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novembro 21, 2017

Barroco e barranco por Max Gómez Canle

Barroco e barranco

MAX GÓMEZ CANLE

Max Gómez Canle - La Distancia Termina en el Barranco, Casa Triângulo, São Paulo, SP - 27/11/2017 a 23/12/2017

Não há origem ou está pensado tudo junto, neste milagre. Todas essas distâncias que aqui se penduram nas paredes são espaços de tempo, de cor, de pincéis, de ritmo, de forma... São quadros, mas são espelhos mágicos. Tratam de encantar-nos com a possibilidade de contar a vida do que fazemos, como se mudássemos um móvel. No divino do tempo, em nossa consciência comprimida e infinita, gritam um sofá ou uma escrivaninha manifestando-se de maneira ordinária entre tanto detalhe. Um móvel se arrasta porque há força para que patine de um lado ao outro da casa, mas também porque há canto que o limite. No quadro do macaco parece que há um canto, mas é a pintura de um canto. Sem canto há mobilidade ou há, como em uma das pinturas, céus que pendem de céus. O único canto real se chama confim, que é o limite de qualquer coisa que possamos sentir: atrás disso está a loucura ou nosso renascimento.

Há distância porque os abismos sempre têm abismos, por sua vez. Toda distância sempre termina em um barranco de sentido. A luta contra o que separa a memória e as coisas se alcança com a expansão da imaginação. O exercício de encontrar o fio que una o distante em uma centelha. A única distância inexistente é entre corpo e consciência, entre nome e corpo. Somos o que somos e o que sabemos que somos. Tudo isso é nosso corpo. Por isso dizer “nosso corpo” é o mesmo que dizer “nós”. Melhor dito: dizer “nosso corpo” é resignar-se à falsa distância entre carne e ânimo.

Não há modelo. Todo modelo está nessa imaginação. Há sim representações que proliferam sem que saibamos de onde vêm. A alegoria é juntar isso na percepção. Copiar-se a si mesmo (compilar-se e complicar-se) implica um projeto de aceleração pessoal. Qualquer coisa que tenhamos feito volta a passar pelos canais dos sentimentos, que são uma mesma rota com atrações distintas toda vez. A cópia se parece com um arado que passa pelo coração e o desacomoda. Estas pinturas são renders reais, modelos que representam modelos, figurinhas de verdade. A artista argentina Claudia del Río o diz ao desenho: “fotocópias à mão”. Essa é a relação distinta e igual entre o que sabemos e as expressões.

(Uma bebida branca aguacenta, um cartaz de crueldade moralista, uma propensão dos ricos à destruição da alma... Assim estão as coisas em nossos países. Propõe-se aqui então, a participação real através do irreal para indicar que há outros caminhos da cabeça, da forma, da espera. Esperamos, mas observando obras assim. Isso já não é esperar senão preparar-se para o salto)

Há pontos mínimos para defender a miniatura. A miniatura é um exemplo de que insistir em contar as coisas tem uma metade de entretenimento e a outra metade de fatalidade. Sempre podemos contar algo mais. Max já o havia feito no projeto Amigos del siglo XX: o impudico da cópia e a precisão mimética que são mais uma graça sensata que um floreio.

Não há progresso nem cálculo. O encanto do barroco permite captar o movimento da vida em uma obra que está por si só inacabada: é um momento. Isto quer dizer que nos deixa definir o movimento com a precisão do que nos vai. Já o escreveu Leónidas Lamborghini, o que roda é o rodar, é o único ciclo do qual todos formamos parte. Como o yirar, que é a maneira libertária de pertencer ao que se move. Estamos diante de um poço ao qual se sobe por um elevador que nos leva ao esquecimento das alturas e uma escada que nos leva ao teto desse elevador.

Há um índice do outro lado dessas palavras e detrás do índice um livro recomenda escapar das totalidades para contar o que se fez durante muito tempo. Depois dessa explicação está o que Max Gómez Canle fez sob a aventura da arte. Mas não termina aí, o pilar dessas aventuras é sua própria vida, seus momentos não artísticos, seus afetos, sua linhagem e a materialidade das ruas e as casas que o formaram. Esses mesmos lugares que seguem por aí, esperando que os habitemos como se fossem um plano esverdeado de onde promovemos a súplica para encontrar a volta ao que somos.

Não há cordão que ate ninguém a dizer o que é uma sensação, essa é a realização mais genial e geral da arte de todos os tempos e desta. Poder imaginar, no efetivo de nosso presente, o anterior e o que vem como uma mesma imagem de devoção tropical e melancólica.

Posted by Patricia Canetti at 7:01 PM