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junho 20, 2015

O Grivo na Nara Roesler, São Paulo

AGENDA SP Hoje 20/06 às 11-15h @ Nara Roesler: O Grivo - Abertura & Performance http://bit.ly/NaraSP_OGrivo

Posted by Canal Contemporâneo on Sábado, 20 de junho de 2015

Relação entre máquina e imprevisto dá a tônica da nova individual de O Grivo na Galeria Nara Roesler

O Grivo, Galeria Nara Roesler, São Paulo, SP - 22/06/2015 a 15/08/2015

[Scroll down for English version]

Seja conflitante, seja harmoniosa, a relação entre as máquinas e a imprevisibilidade ganha representação na Galeria Nara Roesler com a individual do duo mineiro O Grivo, formado por Nelson Soares e Marcos Moreira. Quatro instalações sonoras e um vídeo unem-se a obras criadas especialmente para a exposição. A dupla vai apresentar também uma performance de improvisação musical na abertura.

Nela, uma série de máquinas sonoras híbridas funciona tanto automaticamente (com motores) como a partir da manipulação de manivelas. Através da amplificação feita com captadores de contato, os sons emitidos são transformados por filtros, efeitos e sintetizadores manuseados em tempo real. Aos músicos, cabe configurar e ajustar a textura sonora improvisando sons com a manipulação das manivelas. Estabelecida certa ambientação, a tração das máquinas passa para os motores, fazendo-as funcionar sem a ação dos músicos, que passam a espectadores da configuração sonora feita por eles. As intervenções dos artistas voltam a acontecer várias vezes no decorrer da abertura da exposição; entre elas, a música fica por conta das máquinas.

A exposição

Nos trabalhos da dupla, a função mecânica, organizada por meio da tecnologia, é subvertida pela imprevisibilidade do efeito, em que a acústica tem papel preponderante. O elogio à máquina ora se choca, ora se confunde com o flerte com a indeterminação e o inesperado.

Como no texto da dupla: "as peças sonoras aqui expostas conversam de forma incisiva com o ritmo. Assim, as sequências (rítmicas) se estabelecem tanto através do movimento propiciado pelo mecanismo de máquinas, como da composição. Observando as regras rítmicas e a combinação entre elas, ficamos livres para fazer combinações sonoras. E desse modo, quem sabe, a música possa aparecer em meio a esse encadeamento. Em certa medida, seguimos a linha, que por sua vez está atada por vários nós".

A pluralidade de elementos utilizados para repercutir sonoridades diversas e inusitadas constitui boa parte dos trabalhos. É assim em Conta Gotas (2013), instalação em que diversas buretas (tubos de vidro graduados com torneiras) e cilindros de vidro produzem frequências sonoras diferenciadas entre si pelo som de gotas d'água batendo no próprio tubo, no líquido acumulado no fundo ou em objetos instalados no interior de alguns desses artefatos.

Em Engrenagens (2013), o mesmo processo de variação sonora ocupa toda uma sala da galeria com peças de madeira, bambus, eixos, polias, correias e linhas que, articulados entre si, produzem sonoridades de duas ordens: a primeira se dá pela fricção de hastes de metal em superfícies também metálicas; o atrito das polias contra as estruturas de madeira nelas apoiadas dá origem à segunda ordem. Com o ligar e o desligar automático dos mecanismos de movimentação das peças em andamentos variados, há uma orquestração sonora imprevisível a cada nova combinação.

O elemento tecnológico é o cérebro artificial que comanda a emissão de som em Máquina de Luz (2013). Como em uma caixa de música (cujas notas são soadas com a percussão de tiras metálicas por saliências em um cilindro giratório), na versão da dupla mineira é a interrupção de feixes de luz por quatro engrenagens girando vagarosamente que transmite ao computador o sinal para a emissão sonora. São criadas assim quatro pequenas peças com sons acústicos e eletrônicos, que dialogam com conceitos como fragmentação, tempo, pulso, timbre, melodia e harmonia.

Máquina de Arco também tem seu som manipulado pelo computador. O som invariável e contínuo produzido pela vibração da corda de um violão por um arco de violino é processado pelo computador e ganha tradução em filtros, efeitos e sintetizadores, a cada 8 minutos. O resultado, somado ao som monocórdio, é propalado em caixas de som espalhadas pelo ambiente, trazendo à tona questões de escala de percepção auditiva: o “mínimo” que se agiganta com a atenção, com o tempo e com a dilatação da percepção que o jogo com o silêncio produz.

O primeiro vídeo produzido por O Grivo ganha exibição com nova trilha sonora. Intitulado “Retrocesso” e produzido originalmente há cerca de 15 anos, traz stills de uma velha máquina de escrever Remington. Em planos fechados, vão se formando jogos visuais ora geométricos, ora simbólicos, pelos enfoques distintos dos ícones das teclas, entre as quais a de retrocesso. O filme já abordava temas caros à dupla.

