequentemente os arrocham pelo simples desejo de saborear seu doce poder.

Por fim, na última sala, a instalação Gula, um agrupamento de cinco caixões pequenos, destinados a crianças, semelhantes a um velório desbaratado. Trágico não fosse o fato de todos eles serem laqueados e ornamentados com confeitos, a matéria doce com que a infância se delicia.

Berna Reale é uma das artistas mulheres mais importantes no atual cenário contemporâneo do Brasil, sendo reconhecida internacionalmente como uma das principais praticantes da performance no país. Atuando entre as artes visuais e a perícia criminal, sua produção, composta por performances, fotografias, vídeos e instalações, é marcada pela abordagem crítica sobre os aspectos materiais e simbólicos da violência e os processos de silenciamento presentes nas mais diversas instâncias da sociedade.

Berna Reale nasceu em Belém do Pará/PA, Brasil, 1965, onde vive e trabalha. Formou-se em Artes Visuais pela Universidade Federal do Pará (UFPA), Belém. Principais individuais e coletivas recentes incluem: Brazil. Knife in the Flesh, coletiva no Padiglione d'Arte Contemporanea Milano (PAC-Milano), Milão, Itália (2018), na qual apresentou Camuflagem (2018), sua primeira performance realizada fora de sua cidade natal; Lecture/Performance & Screenings: Berna Reale, individual no Miami Dade College Museum of Art + Design (MDC MOAD), Miami/FL, EUA (2017); Video Art in Latin America, coletiva no LAXART, West Hollywood/LA, EUA, parte do II Pacific Standard Time: LA/LA (2017); e Vão, individual no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), São Paulo/SP, Brasil (2017. Foi uma das representantes do Brasil na 56ª La Biennale di Venezia, Veneza, Itália (2015), participando também do 34º Panorama da Arte Brasileira, Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), São Paulo/SP, Brasil (2015), da Bienal de Fotografia de Liège, Liège, Bélgica (2006) e da 13ª Bienal de Arte de Cerveira, Vila Nova de Cerveira, Portugal (2005). Recebeu as seguintes premiações: 5ª Prêmio Marcantonio Vilaça para as Artes Plásticas, Brasil (2015); Prêmio PIPA Online 2012, Rio de Janeiro/RJ, Brasil (2012); e Grande Prêmio do Salão Arte Pará, Belém/PA, Brasil (2009). Suas obras fazem parte de coleções institucionais, como: Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC USP), São Paulo/SP, Brasil; Museu de Arte de Belém, Belém/PA, Brasil; e Museu de Arte do Rio (MAR), Rio de Janeiro/RJ, Brasil.


Galeria Nara Roesler | São Paulo is pleased to present Gula, Berna Reale’s first solo exhibition at the gallery, which deepens the artist’s research into violence. Her performances, which render videos, photographs and installations have allured national and international interest, exemplified by the invitation for the artist to represent Brazil in the 2015 Venice Biennale. This all happened very quickly. It’s because Berna entered the art scene with mature works, focusing on one of Brazil’s most sensitive and overpowering social issues violence. Mostly set in Belém do Pará, where like in any other large Brazilian city, newspaper crime sections have become increasingly detailed and television news shows are plagued by barbarities; hunger, murder and insurrections are part of daily life; and people share images of violence on social media, the artist is witness to an exponential increase in the naturalisation of violence in people’s lives.

Self-starred, her performances touch on these issues and others in a way that renews the viewer’s indignation, fear and sadness. In GULA (GLUTONY), Berna Reale maintains the same line of questioning from her previous research; however, her manner is less explicit and literal, pusing the viewer to decipher subtler signs.

Composed of six photographic series and one installation, the artist opens the exhibition with a set of images (Sobremesa - Dessert) in which trained policemen, voraciously attack decorated cakes layered with thick icing. The uniform-clad men ostensibly parade down the street, camouflaged. The scene is symbolic of the unaddressed civil war that has ensued in the country. The occasional laughter generated from the oddity of this scene gives way to the larger question: what is the avidity, this unbridled gluttony with which they eat about?

Yes, it is something to do with the incessant march in which social strata devour one another, the blood-splattered, arrogant canibalism of those tasked with securing order whom, despite their low ranks, do not hesitate to open fire amid communities, victimizing the innocent; their voluptuous crackdown on the underprivileged legions; the humiliating body searches they conduct upon the penniless; this class who get treated like they are not human, the same class most of the policemen themselves belong to.

The danger of giving weapons to those in power stems from the pleasure it brings. An eagerness which quickly turns into more or less explicit sadism, as in the case of those who tout themselves as spokespersons for divinities, the church staff who compromise childhood (Comida batizada), the pre-pubescent girls given over to grown men (Comida caseira), those who ogle women like pieces of meat (Comida de lobo), those who attack transvestites driven by hate and because they believe these people don’t deserve to exist, or that they are not even people to begin with (Comida de Leão).

It is worth mentioning the two images from the Comida de rua series: three boys (men?), one white, one black, one mixed, clad only in shorts, all of them facing the wall, their hands splayed upwards, unable to look at the faces of those berating them. Each of the boys’ shorts are adorned with a different print: popcorn for the white boy, hotdog for the black boy, and French fries for the mixed-race boy. Popcorn, hotdog and French fries; three of the vulgar, fast, cheap foods that the underprivileged feed upon. Three examples of so-called junk food, designed to bring about quick satiation, as are the kids whose crime is being poor, in the eyes of the professionals tasked with maintaining order, and whose quick pat downs will often harass them out of simple desire to savor their sweet power.

Finally, in the last room of the show is GULA, an installation composed of five small coffins, intended for children, forming something like an empty wake. Tragic, weren’t it for the fact that they are all lacquered and adorned with candy, the sweet matter that childhood delights in.

Text and curation: Agnaldo Farias

Posted by Patricia Canetti at 12:52 PM