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novembro 24, 2014

Desenhos para Projeção por Moacir dos Anjos

Desenhos para Projeção

MOACIR DOS ANJOS

William Kentridge - Desenhos para Projeção:
Fundação Joaquim Nabuco - FUNDAJ, Recife, PE - 27/08/2014 a 26/10/2014
Centro Cultural Banco do Nordeste, Fortaleza, CE - 17/12/2014 a 07/02/2015

William Kentridge (Johannesburgo, África do Sul, 1955) possui uma obra diversa e vasta que inclui desenhos, filmes, objetos, instalações e incursões no teatro, ambiente onde iniciou sua trajetória artística em meados da década de 1970. Torna-se mais conhecido, entretanto, para além de seu país de origem, com os filmes de animação que começou a fazer em 1989, em meio aos muitos outros projetos de naturezas distintas que ainda agora desenvolve. Dez desses trabalhos compreendem a série que chama Desenhos para Projeção, o último deles tendo sido realizado em 2011. É esse conjunto, núcleo fundamental de seu projeto criativo, que é exibido nesta exposição.

O personagem central desses filmes é Soho Eckstein, apresentado como um poderoso empresário dos ramos imobiliário e de mineração. Alguém que, como informa a primeira das animações, “comprou metade de Johannesburgo”, descrita como cidade de paisagem árida e quase devastada. Em oposição a Soho, o artista introduz o personagem Felix Teitlebaum, um homem solitário e sensível que parece desprezar a busca desenfreada por riqueza empreendida pelo outro. Por fim, há a Sra. Eckstein, a entediada mulher de Soho que é também amante de Felix. Em paralelo a este fio de trama, os filmes evocam, em imagens e conceito, o ocaso do regime de segregação racial (apartheid) na África do Sul, iniciado formalmente em 1948, e a difícil afirmação de um regime democrático nos anos que se seguiram às primeiras eleições multirraciais no país, em 1994.

As animações de William Kentridge chamam logo a atenção pelo fato de exibirem, como parte constitutiva das imagens, os vestígios nítidos de seu processo de construção. Cada sequência dos filmes é criada a partir de um único desenho feito com carvão e pastel sobre papel branco, no qual efetua milhares de pequenas e sucessivas intervenções, registrando fotograficamente o desenho após cada modificação que é nele feita, para só então executar a alteração seguinte. Em qualquer uma das cenas dos filmes, é possível perceber, à medida que os personagens e as coisas se movem, os rastros e manchas que evidenciam o apagamento de traços anteriormente feitos sobre o suporte, os quais dão lugar a outros riscos e marcas acrescentados. São indícios do processo de contínuo desmanche e preparação dos muitos estados de um mesmo desenho necessários para elaborar uma sequência da narrativa. É do encadeamento cronológico (quadro-a-quadro) da documentação das muitas mudanças realizadas em um grupo reduzido de desenhos – uma média de apenas 20 por filme, estima o artista – que se formam as animações.

Em nenhum momento, portanto, William Kentridge pretende ocultar os caminhos trilhados para criar os filmes. O que pode, a alguns, parecer inacabado ou feito com descuido, é parte integrante e indissociável de seu projeto ético e estético. Em vez de um planejamento preciso que define etapas antes de sua execução – um método “prospectivo” de invenção –, suas animações resultam de um processo em que cada gesto feito sobre o papel sugere aquele que virá em seguida, sem que o autor saiba, de antemão, o resultado exato desse articulação de intervenções, configurando um método “retrospectivo” de criação. Para o artista, desenhar é buscar algo que não se conhece ainda, é pesquisa intransitiva. E o desenho não é nunca, em consequência, técnica posta a serviço de uma ideia prévia e acabada que precisa ser ilustrada ou transformada em imagem por algum motivo. É mecanismo de construção de conhecimento que ignora essa precedência, assumindo a hesitação como elemento central de sua feitura e acolhendo, como coisa natural, os sinais visíveis que essa investigação deixa gravados na textura porosa do papel.

A obra de William Kentridge está, assim, ancorada na incerteza sobre o que vem a seguir, e tem a dúvida como motor de seu processo criativo. Característica que faz os aspectos formais de seus filmes de animação plenamente adequados às narrativas que exibem e aos temas que, de modos mais ou menos explícitos, trazem embutidos. Não é à toa que as interações entre Soho Eckstein, Felix Teitlebaum e a Sra. Eckstein se embaralham ao longo dos filmes, cada um deles assumindo papeis inesperados ou mesmo desaparecendo totalmente da série a partir de algum momento. Mesmo Soho, que parece se manter como personagem central de todo o conjunto (ainda que sua imagem esteja ausente em uma das dez animações) muda radicalmente de aparência física e de postura frente às coisas e pessoas que o cercam à medida em que a série se desenvolve. Tal como na vida ordinária vivida, as histórias contadas no filmes são feitas não somente de continuidades, mas igualmente de rupturas e elipses.

Ademais, não é somente, ou principalmente, por apresentar imagens de conflitos interraciais violentos e sugestivas de desigualdades sociais gritantes que a série Desenhos para Projeção evoca o contexto político em que foi realizada: o da extinção do regime do apartheid e da tortuosa reconstrução institucional da África do Sul. Embora aquelas sejam cenas eloquentes de um lugar e de um tempo precisos, são os repetidos atos de supressão e de inscrição de algo no papel – principal característica dos filmes do artista – que melhor ecoam e representam os avanços e recuos implicados na reconstrução da integridade de uma nação a partir de um passado feito de fraturas; apagamentos e afirmações que recriam, no campo do sensível, uma equivalência para a ideia de que esquecer e lembrar não são atos que se anulam. As animações de William Kentridge invocam uma África do Sul que descobre não ser possível apagar totalmente o que se passou, e que sabe ser sobre seus restos e sobras que precisa construir algo novo e diverso, ainda que não conheça exatamente que tipo de sociedade pode ou vá instituir nesse curso. É este lugar incerto e potente de invenção que os filmes do artista sugerem como próprio da arte e também da política.

Moacir dos Anjos

***

Os dez Desenhos para Projeção de William Kentridge são apresentados na segunda sala da galeria, seguindo a ordem cronológica de sua realização. Na primeira sala, está em exibição um documentário sobre a obra do artista, além de estarem disponíveis os créditos e sinopses de cada uma das animações, acompanhados de informações sobre o contexto político na África do Sul nos momentos em que os trabalhos foram produzidos.

Posted by Patricia Canetti at 1:09 PM