Inéditos

Dos trabalhos criados especialmente para a mostra na Galeria Nara Roesler, está Quatro Discos. Segundo a dupla, aqui acontece novamente a ideia de repetição de uma sequência sonora como numa caixa de música. Mas, de maneira diversa desses artefatos milimetricamente executados, em Quatro Discos a realização das peças se deu numa oficina, caseira, de forma artesanal, deixando nelas as marcas da imperfeição que a mão humana produziu no ato de construí-las. "E contudo, foi essa mão que deu forma à máquina. O que cabe ressaltar é que, apesar de todas as imprecisões, a obra é precisa no que se refere à repetição da sequência. As imperfeições se repetem milimetricamente, no movimento maquinal do disco", define Marcos Moreira.

Máquina Desenho, segunda obra inédita da mostra, é constituída de dois grandes cilindros de lâminas de cedro, completados por câmera de vídeo, projeção e caixas de som. Desenhados sobre os cilindros de madeira, que giram em sentidos opostos, há dois sistemas de notação: o primeiro com pontos e o segundo, linhas. Esses sistemas são lidos pela câmera de vídeo em tempo real e interpretados como notação musical. O primeiro ativa sons e padrões de ritmo de uma biblioteca de staccatos (sons de curta duração cuja representação gráfica mais primária é o ponto). O segundo controla parâmetros musicais como intensidade e gradação de filtros aplicados aos staccatos (reverberação, atraso, filtro de frequência, etc.). Os desenhos aplicados aos cilindros produzem uma música indeterminada a partir de uma série de combinações possíveis que são organizadas a priori.

A imagem captada do movimento dos desenhos e dos cilindros que as suportam, além de ser interpretada e produzir os sons (como uma caixa de música), é projetada em escala aumentada. Esse zoom do que acontece em escala menor sob a câmera se relaciona com o convite a uma escuta atenta e minuciosa dos sons e das relações entre eles.

Ainda nas palavras de Moreira, "a convivência com tecnologias de distintas épocas é uma das características dos dias de hoje. Quando, em uma visita a Berlim, me encantei com a velha locomotiva que funcionava a pleno vapor junto a trens de última geração, constatei que a velha máquina nada devia à moderna e que ambas tinham seu fascínio. No campo da arte, onde procedimentos e objetos obsoletos são reinventados, recontextualizados, ressignificados, muitos trabalhos trazem novas visões para antigos instrumentos".

"Instaura-se dessa maneira um ambiente de troca e, por vezes, de convívio entre o passado e o presente. No ensejo de fazer com que o precário se relacione com os meios digitais, cada uma das unidades rítmicas associa-se a um som. A orquestração e as variações desses sons são trabalhadas de forma musical. O uso da aleatoriedade relacionado aos parâmetros musicais e aos sons faz com que a repetição se reinvente a cada momento e se transforme em texturas muitas vezes imprevisíveis. Uma música de ritmos incertos e timbres digitais."

O Grivo é formado por Nelson Soares e Marcos Moreira. Nasceram em Belo Horizonte, onde vivem e trabalham. Participaram da 28ª Bienal de São Paulo (2008) e da 8ª Bienal do Mercosul, em Porto Alegre (2008), ambas no Brasil. Entre seus principais trabalhos (que envolvem principalmente concertos e instalações) e mostras estão:Reinventando o mundo (Museu Vale, Vila Velha, Brasil, 2013); Artefatos de som (Oi Futuro, Belo Horizonte, Brasil, 2013); Estación experimental (Universidad Laboral, Gijón, Espanha, 2012); O Grivo (Galeria Nara Roesler, São Paulo, Brasil, 2010); O Grivo(Museu de Arte da Pampulha, Belo Horizonte, Brasil, 2009); e It’s raining out there(South London Gallery, Londres, Inglaterra, 2008).


O Grivo, Galeria Nara Roesler, São Paulo, SP - 22/06/2015 til 15/08/2015

At times conflicting and at others harmonious, the relationship between machines and unpredictability takes center stage at Galeria Nara Roesler in a solo exhibition by Minas Gerais-based duo O Grivo, consisting of Nelson Soares and Marcos Moreira. The show will feature four sound installations, one video and specially created works. The duo will also enact a musical improvisation performance during the exhibition opening.

In the exhibit, a bevy of hybrid sound machines operate both automatically (driven by engines) and by the turning of cranks. The sounds are amplified by contact pickups and converted through filters, effects and synthesizers manipulated in real time. The musicians’ task is to configure and adjust the sound texture, improvising sounds as they manipulate the cranks. Once a certain ambience is established, the traction from the machines is transferred to the engines and the machines start to function in standalone fashion, as the musicians become spectators of their own sound configuration. The artists’ interventions happen again several times throughout the exhibition opening; in between them, the machines take care of the music.

The exhibition

In the duo’s works, mechanical function organized by technology gets subverted by the unpredictability of effects, where acoustics plays a crucial role. The praise of the machine at times collides and at others becomes confused with flirtation with indetermination and the unexpected.

As the duo’s text reads, "the sound pieces shown here dialogue with rhythm in an incisive way. Thus, the (rhythmic) sequences are both set by the machine-triggered movement and by the composition. By observing the rhythmic rules and their combinations, we become free to create sound combinations. This way, who knows, maybe music can emerge from amidst this chain. To a certain extent, we walk the line, which in turn is tied up by several knots."

The plurality of elements used to echo diverse, unexpected sonorities informs a significant portion of the artworks. It is so with Conta Gotas (2013), an installation where several burettes (graduated glass tubes with taps) and glass cylinders produce different sound frequencies as water drops hit the tubes themselves and the liquid or objects they contain.

In Engrenagens (2013), the same sound variation process takes up an entire gallery room with pieces of wood and bamboo, axes, pulleys, drive belts and lines that interact with one another to produce sounds in two different ways: through the friction of metal stems on also metallic surfaces; and through attrition between the pulleys and the wooden structures they support. As the mechanisms that move the parts switch on an off at various speeds, an unpredictable orchestration of sound arises with each new combination.

The technological element is the artificial brain that governs the emission of sound in Máquina de Luz (2013). The duo’s version of a music box (which plays notes as the notches in a rotating cylinder strike metal stripes) consists of light beams that send signals for the computer to emit sound whenever they are interrupted by four slowly spinning gears. This creates four small acoustic-electronic sound pieces that dialogue with notions such as fragmentation, tempo, pulsation, timbre, melody and harmony.

Máquina de Arco also features computer-manipulated sound. The unchanging, continuous sound produced by a violin bow on an acoustic guitar string is processed by the computer and translated through filters, effects and synthesizers every eight minutes. The result, combined with the monotone sound, is propagated via speakers placed throughout the room, raising issues of scale of auditory perception: the “minimal” becomes gigantic with attention, time and the dilation of perception that the interplay with silence creates.

O Grivo’s first-ever video will be screened with a new soundtrack. Titled Retrocesso and originally made approximately 15 years ago, it features stills of an old Remington typewriter. Close-up shots gradually create visual games that are at times geometrical and at others symbolical, through different perspectives of media control symbols, including the rewind sign. The film already dealt with topics the duo holds dear.

Premieres

One of the artworks specially created for the exhibit at Galeria Nara Roesler is Quatro Discos. According to the duo, the idea of music box-like repetition of a sound sequence is at play once again here. However, unlike those high-precision artifacts, the parts in Quatro Discos were handcrafted in a domestic workshop, and as such bear the marks of imperfection left by the human hand in building them. "And yet this was the hand that shaped the machine. It’s worth noting that despite all imprecisions, the piece is precise when it comes to repeating the sequence. The imperfections repeat themselves with laser-sharp precision in the machine-like motion of the disc”, Marcos Moreira defines.

Máquina Desenho, the second piece set to premiere at the exhibition, is composed of two large cylinders built from thin planks of cedar, a video camera, a projection and speakers. Two notation systems are printed on oppositely-rotating wood cylinders: the first one contains dots and the second one, lines. These systems are read in real time by the video camera and interpreted as music notation. The first one activates sounds and rhythm patterns from a library of staccato sounds (short-duration sounds whose most basic graphic representation is the dot). The second one controls musical parameters like intensity and filters applied to the staccato sounds (reverberation, delay, frequency filter etc.). The designs printed on the cylinders produce an indeterminate music through a series of possible combinations organized beforehand.

In addition to being interpreted and producing sounds (akin to a music box), the moving designs and the cylinders that bear them are captured in footage and projected in an enlarged scale. This zoom of what takes place in a smaller scale in front of the camera relates to an invitation to listen intently and thoroughly to the sounds and the relationships between them.

Still in Moreira’s words, "coexistence with technologies from different time periods is one of the characteristics of our days. When, in a visit to Berlin, I became enchanted by the old locomotive that still ran full steam alongside state-of-the-art trains, I realized the modern machine was every bit as good as the old one, and both were fascinating. In the art field, where obsolete procedures and objects are reinvented, re-contextualized, re-signified, many artworks shed new light on old tools.”

"An environment of exchange is thus established where past and present often coexist. In an attempt to make the precarious relate to digital media, each rhythmic unit is associated with a different sound. The orchestration and variations of said sounds are developed in musical fashion. The use of randomness in association with musical parameters and sounds causes repetition to reinvent itself with each new moment, morphing into oft-unpredictable textures. A music of uncertain rhythms and digital tones.”

Posted by Patricia Canetti at 9:13 AM